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A estátua gigante de Ramsés e a necrópole de Saqqara (com a Pirâmide de Djoser, a mais antiga do mundo)

Nem tudo do Egito Antigo nas vizinhanças do Cairo se limita às Pirâmides de Gizé.

No século XXXI a.C. (é isto mesmo, não há erro de digitação) foi aqui fundada Mênfis, que se tornaria a capital do Egito a partir da 3a dinastia, por volta de 2600 a.C. (Antes disso havia sido Tinis, mais a sul, uma cidade ainda mais antiga e nunca encontrada nas areias do deserto, do tempo em que o Egito ainda não era um reino unificado.) Foi no tempo de Mênfis capital que as pirâmides de Gizé foram erigidas, mas elas não são as mais antigas ainda de pé.

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Eis a Pirâmide de Djoser, a mais antiga do mundo ainda em pé.

Djoser foi um faraó do século XXVII a.C. — antes de Quéops, Quéfren e Mikerinos —, e cujo vizir Imhotep lhe construiu essa pirâmide. O vizir no Egito Antigo era uma espécie de primeiro-ministro do faraó, quem resolvia de fato os assuntos do dia-dia. Ao contrário do que se vê em filmes como A Múmia (1999), a função do vizir era muito mais administrativa que de “alto sacerdote”, embora não houvesse distinção entre Estado e religião nessa época.

Imhotep, na verdade, é considerado o primeiro arquiteto e o primeiro engenheiro conhecido da História — numa época em que as duas profissões, obviamente, não estavam dissociadas. E essa pirâmide é considerada o primeiro monumento de pedra construído pelo ser humano.

(Cabe-me dizer que, ao mesmo tempo, em Caral, na costa do atual Peru, a civilização antiga de Norte Chico estava prestes a começar a construir pirâmides também. Estão lá. Se você está surpreso ao saber que as civilizações antigas das Américas fizeram tanto, atualize-se com este post aqui.)

A Pirâmide de Djoser implicou o início de toda uma tradição de grandes trabalhos monumentais no Antigo Egito, com a mão-de-obra de dezenas de milhares de homens. Ela, como você certamente percebeu, é uma pirâmide de degraus, como as das Américas. As pirâmides lisas só surgem posteriormente.

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A Pirâmide de Djoser, a mais antiga do mundo, com seus 62m de altura.
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Quem entra?
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No interior não há baús de ouro, mas muitíssimos hieróglifos. Só um egiptólogo pra ler tudo isso aí. Porém, não imagine que seja tudo esoterismo ou misticismo; o mais comum é serem informações sobre os indivíduos. É afinal dos escritos hieroglíficos que temos as informações que temos sobre o Egito Antigo.
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A entrada para o complexo adjacente à pirâmide. (Esses tiozinhos funcionários estão por toda parte nos monumentos. Se você der mole, eles te chamarão pra mostrar isso e aquilo, ou até tirar fotos em lugares onde não é permitido, e depois te cobrarão uma gorjeta pelo favor.)
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Quem disse que os gregos é que inventaram as colunas?
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A saída do outro lado. Nos tempos antigos, aqui havia saguões cobertos onde realizavam-se festivais para o faraó.

Isso tudo ficou pronto com o faraó Djoser ainda em vida, e ele participava periodicamente do festival egípcio de Heb Sed, realizado a cada 3 ou 4 anos para reafirmar a majestade do faraó. A ideia de construir este complexo e sua pirâmide ali tão perto era exatamente para que Djoser continuasse a “participar” das honras mesmo após a morte, quando os faraós seguintes viessem a habitar aqui e a realizar seus festejos.

Imhotep também construiu uma tumba especial para si próprio, que nunca foi encontrada — daí as especulações místicas que inspiraram o filme A Múmia original de 1932, seu remake de 1999, e o mais novo agora previsto para 2017.

Toda esta área, onde depois viriam a ser construídas centenas de tumbas e de pirâmides outras (de menor expressão) compõe a chamada Necrópole de Saqqara.

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Com efígies antigas ali em Saqqara.
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Com um dos tiozinhos (este um tiozão) que tomam conta dos monumentos e meu amigo mexicano Paulino. (Não, não teve gorjeta; o tio quis uma foto conosco e foi chegando.)

Adiantemos em 1000 anos a fita da história egípcia. Estamos agora em 1250 a.C., no tempo do faraó Ramsés II, um dos mais famosos. 

Ramsés reinou como faraó por 66 anos, realizou 14 festivais Heb Sed para reafirmar a sua majestade, e liderou campanhas militares para expandir o poder egípcio a norte e a sul. Ele conquistou territórios tanto na Núbia, a sul do Egito, quanto no Levante, adentrando assim a Ásia. Ele é que os gregos antigos viriam a chamar de Ozymandias, numa transliteração de seu epíteto User maat re (“poderosa justiça de Rá” [deus sol]). 

Nesse período, já a 19a dinastia, a capital era Tebas (mais a sul, à margem do Nilo), mas era num templo aqui em Mênfis que ficava a maior estátua conhecida de Ramsés — um colosso de 11m de altura e 83 toneladas de puro granito.

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É praticamente o Daileon. Estátua colossal de Ramsés II, em puro granito, hoje num pequeno museu a céu aberto em Gizé. Dizem que irá para um vindouro Grande Museu Egípcio, a ser aberto em 2018. A ver.
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Com uma outra estátua de Ramsés, esta menor, na área aberta do museu. A perna adiantada, dando um passo para frente, é característica das estátuas egípcias de pessoas vivas. Diz-se que era para simbolizar que a pessoa ainda caminha, que não faleceu.
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De mais perto.

 

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E uma esfinge, pois aquela mais famosa é a mais antiga mas não é a única. A moda pegou.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

11 thoughts on “A estátua gigante de Ramsés e a necrópole de Saqqara (com a Pirâmide de Djoser, a mais antiga do mundo)

  1. Adorei. Já estive por lá mas suas explicações são enriquecedoras. Este ano, ainda, pretendo ir a Eslovenia, Bosnia, Croácia. Vc teria algumas dicas para me orientar? Inclusive os transportes, visto que sairei do Rio de Janeiro., Mês de setembro. Muito obrigada.

    1. Oi Teresa, tudo bom? Legal saber que você também visitou o Egito! A Eslovênia, a Bósnia e a Croácia são lindas! Você vai amar, e setembro é um bom mês, pois o pico das férias de verão dos europeus já terá passado, mas os dias ainda estarão bonitos e longos. Lá naquela região as conexões de trem funcionam muito bem, e você sequer precisa comprar passagens antecipadamente. Confira estas seções da minha página e veja se lhe ajuda (ou lhe inspira ainda mais 😉 ). Qualquer pergunta, põe lá nos comentários.

      http://maironpelomundo.com/category/eslovenia/
      http://maironpelomundo.com/category/croacia/
      http://maironpelomundo.com/category/bosnia-e-herzegovina/

  2. Uaaauu que deslumbrante essa postagem, que belezas esses monumentos, Maravilhosas essas estátuas, pirâmides, esfinges símbolos de uma rica e imorredoura cultura/civilização. Um espetáculo. Parece de ouro. Linda a cor dessas pedras.
    Curioso detalhe da perna para significar vida, ação. Curioso também o ser a esquerda.
    Linda postagem, maravilhosa civilização Portentosas obras de arte. Eram grandes arquitetos/engenheiros, agricultores, médicos. Eram famosos seus canais e aproveitamento das enchentes do Nilo.
    Impressionante esta imensa e linda estátua de Ramsés II. Segundo contam, se não me engano, foi sob o reinado dele que os judeus saíram do Egito, comandados por Moisés, após anos de cativeiro com a famosa história da abertura do mar Vermelho, a passagem a ”pé enxuto” dos judeus , o retorno das águas apos a saída dos judeus e a morte dos soldados de Ramsés II tragados pelas águas.
    Pois é… os gregos levaram a fama mas aprenderam muita coisa com os povos que conquistaram assim como Roma, Portugal, Espanha e outros. Mais uma vez a Africa marca o seu ponto como inicio de muitas das manifestações culturais atribuídas a outros povos. Viva a mama África. Ponto para o resgate, haha.

  3. Bom dia, Mairon!

    Estou terminando o planejamento de minha viagem para o Egito e gostaria de saber se é possível visitar o complexo de Saqqara no mesmo dia que Gizé.

    Obrigado!

    1. É, sim, Fábio!
      Inclusive, é habitual que os tours ou passeios privados fechados com guia e transporte incluam tanto Gizé quanto Saqqara e os demais pontos neste post. O costumeiro é que se visitem as atrações em Gizé pela manhã (pirâmides + esfinge), almoço, e de tarde as atrações deste post.

      Bom passeio! Qualquer dúvida, estou às ordens.

      1. Obrigado, Mairon!

        Estou embarcando dentro de uma semana para o Egito (incluindo Jordânia e Israel na viagem) e estou nos ajustes finais do roteiro. A dúvida surgiu porque vi muitos blogs que dividiam esse trecho em dois dias, outros como o seu em apenas um, que é a forma que pretendo fazer. Será uma viagem independente, como habitualmente costumo fazer e seus textos foram muuuuuuito úteis em meu planejamento. Terminada a viagem te darei o meu feedback.

        Obrigado

      2. Obrigado, Fábio!
        Eu fico contente que os meus relatos tenham te ajudado. Seu feedback atualizado será muito bem vindo!
        Abraços e ótima viagem!

  4. Olá Mairon,
    Estou há mais de 20 dias viajando e agora quase concluindo todo meu roteiro pelo Egito. Volto dentro de 5 dias e no momento estou no Mar Vermelho aproveitando alguns dias de praia. Sei que não é a melhor forma mas estou colocando alguns feedbacks que achei importante (dicas pessoais e algumas impressôes) em alguns de seus posts sobre sua viagem no país. Agradeço suas publicações neste site, que foram uma fonte importante de pesquisa para mim, além de sua prontidão para responder dúvidas pessoais nos comentários. Espero que com meus comentários esteja acrescentando algo ao seu blog e ajudando alguns viajantes da mesma forma que fui ajudado. Obrigado

    1. Olá Fábio,
      Muito obrigado por essas informações! Eu fico contente que os meus relatos tenham lhe ajudado, e agradeço o feedback atualizado e as informações adicionais. Certamente são muito úteis. No geral, eu percebo que o Egito parece ter mudado muito pouco de 2 anos pra cá.
      Ótima conclusão de viagem aí pra você, e um abraço

  5. Olá Mairon,

    Não sei exatamente a data que você viajou, mas aproximadamente em novembro de 2016 houve uma grande desvalorização cambial no país, com o valor da moeda caindo pela metade. Segundo alguns egípcios que conversei os salários e outras despesas não acompanharam essa tendência, e com isso a população empobreceu ainda mais. É mais um golpe na já sofrida população do país cuja queda no turismo dessa década também teve forte impacto na vida deles. Tentei sondar algumas informações políticas, mas as pessoas ficam bem em cima do muro por aqui. Logo que cheguei o presidente se reelegeu com uma votação próxima aos 100% (o que traz dúvidas sobre a credibilidade do processo eleitoral) e as menções que ouvi sobre ele eram do tipo “bem intencionado, mas as ações não tem surtido o efeito desejado na economia”. Sei também, porque vi alguns materiais de propaganda, que ele tinha um forte discurso anti-terrorista. Aliás, egípcios simplesmente odeiam radicais islâmicos e culpam eles pela redução no turismo, o que é parcialmente verdade.

    Percebi também uma grande preocupação com segurança no país. Locais de grande circulação de pessoas e pontos turísticos sempre com detectores de metais e policiais por perto, e locais mais “críticos” como o bairro copta inclusive com blindados e soldados com fuzis. Aconteceu algo meio bizarro comigo em minha última noite no Cairo. Fui acordado por um funcionário de meu hostel em torno de 3 ou 4h da manhã. Ele disse que a polícia estava lá e pediu meus documentos, o que prontamente atendi entregando o passaporte. Após uns 2 minutos ele voltou perguntando o dia que cheguei no país e lhe entreguei o canhoto de minha passagem aérea. Creio que isso foi suficiente pois em seguida ele devolveu meus documentos e se desculpou. Infelizmente não o encontrei na manhã seguinte para perguntar se aquilo era comum e entender os motivos da vinda da polícia.

    Minha primeira impressão no Cairo foi de uma cidade “bombardeada”. Edificações não totalmente finalizadas, algumas em péssimo estado. Sem falar no estranho hábito que vi por lá de moradores abandonarem entulho nas lajes de cobertura dos prédios. Outra coisa estranha eram elevadores sem porta e muitas vezes com seu fosso desprotegido, o que trazia uma certa sensação de insegurança.

    Me surpreendi positivamente com o povo egípcio. Vi muitos blogs relatando críticas (algumas pesadas) ao comportamento deles, com menções de grande assédio aos turistas, gente pedindo dinheiro para tudo, etc. No Cairo não tive nenhum problema. Bastava ignorar os poucos vendedores e comerciantes que vieram me oferecer produtos. Achei o povo egípcio também bem amigável. Sempre me ajudaram (sem pedir nada em troca) nas vezes que perguntei algo na rua. Aliás, sempre tive uma sensação de segurança muito grande ao andar pelas ruas (algumas bem feias) do país. As grandes metrópoles brasileiras são muito mais inseguras do que o Egito em termos de criminalidade. Finalizando a questão do assédio, percebi que ele é maior em cidades mais focadas no turismo como Luxor, e especialmente nos pontos de parada de cruzeiros, como em Edfu. Provavelmente moradores destes locais devem considerar que passageiros de cruzeiro são pessoas mais ricas que outros turistas.

    Já ouvi menções de outros viajantes relatando problemas de higiene no Egito, desaconselhando comer alguns tipos de alimentos, etc. Pessoalmente não tive problemas, e me surpreendi pelo baixo custo da comida. Um prato grande de koshari, por exemplo, me custou 20 LE (cerca de 4 reais) em Dahab. Meio frango acompanhado com arroz, feijão, salada, legumes, duais fatias de pão sirio e 2 tipos diferentes de coalhada me custaram 10 reais (50 LE).

    Quanto ao transporte viajei de trem, avião e ônibus no país (além de vans, metrô, taxi e uber na cidade do Cairo). Não tive grandes problemas na locomoção, mas vale sempre a dica que você colocou em um de seus posts: sempre negociar o preço com os taxistas antes de entrar no carro e começar a corrida.

    Em minha viagem também passei 6 dias na Jordânia (Amman, Jerash e Petra) e recomendo para quem fizer isso comprar o Jordan Pass o que garante alguma economia em vistos e entradas, assim como alugar um carro economico. Aluguei um compacto que me custou 300 por todo período, e ainda dividi o aluguel com outras pessoas que conheci na viagem. Também passei alguns dias em Dahab e Sharm el Sheikh no mar vermelho. Gostei bastante do litoral, especialmente Dahab. Já Sharm é algo mais no esquema resort, onde você vai e fica “preso” no hotel com todos os confortos por alguns dias.

    Em geral é isso, como você mesmo falou o país aparentemente mudou pouco nesses 2 anos. Concluo por aqui e também te desejo uma ótima viagem pela Mongólia

    1. Muito legal ter estas complementações e atualização suas, Fábio! Fico contente que você tenha tido uma experiência significativa.
      De fato, quando eu estive aí a desvalorização ainda não havia ocorrido, foi pouco antes. Pelo visto, a situação econômica piorou ainda mais.

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