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Sousse, Tunísia: Uma cidade medieval árabe hoje

Sousse, na costa central da Tunísia, é uma das cidades mais interessantes do país a visitar — senão a mais interessante de todas. Isto é verdade especialmente para quem gosta de coisas antigas, e quer ver uma cidade medieval árabe hoje. Costumamos pensar sempre em Idade Média europeia, aquela coisa dos cavaleiros de armadura e os castelos de pedra sobre a montanha. Muito disso é compartilhado por outros povos e civilizações, mas muito também é diferente.

Aqui no norte da África, nessa estreita faixa de terra apertada entre o Mar Mediterrâneo e o Deserto do Saara, os árabes na Idade Média chegaram como uma onda e conquistaram tudo no século VII. Dizem que um conquistador árabe chegou mesmo a entrar de cavalo e tudo no Oceano Atlântico, lá na ponta oeste em Marrocos, dizendo aos céus que só se detinha ali porque Allah (Deus) não permitia que ele fosse mais adiante. Entre os anos de 647 e 704 d.C. os árabes conquistaram tudo desde o Egito até Marrocos, e em 711 se lançariam Península Ibérica adentro para permanecer mais de 500 anos onde hoje são Espanha e Portugal.

“Ao contrário das construções medievais da Europa, hoje limitadas a serem pontos turísticos, aqui no mundo árabe o que é medieval continua a fazer parte do dia-dia. São parte do ‘organismo’ da cidade atual, não uma casca vazia. As pessoas continuam a participar da medina e da mesquita como há 1000 anos atrás.”

Instalando-se norte da África, os árabes ampliaram seu contato com os frutos da antiga civilização romana (que a essa época ainda não era tão antiga assim), e expulsaram os Vândalos, povo germânico que havia sobrepujado os romanos dois séculos e tomado esta região. Os árabes conquistaram a Cartago romana e fundaram Túnis para ser a nova cidade principal desta região. Já aqui, mais ao sul, nesta área onde hoje está Sousse, havia a cidade romana de Hadrumetum, que foi mudada de nome para Sussa, que os colonizadores franceses depois chamariam de Sousse

Como toda boa cidade medieval árabe, Sousse tem a sua medina (o centro antigo, com o mercado, becos e ruelas), muralhas, uma mesquita (templo religioso islâmico) do tempo em que o arco-íris ainda era preto-e-branco, e um ribat ou rabat (um forte), e o que eu acho o melhor de tudo: ao contrário das construções medievais da Europa, hoje limitadas a serem pontos turísticos, aqui no mundo árabe o que é medieval continua a fazer parte do dia-dia. São parte do “organismo” da cidade atual, não uma casca vazia. As pessoas continuam a participar da medina e da mesquita como há 1000 anos atrás. 

Toda a medina de Sousse é reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

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Centro medieval preservado: a medina de Sousse, com suas principais vias ali marcadas. As muralhas continuam de pé e, dentro, é um verdadeiro labirinto habitado.
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A portentosas muralhas de Sousse ainda em pé.

O ribat (o forte) é realmente a única parte que virou somente ponto turístico, pois não tem outra utilidade no mundo de hoje. Praticamente intacto, ele oferece um belo exemplo de arquitetura medieval árabe. 

Este forte é do século IX — mais velho que a grande maioria dos fortes que você encontrará na Europa —, datado do ano 821 d.C.. Foi erigido pelos árabes do Emirado Aglábida, que se constituiu aqui nesta região no século IX e tomou Malta, a Sicília e o sul da Itália continental.

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Entrada para o forte (ribat) do século IX.
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Vista do alto para o forte medieval e para as muralhas da cidade mais adiante, antes da parte moderna para além do centro.
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Sobre as muralhas do forte. Se você tiver pernas, pode subir também ao alto da torre de observação.
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A vista a meio do caminho.
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A vista para a labiríntica (e pobre) medina, lá do alto. A arquitetura das casas árabes é aquela característica: lages planas sem telhado, já que pouco há chuva e não há neve para escorrer.

A Grande Mesquita de Sousse, do mesmo século IX, segue o mesmo estilo arquitetônico do ribat, com um pátio central e alcovas aderidas à muralha retangular.

Ela foi fundada no ano 850 d.c., sob o Emirado Aglábida, e outras dinastias árabes depois a incrementariam nos séculos a vir, mas o aspecto geral permanece o daquela época inicial. A mesquita continua recebendo milhares de fiéis que vêm aqui fazer alguma(s) das cinco orações diárias obrigatórias aos muçulmanos e/ou ver a pregação das sexta-feiras, dia sagrado para o Islã.

Quem não é muçulmano pode mesmo assim entrar na mesquita e visitá-la gratuitamente no período da manhã, a partir das 8am. Eu fiz isso um dia, e não havia ninguém. (Das cinco orações muçulmanas, a primeira delas é ao nascer do sol, já as outras quatro são do meio-dia em diante, então é quase sempre durante a manhã que as mesquitas em qualquer parte do mundo muçulmano se abrem à visitação. Fica a dica.) 

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Pátio interno da mesquita de Sousse, num tranquilo começo de manhã.
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Interior, coberto de tapetes, onde se entra sempre descalços.
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Vista para o mihrab, aquele nicho na parede que indica a direção para Meca. É àquela direção que os muçulmanos oram.
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De outro ângulo.

Saindo dali naquela manhã eu fui fazer o que mais fiz em Sousse: circular pela medina, esse emaranhado de ruelas. É divertido perder-se, se você não tiver pressa e entrar no espírito. O lugar é pobre, mas seguro e tranquilo. E com a instabilidade política da Tunísia hoje, você praticamente não verá outros turistas, só gente local. Foi nessas andanças que me deparei com algumas das figuras comentadas no post anterior.  

E ali como uma agulha naquele palheiro está o Museu Dar Essid, uma casa tradicional árabe preservada do período medieval. A casa em si data do ano 928, e foi agregando elementos dos séculos a seguir, naturalmente. É uma visita espetacular.

Quando visitei, havia duas senhoras tomando conta do lugar, com ares de donas de casa conversadeiras — uma mais velha com cara de sogra e que ia dizendo coisas atrás da mais nova, que lavava o chão.

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Pátio interno da casa, hoje museu, com as mulheres ali.
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Escadaria com azulejos.
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Sala ricamente ornamentada.
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Área de visitas.
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Um quarto. (Aquele tapetinho é para as orações.)
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O banheiro (sempre perguntam).
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Escritos num quarto. Não sei se do Alcorão, o livro sagrado islâmico. Possivelmente sim, já que está ali também um rosário, chamado em árabe de tasbih.
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Mais uma confortável cama.
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E o item mais interessante que vi na casa, ao lado daquela cama. Esse item, que vem dos romanos, é a “lâmpada do sexo” (a de argila, não a elétrica). Perceba bem os desenhos ali em cima, dos dois corpos “em posição”. É uma lâmpada daquelas antigas, com uma certa quantidade de óleo que mantém o fogo aceso por um tempo. E a ideia é exatamente essa: o homem viril precisava manter o seu “fogo” também aceso por toda a duração da lâmpada, não devendo terminar o sexo enquanto ela (a lâmpada) estivesse acesa.

Que boa ideia, hein?

Deixo vocês com algumas fotos da medina de Sousse hoje.

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Entrada da Casa-Museu Dar Essid, na medina.
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Ruas no lado de dentro das muralhas.
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Os becos da medina de Sousse.
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Café Brazil.
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Fim de tarde, saída da escola, logo no exterior da medina.
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E o feirão. Como eu disse, aqui não há casca vazia. A medina é um organismo vivo.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Sousse, Tunísia: Uma cidade medieval árabe hoje

  1. Uaaauuu, meu jovem me encantei com Sousse. Que maravilha, que mergulho no medievo e no mundo/cultura árabes, Que beleza!.. que estupenda mesquita, que belissima casa/museu…. que regate histórico, que belas cores, luzes arquitetura, riads ruelas, medina( adoro medinas) fervilhante de vida, com sua ruidosa ida e vinda de pessoas que ali tudo vendem. Que delicia esse banzé, esse misto de cultura e arte, tão rica em historias de vida. Pena que com a pobreza também à vista. Muito bonita a cidade. Parece que você entra na maquina do tempo e acorda na idade me´dia.. Adorei. Muito bem escolhida a cidade a visitar.
    A história como sempre muito interessante. Um banho de informação. O museu e a mesquita são um espetáculo à parte. eita mundo árabe bonito. Congratulations. Lindo o lugar.

  2. Menino, que barafunda esse mapa da medina haha.
    Que bela muralha e que forte!… põe no bolso os portugueses que conhecemos aqui. E quanto tempo de erigido, hem? desafiante. que engenheiros!…
    Gostei de ver a limpeza dos becos. Medina arrumada.
    Lindos os detalhes da casa/museu. Que quarto charmoso. O banheiro também muito interessante . Salas maravilhosas, que riqueza de ornamentação e a escadaria? e os belos mosaicos. Preciosidade. Assim como a mesquita.
    Importante tambem a singularidade da manutenção da vida cotidiana dentro do ambiente antigo. Muito interessante. Valeu

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