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O bucólico oeste da Irlanda: Galway, Connemara, e os Penhascos de Moher

A Irlanda é famosa na Europa por suas paisagens bucólicas, sobretudo este oeste do país. É como se aqui você finalmente encontrasse aquele autêntico verde do espírito irlandês, aquela alma celta, a natureza dos campos tranquilos, aquela beira-mar vazia, sem ninguém, e ruínas de pedra na neblina. Uma quietude que faz você se sentir em As Brumas de Avalon ou em alguma cena New Age.

Eu cheguei aqui após poucas horas de trem desde Dublin, a capital irlandesa. A pequena cidade de Galway faz as vezes de cidade mais importante nesta costa oeste. Era inverno, e todo o lugar parecia adormecido. Ainda que houvesse pessoas nas ruas e nos onipresentes bares irlandeses, parecia haver uma força maior e invernal no ar que ditava que tudo ficasse quieto. Perceba a atmosfera das fotos.

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Ruas do centro de Galway, Irlanda. Não é uma cidade tão bonita, mas tem algumas lojinhas típicas e bonitinhas.
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No quieto litoral do oeste irlandês.
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As pacatas ruelas de Galway, misturando casas de pedra de estilo antigo e casas novas de um colorido aleatório, típico aqui na Irlanda e na Grã-Bretanha. O ambiente aqui é assim.

Nestas voltas pela cidade, você não deixa de perceber a característica mistura irlandesa entre cristianismo católico e passado celta.

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A Catedral de Galway (de Nossa Senhora & São Nicolau), provavelmente o monumento mais belo da cidade.
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Vista de outro lado. Seu estilo é neo-romanesco. Arcos redondos romanos e uso de pedras cinzentas em diferentes tons, em estilo característico aqui da Irlanda e da Grã-Bretanha. A catedral data de 1965.
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Esse estilo “pedra nua” você encontra pela cidade também, como aqui na “Travessa do Druida” (Druid lane). O nome de cima é em gaélico, a outra língua oficial aqui da Irlanda, além do inglês.

Os irlandeses, é claro, aproveitam-se de todas as maneiras do seu passado celta. Não faltam lojinhas de souvenirs ou esotéricas vendendo amuletos e livros sobre misticismo dos antigos celtas, jóias inspiradas no poder mágico dos druidas (sacerdotes da antiga religião celta), etc. Fala-se dos baianos, mas os irlandeses adoram uma mandinga.

Pra sentir mesmo esse astral, no entanto, é preciso ir ao campo, à natureza. De Galway qualquer albergue ou agência organiza passeios diários à região de Connemara ou aos Penhascos de Moher (é, o nome é esse, auspicioso assim mesmo), passando por ruínas medievais.

Os Penhascos de Moher (Cliffs of Moher) são rochedos a beira-mar. Daqui os celtas antigos olhavam para oeste, para o que chamavam de “Mar Ocidental” (o Oceano Atlântico), e imaginavam ser este o fim do mundo dos vivos. Lendas recheavam a sua imaginação acerca do que havia mais a oeste. Uma das crenças é que havia ilhas habitadas pelos espíritos dos mortos mais além.

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Os Penhascos de Moher, na costa oeste da Irlanda.
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Em meio à paisagem. Aqui filmaram Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009), as cenas em que Dumbledore e Harry vêm até a caverna onde está uma das horcruxes.
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A sensação de estar à beira-mar nesta parte do mundo é completamente distinta da que temos em regiões tropicais. Aqui na Irlanda, com estas nuvens, rochas e vento frio, a sensação é de convite à introspecção, de respeito a uma natureza austera, mística e invernal.

A chuva me pegou, daquelas que vêm rápido e que você sabe que vão te pegar. Aqui na Irlanda, a chuva parece estar sempre à espreita.

O mesmo foi em Connemara, aonde fui no outro dia. Connemara, pouco famosa no Brasil, é uma região da Irlanda muito conhecida Europa afora pelos seus lagos e paisagem bucólica. Parece cenário de Game of Thrones ou de alguma outra obra de fantasia — mas algo sóbrio, sem aquela grandeza das paisagens neozelandesas de O Senhor dos Anéis.

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Connemara, no oeste da Irlanda. Devidamente nublado.
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Em meio às brumas de Avalon ali à espreita. Só faltou aparecer a Dama do Lago para falar comigo.
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Vistas em Connemara, com casas simples. Quase tudo são pastos de ovelhas.
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Uma casarão antigo, do século XIX, numa propriedade que visitamos.
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A paisagem, como eu disse, é sóbria.
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…mas também bucólica, mística.

No caminho, nós visitamos as ruínas de um mosteiro franciscano do século XIV. É do jeito que você imagina, como aqueles castelos de pedra da Idade Média.

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Mosteiro de Ross Errilly, fundado por monges medievais franciscanos em 1351 e habitado até 1753, quando foi abandonado.
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Vistas para os campos, através das janelas tipicamente góticas, características do período medieval. Já as pedras cinzentas molhadas e cobertas de limo parecem típicas aqui da Irlanda, devido à chuva.
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Interior, hoje descoberto. No chão estão túmulos dos ex-habitantes do mosteiro.
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Com a paisagem ao fundo.

(Estas fotos me fazem sentir saudade de vestir o meu casaco de inverno.)

Nós demos uma volta e almoçamos num pub vazio à beira da estrada, com piso de madeira e ambiente úmido. Comi uma posta de peixe com creme e aspargos cozidos, enquanto que meus comensais foram num bife amolecido na cerveja preta. Coisas da Irlanda.

Voltaríamos depois à pacata Galway, que apesar de ter casas e mais casas construídas, de certa maneira parecia tão quieta quanto estes campos.

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Pra quem ficou curioso quanto ao meu peixe com aspargos.

EPÍLOGO

Esta viagem à Irlanda não foi muito longa — embora às vezes, na quietude dos lugares, me parecesse longa o bastante. Eu, após poucos dias em Galway fazendo estas visitas no oeste irlandês, tentaria retornar a Dublin para em tempo pegar o meu voo de saída.

Não consegui. Haveria uma partida de rugby em Dublin, e a cidade estava lotada. Não havia lugar nos albergues. Tive que me virar e conseguir uma família que me albergasse em Swords, um distrito de Dublin, por assim dizer.

Lá conheci Mr. Beagles, e dormi no quarto mais cor-de-rosa de todas as minhas viagens.

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Mr. Beagles me sendo apresentado pela sua dona.
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O meu quarto cor-de-rosa.

Minha estadia aqui foi curta. Num domingo de manhã, eu zarparia ao aeroporto de Dublin para pegar o meu voo de volta a Amsterdã. Contudo, a adrenalina seria muito maior que a imaginada.

Eu não tinha voo ainda marcado para o Brasil, e neste momento estava apenas numa estadia curta na Holanda, sem cartão de residente. A mequetrefe da Aer Lingus, cia nacional irlandesa, decidiu que não me embarcaria a menos que eu apresentasse uma passagem de saída da Europa. Ah, como são deliciosos esses momentos…

A funcionária corriqueiramente apontou-me o computador público, que eu poderia usar por um preço, e disse-me que voltasse ao balcão com uma passagem impressa. De quebra, o meu cartão de crédito recusava-se a funcionar nos sites onde eu havia achado passagem. Foi a glória.

Pus-me a ligar para amigos meus em Amsterdã às 9h da manhã de domingo para ver quem poderia comprar-me uma passagem de avião. Achei uma no ônibus indo para algum lugar (e perguntando-me como iam as coisas) e vários dormindo. Por fim, achei Raluca, uma amiga romena.

Nada como aquela emoção de iniciar a ligação telefônica com um: “É uma emergência. Depois eu explico. Preciso que você compre uma passagem de avião pra mim.”

Pra onde?“, indagou ela. (Ainda bem que ela é do tipo que está sempre de prontidão, em vez daquelas que fazem mil perguntas.)

Marrakech“, respondi. (Se ela teve perguntas, as deixou para fazer depois.)

Por sorte eu já tinha uns planos de viagem na mente (como sempre), embora não tivesse planejado realizá-los assim, de supetão. Para corroborar a Lei de Murphy, faltaram-me moedas para pôr na impressora, que me cobrava a bagatela de 3 euros por página. Corri ao andar de cima e comprei um suco de caixinha na loja só para obter troco. Obtive, e paguei a impressão mais cara da minha vida.

Em tempo, retornei ao balcão da Aer Lingus onde a infeliz funcionária aguardava para liberar o meu embarque. Conformou-se com minha passagem a Marrakech, pra dali a duas semanas. (Viria a ser uma das viagens mais memoráveis de minha vida.)

Até a próxima, Irlanda. (Caso não tenha visto ainda a minha viagem pelo Marrocos, eu a relatei aqui.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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