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Fazendo voo de conexão na China continental sem visto de trânsito: A experiência

Brasileiros podem ficar até 72h em trânsito na China continental sem visto. “China continental” (mainland China), pra quem estiver perdido, é o nome normalmente usado para referir-se à China propriamente dita, fora das regiões administrativas especiais de Hong Kong ou Macau, que gozam de certa autonomia e fronteiras próprias (pra não falar em Taiwan, que é soberana). Brasileiros podem visitar Hong Kong e Macau por até 90 dias sem visto. Já a China continental, não. Apenas por 72h, que foi o que eu fiz, meio sem querer.

Meu voo de Hong Kong a Seul, na Coreia do Sul, foi pela Xiamen Airlines, com uma devida conexão na cidade chinesa de Xiamen. Até aí tudo bem. Dois voos pela mesma empresa.

Qual foi a minha deliciosa surpresa quando, no aeroporto de Hong Kong, o funcionário da cia aérea me disse que não conseguia fazer o meu check-in até o destino final. Que eu teria que pegar a bagagem e fazer novo check-in para o voo de conexão em Xiamen. Oi?

— “Você está querendo dizer que eu vou precisar fazer imigração na China, coletar a minha bagagem, e re-despachar lá num novo check-in?“, perguntei eu quase incrédulo.

— “É“, respondeu o rapaz com ar de funcionário molóide, apertando os olhos para a tela do computador enquanto falava comigo, como quem estivesse permanentemente a buscar algo. Não encontrou.

(Aí eles começam com aquilo de “Por alguma razão eu não estou conseguindo fazer seu check-in até o destino final“, e sobe a vontade de estapear o sujeito. Dica: Não seja grosseiro, mas seja firme. Já me ocorreu isso outras vezes, eu insisti que não teria condições de pegar o voo de conexão se tivesse que fazer imigração e redespachar bagagem, e de repente o funcionário encontrou um jeito, ou chamou alguém que sabia como resolver. Então, não dê mole.)

Nesta daqui, contudo, eu sambei.

Fui conhecer a China. No voo da Xiamen Airlines, havia quase que exclusivamente chineses. Eu sempre costumei brincar dizendo que o pior inglês de anúncios de bordo que eu já ouvi na vida é o dos voos brasileiros. Neste dia eu precisei retificar isso: o dos chineses é pior. Não entendi quase que absolutamente nada. Por sorte, eu voo bastante e tenho já as instruções de segurança quase decoradas na cabeça.

Serviram-no um arroz frito com legumes a bordo e, dentro em pouco, chegamos a Xiamen.

Havia chegado a hora da verdade de fazer imigração de trânsito na China sem ter sequer o cartão de embarque do voo seguinte. Por sorte, eu tinha ao menos a reserva impressa. Entrei mecânico na fila da imigração. Uma oficial não menos mecânica atendia aos passageiros. Os chineses não conversam muito (isto é, conosco, porque entre eles, eles conversam pra caramba, embora não aqui).

Na minha hora, a oficial só abriu a boca para dizer “visa?” quando folheou o meu passaporte e não encontrei. Eu procurei ser objetivo: “Transit. Flight to Seoul, South Korea.” O inglês desses oficiais é bastante limitado, e eles em geral não curtem conversa, então corte as frases completas e vá direto ao ponto. 

— “Boarding pass?“, pergunta ela com aquele sotaque asiático. 

— “No boarding pass. Booking, here.“, retruquei eu à oficial chinesa, entregando-lhe a folha de papel com minha reserva em holandês. (Ô coragem.)

— “Wait there“, apontou-me ela para uma marca de dois pés desenhados no chão ao lado da fila. Fiquei exatamente em cima da marca. O segredo aqui é ser obediente. É parte da cultura. Não comece com aquele conversê de brasileiro. 

Lá se foi o meu passaporte, embora com ela. Vi-a passando-o a um superior, que olhou minha reserva, ponderou, e eu lá impassível. (Tenho amigos que piram quando lhes levam embora o passaporte. Aqui não haveria espaço pra isso.)

Voltou depois de uns 10 minutos, com o meu visto de trânsito de 72h escrito a caneta no passaporte. Precisei fazer também alfândega, onde abriram minha bagagem.  O policial pegou os meus livros, abriu a caixa de sabonetes Alma de Flores que eu levava, cheirou, perguntou onde eu comprei, e satisfez-se.

Eu, infelizmente, não tinha tempo para aproveitar minhas 72h. Da janela do avião, vi Xiamen com aqueles contêineres de carga no porto, o típico de cenário de filme B de artes marciais dos anos 80/90. Prédios velhos, precisando de uma mão de tinta, com escritos em chinês não faltavam. Mas eu tinha um voo a Seul para tomar em duas horas, e me limitei a ir à frente do aeroporto. 

Rapidamente, ainda dentro do aeroporto, me apareceram malucos chineses vendendo relógio. Aí depois subiu o nível: iPhones! Mostrados assim na surdina, por debaixo do casaco. Homens e mulheres, derretendo-se pro meu lado, risonhos, tais quais sedutores vendedores de camelô perguntando se eu não queria comprar. Ah, China!

Fiz meu novo check-in e despachei a bagagem novamente para uma viagem que teria sido muito mais simples se o cidadão em Hong Kong tivesse me posto direto com check-in e bagagem para o destino final. Tive de passar pela imigração novamente, e ter o meu visto fresquinho ridiculamente carimbado à saída, na entrada mais breve que já fiz num país.

Morais da história:

*Evitem fazer conexão na China propriamente dita (isto é, afora Hong Kong, Taiwan ou Macau). Você possivelmente terá que fazer imigração de trânsito, retirar a bagagem, e embarcar de novo como se tivesse acabado de chegar ao aeroporto.

*Apesar de toda a sua má fama, as autoridades chinesas no aeroporto foram a todo momento respeitosas, e alguns foram até risonhos comigo. Eles são reservados, mas se você for obediente e não quebrar o protocolo (ou seja, não dê piti), eles serão respeitosos com você. Eles podem ter aquele ar de indiferença, aquela distância neutra em relação a você, mas em nenhum momento senti aquele tratamento depreciativo que nós latino-americanos às vezes recebemos das autoridades de imigração nos Estados Unidos ou na Europa. Sim, minha experiência chinesa foi melhor que muitas que já tive em Portugal, na Holanda ou nos Estados Unidos. (Na Rússia eles são uns cavalos, então nem se fala.)

Consegui até que sorrissem, alguns! Sobretudo quanto eu lançava o meu astuto “chiê chiê” (“obrigado” em mandarim).

Vejo vocês na Coreia do Sul.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

17 thoughts on “Fazendo voo de conexão na China continental sem visto de trânsito: A experiência

  1. Boa tarde
    Vou precisar tirar o visto de transito chinês,irei para Bangcoc 48 horas apos o desembarque gostaria de saber se tem um guinche especifico na imigração para este tipo de visto.

    Obrigado

    1. Não há não, Maikon. Você entra na fila com todo mundo e consegue seu visto de trânsito com qualquer um dos oficiais. Tente ter em mãos o cartão de embarque do voo seguinte (no mínimo, a reserva).

  2. Olá Mairon, tudo bem? Vc fez a conexão na China tanto na ida quanto na volta? Pergunto pois estarei viajando a Bangkok daqui uns dias e em ambos os trechos temos conexão em Pequim, por isso fiquei em dúvida se posso solicitar este visto 2 vezes!
    O consulado não me responde, infelizmente.

    Obrigada!

    1. Olá, Yandra! Bem vinda ao site! Eu fiz essa conexão só na ida. Até onde eu sei, no entanto, não há limite de vezes, você pode tirá-lo quantas vezes passar pela China, contanto que tenha conexão pra um voo seguinte saindo do país. Certifique-se de ter consigo o cartão de embarque do voo seguinte, saindo de Pequim, ou no mínimo a reserva impressa. Boa viagem!

    2. Yandra, estou indo para Bangkok e tb farei conexão em Pequim na ida e na volta, você conseguiu fazer tranquilamente o visto as duas vezes?? Estou com essa dpuvida. Se puder me ajudar agradeço!

  3. Boa tarde Mairon! Por favor, estou no Japão e estou querendo ir para Tailândia por uma semana, mas eu preciso fazer uma conexão em Shanghai . Você sabe me dizer se preciso de visto para essa conexão ? Abraço e tenha um excelente dia!

    1. Não precisa não, Reginaldo! Basta ter em mãos o cartão de embarque do voo seguinte, ex. Shanghai-Bangkok, e que seu tempo de conexão na China não exceda 72h. Se por alguma razão não conseguir obter no Japão esse cartão de embarque do segundo, tenha no mínimo do mínimo a confirmação impressa da sua reserva do voo. Boa viagem pra você! Qualquer dúvida, estamos aí.

      1. Muito obrigado Mairon! Obrigado por ter esclarecido a minha duvida, Tenha um ótimo final de semana.
        Abraço!

  4. Nossa. Agruras de viajante. Deus nos livre dessas experiencias. Ha necessidade de muito sangue frio. Haja Deus. Ainda bem que conseguiu, Que continue com essa boa sorte.
    Belo esse aeroporto de HK.

  5. Vou em uma viagem para as filipinas e na volta vou ter uma conexão em taiwan e nw tenho visto e nem tenho mais tempo para tirar alguem sabe me dizer oq acontece se chegar la sem o visto de trânsito?

  6. Estou indo pra nova zelandia e iriei fazer escala em pequim, para poder sair do aeroporto nessa Espera de 13 horas para ha nz, eu preciso preencher algum documento Antes? Ou simplesmente vou até o guiche como se fosse ficar no pais e então ganho o visto de trânsito me permitindo conhecer a cidade é voltar para o aeroporto?

    1. Segunda opção, Lucas!
      Basta chegar ao guichê de imigração como se fosse ficar no país, mas mostrando o seu cartão de embarque para o voo seguinte, e as autoridades chinesas carimbarão o visto de trânsito (válido por até 72h) no seu passaporte.
      Boas viagens!

    1. Oi Pedro, tudo vai depender do que a sua companhia aérea fizer. Se eles conseguirem emitir todos os cartões de embarque, incluso do seu voo seguinte, e despachar sua bagagem até o destino final, você não precisará fazer imigração. Contudo, o que aconteceu comigo foi que na hora H, no check-in no aeroporto, eles me informaram que não conseguiram produzir etiqueta de bagagem e cartão de embarque até o destino final. Neste caso, você TEM que fazer imigração para poder retirar a sua bagagem e fazer check-in para o voo seguinte. (Na China, nem sempre o check-in online é uma opção. No meu caso, ela não existia.)
      Sucesso!

  7. Olá, você sabe me dizer se esse visto é pago? Estou fazendo uma viagem para a Tailândia e farei uma conexão de 11 h em Xangai. O visto libera para sairmos na cidade ou apenas para ficar no aeroporto?
    Obrigada!!

    1. Oi Aline!
      Esse visto é gratuito, e você tem a liberdade de ir aonde quiser :-). Você efetivamente cruzará a imigração e daí terá plena liberdade, tendo só a obrigação de reaparecer no aeroporto para deixar a China dentro daquele prazo de tempo. (Só não se esqueça de verificar se suas bagagens irão automaticamente até o destino final ou se você precisa retirá-las e despachar novamente.)
      Boa viagem!

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