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Impressões em Tirana, a capital da Albânia: Tradições, comidas, Bunk’art e Enver Hoxha, o discípulo de Stálin

No caminho de volta de Berat a Tirana eu conheci Keisi, uma albanesa de seus 20 anos que se sentou ao meu lado no ônibus. Estudava biologia num caderno e eu, como biólogo, não resisti e puxei conversa. Ela voltava de uma visita de fim de semana aos pais no interior, e retornava agora à capital, onde cursa odontologia.

Nós os albaneses somos conhecidos por três coisas: pela hospitalidade, por termos a cabeça aberta  em relação a cor, raça e religião, e por sermos fofoqueiros“, disse-me ela quando a conversa já ia além da biologia.

Os albaneses às vezes podem parecer taciturnos ou quietos para os padrões latinos, mas eles em geral são francos e, muitas vezes, abertos. Não há aquela amigabilidade superficial dos anglófonos; aqui eles são mais sinceros e mais sanguíneos. 

Quanto à sua hospitalidade, ela ganhou fama internacional quando os albaneses recusaram-se a entregar seus judeus durante a Segunda Guerra Mundial mesmo quando ocupados pela Itália fascista e, depois, pela Alemanha nazista. Esconderam-nos em suas casas. Não quebraram a forte tradição do que eles aqui chamam de besa, um valor estimadíssimo aqui na Albânia e relacionado a ser fiel, confiável e ter palavra de honra.    

A menina só se esqueceu de mencionar a fama dos albaneses de falarem múltiplas línguas com facilidade. Dizem que o singular idioma albanês os prepara bem pra isso, como comentei aqui. Keisi àquela idade se comunicava em inglês (embora soltasse umas frases em albanês pra mim que eu achava fabulosas e tentava repetir), e quebrava algo também de turco e italiano. Quando a elogiei pelo talento, ela — muito sagaz — respondeu que não havia nada de especial, e era simplesmente porque eles aqui assistem a programas turcos e italianos no original com legendas na televisão, assim como filmes em inglês, e compram até produtos com rótulos estrangeiros no supermercado. (Eu tive que usar todo o meu conhecimento de italiano nos supermercados aqui da Albânia.)

A Albânia é um país super curioso, às vezes por razões das mais loucas, e a sua capital (Tirana) está se tornando uma das cidades mais interessantes da Europa.

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Mesquita ao entardecer no centro da capital albanesa. A Albânia é um dos raros países europeus de maioria muçulmana. (O belíssimo interior dessa mesquita eu já mostrei aqui.)
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Na prática, os albaneses são também exemplo de muçulmanos nada fanáticos. A religiosidade deles aqui é de ocasião, como acontece com a maioria dos brasileiros que se declaram católicos. Só que aqui é com Allah.

A Albânia é pouco conhecida no Ocidente (e no restante do mundo), em parte, de propósito. Por 44 anos (de 1941 a 1985) ela foi governada por um paranóico discípulo albanês de Stálin, Enver Hoxha, que quis isolar seu país do mundo. Com medo de uma invasão, ele construiu mais de 200.000 bunkers (abrigos subterrâneos anti-bombas) para a população resistir a um eventual bombardeio. Um terço das praias tinham arame farpado e eram patrulhadas pela Marinha, enquanto cercas elétricas e cães farejadores impediam estrangeiros de entrar sem permissão e qualquer albanês de deixar o país.

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Enver Hoxha (1908-1985) governou a Albânia com punho de ferro de 1941 até a sua morte. Em 1980, publicou um livro intitulado “Com Stálin: Memórias“. Tal como seu ídolo, tinha mania de perseguição.

Esse regime surgiu depois que a Itália fascista invadiu aqui os Bálcãs para tentar anexar a Albânia e a Grécia (sem sucesso). Enver Hoxha foi um dos líderes da resistência, e desde então ficou paranóico com a ideia de que a Albânia poderia voltar a ser invadida a qualquer momento — se não mais pela Itália após a queda do fascismo, pela grande Iugoslávia do Marechal Tito logo aqui ao lado.

Uma curiosidade é que Enver Hoxha rompeu relações com a União Soviética após a morte de Stálin, com a Iugoslávia, com o Ocidente, e por último com a China. À altura dos anos 70, a Albânia já não mantinha mais relações com ninguém, e seguiu assim até os anos 90. 

Só em 1992 esse regime autocrata comunista se desfez, depois de quase meio século. Uma centena de pessoas foram executadas na fronteira tentando sair do país durante os “anos de chumbo” albaneses, e milhares foram perseguidos, torturados e mortos. Como resultado, ao início da década de 90 a Albânia era paupérrima. Ainda hoje, seu PIB per capita é menor que o do Paraguai. É dos países mais pobres da Europa, junto com Kosovo e a Moldávia. Apenas aos poucos isso está  mudando, conforme a Albânia se mexe para tentar entrar na União Europeia. Ela é candidata oficial a adesão desde 2014. 

Do ponto de vista do visitante, somente agora é que Tirana está se tornando conhecida e desenvolvendo seu potencial turístico. Ela agora tem duas das mais recentes atrações da Europa: dois abrigos subterrâneos de Enver Hoxha agora abertos ao público como memoriais. A visita é realista e calafriante. 

Os criadores apelidaram essas atrações de Bunk’Art (ver site), uma combinação de bunker com arte. Cheguei a imaginar que fosse grafitagem dos lugares, mas não: são realmente museus in situ, elaborados de forma muito criativa e interativa. (Do ponto de vista de museologia, são obras muito bem feitas.) 

O Bunk’Art 1 foi aberto em novembro de 2014, é o maior dos dois abertos até agora, e o mais interessante a meu ver. Ele fica num bairro distante do centro, na base de umas colinas na periferia de Tirana. Não se preocupe, o bairro é tranquilo. Você chega lá de ônibus. Pegue um dos ônibus com direção a Linza (às vezes escrito Linzë) na praça ao fundo da mesquita no centro. Se você perguntar por Bunk’Art, o motorista sabe o que é (embora não fale muito inglês). Compra-se a passagem dentro do ônibus.

Você navega pelos corredores subterrâneos, com espessas portas de metal e concreto, dignas de filmes de 007. Como não havia outros visitantes, senti-me como um espião infiltrado naquele ambiente de Guerra Fria, como se soldados portando rifles AK-47 fossem aparecer. Autenticidade de sobra no lugar.

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A entrada do Bunk’Art, abrigo anti-bombas subterrâneo hoje transformado em museu.
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Se você sofre de claustrofobia ou ataques de pânico, não venha.
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Corredores no interior do bunker.
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Crianças albanesas forçadas a louvar Mussolini durante a ocupação pela Itália fascista. O museu cobre muito bem a história da Albânia no século XX, com muito material sobre a invasão que sofreu na Segunda Guerra Mundial.
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Enver Hoxha, líder da resistência albanesa discursando na Conferência de Paz em Paris em 1946. Comunista que acabou agarrando-se ao poder e purgando grupos rivais, que acusava de traidores e de estarem associados aos invasores estrangeiros.
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Salão feito para Enver Hoxha dentro do bunker, caso a Albânia sofresse alguma invasão ou bombardeio durante a Guerra Fria e o presidente precisasse se refugiar. Ali um retrato dele próprio.
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Sala de reuniões dentro do bunker.
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O Bunk’art mostra tudo de como era o bunker, mas vai além, e em algumas salas mostra um pouco de como era o país durante a Guerra Fria. Aqui a réplica de uma sala de estar da Albânia dos anos 1970.

A visita é instrutiva e ao mesmo tempo tensa e ensobriante. Sobretudo tendo o lugar vazio — o que é fácil nessa vastidão subterrânea de salas e corredores em vários andares — você imerge-se bem no ambiente. Você se sente um fantasma visitando aquela realidade de um passado não muito distante, a imaginar se os soldados não aparecerão a qualquer momento.

O Bunk’Art 2 é ainda “pior”, embora mais compacto e mais visitado, por localizar-se no centro da cidade. Esse foi aberto apenas em novembro de 2016 e apresenta o Ministério de Assuntos Interiores da ditadura de Enver Hoxha e sua polícia secreta, a Sigurimi (nos moldes da KGB soviética e da Stasi da Alemanha Oriental). Basicamente, o museu lhe mostra — de forma perturbadoramente criativa — as torturas e diversas formas de repressão adotadas pelo regime. Há até mesmo uma sala escura onde se ouvem o digitar de uma máquina de datilografia e os acelerados batimentos cardíacos de um depoente. Isso além de muitos vídeos com depoimentos detalhados de sobreviventes. É perturbador.

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A entrada para o Bunk’Art 2, no centro de Tirana. Tudo isso é real e autêntico.
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A entrada, com fotos de vítimas do regime de Enver Hoxha, e onde um áudio lista os seus nomes um a um. É arrepiante. Uma escada de entrada desce para o subterrâneo.
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Os corredores no subterrâneo.
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Vídeos com depoimentos de sobreviventes.

São coisas que governos repressivos tanto de esquerda quanto de direita fizeram ao redor do mundo, inclusas aí as nossas ditaduras latino-americanas. Se fizessem um retrato assim didático das torturas e crimes da ditadura brasileira, não creio que o resultado seria muito diferente. Retratos reais nada bonitos, e que mostram o lado podre da (falta de) humanidade.

No entanto, só recomendo as visitas acima para os fortes de estômago.

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Aquela pirâmide de concreto e vidro foi construída por Enver Hoxha. Hoje, com essa longa rampa aí, virou área para andar de skate.
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Agradáveis ruas de Tirana hoje.

Hoje, os albaneses são cada vez mais europeus, culturalmente membros da Europa ocidentalizada tal qual concebida pela União Europeia. Estão cada vez mais integrados às modernidades do mundo ocidental com tudo de positivo e negativo que aí há. Nisso, surgem os albaneses emigrados, filhos(as) daqueles que fugiram durante o regime e que passam agora a manifestar sua etnia albanesa com orgulho, como fazem as jovens cantoras albanesas-britânicas Dua Lipa e Rita Ora. 

Aí a albanesa-britânica Rita Ora faz, em sua linguagem pop ocidentalizada, aquele resgate de raízes em meio aos albaneses de Kosovo, celebrando a terra de origem de seus ancestrais. PS: Os albaneses, na Albânia ou em Kosovo, adoram rap e essas coisas com uma batida dance.

Depois de ter estômago para conhecer as agruras do regime autoritário de Enver Hoxha, fui atrás de impressões mais agradáveis, de algo que literalmente fizesse bem ao meu estômago: busquei um pouco dos sabores tradicionais albaneses.

Não deixe de provar, aqui em Tirana, dos pratos da culinária tradicional aqui dos Bálcãs. Como as coisas aqui são baratas, você é capaz de ter jantares deliciosos por não mais que 5 euros. 

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Salada com diversos toques aqui dos Bálcãs: desde pimentões frios cortados, a pasta com grão-de-bico, àquele iogurte com pepino e alho que os gregos chamam de tzatziki, e que aqui em albanês é conhecido por tarator. Tudo isso, é claro, com muitas azeitonas.
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Pimentões vermelhos recuados com queijo no azeite. Maravilhoso.
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Queijo branco com legumes, tempero e azeite.

Acho que consegui melhorar o astral de vocês também, depois de falar de torturas. 

Assim é a Albânia hoje, aos poucos reerguendo-se do obscurantismo e combinando, de alguma forma, suas tradições com sua sede de modernidade.

Tirana é aquela capital europeia de que você talvez nunca tivesse ouvido falar, mas que merece a sua visita.

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O entardecer numa das avenidas em Tirana.

EPÍLOGO

Era hora de eu deixar a Albânia, e apenas 12 minutos me separavam do Aeroporto Internacional Nënë Tereza (Madre Teresa, a famosa missionária que muita gente sequer sabe que era albanesa). Klas, o alemão do albergue onde fiquei, havia me dito que seriam 40 minutos de viagem até lá, e arranjou pra mim um taxista “super-confiável” amigo dele que nunca apareceu. Como o meu voo seria às 7:30h da manhã, você imagine que eu tive que, às 5:45, sair pelas ruas vazias do centro de Tirana em busca de outro taxista que me levasse urgentemente. (Para você que gosta de alimentar estereótipos, viva agora com esse, onde o alemão me deu o toco e, depois, o albanês é que revelou-se mais preciso.)

Tirana, por sorte, guarda muito daquela informalidade de lugares mais pobres. Você geralmente avista sujeitos em certas calçadas vendendo celulares de procedência questionável e, nesse dia, eu logo achei um elemento que me viu de mochilão nas costas e perguntou aonde é que eu queria ir. “Em 10 minutos eu estou lá“, me respondeu ele rindo enquanto ligava o carro, quando lhe disse que soube que levava 40 minutos para chegar. De quebra, me fez um preço menor do que o que o alemão queria me cobrar.

Levei daqui amizades, tanto aqui da Albânia quanto de uma chilena e de uma argentina da cidade de Venado Tuerto, memórias das muitas impressões, e atravessei o Mar Adriático em direção à Itália. (PS: Meu voo atrasou quatro horas.)  

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

4 thoughts on “Impressões em Tirana, a capital da Albânia: Tradições, comidas, Bunk’art e Enver Hoxha, o discípulo de Stálin

  1. Nossa, pensei que ja tinha visto todas as belezas da Albania e fiquei embasbacada com o esplendor dessa/s foto/s magnifica/s com o entardecer em Tirana. Ja vi muitos jogos de cores na natureza, mas estes se afiguram como dos mais belos. Magníficos tons de rosa, de dourado, de magenta, diante de um céu azul estupendo e refletindo nas árvores e monumentos. Espetacular. Que incríveis efeitos. Tudo parece de ouro. Aquarela natural de infinita beleza a se projetar delicada e gostosamente sobre a cidade e seus monumentos. Um primor. Linnnda natureza!….bela região. Magnifico pintor o Criador, Parabéns pela escolha do lugar, pela postagem e pela publicação dassas maravilhas de todos os tempos. Congratulations.

  2. Em relação à macabra aventura desse louco só podemos lamentar que o bicho que é chamado de gente ainda seja capaz de agir assim com seus semelhantes. Triste povo submetido a tantos anos de terror. Nenhuma ideologia/regime/governo etc e tal , desta ou daquela tendencia ou banda, deveria ser capaz de chegar a esse ponto. Nada justifica tamanha des humanidade. Quando será que o ser des humano se humanizará? Ponha séculos nisso ai.

  3. Desculpe-me mas tragicômico, meu amigo, o seu ‘toco’ tomado por aquele que ‘merecia’ a ‘confiança’ esperada, o socorro espontâneo por alguém autóctone não esperado e o atraso do avião. Ôh coitado. percalços de viagens
    Mesmo assim melhor que chegasse e ele houvesse ja partido. Coisas de viajante haha ótimas histórias.
    E para encerrar, adorei a culinária. protos com cara de apetitosos. Fizeram-me lembrar a infância e juventude quando a mamma fazia pimentões cheios deliciosos.Deu água na boca. haha

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