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Muvuca no Aeroporto de Túnis, e despedindo-se da Tunísia

Isso são as filas para check-in no Aeroporto de Túnis.

Era hora de despedir-se da Tunísia, mas a tarefa não parecia fácil. Cheguei, ingênuo, ao Aeroporto de Túnis achando que todo o processo se daria com a tranquilidade que encontramos no Brasil (sim, tranquilidade).

Desde Madagascar eu não via tamanha esculhambação aeroportuária. Nas “filas” para o check-in parece que você trouxe várias famílias da roça para o aeroporto, e elas estão ali na muvuca. Grupos de senhoras passavam desavergonhadamente à minha frente, falando umas com as outras; homens iam lá pra a frente com 5 passaportes na mão, e ficavam gritando pra localizar as pessoas lá atrás; famílias inteiras com crianças e idosos, que não iam viajar, ficavam fazendo rodinha de conversa e risos no meio da fila. Era uma pândega. E, diante disso, os funcionários “nem tchum”, não se mexiam (e ainda eram lentos, com aquela cara de confuso de quem não sabe usar o computador). Ah que saudade dos aeroportos brasileiros, com divisores de fluxo e funcionários da cia aérea ali organizando as filas. 

Nessa situação aí, já lhe aviso: se você for cordato demais, vai passar a manhã inteira no aeroporto sem sair do lugar. As pessoas aqui furam a fila descaradamente. Vá avançando como puder na muvuca, e não dê espaço, cole na pessoa da frente quase ao ponto de encoxar, ou senão entrará um, entrarão dois, e de repente haverá uma família inteira à sua frente, e discutir de nada adiantará. 

Já o serviço de imigração aqui tem fama de ser lento (e, de fato, não é rápido), mas acho que a maior parte da informação sobre isso na internet data de antes da série de atentados aqui em 2015, quando ainda vinham hordas de europeus pra cá. Atualmente, há beeem menos. De todo modo, é bom não abusar da sorte.

Aonde eu iria? Calma que já digo. Antes de partir, tenho alguns arquivos a fechar na Tunísia.


Após retornar de El-Jem para Sousse, eu tinha ainda um dia em que planejava ir a Kairouan, uma cidade histórica e de grande importância religiosa para os muçulmanos, mas a chuva foi tanta que eu não pude. Normalmente sou intrépido, mas parecia que o mundo ia acabar, e os becos da medina converteram-se em rios, e era quase impossível ir a qualquer lugar sem se encharcar por inteiro. Eu imaginei como estariam as estradas tunisianas, sobretudo com a direção hiper segura dos motoristas de van-lotação daqui. 

Acabei indo me embrenhar num daqueles vários cafés masculinos, típicos aqui no mundo árabe, e onde — como sempre — se surpreenderam ao saber que eu não era tunisiano. Chegavam a perguntar duas vezes, pra confirmar.

O dono, mui nacionalista, daqueles que gostam de impressionar, foi logo falando da “História de 3000 anos” da Tunísia. (Eu depois comecei a questionar o que aquela História antiga e medieval tinham contribuído para a ideia de Tunísia enquanto nação, já que esta região aqui ao longo dos últimos 3000 anos quase sempre foi parte de algum império e jamais um país em si mesmo, mas ele não entendeu, e seguiu no que estava falando.)

Quais os recursos da Tunísia? Na Líbia e Argélia há petróleo, aqui não. É agricultura e turismo. O principal recurso é a educação da população. Quase todo mundo é alfabetizado. A escola é pública e gratuita.“, dizia o dono com certo orgulho na vista de todos. (A Tunísia é mesmo a colônia que mais “puxou” à França nesse sentido, um país bem literato e de forte cultura de engajamento cívico, como eu coloquei anteriormente.)

— “Todo mundo aqui é comerciante”, colocou ele fazendo um círculo com a mão que segurava o cigarro e o copo de café preto. Uns outros quatro homens estavam sentados na “roda” de conversa em meio à fumaça dos cigarros que se dispersava com o vento que vinha do lado de fora, e mais ou outro estavam no entra e sai.

— “Hoje às 10h chega o primeiro voo de Moscou desde mais de 1 ano, após os atentados de 2015.“, disse um outro referindo-se ao assassinato de 38 pessoas (quase todos eles turistas britânicos) no resort de El Kantaoui, a 10km aqui de Sousse, por militantes do Estado Islâmico em junho de 2015, poucos meses após o massacre no Museu Bardo em Túnis. 

— “A gente está tão dependente do turismo que sabe até a hora de chegada dos voos”, comentou outro, rindo da própria sorte.

Logo a conversa se converteu numa daquelas de boteco, tão semelhantes às que ocorrem no Brasil.

— “Se os Estados Unidos deixarem, a Tunísia vai melhorar.”, interpelou um.

— “Hilary Clinton admitiu numa entrevista que foram eles que criaram o Daesh [nome original e depreciativo do tal ‘Estado Islâmico’ em árabe]. Ela que disse!”, ponderou um. [De fato, ela o fez, embora não literalmente, é óbvio, mas em termos de os EUA terem dado suporte a grupos que se radicalizaram etc., como já haviam feito com Osama bin Laden contra os soviéticos nos anos 80.]

— “São uns delinquentes”, disse outro, ríspido.

— “Os Estados Unidos fazem o que querem atrás de petróleo, e somos nós aqui nos países árabes é que sofremos”, comentou olhando pra mim com uma certa indignação resignada.  


Mais tarde, no almoço que encontrei numa bodega ali vizinha ao meu hotel na medina, sentei-me com um cara que foi a Meca.

— “Juntei um dinheiro e fui, com a minha esposa“, disse o homem de seus 30 anos, camisa sport, barba aparada e boné preto na cabeça. Era funcionário do restaurante e, como é costume aqui entre os homens, tomou a liberdade de sentar-se em frente a mim à minha mesa.

— “Fez o Hajj?“, perguntei eu com interesse, entre uma colherada de cuscuz e outra. O Hajj é a obrigação que todo muçulmano tem de fazer uma peregrinação ritualística à cidade sagrada de Meca, na Arábia, ao menos uma vez na vida, se tiver condições financeiras de fazê-la.

— “Não, não, eu fiz uma umrah, que é a menor. O Hajj precisa ser num mês específico do ano. Sai mais caro. Eu fiz em outra época.“, disse ele ajeitando o boné, ligeiramente sem jeito por não acertar muito bem o francês.

— “E aí, como foi lá?“, perguntei eu ainda almoçando.

— “É uma experiência sobretudo emocional“, disse ele gesticulando e dando ênfase. “Você estar lá, onde o profeta pisou.” 

Disse-me que foi a a única vez na vida em que ele viajou para fora da Tunísia.


No dia seguinte, antes de eu deixar Sousse, já uma manhã de sol, fui tomar o espresso nosso de cada dia num bar perto do hotel, e mais uma vez vieram conversar comigo. Acho que já estavam achando a minha cara conhecida depois de eu estar ali na área uns dias, e vinham fazer amizade.

Um dos funcionários se sentou à minha mesa e foi logo acendendo um cigarro, sem dizer nem perguntar nada. Depois de um minuto ou dois, perguntou se eu estava morando ali ou viajando. Eu disse que viajando, e que era brasileiro.

Ele lançou um olhar breve de curiosidade, e logo voltou a observar o movimento da rua enquanto o cigarro queimava em seu dedo. Me falou que conhecia um português ali em Sousse que ia fazer pra ele um cartão de residente europeu (falso) pra ele entrar na Europa. Estava entusiasmado, e querendo me apresentar o cara.

— “Você vai estar aqui amanhã?”, me perguntou.

— “Não

— “Aaaah

(Veja se eu quero conta com esse tal criminoso português…).

Naquela tarde eu voltaria a Túnis, para pegar o meu voo de partida no dia seguinte.

Preciso ser honesto com vocês e dizer-lhes que a viagem de trem de volta foi muito mais confortável que a de vinda. Desta vez tomei um trem expresso que foi mais rápido e mais confortável, embora um pouco mais caro. Passamos duas horas vendo plantações de oliveiras naquela terra árida até chegarmos a Túnis.

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Meu trem de volta, de Sousse a Túnis. Foi muito mais confortável, e saiu no horário. Recomendo.
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A paisagem de plantações de oliveiras cercadas por barreiras de cactos, vistas pela janela do trem.

Em Túnis, eu ainda teria tempo de ver uma breve festividade pública, que me pareceu relacionada aos 60 anos da independência do país (da França, em 1956). Dentre movimento e música na rua, parei pra ver um coral de garotas de escola que cantavam algo em árabe sob a regência de um maestro na Av. Habib Bourguiba, a principal da cidade.

Eu não pude deixar de refletir, depois, sobre a diferença entre essas meninas tão antenadas — de olhar tão vivo, seguramente fãs da internet e de maiores liberdades — e as senhoras “da roça”, suas mães e avós, daquele arquétipo da dona de casa árabe coberta com véu. É, os tempos estão mudando.

Fiz pra vocês um pequeno video do que assisti. E vejo vocês em Al-Qahira, vulgarmente conhecida como Cairo, no Egito.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Muvuca no Aeroporto de Túnis, e despedindo-se da Tunísia

  1. Nossa.. que interessante essa postagem..Vai do banzé no aeroporto, um horror, às sérias reflexões politicas econômicas sociais sobre o país, o que pensa deles o povo, a politica externa norte-americana, sua gana pelo petróleo, e malandragens que existem para se chegar à Europa. Que atuais. Muito interessante. Importante tambem a reflexão sobre a mudança no comportamento das meninas/mulheres no mundo árabe, sempre tão conservador. Pelo visto o vento das mudanças está chegando lá. que seja bem-vindo para as mulheres. gostei.
    Coral bonito.

  2. Mairon, bom dia! Fazendo pesquisas sobre Tunísia, Argélia e Marrocos esbarrei com seu blog – que me foi de grande valia sobre a Tunísia – porém, gostaria de sabe,r se você tem conhecimento da possibilidade de cruzar da Tunísia para Argélia por terra?
    Li em outros sítes sobre a malha ferroviária tunisiana, mas não achei essa informação. Grato, Caram

    1. Bom dia, Caram!

      Você é corajoso! :-). O sul da Tunísia e a Argélia em geral tem os seus riscos, mas imagino que você os compreende. Bem, havia um projeto ano passado de realizar uma via ferroviária direta de Tunis à Argélia, mas acabou adiada e até hoje não saiu do papel. A fronteira entre Tunísia e Argélia não é fechada como aquela entre Argélia e Marrocos, então é possível cruzar, mas é necessário trocar de veículos na fronteira (e, naturalmente, estar de posse do visto argelino).

      Em resumo, você pega um táxi até a fronteira de uma, atravessa a aduana a pé, e toma um veículo que estiver disponível do outro lado. Ouvi dizer que a passagem entre Tabarka e Oum Teboul é das mais usadas, mas não sei o grau de facilidade. Já é uma pista!

      Sucesso!
      Mairon

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