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No meio do povo na Tunísia: Viajando de trem (ou não), e chegando a Sousse

Achei de viajaria de trem aqui na Tunísia. E no fim das contas acabei viajando, mas por muito tempo tive dúvida. Era a minha viagem de mochila e cuia para Sousse, cidade mais a sul na Tunísia, desde a capital Túnis nesta manhã de início de primavera.

Cheguei cedo para o trem. Sairia às 9:30h, mas eu resolvi chegar pelo menos meia hora antes pois eu já tinha compra a passagem não havia lugar marcado. Melhor antecipar-se às massas. Conforme o tempo passava e o trem não vinha, vinham mais e vinha a certeza do pega-pra-capar que seria na hora que o trem chegasse.

Às 9:20h o trem chegou e, na prática, coube todo mundo sem grande afã. Eu havia subestimado o seu tamanho.

O interior era funcional mas, visualmente, era uma esculhambação. Pedaços da lataria quebrados ficavam pendurados e balançando-se com o movimento; os assentos estavam furados e com coisas escritas, etc. Não havíamos partido ainda e, à minha frente, uma morena pálida chorava. Olhava para o vazio pela janela (suja). E de quando em quando enxugava os olhos com um lenço de papel.

Mas nada adiantou pois tivemos um atraso de duas horas devido a greve. Não demoraram a começar a fumar ali perto. Alguns bate-bocas em vão. Um vendedor passava repetidamente pelos corredores do trem parado anunciando Kekê! kekê! kekê! e vendendo biscoito palito. Satisfiz-me de ter sempre um livro na mochila, e esperei até as quase 11:30h, quando finalmente saímos. (O vendedor, que depois sumiu, reapareceu gritando kekê quando os passageiros retornaram e o trem deu partida.)

Viagem a países mais pobres requer paciência pra essas coisas. O trajeto seria relativamente curto, de apenas algumas poucas horas. 

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Papelzinho que alguém passou entregando no trem.

Chegando com o meu mochilão nas costas, fui procurar o Hotel Medina, no centro da cidade. Sousse tem uma medina ainda mais ampla que a capital Túnis. De modo geral, é uma cidade portuária com certo porte, tamanho mediano, e ar brevemente turístico pela sua herança medieval preservada. Há fortes históricos e casas de época na cidade, além de uma mesquita de mais de 1000 anos. (Não foi à toa que eu vim pra cá.)

Depois de um pouco me perder — algo típico numa medina —, localizei o simples hotel e entrei. O lugar era imenso, simples como uma gigantesca pousada de cidade do interior. Eu, no terceiro andar, tinha uma bela vista para a lage dos outros, e para um quintal onde acumulavam lixo. No quarto não tinha wi-fi mas tinha televisão, e a água da torneira aqui (em toda a Tunísia) é potável mas incrivelmente salobra, dessalinizada pero no mucho. (É ótimo para os cabelos.) O copo d’água dessalinizada da torneira tinha cheiro de ovo, e eu não sabia se era o copo ou se era a água.

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Hotelzinho simples, com ar de pousada de cidade do interior. Em Sousse.
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Minha vista da varandinha do quarto. (Poupá-los-ei da vista para o lixo.)

O curioso foi que, aqui, para se ter café da manhã era imperativo avisar na noite anterior. Quando, após o primeiro dia (sem café), eu fui perguntar quanto ele custava e o que incluía, o dono do hotel — um coroa calvo, de bigode e paletó aberto, com aquele mesmo ar do seu tio que em reunião de família dá pitaco em tudo e acha que tudo sabe — foi falando genericamente “Tem pão, manteiga… muita coisa“, com aquele tom de quem não queria se aprofundar muito. Eu recomendei que ele tivesse um aviso escrito na recepção sobre o café, e dando uma ideia melhor do que ele incluía. “Não, num hotel internacional não podemos botar isso assim de lista de café“, disse ele com a mesma flexibilidade do seu tio conservador. Uma parte de mim quis perguntar a ele em quantos “hoteis internacionais” ele já havia estado, mas vi que não chegaria a lugar algum e deixei pra lá.

Instalei-me e saí para almoçar no primeiro dia. A medina de Sousse fica já quase de cara para o mar, que não tem praia mas traz uma brisa agradável, e você não deixa de ver o azul no horizonte. Como na Europa, aqui há muitos restaurantes com aquelas várias mesas postas sobre o amplo calçadão. 

Eu estava com fome, e pedi um mega prato de cuscuz com legumes. 

Fiquei ali sentado um tempo, como eu às vezes gosto de fazer nestes lugares quando estou viajando só. O garçom veio e perguntou se eu era argelino. (“De novo?”, pensei eu, pois em Marrocos também houve quem pensasse que eu era argelino. Nunca planejei, mas começo a ficar curioso para visitar a Argélia e conhecer o que é que há lá, e se o povo se parece mesmo comigo.) Quando eu digo que sou brasileiro, é engraçado ver que me olham com certa desconfiança, aquele olhar perscrutante, como se eu fosse algum árabe aqui da região mesmo e os estivesse enrolando com essa história de ser brasileiro.

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Minha humilde mesa de almoço, com pão, azeite, molho de pimenta vermelha, azeitonas verdes, e o prato principal de cuscuz com grão-de-bico e legumes no molho.
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Os arrabaldes do meu “hotel internacional”. Na simples e bonitinha Sousse.

Não sei se o garçom ao final acreditou que eu era brasileiro ou achou que era uma gozação da minha parte (ele tampouco perguntou mais nada, nem quis me inquirir pra confirmar), mas conversamos um pouquinho sobre outras coisas. Perguntei como andava o movimento turístico cá na Tunísia pós-revolução (se não sabe a que me refiro, veja aqui).

Ele me disse que em Sousse continua o movimento continua bom, e perguntou se eu morava aqui. Disse-me que muitos turistas moram aqui. “Ah é?”, questionei eu, curioso. “Franceses?”, segui. “Sim”, respondeu ele com muita naturalidade. “Olha aí um”, e fez com a mão para um senhor francês de seus 65 anos que, eu não havia percebido, estava numa mesa atrás de mim. Parecia já ser freguês. Tinha um olhar simpático, sossegado, e um notável bigode já branco daqueles tipo vassoura, que lhe cobria quase toda a boca. Sorria brevemente com aquele leve ar malandro de “Pois é, eu tô aqui na minha”.

Levantei-me pra dar uma volta sem rumo certo, e de tarde mais uma vez me tomariam por árabe. Na medina, quando algumas horas depois eu fui perguntar quanto custava o suco de laranja ao tio de um restaurante (a cara do Levy Fidélix, diga-se de passagem), e ele mostrou-me no cardápio (custava 2,50 a 4,00 dinares, a depender do tamanho) mas disse rapidamente que faria por 1 dinar apenas. Achei até que ele ia batizar com água e açúcar, mas ouvi o espremedor na cozinha e o suco estava ótimo. Quando ele me traz, diz “Preço especial pra nós árabes”. Aceitei de bom grado, obviamente. Eu só não entendo como é que eles creem tão piamente que eu sou árabe sem jamais falar uma única frase em árabe. Ao que parece, uma imagem (minha cara) vale mesmo mais que mil palavras. 

Mais tarde de volta ao lobby do hotel (único lugar onde tinha wi-fi), vi que fumavam no interior sem a menor cerimônia. Por sorte o lugar era amplo. O recepcionista da noite tinha o hábito peculiar de falar do mesmo modo que Raimundo Varela, apresentador do lendário programa de TV “Balanço Geral” na Bahia — dando pancadas na mesa ao final de casa frase. Só que as falas do recepcionista eram em árabe, o que dava mais efeito. “Hem hanf uiuley ha!” *BAM*, e assim ia. Eram um ótimo pano de fundo pra o que quer que eu estivesse fazendo na internet.

A partir do post seguinte eu comento o que visitei por aqui.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “No meio do povo na Tunísia: Viajando de trem (ou não), e chegando a Sousse

  1. Ora ora, que divertida essa postagem, cheia de gente curiosa, de Varela a seu Abdul, com direito a trem semelhante a um transporte que conheço de uma grande cidade de um importante estado onde até sombrinha voce usa dentro do bus pois a janela não tem vidro e chove dentro haha , passando por um hotel internacional, bigodes de vassoura e outras gostosuras haha muito interessante.
    Adorei o belo prato e gostei da” humilde” mesa.
    Isso para não falar na jacostumeira confusão que se estabelece na cabeça dos nossos amigos onde uma imagem de nariz árabe e barba vale mais que mil palavras haha. Assaz engraçado.Ponto para Grifinória. legal. diverti-me bastante.
    Brincadeiras à parte, gostei muito da pracinha. É muito bonitinha. Interessante esse amarelado das casas. Parece que passou uma poeira e grudou em tudo.
    As palmeiras dão um toque lindo à paisagem. São esbeltas elegantes e de um belo verde. Lindinhas
    muito boa postagem.
    É isso ai, viajante. Conhecer é preciso e é ótimo, partilhar melhor ainda. Grande abraço.

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