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No Sultanato de Omã, o lugar mais quente da minha vida

Eu cresci no Nordeste do Brasil, conheço na pele os verões no Rio de Janeiro, já estive na Amazônia, e morei debaixo da linha do equador na Indonésia. Mas nada me preparou para Omã no verão. 

Você aí talvez nem soubesse que esse país existia. Existe e é maior que o estado do Rio Grande do Sul, estendido no sudeste da Península Arábica, entre a Arábia Saudita e o Mar da Arábia. Dizem que era por aqui que o lendário marujo Sinbad (dos contos registrados no clássico As Mil e Uma Noites) fazia suas peripécias. Hoje é um sultanato absolutista relativamente tranquilo (daí você não ouvir falar dele no noticiário), e o lugar mais quente da minha vida.

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Omã, este país de 3.6 milhões de habitantes, fica entre a Arábia Saudita e o mar, ao lado do turbulento Iêmen e dos Emirados Árabes Unidos (UAE, onde ficam Dubai e Abu Dhabi). Sua capital é conhecida em português como Mascate (que é como os anglófonos pronunciam “Muscat”). Falam árabe, e pertencem a uma linha do Islã chamada de Ibadita, que é diferente dos sunitas e xiitas.

Só palavrões conseguem adjetivar o calor aqui de Omã. Pela internet vi que estavam 43 graus, com certa umidade pelo Mar da Arábia logo aqui. Eu, ao sair na rua, havia me dito que a sensação era a de um dia de verão em Fortaleza ou no Rio de Janeiro. Enganei-me, é muito pior. O tempo lhe mostrará. 

No começo é curioso, mas após uma hora na rua você já fica absurdamente escaldado. Acho que nunca suei tanto na minha vida. Seu corpo sua, suas pernas se encharcam dentro da calça, sua camisa se ensopa, e gotas de suor na testa começam a pingar e a ameaçar escorrer para os olhos — sempre uma sensação agradável. Finalmente apreciei a utilidade das sobrancelhas. E o vento, quando sopra, é tipo secador de cabelo. Sem exagero. Aquele ar quente que chega a arder os olhos.

O banho durante o dia traz água quente automaticamente, sem qualquer eletricidade ou sistema de aquecimento. É você chegar da rua, escaldado de suor, e entrar numa ducha quente daquelas de inverno, só que com 43 graus no exterior. É um pandemônio. Fui lavar umas cuecas no hotel e à tarde é quase impossível fazê-lo sem queimar as mãos. Consegui, mas ao final estava suado. 

As ruas são quietas, praticamente todas as casas são brancas, margeadas atrás por colinas de rocha marrom logo ali, no meio da cidade, e que fecham o horizonte. Você, após alguns minutos caminhando sozinho por ali, se sente num mundo onírico de sonhos, como se num feitiço alguém tivesse lhe jogado ali naquele lugar surreal de casas todas iguais, céu uniformemente azul, nenhum ruído, e o sol a torrar.

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A minha área, vista da janela, no bairro de Muttrah (lê-se “Matra”).
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Plantas quase não há, somente casas e prédios brancos com as colinas de pedra nua atrás.
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Eu tomando um cafezinho na rua, pois apesar do calor eu preciso de café.
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Estes pássaros que revoam pelas colinas foram das poucas formas de vida não-humana que eu encontrei aqui.

Eu fico a imaginar as pessoas que vivem aqui. Não é à toa que fazem a sesta e fecham tudo após o meio-dia, para só reabrir lá pra as cinco da tarde, quando o sol já está bem menos ameaçador. Descobri que visitar estes países é como ir à praia: algo para se fazer no começo da manhã e, depois, no fim da tarde. (Num dos dias, sem brincadeira, acordei 5h da manhã pra ir ver as ruas antes de o sol subir.)

No começo das manhãs e no fim das tardes, os mercados se enchem de gente. Não são mercados pobres e populares como as feiras livres no Marrocos, Egito e demais países árabes do norte da África. Aqui na região do Golfo Pérsico as sociedades são diferentes. O que você tem é uma elite local que representa apenas uma porcentagem da população, alguns estrangeiros ocidentais de classe média ou média alta, e o povão, a classe trabalhadora oriunda de países pobres. 

Eu havia pensado que Omã era um país árabe (e é, estou sendo jocoso), mas você encontra mais indianos e outros sul-asiáticos (Bangladesh, Paquistão, Sri Lanka) que árabes. Você vê os árabes omanis na rua, em geral trajados em longos mantos brancos e um turbante típico na cabeça, mas nas bodegas de rua, lojas, restaurantes, hotéis etc., só verá indianos e seus vizinhos daquelas bandas. (Curiosamente, no entanto, os taxistas legalizados aqui são sempre omanis, pois é lei.)

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Nas ruas de Mascate.
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As muitas lojas dos imigrantes sul-asiáticos em Omã. Normalmente a clientela são eles próprios. (Pensamos sempre em indianos, mas às vezes há mais paquistaneses e bangladeshis, pois estes são muçulmanos e neste aspecto ficam mais à vontade aqui.)
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Mesquita em Mascate, sob o sol inclemente.
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Homens de branco e mulheres de preto nas ruas de Mascate. (As mulheres, claro, ficam com a cor desvantajosa neste sol de matar. Talvez, contudo, seja simplesmente pragmatismo, já que as mulheres daqui passam a maior parte do tempo em casa e a vida pública é vista como dominantemente masculina.)
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Entrada para os Muttrah Souqs. Souqs são os mercados típicos árabes. Naturalmente, são cobertos. Lá dentro é bem mais fresco.
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Corredores de lojas. Não é imenso a ponto de você se perder, mas há bastante coisa. É também onde os turistas interessados em artesanias e souvenirs vêm comprar coisas.
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A especialidade de Omã parecem ser os artigos em metal, baús, lâmpadas estilo as de Aladdin, e adagas, daquelas tradicionais curvas.
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Especiarias de todo tipo vendidas em baldes.
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E, é claro, o mais notável produto de Omã: incenso. Ou frankincense, como alguns preferem chamar. Frankincense, do inglês, que vem do francês franc encens, que quer dizer “franco incenso”. Não “franco” no sentido de francês, mas de algo franco, honesto, a coisa de verdade. Este incenso, que é o mesmo bom e velho incenso usado em igrejas cristãs católicas e ortodoxas mundo afora — assim como nos hotéis em Omã, para aromatizar o ambiente — é uma resina do gênero de árvores Boswellia spp., nativas aqui do sul da Arábia e da costa da Somália. Ele é usado há mais de 5000 anos, e notado tanto no Antigo Testamento quanto nas tumbas de faraós egípcios. É o mesmo incenso chamado de olibanum pelos hebreus.
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Saída (ou a outra entrada) dos Muttrah Souqs, à beira-mar.
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O Mar da Arábia em Mascate. Não há praias, só rochas na orla, mas há desses barcos árabes tradicionais (chamados de dhow), hoje usados para passeios com turistas, e que são os da época medieval das histórias de Sinbad.
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Orla com vista para a área de Muttrah, na mui espalhada Mascate.

Ali, à esquerda da foto acima, você vê ainda muralhas de fortes portugueses sobre as colinas rochosas. Os portugueses conquistaram este entreposto comercial em 1507 com uma esquadra comandada por Afonso de Albuquerque. Estando aqui no cantinho da Península Arábica, este era um posto estratégico nas rotas marítimas de comércio entre as Índias e o caminho ao redor da África até a Europa.

Os portugueses, que com sua entrada no comércio daqui a partir do final do século XV acabaram contribuindo para a ruína comercial do sultanato medieval dos mamelucos no Egito em 1526 (conquistados pelos turcos otomanos), viriam a ter nos turcos os seus principais rivais nesta parte do mundo — ao menos até a ascensão dos holandeses, que viriam a fazer o mesmo que os portugueses aqui e competir com estes no Oceano Índico a partir do século XVII. Os turcos otomanos tomaram Mascate em 1552, perderam-na poucos anos depois, ocupariam-na novamente em 1581, para perdê-la mais uma vez aos portugueses em 1588. Os portugueses ficariam aqui até 1650, quando um novo sultão os expulsou.

“Mascate”, essa palavra tradicional usada para aqueles caixeiros-viajantes, comerciantes de tecidos e outros produtos, quase certamente vem dos tempos em que os portugueses eram os maiores mercadores do globo e tinham aqui nesta cidade um dos seus entrepostos comerciais mais estratégicos.

No próximo post eu comento melhor o que há para ver na cidade hoje, e algumas curiosidades que irão supreendê-los.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “No Sultanato de Omã, o lugar mais quente da minha vida

  1. Nossa, que horror esse calor!… Deus me livre dele haha. Coitado do viajante haha
    Mas sem dúvida uma parte do mundo importante para conhecer, a despeito dele, o calor.
    Gosto muito desse mundo árabe, da cultura, das especiarias e da arquitetura. Esses mercados e suas mercadorias e souvenires me encantam.Acho lindos seus mantos brancos. Ao meu ver o ocidente não tem o mesmo encanto. Ou o tem diferente.
    Bela essa Mesquita!.. adoro o azul com bege. Muito bonito esse mar da Arábia. Lindas as águas azuis. Bela paisagem.
    Interessante essa parte da História. Grandes navegadores portugueses. Audazes.
    Gosto muito desse tom de rochas e areia e desse belo céu azul sem nuvens.
    Esse belvedere de mármore é charmoso.
    Exceto o calor e as casas que parecem calcinadas, pareceu-me interessante a região..

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