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Belgrado, Sérvia: Cristãos ortodoxos entre os mundos austríaco e turco

A Sérvia é aquele país europeu de que quase todos os brasileiros já ouviram falar, mas que pouquíssimos de fato conhecem. Figuras carismáticas como o tenista Novak Djokovic e o nosso futebolista Petkovic (o “Pet”) ajudam a balancear a imagem ruim que o país teve nos anos 90 com os massacres na Bósnia e a guerra em Kosovo. Mesmo assim, a Sérvia ainda é talvez o país mais controverso da Europa, e o maior a estar circundado pela União Europeia mas não fazer parte dela.

Eu cheguei para uns dias neste fim de inverno europeu em Belgrado, a capital. Esta era a capital também da ex-Iugoslávia, que de 1918 a 1992 unia também o que são hoje Croácia, Eslovênia, Montenegro, Kosovo e Bósnia, com a Sérvia como “região-líder”. (Eles ainda ressentem muito terem perdido essas rédeas.) O sol brilhava como num dia já de primavera, uns 20°C muito diferentes dos 10°C com chuva que eu havia deixado para trás em Amsterdã.

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Centro de Belgrado neste março, já com ares de início da primavera.
Antiga Iugoslavia
Localização da Sérvia em meio aos outros países da antiga Iugoslávia. Deles, só a Eslovênia e a Croácia fazem parte da União Europeia. (Áustria, Hungria, Romênia, Bulgária e Grécia fazem; a Albânia, não.)

Cheguei, tirei o casaco, e sob o sol fui logo deliciar-me com um dos quitutes que já conheço de outros carnavais aqui na região — um folhado doce com recheio de cerejas de verdade — enquanto esperava o ônibus que me levaria ao centro.

(É o ônibus 72 o que te deixa mais próximo do centro histórico. O A1 é mais rápido e frequente, mas te deixa na Praça Eslava, Slavija Trg, que fica mais longe, ainda assim coisa de 30min a pé. Fica à sua escolha. Ambos partem da saída do piso de cima, de Embarque, e custam a pechincha 1 ou 2 euros, 150 ou 300 dinares sérvios. Não perca $ tomando táxi a menos que haja realmente necessidade.)

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Meu quitute de cerejas. O negócio é macio e gostoso de doer. Menos de 1 euro.

O inglês das pessoas aqui quebra o galho, mas não espere fluência. Perdi-me no caminho entre a parada do ônibus e o albergue, e parei para comprar uma fatia de pizza e buscar informação, mas a moça não soube me dizer nada. Depois eu tive que ir perguntando pelas lojas, até uma estonteante sérvia que distribuía papel na rua chamar a amiga que falava melhor inglês e soube me orientar.

A propósito, eu acho que nunca vi tanta jovem bonita por metro quadrado na minha vida. Chega a ser uma coisa perturbadora. Distraí-me tanto com os colírios no ônibus do aeroporto que, não fosse a minha a última parada, era capaz de eu ter perdido o ponto. Aqui na Sérvia, até as garotas feias são bonitas.

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O calçadão Kneza Mihaila no centro de Belgrado, a artéria principal do seu centro histórico.

—“Hoje eu passei o dia esperando por você”, me disse a senhora dona do albergue quando eu cheguei. (As senhoras aqui, ao contrário das gerações mais jovens, têm aquele ar de “mãe de família” crescidas na época do comunismo. É outra coisa.) Esta tinha seus cinquenta e poucos anos, óculos, cabelo loiro preso como num ar de professora, e um jeito meio descolado, daquelas senhoras que fazem gozação das coisas. 

—“Ah foi? Só tem eu no prédio?”, respondi eu curioso.

—“Não, tem um outro rapaz, acho que da Lituânia [era da Romênia, um fulano estranhíssimo], sei lá. Mas chegando hoje só tinha você. Agora eu posso ir passear com os meus cachorros. Eu tenho cinco cachorros.”, observou ela, olhando pra ver a minha reação. 

Eu sorri. “Aqui parece que já chegou a primavera”, comentei vendo o sol da tarde pela janela. 

—“É, mas é só hoje. Amanhã vai chover. Aproveite.

Acertamos tudo e preparei-me pra ir deixar a bagagem e ir circular.

—”Ah, qual o seu nome?”, perguntei eu com aquele tom de quem já ia quase esquecendo.

—“…lata”, escutei.

—“Lata?!”, disse eu, acho que fazendo uma cara risonha que não pude controlar.

—“’Lata’ não: Zslata”, corrigiu ela com um tom de quem pareceu até ter entendido.

Depois ela foi passear com os seus cachorros e eu fui para o parque conhecer Kalemegdan, a fortaleza de Belgrado aqui na confluência dos rios Danúbio e Sava. Essa é das fortalezas mais belas de toda a Europa, hoje num parque de livre acesso onde os belgradinos vão passear em dias de sol — e a atração n.1 na cidade. 

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O Parque de Kalemegdan e a confluência dos rios.

Kalemedgan é, de muitas maneiras, um retrato ilustrativo de Belgrado e da Sérvia — e não me refiro aqui apenas às beldades que você avistará passeando nos dias de sol.

Os sérvios têm uma história complicada e turbulenta numa região que sempre foi de fronteira. Acompanhem-me um pouco para entender, pois esta é uma região da Europa sobre a qual nós no Brasil não aprendemos praticamente nada.

Na época dos romanos, este lugar estratégico se chamava Singidunum. O Rio Danúbio fazia uma fronteira natural entre o império e os “bárbaros”. Há quem diga inclusive que Átila, o rei dos hunos, está enterrado aqui. Em 330 d.C., o imperador Constantino transfere a capital de Roma para Bizâncio, que ele rebatiza de Nova Roma, mas que terminou conhecida mesmo como Constantino-polis, Constantinopla (atual Istambul). Roma cai com as invasões bárbaras, e é após essa queda que os povos eslavos (como os sérvios) chegam e ocupam esta região, às vezes conseguindo reinar soberanos, às vezes digladiando-se com os romanos do oriente de Constantinopla. Esse disse-me-disse de brigas entre os eslavos e os romanos de Constantinopla falantes de grego aqui nos Bálcãs durou nada menos que mil anos. 

Nesse processo, os sérvios e demais eslavos da vizinhança de Constantinopla (como os búlgaros e os russos) foram convertidos ao cristianismo e tornaram-se Cristãos Ortodoxos, ou seja, aderidos à teologia cristã grega do primeiro milênio, de antes de Roma com seus ritos em latim se declarar uma igreja independente em 1054. (A partir dali é que o bispo de Roma adota a alcunha de “Papa” e passar a se identificar como pontifex maximus, não reconhecendo mais o imperador em Constantinopla. Os cristãos que eram mais achegados a esta, por sua vez, não reconhecem esse reclame de Roma e seguem hoje não reconhecendo o papa.)

É um monge medieval, São Sava (1174-1236), patrono da Sérvia e um de seus personagens históricos mais importantes, que fundaria a Igreja Ortodoxa Sérvia, administrativamente autônoma mas fiel aos ritos gregos. O Rio Sava, que se encontra com o Danúbio aqui em Belgrado, leva o seu nome.

Em Kalemedgan, há lindas pequenas igrejas e capelas ortodoxas a ver. (E aqui nos Bálcãs, ao contrário do que ocorre na Europa Ocidental, é comum que os jovens sejam festeiros e também religiosos, então as igrejas estão sempre movimentadas.)

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Fortaleza no parque. Ela existe aqui desde a época dos romanos, mas foi aumentada diversas vezes aos longo dos séculos.
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Muralhas medievais no Parque Kalemedgan em Belgrado.
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Lá tomando sol com a garotada num fim de tarde.
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Igreja ortodoxa de estilo bizantino em Kalemegdan.
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Interior de uma das capelas em Kalemegdan (sim, as igrejas ortodoxas em geral são muito mais simples que as católicas).
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Interior de outra das igrejas em Kalemegdan, esta com iluminuras no teto e nas paredes.

No meio da briga entre os eslavos e Constantinopla, chegam os turcos.

Os turcos são originários da Ásia Central, não de onde hoje fica a Turquia. Eles chegam como uma onda e já em 1312 há a primeira batalha com os sérvios. Os turcos, originalmente nômades, tinham muitos clãs, e este dizia descender de um fulano chamado Osman, daí sua alcunha de turcos “Otomanos”.

Esses turcos derrubam Constantinopla em 1453, conquistam todas as posses desses romanos do oriente (“bizantinos”) falantes de grego, e conquistam também todos os eslavos daqui que brigavam com eles. Em 1456, a Belgrado dos sérvios resiste, mas em 1521 os sérvios finalmente sucumbem para o que viriam a ser mais de três séculos de dominação turca.

Eu acho fascinante que a gente no Brasil saiba tão pouco da longeva presença turca neste lado da Europa.

Império Otomano na Europa
Tudo em colorido eram posses do Império Turco Otomano. Algumas, como a Hungria, conseguem se desvencilhar já após um século, mas o grosso dos Bálcãs (ali onde está escrito “Rumélia”, pois eram posses dos romanos) ficou sob domínio turco até o século XIX, e outros até a queda final do império na Primeira Guerra Mundial, quando é criada a República da Turquia no que havia lhes restado de território — a Turquia moderna.

O limite dos Otomanos na Europa foi Viena, que eles sitiaram duas vezes sem sucesso (em 1529 e 1683). Inclusive, meus queridos, vocês que creem que o croissant é originalmente francês, estão enganados. Ele surgiu na Áustria, dizem que para celebrar sua vitória sobre os Otomanos, cujo símbolo era a lua crescente do Islã (por isso você vê a lua crescente em quase todas as bandeiras de países de maioria muçulmana).

A Viena dos poderosos Habsburgo bateria de volta, e Belgrado e a terra dos sérvios estariam por séculos na zona de guerra entre um império e outro. Kalemegdan foi fortificada várias vezes, sempre que os austríacos ou os turcos a conquistavam. Você ainda hoje vê muito disso.

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Fortificações em Kalemegdan por onde as pessoas hoje passeiam. (O acesso é livre, não há bilheteria nem custo.)
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Um dos portões mais impressionantes.
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Sempre que (re)conquistavam Belgrado, austríacos ou turcos remodelavam Kalemegdan.
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Portões para o parque.

É curioso observar como há muita influência tanto austríaca quanto turca na Sérvia. 

Passeie pelo centro histórico e você verá da arquitetura barroca típica da Europa Central (de influência austríaca). Pare numa padaria e o que mais você irá encontrar, junto com os folhados europeus de frutos silvestres, é burek, um pão turco com recheio de queijo branco, espinafre, cogumelos ou carne, e comido aqui ad nauseam no café da manhã (é gostoso, mas meio oleoso). 

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Olha que mistura: na esquina da direita, prédio de clara influência barroca do centro da Europa, como os muitos que você encontra em Viena. No meio da rua, um marco com abóbada de influência turca, que você vê pelos Bálcãs. E na esquina da esquerda, prédios lisos de arquitetura básica comunista, dos tempos da Iugoslávia. Tudo isso coexistindo no calçadão central de Belgrado.
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Burek, de origem turca, o “pão-com-manteiga” aqui dos Bálcãs.
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Aqui de 1860 a fonte de Maria Theresa, imperatriz da Áustria. Atrás dela, o icônico Hotel Moscou, de 1908, o mais tradicional de Belgrado, de influência russa.

Porém, meus queridos, minhas queridas, eu como vos digo sempre não sou agência de viagens nem revista de bordo de avião, que dizem que tudo é lindo e mostram apenas as coisas bonitas. Aquela parte pitoresca de Belgrado é apenas o seu breve centro histórico; o grosso da cidade é mesmo dotado de cinzentos prédios comunistas de inspiração soviética até onde os seus olhos alcançam.

Circulei por essas ruas em dias de chuva e sol, às vezes buscando uma cafeteria onde me sentar — mas sem poder ficar em muitas, pois eles aqui nos Bálcãs têm ainda o mau hábito de fumar nos interiores. (Eles aqui nesta parte da Europa fumam como se não houvesse amanhã.)

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Ruas de Belgrado.
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O padrão das ruas de Belgrado é este.
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Algumas ruas são mais belas, como a Skadarska, essa rua para pedestres com pavimentação de pedras do tempo dos turcos. É um dos lugares badalados durante a noite.
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Aviso de que se fuma no interior. (Se você quer um espaço não-fumante, recomendo o restaurante Red Bread, perto da Rua Skadarska.)

A Sérvia não era miserável mas tampouco foi exatamente um país rico ao longo do século XX. Sua independência dos jugos turco e austríaco, obtida em 1878, foi seguida por guerras fratricidas nos Bálcãs até muito recentemente. Embora estejamos na Europa, você vê gente procurando comida em latas de lixo e casebres paupérrimos na periferia da cidade.

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Cidadão revirando lata de lixo. (Vi vários.)
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Sim, aí vivem pessoas. E sim, estamos na Europa. Foto que tirei na periferia de Belgrado.

Eu deixo vocês por ora com fotos de alguns outros lugares bonitos a serem vistos na capital sérvia. Em sua maioria, são igrejas ortodoxas.

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Diante da Igreja de São Sava, a maior igreja ortodoxa dos Bálcãs. Em estilo neo-bizantino, ela foi consagrada apenas em 2004, e ainda está em construção no seu interior.
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De perto, com a imagem de São Sava aqui. Este sítio foi onde os turcos em 1595 puseram fogo nas relíquias de São Sava em praça pública como punição por um levante sérvio. (PS: Caso você tenha achado esse um episódio de insensibilidade muçulmana, lembre que à mesma época a Inquisição católica ia de vento em popa tanto na Europa quanto nas Américas, pondo fogo em coisas e gentes de toda sorte.)
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O interior ainda está sendo construído.
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A Catedral de São Miguel Arcanjo.
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O interior.
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Igreja de São Marcos, estilo neo-bizantino.
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Interior. Os ortodoxos têm o hábito de beijar os ícones sagrados. As pessoas formam fila para vir aqui orar deste ponto, e curvam-se para beijar a imagem (aqui neste caso, de São Marcos).

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Belgrado, Sérvia: Cristãos ortodoxos entre os mundos austríaco e turco

  1. Liiiinda, Belgrado!.. A mistura de culturas, modelos arquitetônicos, construções, fortalezas, edifícios, pavimentações, monumentos, igrejas, praças, lhe fez muito bem. Ficou linda. So não gosto do estilo arquitetônico do tempo dos soviéticos. Muito sem graça.
    Lamentável também a pobreza e o desamparo das pessoas e sua situação de risco e carência. Muito triste..
    E que História interessante e desconhecida para nós do lado de cá do oceano que no muito a conhecíamos como a capital da Iugoslávia governada pelo polêmico general Tito e pela sangrenta guerra civil que ocupava as manchetes das mídias.
    Surpreendente saber que abrigava sob esse nome e sob o poder de Tito tantas e diferentes etnias, nações, povos e culturas. Muito bom conhecer essas raízes. Também desconhecia este santo. e seus feitos. Acho a região encantadora.
    Belíssimas as igrejas e fortificações. Gosto muito das igrejas ortodoxas e das suas iluminuras e interiores mais simples que as católicas latinas e de muito bom gosto.
    Aprecio a historia de S Marcos e suas primeiras comunidades cristãs. Amei os estilos e em particular o pórtico. encantador..
    Apreciei também suas ruelas, os belos calçadões, seu movimento e saber que ha uma juventude curtindo tudo isso. Muito bom conhecer essa parte da antiga Iugoslávia. Parabéns pela postagem, meu jovem. Muito bom. Abraços fraternos. Bom viajar assim.

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