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A Núbia ontem e hoje: Entre os negros do Egito

Essa senhora é egípcia. Embora não estejamos habituados a pensar nos egípcios como negros, muitos deles são, sobretudo aqui no sul do país.

Há um debate muito grande sobre a real aparência racial dos egípcios antigos. A Europa e os Estados Unidos, sabendo da grandeza da civilização egípcia antiga, sempre os identificaram como brancos amorenados (afinal, partiram do princípio que negros jamais teriam sido capazes de fazer algo tão grandioso). Isso, curiosamente, tem influência até hoje, em que nos EUA se você for de origem norte-africana ou turca, você é classificado no censo como branco — e vocês sabem que classificação racial é tudo nos EUA, determina as suas chances de receber crédito no banco, de onde consegue financiamento para morar, onde estuda, etc. (Apenas agora, com esta paranoia de terrorismo muçulmano, eles estão revendo sua classificação e definiram que a partir de 2020 as pessoas de origem norte-africana ou do Oriente Médio serão segregados em sua própria categoria — um grande avanço no século XXI.)

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Estátua de Horemakhet, um Alto Sacerdote de Amon durante a 25a dinastia egípcia (760-656 a.C.). Um homem de claras feições núbias. Original no Museu Núbio, que visitei na cidade de Aswan.

Não vou entrar no debate racial sobre o Egito Antigo. O que quero realçar é que, sem dúvida, os egípcios antigos tinham como vizinhos ao seu sul a Núbia, uma região de população negra e que fazia a conexão do Egito com a África tropical, das florestas, gorilas e elefantes. Havia um intenso comércio pelo Rio Nilo que nutria esta região — e, caso você não saiba, o Rio Nilo não banha apenas o Egito, mas também os atuais Sudão e Etiópia. Ou seja, ele vem de longe.  

A relação da Núbia com o Egito sempre foi mista. Por oras guerras, por outras paz com comércio próspero. Por muito tempo a Núbia foi submetida como território dos faraós egípcios, mas num dado período os próprios núbios chegaram a conquistar seus vizinhos do norte e fazerem-se faraós. 

Curiosamente, muita gente se chama “Núbia” e nem sabe a origem do nome.

Se de norte a sul havia o Baixo Egito (região do delta do Nilo no Mar Mediterrâneo) e depois o Alto Egito, este era seguido pela chamada Baixa Núbia e depois a Alta Núbia, onde fica hoje o miolo do atual Sudão. 

Sua cultura compartilhava muito com a cultura egípcia, até o ponto de serem praticamente indistintas em alguns aspectos. Marfim, ouro, incenso e madeira de ébano eram dos principais produtos que os núbios vendiam aos egípcios.

Foi em 760 a.C. que os núbios lançaram uma ofensiva rumo ao norte e conquistaram os territórios egípcios, estabelecendo ali a 25a dinastia de faraós. Seriam derrotados um século depois pelos Assírios, quando atacaram também a Palestina. Retornariam os núbios a dominar “apenas” do Alto Egito para o sul.

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Representação de um vilarejo núbio, no Museu Núbio, na cidade de Aswan. A arte núbia é em geral bastante colorida.
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Placas antigas mostrando núbios em trajes oficiais. No Museu Núbio, em Aswan.
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Estátua de Ankhnesneferibre, uma princesa filha de um dos faraós de origem núbia. (Agora repita rapidamente comigo o nome dela…)

O Museu Núbio é um lugar fabuloso. Parada obrigatória para quem vem a Aswan. Você aprende tudo aquilo que não lhe disseram na escola sobre estes vizinhos do povo egípcio.

Mas e os núbios hoje? Afinal, a minha visita aqui não se deu no passado. Mostro-lhe o dono da pousada núbia onde me hospedei, que tem uma foto sua risonho na parede de entrada.

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Foto do dono da pousada onde fiquei, num vilarejo núbio ao lado da cidade de Aswan.

Não deixe o sorriso do meu animado anfitrião o enganar: os núbios hoje são um povo pobre, culturalmente marginalizado, e que não têm um estado que zele por sua identidade como povo. O Sudão é governado pelo maníaco do Omar Al-Bashir, acusado de genocídio e crimes de guerra na Corte Internacional de Haia; e o Egito pouco liga para esta minoria núbia no seu sul.

Apresento-lhes Gharb Sehel, um vilarejo núbio vizinho de Aswan, um destino popular entre os turistas que vêm até aqui.  

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Eis o vilarejo núbio Gharb Sehel aonde cheguei, cá no sul do Egito.
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Estamos à margem do Rio Nilo. Do outro lado está a cidade de Aswan, a maior do sul do Egito. A cidade é até arrumadinha, embora pobre. E aqui no vilarejo núbio, grande precariedade. Se estiverem a se perguntar sobre a língua, hoje em dia todo mundo fala árabe, embora alguns aqui conheçam e falem também a língua núbia.
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Já há pelo menos uns 500 anos a população daqui é praticamente toda muçulmana. Eis uma mesquita construída em estilo núbio, com seu teto arredondado característico e um jogo de cores.
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Vendinha por onde passei na rua. “Carrefour Núbio”
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Senhora com bandeja de produtos à venda na cabeça.
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Crianças brincando.
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De outro ângulo. Os núbios (pelo menos aqui) parecem adorar os tons azuis.
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Interiores decorados. Como este vilarejo recebe visitas turísticas, é comum que muitas casas estejam abertas e te ofereçam um chá, etc., e depois você pode dar um “agrado”.
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Vendedor de especiarias na rua. Ele dizia que todas eram especiarias típicas núbias, mas é claro que não são. Aí há uma combinação de tudo. O cara era simpático, apesar da mentira de vendedor.
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Com a senhora da foto inicial.

Eles aqui são zoeiros, apesar de todos os pesares. Não me esqueço de quando parei para tomar um chá preto, por 5 libras egípcias (menos de R$2), e o dono do bar estava numa roda de conversa com outros homens. Disse que eu pagasse depois. Quando escutavam que eu era brasileiro, o clima sempre ficava mais mais descontraído. O dono do bar me serviu o chá e deu as costas para ir conversar com outras pessoas, quando então um dos outros homens se virou pra mim com aquela cara descarada de “Espia o que eu vou fazer com ele”, e declarou alto: “Esse chá é cortesia! Hospitalidade núbia!” O dono do bar virou-se de repente assustado, dizendo que não, não, queria as 5 libras. Todos caíram na risada, eu assegurando a ele que ficasse tranquilo, que lhe pagaria.

E assim tomei meu chá naquele fim de tarde à beira do Rio Nilo.

No próximo post eu conto mais o que eu aprontei — e o que me aprontaram — por aqui.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “A Núbia ontem e hoje: Entre os negros do Egito

  1. Muito obrigado por nos propor essa riqueza cultural nubia. Quero conhece los e tenho plano em viver na nubia, num futuro próximo. Em relação aos antigos egípcios, eles eram tão negros quantos os nubios e etíopes. Adorei seu blogue. Viajei nas imagens coloridas e alegres.

  2. Muito pertinente, apropriado e interessante esse resgate histórico e situacional da Núbia de ontem e de hoje. No ontem seus guerreiros eram tidos como excelentes e bem requisitados inclusive como escravos, eram bem conhecidos na antiguidade. Muitos deles tinham regalias com seus senhores. Hoje dá para sentir a penúria em que vivem, não muito diferente das periferias das cidades brasileiras, latinoamericanas e de outras regiõs pobres e exploradas pelo mundo afora.
    Achei lindas as cores e os tons das sua construções e a mesquita é linda. Gosto muito desse bege/rosado e azul. Muito bonito
    Gostei tambem das placas seus talhes e suas cores. Outra combinação que me agrade é o bege e verde.
    Por fim vale sobressair o talhe esbelto e as feições com nariz mais afilado deles em comparação com o biotipo negro que veio ao Brasil como escravo. Os núbios tem traços mais finos no rosto , maçãs menos salientes, rosto mais alongado e o nariz mais fino.
    Amei a foto final com o sempre belo e majestoso Nilo. Muito boa postagem. Bom saber o que ocorreu e como vive esse povo tal falado antigamente e tão esquecido hoje em dia.
    E que diferença para o núbio hoje da sua acomodação… passaria por brasileiro.

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