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Visitando as Pirâmides de Gizé e a Esfinge no Egito

As Pirâmides de Gizé são a única das sete maravilhas do mundo antigo a durar até os dias de hoje. Gizé é a área onde ficam as famosas pirâmides de Quéops, Quéfren e Mikerinos, todas construídas nos idos de 2500 a.C. (O nome “Gizé” é medieval e vem do árabe al-Jizzah, que quer dizer “o vale” ou “o platô” — garanto que nunca lhe disseram isso.)

Aqui ficava Mênfis, a primeira capital do Egito Antigo. À margem oriental do Rio Nilo estava a cidade dos vivos (da qual não resta praticamente nada, pois as casas comuns eram feitas de argila e não de pedra), e a oeste, onde o sol se põe, o lado dos mortos, onde estão as pirâmides. Hoje elas ficam a alguns poucos quilômetros do Cairo, que é uma cidade que só foi construída muito mais tarde, pelos árabes em 969 d.C.

As pirâmides pertencem a um tempo antigo e que já não é mais. Tente absorver o fato de que aquelas estruturas estão em pé há mais de 4.500 anos. (As coisas medievais da Europa de repente parecem ridiculamente recentes em comparação.) Pense que o nascimento de Cristo está mais próximo de nós do que da construção dessas pirâmides, e que somente quando nós chegarmos ao ano 2500 é que a distância no tempo será a mesma. Estes são monumentos remotamente antigos, e você percebe isso de várias formas.

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As pirâmides não são “lisinhas” como os livros ilustrados e fotos da internet às vezes dão a entender.

Saímos de manhã cedo do albergue eu e Paulino, um rapaz mexicano, junto com Emad, o guia que o albergue nos arranjou. (Não vá sem guia nem por conta própria, ou perderá seu tempo — e isto você está lendo de um viajante independente. O lugar é de difícil acesso sem carro, as distâncias entre os monumentos são extensas para cruzar a pé na terra e debaixo do sol quente, e quase não há infraestrutura de apoio. Leve um litrão de água e coma bem antes de sair. E vá de manhã cedo, ou será torrado.)

Emad — que segundo ele quer dizer “Batista” — acabou sendo essencial para dar todas as explicações da rica história egípcia e das minúcias da construção das pirâmides e de suas funções, além da esfinge e de outras ruínas antigas que fomos ver na região. Ele era um chapa de seus 45 anos ligeiramente rechonchudo e tranquilo. Era árabe, mas fazia parte da minoria cristã de 10% da população egípcia. Falava espanhol e português bem, e era fã apaixonado de Paula Fernandes. 

Pássaro de Fogo. Adoro.“, dizia ele tranquilo no banco do carona do carro enquanto o motorista dirigia e eu e Paulino sentávamos atrás.

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Gizé é um subúrbio do Cairo que virou um município próprio, adjacente, e que é nada menos que a terceira mais populosa cidade do Egito. É uma grande zona pobre, desse nível aí que você está vendo. É uma imundície muitas vezes maior que no Brasil.

A cidade se detém apenas quando chegamos nas imediações das pirâmides. Estas acabam servindo de fronteira entre a urbanização desordenada e o ermo do deserto. (Se você tirar a foto do lado “errado”, verá toda aquela favela ao fundo, e até uma placa empoeirada da Pizza Hut a 100m em face à esfinge.) 

Mas não quebremos o clima.

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Turistas chegando para visitar a grande pirâmide.
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Emad nos conduzindo lá em cima.

As pirâmides sempre foram razão de fascinação e deslumbramento por parte de muitos povos. Essencialmente, elas eram erigidas para servirem de mausoléus aos faraós, cada qual com a sua. Quéops foi pai de Quéfren, que foi pai de Mikerinos. Todos os três reinaram na 4a dinastia, no século XXVI a.C. 

Os egípcios antigos tinham uma religião bastante complexa. Eu abordarei diferentes elementos dela ao longo dos próximos posts; por ora, vale saber que os egípcios acreditavam que cada pessoa tem um espírito imaterial que persiste após a morte, e que eles chamavam de Ka. Em pinturas antigas no interior de tumbas faraônicas, é comum ver o corpo morto no sarcófago e o Ka do faraó retratado em meio aos deuses como se fosse uma pessoa.

As pirâmides incluíam também posses do faraó e oferendas (ex. alimentos) a ele. Os egípcios não eram burros e sabiam que o defunto recém-mumificado não se levantaria para comer frutas; a crença era que o kau (a “energia”) daquelas oferendas é que seria consumida. É semelhante ao que é hoje comumente feito no budismo ou nas religiões afro-brasileiras, onde há oferendas de alimentos a entes espirituais.

Só que nestas pirâmides aqui não espere encontrar mais nada, sequer pinturas ou ilustrações nas paredes. Elas são muito antigas — a maioria das ilustrações que permanecem hoje datam de um milênio mais tarde, dos idos de 1500 a.C. ou depois. Além disso, quase todas as pirâmides foram roubadas nas dinastias seguintes, antes mesmo que povos não-egípcios viessem aqui. É talvez essa a principal razão para elas terem “saído de moda” após a 18a dinastia em 1525 a.C. Os egípcios perceberam que elas chamavam a atenção de todos os ladrões para um lugar perfeitamente visível e recheado de tesouro. Ademais, elas eram muito custosas para construir.

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Naquele chão seco, com as três pirâmides lá ao longe.
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Vista para a Pirâmide de Quéfren, a segunda maior, e a única que ainda tem (no topo) parte da camada externa (lisa) que cobria as pirâmides inteiras.

Terremotos há muitos séculos fizeram ruir a camada lisa de pedra calcária branca polida que revestia as pirâmides. Restou apenas aquela parte superior da Pirâmide de Quéfren. Imagine o que eram essas estruturas reluzindo o sol antigamente. 

Estima-se o uso de milhões de blocos de pedra calcária (esta mais escura, e sem o tal polimento) para compor cada pirâmide, além de blocos de granito trazidos lááá do sul do Egito para dar firmeza. 

Há teorias e teorias sobre como elas foram erigidas. Algumas falam em estruturas de madeira depois desmontadas, outras em morros de areia depois retirados dali. A ideia de que elas foram construídas com base em trabalho escravo é querida por Hollywood devido à crença judia de que eles escaparam daqui do jugo do faraó, mas historicamente isso é questionado. Há quem fale em trabalho hábil e hierarquicamente organizado, como uma milícia de construtores executando esses trabalhos milimetricamente tão bem calculados.

A Pirâmide de Mikerinos (chamado originalmente de Menkaure na antiga língua egípcia) tem 65m de altura, e 102m em cada um dos quatro lados da base.

A Pirâmide de Quéfren (chamado de Khafre à época) tem hoje 136m de altura, e 215m em cada lado da base.

A Pirâmide de Quéops (nome dado pelos gregos antigos ao faraó Khufu), a maior das três, tem 138,8m de altura hoje (eram 146,5m, mas a camada mais externa ruiu), e são 230m em cada lado da base.

São enormes. Quando você vê de perto, parecem verdadeiras montanhas diante de você, com alguns blocos individuais já maiores que você.

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Diante da grande Pirâmide de Quéops. (Há a possibilidade de pagar 200 libras egípcias, cerca de 70 reais, para entrar nela, mas não há nada dentro. Você vai pagar para entrar por um túnel e sair.)
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Clichezão. (Olhe o tamanho do bloco!)
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O que resta do pedestal de granito numa das pirâmides. Estes blocos foram trazidos de Assuã, quase 1000 quilômetros a sul daqui, pelo Rio Nilo.

E a esfinge?

A esfinge, também toda em pedra calcária, data do reinado de Quéfren (2558-2532 a.C.), e se imagina que seu rosto representa o do próprio faraó, num corpo de leão. Fazia parte do templo a ele nas proximidades da respectiva pirâmide.

A ideia do enigma da esfinge só surge muito mais tarde (no tempo dos gregos antigos, 2000 mil anos depois), e daí é que também vem o seu nome: do grego sphingo, “estrangular”. Não se sabe de onde os gregos tiraram essa história ou se eles próprios a inventaram, mas diziam ela era um guardiã que lançava uma charada aos viajantes que chegavam, e os devorava se eles errassem.

A mais clássica charada da esfinge, contada pelos gregos, é a: Qual criatura anda com quatros pés de manhã, dois pés ao meio-dia, e três pés à noite? “O homem”, teria respondido corretamente Édipo, de acordo com os gregos.

Há ainda relatos de uma segunda charada, mais rara: Há duas irmãs, uma dá a luz à outra, e a outra à primeira. Quem são as duas irmãs?

A resposta são a noite e o dia, que em grego são nomes femininos. Mas tudo isso pode ter sido apenas criatividade grega. Não se sabe o nome original que os egípcios davam à esfinge.

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O que resta da esfinge, com a Pirâmide de Quéfren logo atrás.
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A esfinge vista de lado, com o corpo de leão ainda perceptível.

Leva algumas horas para visitar todo o complexo. É impressionante e sem dúvida uma visita única. É uma questão menos de beleza e mais de internalizar, com respeito, a antiguidade daquilo que está diante de você. 

E se você ficou curioso quanto ao guia apaixonado por Paula Fernandes, ou pelo que eu disse sobre a parte urbana de Gizé, veja o vídeo abaixo. 

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

8 thoughts on “Visitando as Pirâmides de Gizé e a Esfinge no Egito

  1. uuuuuuuuuuuuuufffaaaaa. vi de uma sentada só, de olho arregalado e quase num fôlego só. Impressionante, maravilhosa, estupenda visão e com certeza deve ser acompanhada do respeito que nos deve tamanha obra de arte e seu povo. Fiquei fascinada. Enormes, ricas de história e cultura. Merecem ser apreciadas detidamente, vistas e revistas à luz do seu povo e da sua história. Impressionantes. a maior duas vezes em altura o elevador Lacerda em Salvador. a menor quase da altura dele. Imagine isso com as bases largas. Muito bonitas. Adorei. Muito bonita postagem. Histórica. Uma obra magnifica desses grandes engenheiros da antiguidade. os povos egípcios, como os os demais povos africanos precisam ser resgatados e revisitados. Parabens viajante, Adorei.

  2. Olá Mairon!!!

    Que incrível seus relatos do Egito. Você tem um dom para a escrita que é incrível, parabéns. São poucas as pessoas que conseguem descrever tão bem e de uma maneira tão didática e completa a complexidade da história do Egito.
    Dentre os post que eu li sobre o Egito, não li menção alguma sobre o famoso passeio de balão em Luxor. Você chegou a fazer? Qual a sua opinião sobre?
    Eu também tenho o perfil de viajante independente, porém sei que existem lugares que é crucial a contratação de um guia. Além de Gizé, qual outra cidade vc indicaria a contratação? Poderia, por favor, me passar o contato de Emad.
    Para finalizar, você chegou a conhecer a região do mar vermelho? Caso tenha ido, quais são as suas dicas.
    Já me antecipo e agradeço pela atenção e por toda a informação que vc nos oferece.

    1. Obrigado, Carolina! Muita gentileza sua! Fico contente que tenha gostado dos meus relatos no Egito.

      Vamos às suas perguntas. O passeio de balão em Luxor e a costa do Mar Vermelho acabaram ficando pra uma outra viagem no futuro, mas ouvi boas recomendações sobre ambos, sobretudo o passeio de balão. Além de Gizé, eu recomendaria contratar guia para o Vale dos Reis e lado oeste do Nilo em Luxor (o qual tirei por meras 50 libras egípcias), para ir a Abu Simbel a partir de Aswan, e, se você desejar detalhes, no Templo de Karnak, que é bem extenso e um guia daqueles que ficam na entrada pode ser útil por uma ou duas horas. Eu infelizmente não tenho o contato do Emad, mas o pessoal do Freedom Hostel pode talvez lhe ajudar a contactá-lo.

      Por fim, não deixe de conferir a lista de dicas sobre o Egito neste post. Qualquer outra dúvida, é só dizer 🙂

      1. Mairon,

        Agradeço imensamente pelos esclarecimentos e pela prontidão na resposta.
        Sua lista de dicas sobre o Egito super me ajudaram, assim como os demais posts 😉
        Obrigada

      2. Fico contente em saber, Carolina!
        E, se ainda estiver em tempo, eu mexi os pauzinhos e obtive o contato do Emad. +20 122 360 7639. Recomendo agendá-lo com certa antecedência. O custo total é fixo; se forem várias pessoas, sai mais barato pra cada um. Ou você pode ver com ele se já há algum grupo de falantes de português ou espanhol com quem você queira se juntar, se preferir ratear o preço. Boa viagem! 😉

  3. Olá! Adorei os relatos sobre o Cairo e pirâmides. Uma questão.. por acaso você teria o contato do seu guia (Emad)? Estou indo para o Egito em 03 de janeiro/2018 e gostaria muito de alguém de confiança que faça o passeio. Obrigada!

    1. Oi Carolina!
      Aqui vai o contato do Emad. Ele é bem legal, competente, e bom fotógrafo ;-). +20 122 360 7639. Só recomendo agendá-lo com certa antecedência. O custo total é fixo; se forem várias pessoas, sai mais barato pra cada um. Ou você pode ver com ele se já há algum grupo de falantes de português ou espanhol com quem você queira se juntar, se preferir ratear o preço.
      Boa viagem! E qualquer dúvida, estamos aí.

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