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Visitando as ruínas da antiga Cartago, no norte da África

Carthago delenda est [“Cartago deve ser destruída”], é como o senador romano Catão, o velho (234-149 a.C.), concluía todos os seus discursos à tribuna, não importando o assunto. Era um durão. Foi historiador também, e escreveu a primeira História da província romana da Italia. Era crítico às influências gregas na República Romana (ela só se torna Império quando Júlio César dá um golpe militar um século mais tarde.)

O norte da África havia por séculos sido domínio dos cartagineses, assim chamados devido à sua grande cidade-estado, Cartago. Ela ficava aqui onde hoje é a Tunísia, ao sul da Itália. Grandes navegadores, os cartagineses por séculos rivalizaram com Roma pelo controle do ocidente do Mar Mediterrâneo.

Os cartagineses instalaram-se aqui por volta do ano 814 a.C., vindos da Fenícia (região do atual Líbano, no extremo leste do Mediterrâneo), e relacionaram-se com os nativos da Numídia, como muito desta região era chamada. Esses novos colonos falavam uma língua semita lá do Levante, e chamaram o seu novo assentamento de Qart-Hadasht, Cartago. Em 650 a.C., ficaram independentes da Fenícia, e cresceram, e cresceram mais. Enquanto os antigos gregos dominavam o Mediterrâneo oriental, cá no ocidente os cartagineses controlavam o comércio por todo o norte da África, pelo sul da atual Espanha, e tinham entrepostos até no próprio sul da Itália, onde se engalfinhavam com os gregos.

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Domínios da República de Cartago (sim, Cartago também era uma república) à altura do ano 264 a.C., antes das guerras com Roma.

Quando Roma também cresceu, deu em guerra. Como os romanos referiam-se aos cartagineses como Poenicus (“fenícios”), esses conflitos foram apelidados de Guerras Púnicas. Houve três. A primeira (264-241 a.C.) foi quase toda naval, com alguns confrontos em terra na Sicília, a qual os cartagineses perderam para os romanos. Como resultado, os cartagineses resolveram compensar as perdas expandindo-se mais na Hispania. Em 219 a.C., deflagraram a segunda guerra púnica quando o general cartaginês Aníbal Barca conquistou cidades hispânicas aliadas dos romanos. Esta seria a maior das três guerras.

Aníbal Barca (247-183 a.C.) é o grande personagem dessa guerra, por ter juntado mais de 100.000 homens, uma tropa de elefantes, e conseguido cruzar as montanhas dos Alpes e invadir a Itália pelo norte — feito que deixou os romanos estupefatos, temendo a própria aniquilação. Ele partiu de Nova Cartago (hoje Cartagena na Espanha, daí seu nome) e foi perdendo homens mas também agregando novos, pois se anunciava como libertador dos povos do jugo romano. Foi por isso que não atacou Roma propriamente dita, embora tivesse condições de fazê-lo. Aníbal preferiu seguir tentando obter aliados de outras cidades na península itálica.

Só que a guerra não se dava apenas na Itália. Os romanos navegaram à Hispânia e atacaram Nova Cartago, onde venceram Asdrúbal, irmão de Aníbal, e depois invadiram o próprio norte da África, forçando Aníbal a bater em retirada da Itália para vir defender Cartago. A vitória romana final seria na Batalha de Zama (202 a.C.), perto de Cartago, onde o fator decisivo foi a cavalaria numídia, dos nativos, que querendo ver-se livres do domínio cartaginês passaram para o lado dos romanos. Os cartagineses se renderam, terminando 17 anos de guerra, mas com seus domínios agora reduzidos apenas à própria cidade de Cartago e o seu entorno.

Formaria-se o Reino da Numídia ali ao lado, cliente de Roma, e que duzentos anos mais tarde seria anexado ao império como uma província sua. Aníbal viveria ainda décadas em exílio voluntário na Ásia Menor, como conselheiro estratégico.

É aí que surge o mantra “Cartago deve ser destruída” por parte de alguns romanos que queriam “terminar o serviço”.  A Terceira Guerra Púnica (149-146 a.C.) foi muito mais curta. Por 50 anos, Cartago vinha pagando indenizações de guerra, que terminaram de ser pagas dois anos antes de essa última guerra eclodir. Roma queria que Cartago se mantivesse subordinada, e queria controlar as terras férteis do norte da África para alimentar sua população crescente. Cartago foi simplesmente sitiada e, depois de três anos de sítio, conquistada e destruída. Sua população foi escravizada e vendida a outras partes, e a cidade queimou por 17 dias. A famosa lenda de que os romanos jogaram sal sobre o terreno para que nada ali crescesse é provavelmente um mito, já que só aparece no século XIX e não condiz com o interesse romano em fazer dali um supridor de alimentos.

Um século mais tarde, sob Júlio César, os romanos fundariam aqui uma cidade sua com o nome de Cartago, que cresceria para tornar-se a terceira mais populosa do império. Esta era agora a província romana Africa Proconsularis (ver abaixo). 

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Mapa político do Império Romano à época do imperador Adriano, em 125 d.C. A Africa Proconsularis está aqui, em cor de areia, no meio do norte da África. Aquela Carthago ali sublinhada já é a romana, capital da província.

Hoje, as ruínas dessa Cartago romana, feita sobre os escombros da anterior, se encontram a meia hora de Túnis, a capital da Tunísia. (Os árabes, quando em 698 d.C. conquistam Cartago dos romanos, sitiam-na e destroem-na em batalha, e fundam Túnis para ser a nova cidade principal desta região.)  

Você chega lá com o TGM, uma espécie de trem metropolitano. Há seis estações com o nome de Cartago (Carthage, em francês), mas a que interessa para ver as ruínas é a Carthage Hannibal (naturalmente). Você o toma na charmosa estação Tunis Marine, no centro, por um preço módico. Só há uma linha. (É recomendado comprar logo ida e volta (aller retour), pois nas estações pequenas nem sempre você encontrará guichê onde comprar a passagem de volta, e se o fiscal te pegar, você toma uma multa.)

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A estação Tunis Marine, do trem metropolitano TGM, em Túnis.

Cartago são ruínas um pouco estranhas de visitar. Não são como Pompeia, Persépolis ou Éfeso, que são relativamente compactas e você visita tudo num lugar só. Em Cartago, que era uma cidade maior, as partes remanescentes estão todas espalhadas, separadas por alguns quilômetros entre si, e tem bilheterias diferentes. (Na verdade, o bilhete é um só, mas com várias partes, e cada guardinha de entrada o grampeia num lugar diferente, para garantir que você só entre uma vez em cada lugar.)

O sítio todo é Patrimônio Mundial da Humanidade reconhecido pela UNESCO, mas isso não impedirá você de perceber que, na prática, a área é uma espécie de bairro nobre afastado de Túnis, com mansões e longas ruas de asfalto, e ruínas aqui e ali.

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A estação.
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As ruas dessa vizinhança.

É, claramente, uma visita solitária e tranquila — ao contrário de Éfeso, Pompeia, ou qualquer daquelas outras onde você está numa multidão de turistas.

O sol estava de começo de primavera aqui, portanto tranquilo. Caminhei primeiro à colina do museu — e me perdi, pois a sinalização é parca. Táxis a passar, pensando que eu estivesse interessado, e pouca gente na rua a quem pedir direções. Mas achei, perguntei, e cheguei lá.

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Um sinal.
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Como é primavera, o meu caminho foi todo assim, bem florido.

A Colina de Byrsa (que os romanos chamaram de Acropolium) é literalmente o ponto alto da cidade, e por onde comecei a minha visita. É também onde fica o museu, que guarda as peças de mais valor, e onde você verá também a Catedral de São Luís erigida aí pelos franceses em 1890, mas hoje praticamente abandonada.

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No Acropolium, com restos romanos e a vista para o mar lá ao fundo.
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Vista para a Túnis de hoje ao longe, do alto da colina que era o centro das Cartagos antigas.
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Esculturas romanas da Antiguidade no interior do museu.
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Mosaico romano chamado de A Dama de Cartago, estimado ser do século V ou VI.
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Desenho de como era a Cartago antiga, com o porto redondo e a Colina de Byrsa lá no alto.
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A Catedral de São Luís, erigida aqui pelos franceses no fim do século XIX, quando colonizaram a Tunísia.
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A igreja está praticamente abandonada, e já não parece abrir mais. Nos arredores (aqui à esquerda), frustrados vendedores de souvenir, pois praticamente não há mais turistas estrangeiros depois dos atentados terroristas dos anos recentes.
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Pátio da igreja abandonada.

Prepare-se para andar, você já deve ter percebido.

Eu, antes de seguir andando rumo às outras ruínas, me detive papeando com um daqueles vendedores de souvenirs. Me contou, frustrado, que vinham dezenas de milhares de turistas aqui todos os anos, e que agora não vem mais nenhum, pois os cruzeiros já não param mais aqui, e os estrangeiros em geral têm medo. De fato, vi apenas tunisianos na minha visita. O vendedor insistia persistentemente para que eu comprasse mosaicos, estatuetas, ou “flores de areia” (fleur de sable) — umas formações rochosas daqui que se parecem com flores —, mas eu lhe disse que iria rodar o mundo, e não tinha como carregar pedras na bagagem. Ele não acreditou.

Fui embora, mesmo assim. Os vendedores árabes não desistem nunca se você ficar lá. Segui para ver a beira-mar, o anfiteatro romano ainda bem preservado, e casarios romanos antigos hoje em pedaços.

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A beira-mar hoje na área de Cartago, com muitas mansões.
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Moça árabe ao celular, com a vista para o Mar Mediterrâneo ao fundo. Do outro lado, a muitos quilômetros daqui, está a Itália.
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O anfiteatro romano de Cartago, ainda preservado e hoje usado como palco de espetáculos.
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Ruas e fundações de casas romanas antigas, numa outra área das ruínas de Cartago.
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Ruínas de uma casa romana.

Deixei para o final os chamados Banhos Antoninos, as ruínas de umas termas romanas daqui — as maiores fora de Roma. São a parte que mais me impressionou.

O infortúnio é que hoje eles ficam próximos ao Palácio Presidencial. E, vale lembrar, houve recentemente um atentado contra a vida do presidente, então há policiamento reforçado nas ruas adjacentes (ver De volta ao mundo árabe: Bem vindos à Tunísia, norte da África).

Eu, perdido pelas ruas, adentrei o bloqueio dos guardas. Me pararam. “Ei, psiu”, devem ter-me dito em árabe, e eu não entendi. Homem jovem, barbudo, perambulando por aqui é bastante suspeito. “Passeport, s’il vous plaît“, me disse o guarda tranquilo porém certeiro. “Hmm, Brésil“, notou quando tomou o meu passaporte em mãos e o percorreu. Perguntou o que eu estava fazendo ali, eu disse que estava visitando Cartago, e ele me avaliou com os olhos, devolveu-me o passaporte e me deixou seguir (era um caminho mais curto até os Banhos Antoninos).

Cheguei afinal a esta última parte da minha visita, pois a fome já me aterrorizava — não há quaisquer restaurantes ou lanchonetes aqui, e caminhando horas debaixo de sol tudo o que eu havia consumido havia sido uma lata de sprite comprada de um raro vendedor de rua. 

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Aqui ficavam os Banhos Antoninos, e algumas raras estruturas ainda remanescem.
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Eu deixo a leitura do latim no mármore por sua conta.
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Excursão da escola com a meninada tunisiana quando eu visitei. (Aí eu acho engraçado quando brasileiros acham que só as crianças brasileiras são viciadas em celular, são assim ou são assado.)
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Você passeia aqui por um tempo, detendo-se aqui ou ali para observar detalhes milenares em pedra.
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Vista das ruínas para o mar, logo ali. (Lá do outro lado é uma outra ponta da própria Tunísia. A Itália fica perto, mas não tanto.)
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Há também barraquinhas de souvenirs no exterior dos Banhos Antoninos (quase todas elas muito paradas, já que o movimento turístico está baixíssimo). Essas rochas ali no meio são as Flores de Areia que mencionei antes. São formações rochosas laminadas, que lembram uma flor.

Retornei à estação Cartago Aníbal para fazer um almoço tardio em Túnis, e no dia seguinte voltaria nesta mesma direção, para visitar o vilarejo bucólico de Sidi Bou Said, à beira-mar aqui perto. Eu iria dormir hoje sabendo um pouco mais sobre a famosa Cartago.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Visitando as ruínas da antiga Cartago, no norte da África

  1. Oi, Marion
    Adorável a sua descrição da visita a Cartago. Tranquila, parece q estamos conversando, vc me ensinando, enquanto passeamos pela calma do lugar.
    Não fosse o calor, o sol inclemente q a minha idade não me permite mais enfrentar, faria este passeio usando sua narrativa como guia.
    Obrigada

  2. Grande e histórca Cartago, de Amilcar Barca de Asdrúbal e do monumental Anibal Barca, grande guerreiro, excelente estrategista, que com seus elefantes atravessou os Pirineus e os Alpes, considerado com Alexandre e Júlio césar um dos grandes generais da Antiguidade.
    Maravilha de resistência e de combate à temida Roma. Terra de gente guerreira, cujas mulheres cortaram os cabelos para fazer cordas para ajudar o seu povo a rechaçar os romanos invasores. So vencida pela participação de grupos africanos comandados por Cipião o africano que a Roma se juntou.
    Haha adorei o eufemismo em relação à bela estação de Tunis para Cartago haha . Curioso o fato de que voce se não achar onde comprar o bilhete de volta e voltar .. e for pegado sem bilhete ainda paga multa haha olhe meu jovem haha.
    Até hoje procuro a estação haha
    Essas ruinas iniciais, bem a cara dos romanos com seus capitéis
    Visão e paisagem bonitas e tranquilas. Lindo o mar Mediterraneo ao fundo. Bela paisagem!…
    Lindas essas esculturas e mosaicos.. Charmosa essa catedral. Gosto desse tom. Bela arquitetura. E o verde, hem, uma maravvilha. Linda. Que pena essa realidade de abandono de medo e de terror.
    Lindo o mar..linda a água . Adoro essas construções branquinhas como na Grécia e em Santorini.
    Foi olhando esse mar tão aparentemente calmo que vindo do Marrocos para Portugal, Santo Antonio pegou tempestades que quase o matem e jogaram seu navio para as costas da Itália, o que mudou toda a sua vida. Conheceu s Francisco e tornou-se franciscano.
    Lindo o verde dessas águas… clarinho
    Muito bem conservado essa hoje chamada ‘ concha acústica’
    Liindas ruínas dos Banhos uma beleza…maravilha, belas impressionantes .. belos blocos de pedra. E essa pedra é linda..de um tom muito charmosos…
    Nossa que risco e que sufoco de fome e segurança. ossos do oficio de viajante. Allez, sans peur voyageur… haha

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