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Bordejos em Paris na primavera (Parte 3): Monmartre, o Sacré-Coeur, e os contrastes entre a França da belle époque e a de hoje

A França é um dos países mais saudosos da Europa. Mesmo num continente já em geral tão habituado a gostar de reviver o passado e recobrar os seus tempos de glória, a França me parece particularmente nostálgica. 

Ao contrário de Berlim, Barcelona e outras das grandes cidades da Europa que admitem, reconhecem, e criam sua identidade própria com base na realidade presente, Paris e a França em geral me parecem fixadas num senso de identidade que gira em torno de um passado cada vez mais distante e que já não é mais. Compare, por exemplo, os filmes recentes de Woody Allen que se passam na Europa. Barcelona e Roma são retratadas em seus ambientes atuais; já em Meia-Noite em Paris (2011) ele precisou fazer viagens no tempo para retratar o que Paris era.

“A França hoje vive uma crise existencial. Ela tenta manter sua auto-imagem de 100 anos atrás, sustentada no Iluminismo e no seu ideário civilizatório, mas lida diariamente com uma realidade muito diferente daquilo.”

Os sucessos musicais franceses são todos de outrora. Os livros vendidos à margem do Rio Sena versam todos, ou quase todos, sobre a Revolução Francesa ou a Belle Époque (aquele período colonialista, promissor para os franceses, geralmente datado entre 1870 e 1910), ou sobre o pós-guerra. Não se engane: a França continua a produzir expoentes intelectuais, como o atual sensação da economia Thomas Piketty (que demonstrou com números como a economia política atual leva à concentração de renda e a crescente desigualdade). O que parece faltar aos franceses de hoje é o glamour, o charme, aquele encanto romântico que já não têm mais.

A França hoje vive uma crise existencial. Ela tenta manter sua auto-imagem de 100 anos atrás, sustentada no Iluminismo e no seu ideário civilizatório, mas lida diariamente com uma realidade muito diferente daquilo. A França de hoje já não é a potência econômica que era; internacionalmente só ainda “apita” com os países africanos mais fracos que colonizou; linguisticamente, o francês embora preserve seu requinte, já não é mais a “língua franca da diplomacia”; e, numa França cada vez mais abalada, o que se vê é o retorno pelas suas atividades coloniais: imigração e uma pluralidade cultural que ela custa a aceitar (pois, afinal, para os franceses, cultura é cultura francesa).

Para mim, nenhum lugar retrata melhor essa transformação que a célebre Monmartre.

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Na famosa colina de Monmartre, turistas aglomeram-se para fotografar o rapaz de origem africana brincando com a bola ao som de rap.

Quando cheguei para visitar Monmartre, era um dia de chuva. (Sim, a primavera em Paris também pode ser assaz chuvosa — assez pluvieux, como dizem os franceses.)

Logo que desembarquei do metrô e adentrei o bairro, percebi o acaba-mundo que ele se tornou. Rua apertadas, repletas de lojas populares e produtos chineses, que em nada devem à Rua 25 de Março em São Paulo. Você também percebe que, afora os turistas, o grosso das pessoas são emigrados das ex-colônias. Há quem ainda encontre do charme de outrora em Monmartre; mas eu, francamente, achei-o varrido pelo turismo de massa e muito mal conservado.  

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Monmartre, à saída do metrô. O centro do bairro é a colina lá ao fundo da foto onde fica a igreja do Sacré-Coeur (ou Sagrado Coração).
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Ruas glamurosas de Monmartre hoje.
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Uma mademoiselle passando pela frente da loja em Monmartre. (Até os lojões do centro de Feira de Santana são mais bonitos que isso.)
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Na rua, aquela conhecida jogatina de esconder a bolinha debaixo dos copos virados pra ver se a pessoa acerta debaixo de qual está. Aqui havia alguém apostando 50 euros (possivelmente algum amigo do jogador, pra tentar os turistas a fazer o mesmo). Vá por seu próprio risco.

Passei desinteressado por aquelas ruas comerciais onde tive a impressão de que algum trombadinha iria aparecer para bater carteiras, como fazem na 25 de Março ou na Uruguaiana do Rio de Janeiro. Rumei à Igreja do Sacré-Coeur no alto da colina, onde ainda há um belo jardim. Hoje, o interior daquela igreja parece ser a única coisa que se preservou em Monmartre.

A igreja começou a ser construída em 1875, após a vitória dos franceses conservadores sobre a Comuna de Paris, que ainda tentava levar à frente os ideais da Revolução Francesa. Pra quem não sabe, após a Revolução Francesa (1789), a França retomou a monarquia e passou o século XIX inteiro alternando entre retornos do “Antigo Regime” e novos períodos de República. (Daí o fato de a atual república francesa ser chamada de a “Quinta República”, pois quatro vezes antes ela foi derrubada para o retorno da monarquia.)

Uma educação livre, laica e obrigatória só fará aumentar o número de imbecis“, teria dito Gustave Flaubert, um dos mais famosos romancistas franceses — e um austero conservador, defensor do Antigo Regime. A lembrar que, até essa época, todas as escolas eram religiosas, e só as frequentavam as crianças de “boa família” e que tinham dinheiro.

O Sacré-Coeur foi então erigido como agradecimento ao Coração de Jesus pela derrocada mais uma vez desses revolucionários — pois afinal, como sabemos, Jesus foi elitista e não defendia os pobres, doentes, e destituídos. De quebra, como a França havia acabado de ser derrotada pela Prússia na Guerra Franco-Prussiana em 1871 (guerra que teve como marco final a humilhante coroação do Rei da Prússia Guilherme I na Galeria dos Espelhos em pleno Palácio de Versalhes), os católicos se aproveitaram para dizer que isso havia ocorrido porque os franceses se desvirtuaram, andaram flertando com a falta de religião.

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A Igreja do Sacré-Coeur em Paris, no alto da colina de Monmartre. Ainda é um dos pontos mais elevados da cidade, e oferece lindas vistas.
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Paris vista a partir da colina do Sacré-Coeur, em Monmartre, neste dia nublado de primavera.
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Nas escadarias para a igreja, sempre repletas de visitantes.
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O lindo interior da Igreja do Sacré-Coeur. Sua arquitetura mistura elementos tantos romanos quanto bizantinos — e, segundo dizem, foi uma espécie de retorno à sobriedade após os “excessos” do barroco.

Foi quando esta igreja ficou pronta, em 1914, que Monmartre floresceu ainda mais como bairro boêmio. No fim do século XIX e começo do XX, Monmartre foi marcado pela atividade de muitos artistas, inclusos aí nomes famosos  como Claude Monet, Vincent van Gogh, Pablo Picasso e outros que viveram aqui um tempo. Essa boemia, essa “vida vadia”, artística, voltada ao prazer de estar vivo (e não ao atendimento das necessidades materiais) foi uma das grandes tônicas da Belle Époque francesa. Sem dúvida, foi uma época de grande profusão cultural. (Ela é talvez a época de que a França mais tem saudade.)

La Bohème, canção de 1965 do bastião francês Charles Aznavour, versa exatamente sobre Monmartre àquela época — segundo ele, os anos da sua juventude —, e sobre como o lugar se descaracterizou com o passar do tempo. Se ele já achou Monmartre descaracterizado à época dos anos 60, imagine hoje. Se ele, hoje já um idoso de 93 anos, for ver Monmartre, é capaz de ter um treco.

Charles Aznavour cantando La Bohème (1965), uma das mais famosas canções francesas de todos os tempos. Ele versa sobre os anos da sua juventude em Monmartre, com uma companheira que ele apelidava de “a boêmia” (la bohème), e com quem ele experimentava de forma desprendida a juventude em Monmartre, nos tempos áureos desse bairro francês. A canção termina de forma triste, com ele mais tarde regressando lá, vendo o quanto o lugar mudou e como nada daquilo do seu passado tinha mais significado. Nesta performance de Aznavour, eu ainda enxergo um toque de drama do clássico pierrot francês.

Quando entrei no Sacré-Coeur, a chuva de primavera que aquele céu nublado prometia despencou. Fiquei ainda um tempo dentro da igreja, esperando a chuva passar. À porta, rapazes africanos vendiam guarda-chuvas chineses a 5 euros. Foi engraçado porque, na vinda, não estava chovendo e eu recusei a oferta. Já na saída, diante da chuva, ele me reconheceu com um “E aí, agora vai querer?“.

E para não dizer que não falei das flores, quem quiser fazer mais um mergulho ao passado, pode ir visitar ali perto o Moulin Rouge, provavelmente o segundo mais importante marco de Monmartre (depois do Sacré-Coeur). O lugar, que literalmente quer dizer “Moinho Vermelho”, é seguramente o mais famoso cabaré de Paris. Ele, como todo o bairro, ficava na zona peri-urbana de Paris há 100 anos atrás, daí os tons rurais. Se você quiser reservar um lugar para jantar e assistir a um show, pode reservar no site oficial (e preparar-se para as filas). 

Claro que tem seu charme, mas não se engane achando que a França ainda é aquela.

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O famoso cabaré Moulin Rouge em Monmartre, uma ilha da França da belle époque em meio à França do século XXI.
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Cartaz do filme francês Intouchables, de 2011, que mostra bastante a França de hoje em dia. De quebra, é uma baita produção. Baseando numa história real.

Se você quiser uma imagem da Paris do século XXI, faça a si mesmo um agrado e assista a Intouchables (2011), filme baseado na história real de uma amizade entre um tradicional senhor francês tetraplégico e o seu cuidador de origem africana.

A Paris de hoje é um caleidoscópio cultural resultante de suas aventuras coloniais. Além disso, quando sua população masculina foi dizimada pela Segunda Guerra Mundial, a França trouxe imigrantes (sobretudo homens africanos) para reconstruí-la nos anos 50 e 60. Há portanto hoje uma mistura imensa de árabes, africanos negros, indochineses do Vietnã e do Camboja (que também foram colonizados pela França), e outros europeus em meio aos franceses. Tome um ônibus em Paris e você terá a dimensão do que eu estou dizendo.

Se por um lado é interessante, por outro os franceses lidam muito mal com isso. Claro que não é todo mundo, mas num geral aqui há uma tensão social imensa. Se você é de origem não-europeia aqui na França, sobretudo se é árabe ou negro, a sua chance de conseguir emprego é tão menor quanto é maior a probabilidade de você ser parado pela polícia. Se no Brasil o racismo é grande, aqui na França ele é ainda maior e mais explícito.

Ainda assim, o desejo de muitos franceses hoje é que todos esses estrangeiros (ou filhos de estrangeiros) fossem embora de volta pra as suas terras de origem, que a França colonial pilhou e sobre as quais construiu a sua riqueza. Não é à toa que a França é o país que mais passa por ataques terroristas de extremistas islâmicos, e não é à toa que figuras xenófobas como Marine Le Pen aqui ganham tanto voto.

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Na França de hoje, rapazes africanos têm que vender souvenirs da glória francesa, dos tempos em que foram colonizados, a turistas para ganhar um trocado.

O bordejo por Paris continua.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Bordejos em Paris na primavera (Parte 3): Monmartre, o Sacré-Coeur, e os contrastes entre a França da belle époque e a de hoje

  1. Pois é. Grande foi a decepção ´por ver em que se transformou o gostoso bairro, que ainda nos anos de 1990 transpirava cultura, chame, romantismo, leveza, com seus finos e lindos cafés com coberturas vermelhas e mesinhas nos passeios, artistas espalhados pintando suas telas, turistas encantados, cores, luzes, alegria, gente jovem para la e para cá!…. Foi triste chegar e ver aquela regiao antes tão bela, descaracterizada, destruída, transformada em um amontoado da lugares onde tudo se vendia como bem caracteriza e mostra essa postagem. Infelizmente perdeu-se um dos cartões postais de Paris, como bem constata Aznavour. Embora não tenha conhecido os tempos áureos dos quais ele fala, na década de 1990 o bairro ainda era muito charmoso, alegre e atraente.
    Dele ainda restam a beleza do Sacré- Coeur e o romantismo do Moulin Rouge. Quem sabe à noite, quando a turba se recolhe a realidade se esconde mais? Detestei ver em que se transformou Monmartre.

  2. Em relação à França de hoje, como quase toda a Europa que enriqueceu com o colonialismo e o imperialismo, ha mesmo um resto de saudade desses tempos áureos que com certeza não retornarão e um pouco de pedantismo e de não reconhecimento disso. Percebi isso também em Madrid. É uma pena.
    Essa nova realidade veio para ficar e ha a necessidade de entender, aceitar e equacionar tudo isso.
    Enquanto não houver essa disposição, não so da França mas de toda a Europa colonialista para entender e equacionar essa nova realidade e suas facetas, e assumir a sua responsabilidade sobre a problemática que hoje se apresenta, veremos os episódios tristes se repetirem.

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