You are here
Home > Líbano > Visitando as ruínas de Baalbek e uma mesquita xiita no Vale do Bekaa (Líbano), quase na fronteira com a Síria

Visitando as ruínas de Baalbek e uma mesquita xiita no Vale do Bekaa (Líbano), quase na fronteira com a Síria

Mohammed era um desses sujeitos que você não esquece. Um libanês moreno de seus 35 anos, descolado, de camisa polo, calças e sapato baixo, e um ar de quem não perde uma piada. A cara dele era aquela pseudo-séria, aquele jeito de quem está pensando no próximo comentário a fazer, ou avaliando se há algum significado malandro por detrás do que você disse.

Ele tinha a mesma boca suja habitual de um brasileiro médio, e usava foto do supremo aiatolá iraniano Ali Khamenei como foto de perfil no WhatsApp. Era muçulmano xiita, como a maioria dos libaneses — e como a grande maioria dos libaneses de baixa renda. (Caso você creia que xiita quer dizer “radical”, está enganado. É simplesmente uma vertente do islamismo, como há no cristianismo católicos e protestantes. Ver aqui.)

Mohammed nos apresentaria a refugiados sírios, nos apontaria carros do Hezbollah (oh meo deos), nos levaria a uma mesquita xiita, e nos guiaria às magníficas — e, hoje, vazias — ruínas da cidade romana de Baalbek. Tudo isso no Vale do Bekaa, região oriental do Líbano que faz fronteira com a Síria.

Baalbek 1-03
Templo em Baalbek. Depois daquelas colinas lá atrás é a Síria.

Uma nota sobre segurança: Baalbek é uma região do Líbano que me haviam recomendado não visitar. No entanto, foram observações em nível de precauções gerais. Do mesmo jeito que lhe dirão “Não vá a Paris hoje em dia, não, que está perigoso”. Você pode escolher não ir, mas aí deixa de ver, de conhecer. Eu, de fato, não me aventuraria em Baalbek sem saber por onde ir, sozinho descobrindo caminhos. Não. No entanto, com alguém da região, num veículo particular sem chamar a atenção, e assim low profile (discreto), não vi problema nenhum.

Éramos eu, Páris (um grego) e dois ingleses, além de Mohammed. Zarpamos, compramos quitutes de padaria baratíssimos (e deliciosos) na saída da cidade, e tomamos café ali mesmo.

Baalbek 1-04
Pão com tempero de manhã. Os libaneses põem zaatar e suas misturas de especiarias em tudo.
Baalbek 1-05
Café Super Brasil para acordar de manhã.

São cerca de 100km de Beirute, no litoral, até a vila de Baalbek do outro lado, quase na fronteira com a Síria. (Sim, o Líbano é um país pequeno para nós habituados às dimensões continentais do Brasil.) De Baalbek — que é a última cidade — à Síria são meros 10km por sobre umas colinas.

O medo é porque às vezes “algo” passa pro lado de cá da fronteira. São mais de 1 milhão de refugiados sírios atualmente no Líbano (um país com população de 5 milhões). E nem sempre são apenas refugiados que vêm.

Seja como for, passamos ao largo do perigo.

Nossa primeira parada foi na casa de um tio de Mohammed, um senhor que ficou cego durante o bombardeio israelense em 2006. (Aí você se pergunta como é que pode haver boas relações entre os países quando membros da sua própria família foram mutilados por causa de agressão do país vizinho.) O senhor ficou ali um pouco conosco enquanto sua esposa, já uma senhora, nos serviu chá preto numa varanda. Numa horta no terreno ao lado, um homem de seus 50 anos trabalhava a terra com uma enxada.

— “Aquele homem ali é de uma família de refugiados sírios que está trabalhando para o meu tio“, disse-nos Mohammed entre um gole de chá e outro.

Mohammed chamou o homem. Descemos as breves escadas da varanda e fomos ter com ele no lado da casa.

O homem de testa suada veio até nós com ar relativamente alegre, embora cansado. Aquele ar simples de trabalhador satisfeito quando o patrão lhe chama pra perguntar uma coisa.

— “Eu vou perguntar a ele se ele tem vontade de voltar para a Síria“, disse-nos Mohammed com aquele tom de “espia só”.

Eu não entendo árabe para saber se Mohammed realmente lhe perguntou isso, mas o tom e a resposta visual do homem me pareceram sinceros.

O sírio de pele morena e olhos claros respondeu com aquele ar de “que nada“, dando um breve sorriso.

— “É isso que eu digo“, voltou pra nós Mohammed depois. “O governo e as agências contam essa mentira de que é só por um tempo, que os refugiados vão voltar para a Síria quando a guerra acabar, mas eles não vão voltar. Eles aqui encontram trabalho; por que é que eles vão retornar pra um lugar onde não sobrou nada? E pros libaneses é problemático, porque esses sírios aceitam trabalhar por qualquer dinheiro que você dê a eles.

Baalbek 1-06
Não achei que viveria pra ver um cartaz de apoio ao ditador sírio Bashar Al-Assad, ao lado ali do seu pai, o finado Hafez Al-Assad. Os rebeldes sírios, incluso aí o “Estado Islâmico”, são todos sunitas, muitos deles radicais que explodem mesquitas xiitas e os matam como hereges. Daí o apoio a Assad neste leste do Líbano, que é majoritariamente xiita.
Baalbek 1-07
Ali naquele cartaz, a figura de Ali, o genro de Maomé e figura mais venerada do islamismo xiita depois do profeta. (Você que achava que os islâmicos nunca faziam representações visuais religiosas, saiba que no islamismo xiita não é bem assim.)

Aqueles carros pretos ali que você vê passar sem placa são do Hezbollah“, disse-nos Mohammed referindo-se à milícia xiita libanesa. Esse é considerado um grupo terrorista por Israel e pelo Ocidente, mas isso é muito relativo. George Bush provocou a morte de milhares de iraquianos com sua guerra ao Iraque em busca de petróleo, alegando estar atrás das tais “armas de destruição em massa” que nunca apareceram, e ele está lá numa boa, sem ninguém o fazer prestar contas.

Nós ali visitaríamos uma mesquita xiita, um dos sítios mais importantes dessa fé no Líbano: um templo erigido sobre o túmulo da filha do imã Hussein. Calma que eu explico (mas já fique sabendo que não é muito diferente das igrejas feitas com relíquias de santos na fé cristã católica). 

No islamismo xiita há sempre um líder espiritual, que recebe o nome de imã. Hussein (626-680 d.C.) foi filho de Ali, um dos primeiros líderes muçulmanos, com Fátima, filha de Maomé. Shi’at Ali (daí “xiitas”) é como chamavam em árabe os apoiadores da linhagem de Ali em meio às disputas internas do islã depois da morte de Maomé. Hussein, no entanto, foi emboscado e morto pela poderosa dinastia Omíada que reinava de Damasco. Sua família teria sido parte capturada (as mulheres), parte executada juntamente com ele (os homens), para eliminar a linhagem.

A pequena Seyeda Khawla, ainda criança, filha de Hussein, neta de Fátima e bisneta de Maomé, teria falecido aqui em Baalbek e enterrada num pomar no portão sul da antiga cidade romana.

Com o tempo, fez-se a mesquita abaixo que hoje é protegida à base de barreiras de concreto e sub-metralhadoras pra que nenhum terrorista sunita do Estado Islâmico ou qualquer outro grupo venha pôr bomba aqui.

Baalbek 1-08
Grades e barreiras para que até carros(-bomba) não se aproximem muito.
Baalbek 1-09
As mesquitas xiitas têm uma estética bem distinta, normalmente mais reluzentes e de arcadas largas típicas persas. Esse é o layout que você vai ver muito nas mesquitas do Irã, país dominantemente xiita.
Baalbek 1-10
Pátio nos arredores da mesquita.
Baalbek 1-11
Imagem de Ali com o leão (isso você nunca vai ver numa mesquita sunita). Ali é às vezes chamado de “o leão de Deus”.
Baalbek 1-12
A entrada, com palavras sagradas ali escritas em árabe.
Baalbek 1-13
O interior ricamente decorado com tapetes, luzes e espelhos. (Essa predileção por interiores espelhados é típica influência persa xiita. No Irã você vê muito disso.)
Baalbek 1-14
Fiéis orando.
Baalbek 1-15
Ali, naquele nicho onde está o homem de amarelo, fica o túmulo da filha do Imã Hussein.
Baalbek 1-16
O interior. Acima dos restos mortais está um Alcorão, o livro sagrado contendo o que Deus teria ditado a Maomé, e que é o mesmo livro tanto para sunitas quanto para xiitas.

Algumas pessoas se emocionavam e choravam diante do túmulo. A reação inicial é achar aquilo um exagero emocional descabido, mas aí perceba que é o mesmo que acontece no cristianismo com as cenas da Paixão de Cristo, que emocionam e levam às lágrimas muitos ocidentais. Pois. O equivalente dos muçulmanos xiitas é o massacre de Hussein e sua família pelo Califa Yazid no ano 680. (O massacre ocorreu em Karbala, hoje no Iraque.)

Restam-nos as ruínas da cidade romana antiga de Baalbek, um dos mais visitados sítios turísticos do Líbano (hoje meio abandonado, pois ninguém mais vem, com medo). As ruínas estavam ali quase completamente vazias, não fosse pelos funcionários, nós, e um casal francês.

São das ruínas romanas mais bonitas que já vi. Suas estruturas principais são os templos de Júpiter (o Zeus dos gregos), Vênus (Afrodite), e Baco, o Dionísio grego, deus do vinho. 

Baalbek 1-18
Entrada para as ruínas da cidade romana de Baalbek.

Baalbek era um sítio habitado por assírios desde a longínqua antiguidade. Ba’al era o seu deus do sol, que tinha um templo aqui. Os gregos, quando conquistam a região através de Alexandre, associam-no à sua divindade solar, Hélios. Rebatizam portanto a cidade como Heliópolis, “a cidade do sol”. Os romanos associam-nos por sua vez ao seu Júpiter, e para distingui-la da cidade egípcia homônima, chamariam aqui de Heliopolis Syriaca.

Baalbek 1-19
Subida para o Templo de Júpiter.
Baalbek 1-21
Nichos ainda bem conservados no Templo de Júpiter.
Baalbek 1-20
A visão geral, com escritos antigos ainda ali.
Baalbek 1-22
O Templo de Baco ali vizinho, ainda quase integralmente preservado.
Baalbek 1-22b
O Templo de Baco de perto.
Baalbek 1-23
Detalhes.

Ter aquelas ruínas para nós foi a recompensa pela coragem que hoje poucos têm de vir até aqui. O ar tranquilo permitia fitar aquelas edificações antigas e refletir com tranquilidade, avistando as montanhas que dividem hoje a Síria do Líbano ao não-tão-longe. 

Baalbek 1-24
Vista para as montanhas a partir das ruínas de Baalbek, no leste do Líbano.

Para encerrar, antes de retornarmos a Beirute fomos finalmente comer. Esta região do Líbano é a terra de origem da famosa sfiha, a original, feita com carne de carneiro, e a rapaziada queria conferir. Fomos a um local de forno das antigas, manejado por um padeiro velhinho, e que segundo Mohammed faz as sfihas mais autênticas do mundo.

Baalbek 1-25
Massa de pão chato sendo levada ao forno tradicionalmente aqui em Baalbek. Haja guerra ou o que for, esses homens não abandonam seu ofício.
Baalbek 1-26
As originais sfihas libanesas, assadas na hora e com carne de carneiro.
Baalbek 1-27
Eu, francamente, fiquei no hummus (massa de grão-de-bico temperado com azeite de oliva), queijo árabe, e nos famosos charutinhos de arroz enrolados em folhas de videira. Tudo isso com aquele pão quentinho que o tio da foto acima estava fazendo.

A vida dava seguimento. Nós retornaríamos a Beirute ainda antes do sol descer, e deixaríamos Baalbek novamente aos seus residentes. Somente eles e as flores.

Baalbek 1-17

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

4 thoughts on “Visitando as ruínas de Baalbek e uma mesquita xiita no Vale do Bekaa (Líbano), quase na fronteira com a Síria

  1. Fantastico! Informaçoes preciosas..infelizmente,
    nunca aprendi lingua estrangeira, por isso a maior dificuldade em visitar alguns lugares. Este ai é um lugar que eu realmente gostaria de ir.Ai tem historia de antepassados meus.
    Obrigada mais uma vez pelas informaçoes.
    Ana

  2. Oi Mairon!
    Antes de tudo, ´parabéns pelo site, estou encantado com os detalhes! Um dos melhores que eu ja vi!
    Estou indo para o Libano mês que vem com alguns amigos e entendi bem a importância de ter um motorista como vc teve o Mohammed! Como vc o encontrou? Você tem o contato dele ? Qual o preço desse daytour?
    Aguardo e muito obrigado!

    1. Oi Thiago! Obrigado pelo elogio!
      Eu conheci o Mohammed através de pessoas no meu albergue. Ele cobrava 100 dólares pelo “carro”. Como éramos quatro, ficou USD 25 pra cada um. De longe foi o melhor preço de day tour que achei, e mais personalizado. Inclui aí basicamente transporte e guia, sem alimentação nem entradas. Ele conhece os lugares aonde ir, mas cada um paga a própria conta.

      Se você quiser o telefone dele pra contactá-lo por WhatsApp, me envia uma mensagem pelo Facebook do site que eu te passo em privado. O Mohammed geralmente se anima pra levar visitantes a Baalbek, mas é bom agendar com uma semana ou algo de antecedência, pois ele às vezes faz outros passeios e é bastante ocupado. Assim vocês já poderiam programar.

  3. Parabéns pela coragem de chegar perto de uma zona tão minada quanto esta nas vizinhanças da sofredora Síria. Nossa.
    E que lugar fantástico, que lindas e preservadas ruínas, que maravilha de legado histórico. As flores maravilhosas, coloridas, nas ruínas dão um toque impar de vida e de renovação. Que beleza. Ainda bem que o ei não chegou ai para dinamitar tudo, os loucos.
    Linda essa mesquita. que estilo charmoso, elegante e que interior esplendoroso, rico de luzes cores lustres, tapetes magníficos, arcos ogivais e detalhes originais. Um primor.. Lindíssima. Adorei o azul com dourado e a elegância da arquitetura..
    Lindo pórtico, com as montanhas nevadas ao fundo e o belo céu de anil. linnndo. que portal, merece um poster.
    E haja comilanças ao que suponho, maravilhosas. eita povo que sabe cozinhar quitutes gostosos. esta é uma das vantagens das sua viagens, meu jovem, o de misturar-se com o povo ver e experimentar suas tradições, culturas e modus vivendi. Isso é que é viagem. Congratulations.
    Ah ia esquecendo. Muito interessante as informações sobre os Xiitas e sua interpretação errônea do lado de ca do Ocidente. . Claro por influencia desastrosa dos norte-americanos. Vi as diferenças entre Xiitas e sunitas em outra postagem se não me engano na viagem ao Irã.Outro país mal interpretado aqui no Ocidente.Ótimo resgate histórico. Valeu

Deixe uma resposta

Top