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El-Jem e o “outro” coliseu romano de que você nunca ouviu falar

Estamos no interiorzão da Tunísia, na cidadezinha de El-Jem, a uma hora de Sousse, no centro do país. Aqui fica a segunda maior arena romana do mundo, após o Coliseu em Roma. Quase ninguém sabe disso, e pouca gente vem aqui. O lugar todavia é impressionante — e o melhor é que praticamente não há outros turistas com quem competir pelo espaço. Você circula livremente pelo lugar e pode imaginar-se nos tempos romanos com tranquilidade.

El-Jem foi uma viagem de trem a partir de Sousse. Cuidado e desça na estação certa, ou irá parar lá perto da fronteira com a Argélia no Deserto do Saara. 

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A modesta estação de trem na cidadezinha de El-Jem, Tunísia.

Não vi outros turistas estrangeiros, mas seguramente quem vem aqui vai direto da estação ao “coliseu”. (Entre aspas porque “coliseu” é o nome específico daquela arena em Roma, embora arenas redondas assim — que deram origem aos nossos estádios modernos — havia por todo o mundo romano.)

É impossível não ver o grande monumento numa cidade de casario baixo ou quase não há nada mais. Uma linha reta te leva de um ponto a outro.

Os romanos, à época, chamavam esta cidade de Thysdrus. Fazia parte da província Africa Proconsularis, que tinha a nova Cartago romana como sua capital (ver aqui). No reinado do imperador romano Septimius Severus (193-211 d.C.), Thysdrus foi elevado a municipium, com maiores direitos. O circus, erigido nesse século III d.C. comportava até 30 mil espectadores, e ficava atrás apenas do circus maximus de Roma. Há ainda muita coisa dessa época romana entesourada em El-Jem (como os árabes chamaram a cidade após conquista-la no século VII), mas comecemos pela arena.

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Uma rua ordinária com o “coliseu” ao fundo.
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A vida normal que encontrei aqui.
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De mais perto.

Você paga 10 dinares tunisianos (equivalente a uns 15 reais) e visita tanto a arena quanto um museu de mosaicos e ruínas romanas próximo dali. (Não deixe de visitar o museu depois.)

Arena adentro, se na Itália é aquele panavuê de gente alegre e sorridente posando pra fotos, aqui é tranquilidade, e você escuta o vento transitando por entre as pedras e túneis de dois mil anos.

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Visto do jardim que cresceu nos arredores.
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Transitando lá no interior da estrutura.
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Vista do alto das arquibancadas.
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E a vista do chão.

Aliás, se você for fã dessas coisas de época, talvez aprecie a sensação de vir caminhando por estes túneis e, de repente, dar-se com a luz da entrada no estádio. Você pode usar a imaginação e ver-se chegando para enfrentar um gladiador diante dos olhos de milhares de espectadores. Fiz um brevíssimo vídeo com o trajeto.

Depois de visitar a arena e passar lá tanto tempo quanto quiser, não deixe de visitar o museu romano que você visita com o mesmo ingresso. Ele fica a algumas quadras dali, uma caminhada de seus 10-15 minutos. Pergunte pelo “musée” (museu) na rua e qualquer um lhe explica o caminho.

Foi outra visita VIP, tão sozinho no museu que uma seção estava fechada e foi preciso o segurança vir abri-la pra mim. 

Os mosaicos romanos que encontrei aqui são tão, senão mais impressionantes que os que vi no Museu Bardo em Túnis. Vou aproveitar a onda e pôr também pra vocês os expostos no Museu de Sousse, naquela cidade. 

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Mosaicos romanos expostos no museu em El-Jem. O estranho é só que é inevitável pisar naqueles mosaicos de quase dois mil anos.
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Mosaico romano com uma ilustração típica na Idade Antiga. O mais antigo que conheço vi em Persépolis, da antiga Pérsia (de 500 a.C., portanto 700 anos antes destes mosaicos daqui), onde o leão ou tigre simbolizava o sol, e o herbívoro a terra. Ver minha visita a Persépolis aqui.
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Muitos halls repletos de mosaicos com padrões de folhas, desenhos que lembram a natureza, e figuras da mitologia greco-romana clássica.
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Selfie básica.
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Nos fundos do museu (e parte dele, certifique-se de visitar), ruínas de casas romanos. Aqui o átrio de uma delas, com o jardim no meio.
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No fundo do museu em El-Jem, com fundações de casas romanas antigas atrás.
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Já no museu de Sousse, temos aqui um mosaico do deus Netuno, o Poseidon dos gregos, deus dos mares.
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Já aqui temos Oceano, uma divindade grega mais antiga. Ele depois seria retratado como um dos primordiais titãs, filhos do céu (Urano) com a terra (Gaia). Nos cultos mais antigos, Oceano era entendido como o grande rio que circundava a terra onde os homens habitavam — daí os greco-romanos chamado o Atlântico, maior massa de água que eles conheciam e que parecia não ter fim, de “Oceano” simplesmente.

Para ir embora de El-Jem você tem duas opções: pega o trem num dos poucos horários disponíveis, ou toma uma van estilo lotação, que os tunisianos aqui chamam de louage. Eu optei pela última para retornar a Sousse, o que me rendeu uma bela aventura odisseica.

El-Jem

Os caras levam bem a sério o conceito de “lotação”. Éramos seis, mas não adiantava. Pelo sétimo passageiro que ocupasse o último lugar vago na van esperamos uns 40 minutos. Era tipo as crianças do pássaro dourado do Jaspion — até que estivessem todas reunidas, de nada adiantava.

Um senhor, o único idoso entre nós, se impacientava e reclamava em árabe com os funcionários. Eu não entendia, mas de algum modo suspeitava que era sobre a demora para sairmos. O curioso foi quando, ainda na cidade, uns 10 minutos depois de finalmente sairmos, o senhor pede pra sair. Manda encostar, abre a porta, e sai pra fazer não sei o que. Ao que me pareceu ninguém entendeu, mas foi questão de minutos até o substituírem por uma senhora — que parecia uma versão idosa de Maria Santíssima, só que de manto amarelo-penugem. 

Seguimos pela estrada de mão dupla fazendo ziguezagues, ultrapassagens perigosas, uma delícia. Pura adrenalina e aquela sensação de que o seu reencontro com Allah pode ser antecipado. Até que, pouco depois de uma tentativa mal-sucedida de ultrapassar um caminhão, aparece quem faltava: a polícia. 

Tive um déjà-vu pra lá de desagradável, recordando a minha experiência anterior com polícia rodoviária no Marrocos, quando nos fizeram permanecer encostados 1 hora discutindo documentos e esperando propina (aqui). Já tínhamos demorado tanto pra sair… 

O policial, fardado em trajes de oficial, dava aquele sorriso tranquilo de quem sabe que está com a faca e o queijo na situação. Nosso motorista esbravejou apontando pra o caminhão na frente — que também havia parado — e, curiosamente, o policial basicamente fez um convite pra ele descer e ir ter com o cara do caminhão. Foi um bate-boca supervisionado. Com o habitual sangue quente dos árabes, o nosso motorista desceu, disse uns desaforos apontando o dedo para o motorista do caminhão (que ficou lá em cima), e voltou.

Retornaríamos finalmente a Sousse, para o começo do fim desta minha estadia na Tunísia. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “El-Jem e o “outro” coliseu romano de que você nunca ouviu falar

  1. Hahahaha gente.. que dejà vu interessante, e pelo visto o senhor tem sangue doce para se meter com motorista encrencado e policia malandra nessas viagens africanas haha… Inesquecível a do Marrocco hah… Essa pelo menos não demorou tanto haha ainda bem, pois chegaria em Sousse la para a meia noite . haha. so com Mairon Polo dos 7 mares essas coisas acontecem.
    Passando” de pato a ganso”, que maravilha esses mosaicos, que beleza de tons e que motivos maravilhosos. uma beleza. Gostei da visita Vip. Muito bem. Não sabiam eles que as belezas se tornariam públicas e rodariam o mundo. É isso ai.
    Não sou muito fã de Circus romanus pelo que significaram e pelo que rolava la, mas esse é bem bonito e até mais que o badalado e lúgubre Coliseu romano. Ótima estrutura e bem conservado.
    Gostei da cidadezinha. nem suspeitava que existisse nem o Circus. Amei os mosaicos. Belissimos. Muito interessantes as infoirmações mitológicas e históricos. Ponto para Grifinória haha

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