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Os lugares reais que inspiraram ou serviram de cenário a Game of Thrones

Já há um tempo eu vinha querendo fazer esta coletânea de lugares por onde passei e que serviram de cenário (ou de inspiração) a Game of Thrones. Dado o sucesso da série, hoje em dia sempre há alguém mencionando como, a propósito, aqui filmaram tal parte de Game of Thrones etc e tal. Mas há também muito do mundo real que pode não ter servido de cenário e ainda assim serviu de inspiração para a obra. Muito do que você crê ser originalidade do autor é na verdade imitação do mundo real — coisas que você desconhecia.

A quem ainda não conhece, a série inglesa Game of Thrones, produzida pela rede HBO, baseia-se na série de livros Crônicas de Gelo e Fogo, do escritor norte-americano George R.R. Martin. Lembra algo de O Senhor dos Aneis e outras obras de “fantasia medieval”, embora aqui com muito mais realismo (sexo etc.) e menos maniqueísmo, ou seja, há muita gente que não é puramente mocinha nem bandida — como pessoas da vida real. Tem sido a série de maior audiência esta década, e não é sem razão.

Pois bem, vamos lá. Como sempre, eu falo apenas de lugares que eu vi e visitei pessoalmente. No final, adiciono alguns lugares que sei que serviram de inspiração ou cenário e que ainda estão por visitar.


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King’s Landing (“Porto Real”) = Dubrovnik, na Croácia, ou Mdina, em Malta

A capital dos sete reinos na obra de George R.R. Martin é filmada na magnífica cidade croata de Dubrovnik, e na pequena cidade medieval maltesa de Mdina. Tive a sorte de visitar ambas, mesmo antes de saber que haviam servido de cenário.

A foto acima é da cidade de Dubrovnik (onde na série, é claro, os cabos do bondinho não são vistos). Essa cidade foi um importante porto mercantil como Veneza, e conserva por séculos as suas muralhas, que hoje você pode percorrer pelo topo. A foto inicial deste post também é de lá, da entrada da cidade murada.

Ouvi dizer que recentemente estrearem até um tour sobre as cenas e pontos específicos usados na filmagem da série (procure pelo Game of Thrones tours se for lá). Claro que, hoje em dia, a atmosfera da cidade é de badalação turística de jovens e de curtição à beira-mar — nada a ver com o tom mais sério da capital na série. Seja como for, Dubrovnik vale muito uma visita, tenha você visto a série ou não. (Eu relatei a minha estadia lá neste post.)

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Dubrovnik vista de um passeio no mar.
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Jardins à beira das muralhas, onde foram feitas gravações.
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Interior da cidade hoje.
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Dubrovnik no seriado.

Mdina, em Malta, tem uma atmosfera completamente diversa. Ela se parece mais com a cidade da série, só que (bem) mais quieta. Essa cidadezinha maltesa histórica foi usada como cenário em sua entrada, que conserva a ponte de pedra e o fosso. Ela foi a capital de Malta (país que fica no sul da Europa, no Mar Mediterrâneo, perto da Sicília) até a Idade Média, quando era habitada por árabes — daí o nome de Mdina, do árabe para “centro”, “mercado”.

Hoje, visitar Mdina é como ir a uma cidade medieval que foi desertada, vazia. Relatei minha visita lá neste post.

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Entrada de Mdina, em Malta.
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Ruelas medievais em Mdina hoje.
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Cenas da série filmadas em Mdina.

Casamento de Daenerys Targaryen e Khal Drogo na Ilha de Gozo, Malta

(Acho que nada mais apropriado que um casamento numa ilha com o nome de “Gozo”.) Ainda em Malta, na segunda maior ilha do país, com o curioso nome (real) de “Gozo”, foram filmadas as cenas do casamento entre Khal Drogo e a protagonista Daenerys Targaryen, na primeira temporada da série. Visitantes reconhecerão o pano de fundo da “Janela Azul” (Azure Window aqui em inglês, não “blue”), como é chamada aquela rocha ao mar.

As visões são plenamente espetaculares. O mar aqui é um pouco bravio para nadar à beira das rochas, mas é convidativo ao extremo. Eu narrei a minha visita aqui no post Um dia em pleno Gozo.

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A Janela Azul em Gozo, Malta.
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Local de gravação de Game of Thrones na primeira temporada.
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Cenas da primeira temporada filmadas aqui em Gozo.

Os sacerdotes vermelhos, como Melisandre de Asshai, são inspirados nos zoroastras da Pérsia

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Melisandre de Asshai, uma das sacerdotisas vermelhas na série.

Poucos personagens despertam tanto fascínio na série quanto Melisandre e seus pares da religião de “R’hllor, o Senhor da Luz”. Até os seus bordões caíram nas graças dos fãs, como o “The night is dark and full of terrors“.

Eles são extremamente inspirados nos antigos sacerdotes persas do mundo real.

Na Pérsia antiga, a religião dominante era o Zoroastrismo, iniciada pelo profeta Zaratustra (Zoroastro para os gregos), que estima-se ter vivido cerca de mil anos antes de Cristo. Seus sacerdotes pregavam a virtude do senhor da luz (Ahura Mazda) contra “o inimigo”, deus da escuridão. Essa é a primeira religião dualista do mundo, numa época em que o mais habitual eram politeísmos com deuses de diversas personalidades, em vez de “luz vs trevas”. Mani, um sacerdote zoroastra que veio séculos depois, só agravaria esse dualismo, daí o termo “maniqueísmo” para essa postura dualista de extremos que se confrontam.

No Irã (que é o nome original, já que “Pérsia” foi um nome dado por seus rivais, os gregos), até hoje há templos zoroastras com fogos que queimam há séculos. Os sacerdotes diziam/dizem ter visões no fogo da mesma forma que os vermelhos de George R.R. Martin.  

Eu narrei minha visita a Yazd, no interior do Irã, e a um dos templos do fogo zoroastras aqui, onde há bem mais detalhes sobre o Zoroastrismo.

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À entrada de um dos Templos do Fogo dos zoroastras, na cidade de Yazd, Irã.
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Por detrás deste vidro protetor, há uma chama que queima há séculos, mantida pelos sacerdotes zoroastras.

Yunkai, da “Baía dos Escravos”, em Marrocos

Em Marrocos foram filmadas muitas das cenas de Dany Targaryen no leste, especificamente nas cidades da Baía dos Escravos (Yunkai, Astapor, e Meereen). Na realidade, são cidades medievais de adobe (argila) que ainda têm muito daquele “astral” antigo. Fique certo de que muitos escravos já foram traficados por aqui. Na Idade Média, estas eram rotas entre o norte da África árabe e a “terra dos negros” no sul (embora, à época, escravidão não fosse exclusividade de uma só raça como veio a ser nas Américas).

Eu narrei aqui a minha passagem por esta região fenomenal de Marrocos. 

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A cidade de Ait Benhaddou em Marrocos.
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Eu ali tomando sol.
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Mhysa! Mhysa! Aclamação de Daenerys Targaryen bem aqui.

A rocha obsidiana, o dragonglass da série, existe de verdade

Caso alguém tenha dúvidas, a rocha obsidiana — conhecida como “vidro de dragão” na série — existe de verdade, e era mesmo usada como ponta de flecha ou mesmo como faca. Embora essa rocha ocorra em muitas partes do globo, os povos indígenas das Américas são dos que mais a utilizavam. (Contei um pouco disso quando visitei a antiga cidade indígena de Teotihuacán, no México.)

Essa rocha de fato reluz como se fosse vidro, e pode ficar sobejamente afiada. Como ela é uma rocha ígnea, vinda dos vulcões, daí a sacada de George Martin pra chamá-la de dragonglass.

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Artesania feita de rocha obsidiana no México.

A Batalha da Baía da Água Negra (Battle of the Blackwater) = O segundo cerco árabe a Constantinopla, em 717-718 d.C.

Caso você tenha achado essa batalha particularmente criativa, com o uso de uma corrente sob a água para deter os navios e daquele fogo que não parava de queimar, saiba que tudo aquilo ocorreu de verdade no mundo real.

Os gregos medievais (do chamado Império Romano do Oriente, que sobreviveu até 1453 na cidade de Constantinopla, atual Istambul na Turquia) conheciam uma fórmula que jamais foi inteiramente descoberta, de como fazer um óleo que continuava a queimar mesmo sobre a água — o chamado “fogo grego”, que na série é conhecido como wildfire.

Quando a partir da década de 630 d.C. os árabes se expandem conquistando territórios até então governados pelo Império Romano do Oriente (como o Egito, a Síria, a Palestina, entre outros), resta-lhes atacar a capital daquele poder romano: Constantinopla. (Roma em si já havia caído séculos antes e a capital sido transferida para cá no século IV.)

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Geografia de Constantinopla, que ficava ali naquela península no centro do mapa. De cima abaixo o Estreito do Bósforo, e ali mais à esquerda o Chifre Dourado, onde ficavam os navios. À direita, a Ásia; à esquerda, a Europa.

Só que Constantinopla é uma cidade especial. Ela se encontra à margem do Estreito do Bósforo, que liga o Mar Negro ao Mar Mediterrâneo e separa a Europa da Ásia. São apenas 3km de largura. Ao lado de onde ficava a Constantinopla da época (pois a cidade cresceu de lá pra cá), há também um braço de mar sem saída chamado de “o chifre dourado”, que é um porto natural onde ficavam os navios.

Adivinhem? Havia uma grande corrente submersa “fechando” a entrada para o Chifre Dourado, que era manejada como se queria. Na História real, a corrente não foi usada para emboscar os navios inimigos, mas para impedi-los de entrar.

Enquanto isso, os navios árabes foram “banhados” com fogo grego, e a esquadra completamente queimada. Embora os árabes a esta altura já tivessem tido sucesso em conquistas da Espanha ao Irã, não conseguiram jamais vencer Constantinopla, em grande parte devido a essa fórmula secreta que era fatal contra os navios.  

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Ilustração do cerco árabe a Constantinopla em 717 e 718, frustrado pelo uso do “fogo grego”, que queimava sem parar.
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Na série.
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O Estreito do Bósforo hoje, na cidade que foi renomeada de “Istambul” pelos turcos, que a conquistariam séculos mais tarde, em 1453. O lugar vale muitíssimo uma visita, tanto pela beleza quanto pelo valor histórico (mais aqui).

Oldtown = Alexandria, no Egito

A cidade de Oldtown, apresentada visualmente agora na sexta temporada de Game of Thrones, é talvez a melhor de todas as imitações da cidade de Alexandria no mundo da ficção. A combinação de maior torre + maior biblioteca é inconfundível.

Alexandria, fundada por Alexandre o Grande no norte do Egito no ano de 331 a.C., tornou-se o mais importante centro acadêmico do mundo ocidental antigo após a sua morte. Quando Alexandre morreu, no Egito um de seus generais, Ptolomeu, instala sua própria dinastia, que governará o Egito até sua queda perante o Império Romano 300 anos mais tarde. É nessa época que se constrói o memorável Farol de Alexandria — cuja arquitetura é precisamente aquela adotada em Game of Thrones — e a não menos famosa Biblioteca de Alexandria, também presente na série.

Alexandria hoje é uma cidade bem diferente, mas continua importante, sendo a segunda maior cidade do Egito atual. Minha visita até lá eu relatei aqui.

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Sam e Gilly chegam a Oldtown. Aquela torre é praticamente uma réplica de como se imagina ter sido o antigo Farol de Alexandria da vida real.

Ainda restam outras inspirações ou cenários a serem visitados, como as paisagens da Irlanda do Norte ou da Islândia, onde Game of Thrones filmou muita coisa, assim como da Muralha de Adriano no norte da Inglaterra, onde esse imperador romano em 122 d.C. ordenou construir uma muralha que separasse os seus domínios “civilizados” e os o bárbaros selvagens do norte — inspiração para a muralha da série. Quando eu for lá, faço uma nova edição deste post. 

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Os lugares reais que inspiraram ou serviram de cenário a Game of Thrones

  1. Gostei os lugares da série. Estou ansiosa, eu adoro Assistir Game of Thrones, o último capítulo me deixou super animado, o tempo restante já em breve para a transmissão e que é muito emocionante! Eu acho que todo o elenco tem feito um grande trabalho, é uma das minhas séries favoritas, tem uma grande história.

  2. Muito interessante. Avisem-me por favor quando recomeçar a série pois pretendo assistir. Adorei os lugares e as referencias à serie me deixaram curiosas. Como gostei do Senhor dos anéis creio que tambem apreciarei essa serie. Gosto dessas ‘viagens’ ao imaginário medieval. Grande abraço.

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