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Monumentos funerários egípcios em Luxor, o Vale dos Reis e a Tumba de Tutancâmon

Estamos em Luxor, no meio do Egito, às margens do Rio Nilo. Aqui ficava a antiga capital Tebas, por volta de 1500 anos antes de Cristo. No post anterior eu relatei as minhas visitas ao Templo de Luxor e ao Templo de Karnak, à margem oriental do rio. Agora vamos à margem poente do Nilo, onde os egípcios antigos enterravam os seus mortos (emulando o pôr-do-sol). Este lugar é um poço de tesouros históricos, e talvez onde eu vi os resquícios egípcios antigos mais bonitos e impressionantes de todo o país.

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A imensa fachada to templo mortuário do faraó Ramsés III, que reinou na vigésima dinastia, entre 1186 e 1155 a.C. Este lugar é conhecido como Medinet Habu, nome medieval dado pelos árabes quando chegaram a esta região.

Primeiro de tudo: Chega-se até aqui com um tour que cobre todos estes lugares de que falarei à margem oeste do Nilo, e que qualquer hotel ou albergue organiza. Eu paguei 50 libras egípcias, mais ou menos o equivalente a 5 euros, mais a gorjeta do(a) guia. Mais do que isso, estão te explorando. (Visitar estes lugares de forma independente é praticamente impossível.)

Na margem oeste do Nilo não há nada, não há cidade, apenas uma vastidão seca e desértica, amarela cor de areia.

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Visitando tumbas no Vale dos Reis. O cenário aqui é assim.

Comecemos pelo Madinet Habu, cuja enorme fachada eu mostrei acima. 

Eu fiquei fascinado por ver decorações egípcias ainda em cores originais. Restauradores descobriram uma substância que limpa a sujeira acumulada sem danificar a pintura. É fascinante ver ilustrações tão antigas ainda visíveis.

Interpretar, aí já é outra história. Saber ler hieróglifos egípcios é para poucos, mas o(a) guia será capaz de lhe explicar muito.

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No interior do Templo Mortuário de Ramsés III (no tempo de antigamente, era coberto).
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Riqueza de ilustrações antigas no interior. As cores são as originais.
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Nessa ilustração em destaque, temos o deus Hórus à direita, com o disco solar de Rá acima da cabeça (os egípcios misturavam os deuses uns com os outros), e o Ankh (a cruz egípcia, símbolo da vida) na mão esquerda. A cruz egípcia, de aro ovalado em cima, deu certamente origem à cruz cristã.
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Teto ricamente detalhado ainda em cores originais de mais de 3000 anos atrás. O falcão de asas abertas também é representação de Hórus. Se você reparar, há também num lado e no outro uma figura feminina com os braços em forma de asas, um pra cima e um pra baixo. Aquela é a deusa Ísis, a esposa e irmã de Osíris e mãe de Hórus.
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Ali no centro da foto temos, com cabeça de chacal, o também notável Anúbis, deus dos mortos. A ideia surgiu porque no Egito Antigo havia chacais que muitas vezes devoravam os defuntos. Então, oremos e peçamos favor à entidade por detrás dos chacais.
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Há desses tiozinhos que tomam conta por toda parte. Eles adoram abordar os visitantes na surdina para mostrar uma coisa e outra. Depois eles te pedirão gorjeta. Se você der 10, eles querem 20; se você der 20, eles vão pedir 40, e assim vai. (Aqui na ilustração, em evidência a planta do papiro, de talo comprido.)
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Selfie básica. (Aquele carinha de vermelho lá atrás vai receber a conta depois.)

Vamos agora ao Mausoléu de Hatshepsut, a mais famosa rainha egípcia do tempo dos faraós. (Cleópatra, ainda mais famosa, viveu na época do Império Romano, muito depois do tempo dos faraós.) Hatshepsut governou todo o Egito por 20 anos, entre 1478-1458 a.C. Seu nome quer dizer “a maior das damas nobres”.

Ela não se disfarçou de homem nem nada — não era comum, mas acontecia raramente de haver uma faraó mulher. Ela não foi a primeira (Sobekneferu, outra mulher faraó, o havia feito já 400 anos antes).      

E para que você não duvide do talento astronômico dos egípcios antigos, vale saber que esse templo mortuário (reverenciando o deus Amon) recebe um raio de luz que o atravessa até a última câmara no nascer do sol do dia 22 de dezembro, o solstício de inverno (dia mais curto) do hemisfério norte.

O dia 25 de dezembro é o primeiro do hemisfério norte em que a duração dos dias começa a aumentar, o que era interpretado como a vitória do sol sobre a escuridão (do inverno e da noite). Daí tantas tradições mitológicas antigas da Europa e do Oriente Médio usarem o dia 25 de dezembro como “dia do nascimento” de suas divindades. Desnecessário dizer que foi daí que a Igreja pegou a ideia, pois a celebração já era feita antes do Cristianismo. (Quanto à data real de nascimento de Jesus, estima-se que tenha ocorrido mais pra perto do meado do ano, quando de fato os pastores poderiam estar com seus rebanhos nos campos.)

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O Templo Mortuário de Hatshepsut, hoje restaurado, em meio à paisagem desértica da margem oeste do Rio Nilo.
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Nesta entrada do templo mortuário de Hatshepsut, perceba as figuras falecidas (de pernas juntas e braços cruzados sobre o peito) com os símbolos do ankh (a cruz egípcia simbolizando a vida eterna) e o cajado do pastor, símbolo de poder do governante. Elas misturam a figura da faraó com a do deus Osíris, cujo mito já incluía morte e ressurreição, e que portanto simbolizava também a perspectiva de ressurreição e vida após a morte para as pessoas.
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Acima, o céu estrelado. À esquerda, Osíris. À direita, Anúbis. Todas as cores são as originais.
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Oferendas a Hórus, deus dos céus, de cabeça de falcão, e que passou a ser associado a deus Rá, do sol. O culto em dado momento passou então a ser a Ra-Horakthy, entendendo o sol como um dos olhos de Hórus. Percebam ali no centro da foto o famoso “Olho de Hórus”, que tudo vê. Esse, no entanto, era o olho esquerdo, enquanto que o sol é o direito. No mito, quando Osíris morreu (antes de ressuscitar), Hórus batalhou com Seti pelo trono de rei dos reis, e nisso perdeu um dos olhos. Esse olho seria depois restaurado pela deusa Hathor, da lua, que em seu minguar e crescer no céu representa o regenerar desse olho de Hórus. O olho arrancado Hórus entregou a Osíris para tentar revivê-lo, daí ele ser símbolo de cuidado, proteção, etc. Daí a humanidade saiu disso pra ouvir Eguinha Pocotó no século XXI.

Por fim, vamos à Tumba de Tutancâmon e ao Vale dos Reis

Tutancâmon foi um faraó que reinou entre 1332-1323 a.C., e que morreu jovem, aos 18 anos. Ele foi polêmico por reverter uma série de mudanças religiosas que seu pai, Amenófis IV, havia feito. 

Amenófis havia tomado a radical decisão de banir o tradicional culto ao deus Amon, e substituí-lo pelo culto ao deus Aton exclusivamente. Aton era interpretado aí como o deus acima dos deuses, das estrelas. Aquele faraó adotou assim o nome de Akhenaton. A mudança havia sido controversa, e quando ascendeu ao trono Tutancâmon a reverteu. O nome original de Tutancâmon era, na verdade, Tutancaton (Tut Ankh Aton, ou “imagem viva de Aton”), e ele o trocou por Tut Ankh Amon (“imagem viva de Amon”).

Por que a tumba de Tutancâmon é tão famosa? Porque foi a única até hoje encontrada quase intacta. Era típico e notório do Antigo Egito que se arrombassem as tumbas de gente rica pra roubar o que havia dentro. A grande maioria dos túmulos egípcios foram pilhados ainda na própria época dos faraós. Dizem, inclusive, que esta foi das principais razões pelas quais eles nos idos de 2000 a.C. deixaram de fazer grandes pirâmides e optaram por tumbas mais reservadas, escondidas. No caso de Tutancâmon, sua tumba estava por baixo de outras câmaras que haviam sido arrombadas. Descobriram-na apenas em 1922.

Até uma adaga feita com ferro de meteorito foi encontrada na tumba de Tutancâmon. (Descobriu-se isso com análises químicas em 2016, pelas concentrações de diferentes elementos e que correspondem aos de meteoritos que caem na Terra.) 

Quase todo o conteúdo da tumba está exposto hoje no Museu Egípcio, no Cairo, ou está em laboratórios mundo afora. A decoração, contudo, permanece, assim como a múmia, que não quiseram tirar daqui por medo da notória “maldição dos faraós”, sobre quem perturba o seu sono. É sério. A múmia permaneceu, e vocês podem ler mais a respeito aqui.

Não é permitido tirar fotografias de nenhuma das várias tumbas no Vale dos Reis, incluindo a de Tutancâmon. PORÉM, estas fotos originais, coloridas digitalmente, de quando a tumba foi aberta pela primeira vez, acabaram de ficar disponíveis este ano. Deixo vocês com elas.

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O interior da câmara quando descoberta, com o sarcófago dourado e as ilustrações nas paredes. Essas ilustrações em cores, de quase 3500 anos atrás, continuam exatamente assim, como se tivessem sido pintadas ontem. É impressionante. (Foto: Harry Burton, Griffith Institute.)
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A parte superior do sarcófago, com a múmia de Tutancâmon. (Foto: Harry Burton, Griffith Institute.)
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A múmia de Tutancâmon sendo descoberta. Ela se encontra hoje no Museu Egípcio, no Cairo. (Foto: Harry Burton, Griffith Institute.)
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Arcas de tesouro na tumba e uma representação da deusa Hathor, simbolizada por aquela cabeça bovina. A última arca continha o estômago, intestino e pulmões de Tutancâmon envolvidos no pano, como habitual na mumificação. Fenomenal, hein? (Foto: Harry Burton, Griffith Institute.)
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

4 thoughts on “Monumentos funerários egípcios em Luxor, o Vale dos Reis e a Tumba de Tutancâmon

  1. Lindissima essa primeira parte. Magnificas essas construções, ricas de significados, de vida e de história dessa impressionante civilização egipcia. Monumentais essas estruturas, linda religiosidade e singelas e deslumbrantes tons. Lindas cores. Essa religiosidade, esse cuidado com os mortos, a grande viagem como eles diziam que eles faziam , toda essa simbologia é de uma elevação, de uma grandeza e beleza ímpares. Maravilha. Colirio para os olhos. grande Tebas. De tantas histórias e lutas.
    Triste decadência da humanidade: do Egito à “eguinha pokotó!… pobre ser humano!…”O grande drama da raça humana” no dizer de Burns na sua Historia das civilizações. Dispensa outros comentários. Por si só se explica.

  2. Linda essa representação dos papiros e suas folhas. E o céu azul cobalto dá um efeito indescritível às ruinas. Lindíssimo. As rochas parecem douradas, à luz do Sol.
    Esse complexo mortuário com seus hieróglifos, suas belas colunas, é lindo!… Imagine isso cheio de vida!… Histórico e lendário Vale dos Reis.

  3. Uaau. Impressionantes essa tumba e essa múmia de Tutankâmom. linda e ricamente decorada. De tirar o fôlego. Perfeitos esses artistas. Expressão plácida.
    Que maravilha de arte, de técnica e de materiais usados nessas pinturas que varam os séculos e se apresentam como se feitas ha pouco. e as cores , então, lindíssimas. Isso para não falar na simbologia que é uma beleza à parte. Imperdíveis. linda postagem, bela visita,

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