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Alexandria (Egito) hoje: A nova biblioteca alexandrina e a “outra” Santa Sé, de São Marcos

A Biblioteca de Alexandria, o Farol de Alexandria… Eu nunca vi uma cidade ser tão famosa nos livros de História e tão esquecida na atualidade quanto Alexandria. A maioria dos ocidentais parece pensar que Alexandria não existe mais, que ficou para trás já há muitos séculos.

Ledo engano. Alexandria hoje é a segunda maior cidade do Egito, com quase cinco milhões de habitantes, e continua sendo belamente banhada pelo Mar Mediterrâneo no norte do Egito do mesmo jeito que era antigamente.

São apenas 2-3h de trem desde o Cairo, a depender do tipo de trem que você tomar. Alexandria merece ao menos um day tour, um bate-e-volta, mas seja safo e faça-o por conta própria. Muito mais interessante que ficar preso em congestionamento com motorista, e muito mais barato. No Cairo, me ofereceram um passeio completo por 700 libras egípcias (à época uns 70 euros), e em comparação eu tomei o trem na primeira classe por meras 70 libras egípcias, um décimo do preço. Na volta, peguei um trem ainda mais barato, por 45 libras (uma pechincha que hoje no Brasil seria 15 reais. Onde no Brasil você viaja 3h por 15 reais?).

E os trens egípcios não são ruins. Só é preciso uma breve disposição para enfrentar a desorganização da “fila” na hora de comprar a passagem na estação. Não é preciso comprar antecipado, são vários trens por dia e o horário você encontra no site oficial (mais sobre os trens egípcios aqui). Em geral, não vendem passagem de ida e volta, só ida, mas ao chegar você pode imediatamente ir comprar a volta se quiser. O trem já deixa você no centro de Alexandria, onde o principal se faz a pé.

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Um cafezinho de manhã, e vamos lá.

Desembarcando, fui logo comprar a minha passagem de volta para assegurar o retorno ao Cairo. Foi super tranquilo. E ali, à saída da estação, eu já tinha diante de mim as ruínas de um anfiteatro romano. 

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A estação de trens em Alexandria.
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No centro de Alexandria, ruínas de um anfiteatro romano.

Alexandria foi por muitos séculos a segunda mais importante cidade do Império Romano, após Roma. O Egito era uma das mais importantes províncias, não somente pela produção agrícola como também por ser a via de comércio com o oriente — e em ambos o porto de Alexandria era fundamental, daí o farol.

O Farol de Alexandria, infelizmente, não existe mais. Eram 137m de altura, uma torre de pedra, mas que ruiu com repetidos terremotos ao longo dos séculos. Quando Alexandre, que fundou a cidade, morreu em 323 a.C., seu general Ptolomeu declarou-se Rei do Egito e pouco depois ordenou a construção do farol. Há quem diga que havia uma estátua de Poseidon, deus grego dos mares, no topo. Mas o farol durou mais do que você talvez imagine: foi danificado seriamente apenas no ano 956 d.C., por um terremoto, e depois derrubado finalmente por outros terremotos subsequentes nos anos 1303 e 1323. As mais detalhadas descrições dele são, na verdade, não dos antigos, mas de observadores árabes medievais.

O que sobrou, em 1480 foi desmontado e usado para erigir a Cidadela de Qaitbay, um forte que recebe o nome do sultão egípcio que ordenou a sua construção.

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A Cidadela de Qaitbay, no lugar onde ficava o imenso farol.

A biblioteca também teve seu fim. Diziam ser uma das maiores do mundo, e certamente foi a mais importante do mundo antigo ocidental. (Se você assiste a Game of Thrones, aquela ideia da cidade de Oldtown, com sua gigante torre e a imensa biblioteca, é completamente inspirada em Alexandria.)

A Grande Biblioteca de Alexandria foi também construída por Ptolomeu, após a morte de Alexandre, à mesma época que o farol. Ela juntava centenas de milhares de  papiros e pergaminhos, numa época em que o papel ainda não era conhecido (ele surgiria depois na China, por volta do século II).

A biblioteca, no entanto, não era meramente um estoque de textos como é hoje, mas sim um centro de saber chamado de Musaeum, ou originalmente em grego Mouseion de Alexandria. O nome deriva das 9 musas, as deusas gregas do saber. Aqui se praticava também a música, a poesia e outras artes. É daí que vem o nome e a concepção moderna de “Museu”, embora esta concepção moderna seja muito mais limitada a “exibição” de coisas, enquanto que o original era muito mais uma espécie de academia universal.

E quem destruiu a Grande Biblioteca de Alexandria? Os romanos. O próprio Júlio César, em 48 a.C., atacou a cidade, que era então a capital do Egito ptolemaico, para tomá-lo de Cleópatra. Quando, em 270 d.C., a Rainha Zenóbia de Palmyra lidera aqui uma revolta contra os romanos, o imperador Aureliano novamente ataca a cidade, e muito da Grande Biblioteca é destruído. Há histórias mais tardias de que fanáticos cristãos ou muçulmanos a teriam destruído, mas esses relatos surgem muito depois, e de qualquer modo àquela altura já praticamente não havia mais a Grande Biblioteca.

Em 2002, fizeram uma nova, bem estilo “biblioteca pública”, e que apelidaram de Bibliotheca Alexandrina (escrito assim mesmo).  

É imensa. Como estrangeiro, você terá que pagar uma taxa para entrar, o que eu francamente não recomendo. Entrei por puro gozo histórico, e me arrependi porque dentro não há absolutamente nada além de estantes e mais estantes de livros, com jovens a estudar, como em qualquer biblioteca pública do mundo. É grande, é bonita, é boa para os jovens alexandrinos de hoje, mas não há nada de interesse turístico.

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O exterior da nova Bibliotheca Alexandrina.
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O interior da imensa nova biblioteca.
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Jovens estudando na biblioteca. Se eu fosse um estudante alexandrino, adoraria a biblioteca, onde eu vi uma grande riqueza de livros em inglês, francês e árabe, e muita coisa informatizada. Como turista, no entanto, achei meio esperteza deles cobrar entrada à base da fama de Alexandria, sendo que não tem nada de interesse turístico no interior.
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Como este mundo é um lugar interessante, há ali ao lado da nova Biblioteca de Alexandria uma cafeteria com café brasileiro. É um point cheio de jovens egípcios com o café numa mão e o smartphone na outra.

A biblioteca fica a apenas uns 3km da estação de trens, o que é uma caminhada saudável pelo centro de Alexandria e a sua beira-mar, sobretudo a orla em forma de lua e que, como em outras partes do mundo árabe, recebe o nome de corniche (de corne, chifre em francês).

A orla é imunda, já lhes advirto, mas a brisa soprando do mar não deixa de ser fabulosa, ainda mais quando você pára para se dar conta da terra onde está pisando.

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A orla de Alexandria, com o Mar Mediterrâneo.
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Infelizmente, muita sujeira, que o vento fazia dar piruetas no ar.
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Ainda assim, não impedia as famílias de passear.
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Em Alexandria com o Mar Mediterrâneo ao fundo.
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Café na orla.
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No lado da terra, prédios de estilos mais recente, tradicional árabe ou contemporâneo.
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À direita, uma mesquita com seu minarete; à esquerda, um prédio em estilo neoclássico. (Houve muita influência colonial britânica aqui.)
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O miolão da cidade, no entanto, é assim. Cara de centrão de cidade. É relativamente tranquilo de andar, apesar de uma certa muvuca (como nos centros de cidade no Brasil).

O que achei o mais interessante de tudo em Alexandria, contudo, foi visitar a Catedral de São Marcos, essa outra Sé cristã, além da que todo mundo conhece (atribuída a São Pedro) em Roma.

Há controvérsias quanto à ida de Pedro de fato a Roma — há quem diga que Pedro jamais pôs os pés lá, e que os já-poderosos romanos é que inventaram isso como argumento para a primazia do seu episcopado. Já aqui, ninguém duvida que Marcos, um dos quatro evangelistas “canônicos” reconhecidos pela Igreja, tenha de fato fundado a primeira comunidade cristã na África, em Alexandria. 

Marcos, no entanto, não era um dos 12 apóstolos não, viu gente. (Assim como Lucas e Mateus tampouco. O único evangelista reconhecido pela Igreja e que foi apóstolo é João.) Marcos foi um dos outros muitos que não conheceram Jesus pessoalmente, mas que vieram a adotar  o cristianismo.

Marcos se tornou o primeiro patriarca da Igreja Ortodoxa Copta, que criou raízes aqui no Egito e absorveu elementos da religião do Antigo Egito, ainda praticada pela população nos primeiros séculos depois de Cristo (ver aqui no post anterior). Alexandria tem, desde então, seu próprio papa, equivalente ao que reside em Roma, embora menos poderoso devido ao tamanho menor do seu “domínio”.

O papa copta hoje reside no Cairo, na catedral de lá, mas é a Catedral de São Marcos aqui em Alexandria a sé tradicional e o assento histórico da Igreja Copta. Não deixa de ser uma visita muito interessante, em que você vê este lado pouco comentado do Egito.

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A Catedral Copta de São Marcos, no centro de Alexandria.
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O interior da catedral.
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O trono papal da Sé de Alexandria, com os leões símbolo de São Marcos.
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Como de hábito nas igrejas ortodoxas, há a iconostasis, essa parede repleta de ícones religiosos, que separam o vão principal da igreja do altar, lá detrás. O altar só fica visível durante a celebração.
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A lista de todos os papas que sucederam São Marcos, desde o século I. Há uma lista assim também em Roma. Esta aqui está em grego, em latim, em copa, e em árabe.
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Pessoas assistindo à celebração neste dia em que visitei. As televisões mostram a letra das preces (tudo é em árabe), e às vezes imagens lá do altar onde está o sacerdote. Ele reza a missa virado para o altar, de costas para os fiéis, e a comunhão é com pedaços de pão mesmo (hóstia é uma invenção romana).

Pra quem ficou curioso quanto a essa celebração copta, deixo vocês com um pequeno vídeo que fiz. Vocês provavelmente acharão curioso ouvir celebração cristã em árabe.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Alexandria (Egito) hoje: A nova biblioteca alexandrina e a “outra” Santa Sé, de São Marcos

  1. Meu jovem, que espetááááculo!…. de civilização, de cultura, de História e de beleza, tanto natural quando elaborada, pelas pessoas, ao longo desses séculos de apogeu e de esquecimento. Tem razão: tão famosa e tão esquecida. Um dos grandes lapsos da História, motivado, entre outras razões, pelo eurocentrismo. Ótimo resgate, excelente postagem. que bom poder ver, rever, sentir tudo isso, e de forma leve, alegre, como nos é apresentada. Parabéns mais uma vez.
    Achei magnificas as imagens da orla mediterrânea com suas belas águas azuis, suas ondas, seu lindo céu. Belas também as construções e monumentos. Linda estação, arrojada nova Biblioteca, clara, iluminada, espaçosa.
    Adorei saber dessa antiga e presente Santa Sé que Roma esconde ou faz que não sabe. Muito interessante. ela fala apenas que Marcos organizou comunidades cristãs no norte da África. Sabe-se que Marcos foi discípulo de Paulo e que houve uma querela entre o grupo de Paulo e o de Padro. Vai ver que foi desta época. Não sei. Mas achei muito oportuna a informação.
    Linda Santa Sé. Não tão chique como a do Vaticano mas muito bonita. Belíssimo o interior da catedral. Lindos os leões. João no seu apocalipse ve os leões perto do trono do Altíssimo e o referenda aos evangelistas, entre eles, Marcos. Muito significativo. Adorei ouvir a Missa em árabe. Linda. A Canção nova de vez em quando leva ao ar a missa em rito Maronita, do Líbano. muito bonita. Ótima postagem. Haja belezas nesse eterno legado egípcio. Muito obrigada por nos mostrar isso de forma tão agradável. Abraços fraternos.

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