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Conhecendo Seul, Coreia do Sul (Parte 4): Visitando seus templos budistas

O budismo é uma das grandes religiões históricas na Coreia, junto com o cristianismo (sim), o confucionismo, e o xamanismo. No entanto, ao contrário do que você pode imaginar, o budismo na Coreia nunca foi dominante, e sempre encontrou forte competição. Ele aqui jamais atingiu o nível de aceitação que veio a encontrar na China ou no Japão, por exemplo.

Imagem coreana do Buda em ferro, estimada entre os séculos VIII e IX.

O budismo surge onde hoje são o Nepal e a Índia no século VI a.C., e chega à Coreia especificamente em 372 d.C. Até então, os coreanos eram predominantemente xamanistas (na verdade, ainda são), ou seja, veneravam espíritos da natureza e comunicavam-se com as almas de seus ancestrais através de sacerdotes treinados nessa comunicação com o além (o bom e velho pajé dos indígenas brasileiros).

Esse xamanismo coreano é semelhante ao xintoísmo japonês, de culto aos espíritos dos rios, das montanhas, etc. Na Coreia, como no Japão, o budismo teve de misturar-se à religião nativa. Só que na Coreia, me parece, o elemento da mediunidade — ou seja, da comunicação com “o outro lado” — parece mais presente, o que é uma característica forte da religiosidade indígena siberiana e da Ásia central. Xamã (shaman em inglês), hoje um nome genérico dado a esses sacerdotes que fazem tal comunicação, é na verdade uma palavra de origem do povo Evenki, deste norte da Ásia.

Ícone budista do século XIII, época em que era religião oficial na Coreia medieval.

A gente costuma relacionar a Coreia ao Japão e à China, mas frequentemente se esquece desse outro lado a oeste da Coreia, norte da Ásia, que hoje pertence à Rússia mas que é cheio de tradições muito antigas e de povos nativos que por milênios trocaram influências culturais com os coreanos.

O budismo aqui chegou mesmo a ser a religião oficial de estado entre 918-1392, ainda que sem substituir o xamanismo da população. Porém, quando a Dinastia Joseon toma o poder em 1392, eles rejeitam o budismo como a religião da dinastia anterior e adotam em vez disso o confucionismo chinês como religião oficial (sobre o confucionismo, leia este post aqui). Os budistas foram então perseguidos até o século XX, com o fim da Dinastia Joseon. Hoje, competem sobretudo com o cristianismo trazidos por missionários americanos. (Sobre o cristianismo na Coreia, ver este post aqui.)

Os budistas oficialmente são apenas 15% da população da Coreia do Sul, mas legaram templos belíssimos que, junto com os palácios medievais, são do que há de mais bonito a ver em Seul.

Imagens budistas de pedra do fim da Dinastia Koryo (918-1392), no Museu Nacional da Coreia em Seul. Se você gosta de museus, este eu recomendo.
Templo budista em Seul.
Templo budista em Seul com suas lamparinas decorativas de papel.

Há dois templos budistas principais em Seul: o Jogyesa e o Bongeunsa. Recomendo visitar ambos.

O Jogyesa fica bem no centro, perto dos palácios, e eu o visitei num desses dias tranquilos em que eu ficava vagando pela cidade, a descobrir o que Seul tinha pra mim. Achei uma sala de acolhimento a visitantes, onde passei um bom tempo tomando (grátis) chá de lótus.

O simpático Sr. Lee me atendeu, um tio coreano magro de seus 60 anos. Dizia ter trabalhado com importação de celulose para fabricação de papel, e agora se voluntariava cá no templo e estava pra escrever um livro sobre budismo. Havia se tornado professor de meditação. Queria conhecer a América Latina e o Brasil. Pedi para tirar uma foto do mapa na sala onde ele estava, que tinha — como sempre aqui — o leste da Ásia e o Oceano Pacífico no centro do Mapa, e o Atlântico nas bordas (faz o Brasil parecer um lugar remoto, lááá no fim do mapa).

Mapa-mundi coreano na sala do Sr. Lee. Os asiáticos devem imaginar o Brasil como o lugar mais remoto do planeta.

Batemos um bom papo sobre budismo.

— “Um professor pode explicar tudo sobre os conceitos do budismo e ainda assim não entender de budismo”, dizia ele sorrindo. “É preciso sentir a impermanência, ter o insight. E daí então ajudar os outros. Esse que disser que se iluminou e não ajuda os demais entendeu errado, não entendeu o budismo. O insight é esse contato com a realidade verdadeira, que no Cristianismo vocês chamam de Deus. Esse dizer de Jesus de dar a outra face é a mesma coisa. Eu não me ofendo, porque eu não existo.“, completou sorrindo, como quem sabia que estava dizendo algo que eu acharia curioso.

— “E a pessoa que me preparou chá há poucos minutos atrás?“, questionei eu para apertá-lo um pouco.

— “Aquela pessoa não existe mais“, respondeu-me ele sagaz, apertando um pouco os olhos com interesse. “Isso são fenômenos, não essências. A essência é o constante mudar. A chave do budismo é isso: é não ‘ficar’ nas coisas, é seguir no fluxo. Algo pode me acontecer, e eu lamentar, mas eu não ficar preso naquilo. Budismo é a arte de aceitar a realidade sem sofrer.” 

— “E como lidar diante de uma injustiça?“, perguntei eu inquisitivo. “Você vê aquilo e simplesmente aceita?

— “Não, não”, respondeu ele veloz, como quem chegava a um ponto importante. “Você faz o que é possível, tenta corrigir aquela injustiça. A diferença é que você não fica preso a ela na sua mente, remoendo a raiva daquilo, etc. Você age e flui. Você não fica lá naquilo.

Jamais me esquecerei do Sr. Lee.

A entrada do templo Jogyesa em Seul, decorado para o mês do aniversário de Buda (maio).
Pavilhão do templo em meio às coloridas lamparinas decorativas.
Monge caminhando envolto pelas lamparinas brancas em Jogyesa, Seul.
Pavilhão principal com imagens do Buda lá dentro. Normalmente, você só pode transitar pelas portas laterais, para que ninguém dê as costas ao Buda saindo pela porta principal.
Monge rezando mantras no templo. Neste altar, oferendas de flores e frutas.
Detalhes da estética do Jogyesa, em Seul.

A quem estiver curioso, abaixo é um pequenino vídeo que fiz de um ritual de oração que presenciei neste templo. É um ritual em que os monges badalam sinos enquanto rezam mantras, para que os sinos não permitam que sua mente se distraia e saia divagando com suas preocupações. Funciona, você não consegue pensar em mais nada.

Despedi-me do Sr. Lee com uma conversa mais amena. Ele me perguntou aonde mais eu iria na Coreia. Respondi-lhe que iria também a Busan, uma cidade costeira. Ele então recomendou-me comer enguia quando estiver lá. “It’s very dericious” (sic), completou o Sr. Lee com um sorriso tranquilo.  

Eu, num desses outros dias, visitei também Bongeunsa, um templo budista ainda mais bonito no badalado distrito de Gangnam. Foi dos lugares mais bonitos que visitei na Coreia. Deixo vocês por ora com as fotos de lá.

O complexo de Bongeunsa é um templo budista fundado no ano 794, que hoje fica em pleno coração financeiro de Seul (o distrito de Gangnam). Ele conta com vários pavilhões numa área bem bucólica.
Os telhados do Bongeunsa em contraste com os altos prédios modernos de Gangnam ao fundo, num fim de tarde em Seul.
Grande imagem do Buda de pé, com fiéis orando.
Um dos pavilhões do templo Bongeunsa, em Seul.
Altar budista.
Pavilhões menores do templo em meio ao bosque, após o anoitecer.
Um dos pavilhões maiores decorado com lamparinas brancas, e os prédios de Gangnam ao fundo.
Frente de um dos outros grandes pavilhões, com lamparinas coloridas acesas. O visual aqui fica magnífico à noite.
Muitas lamparinas.
Arquitetura tradicional coreana arrojada, à noite.
Com as lamparinas cor-de-rosa.
Homem com sua pasta de executivo, provavelmente oriundo de Gangnam, à entrada do templo Bongeunsa à noite. Em Seul.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

4 thoughts on “Conhecendo Seul, Coreia do Sul (Parte 4): Visitando seus templos budistas

  1. Mairon
    Vc se supera a cada viagem….
    Tivesse eu 30 anos menos e 300 vezes mais dinheiro, iria sair pelo mundo seguindo seus passos…
    Ainda bem q vc existe. Sã momentos plenos de felicidade quando “passeio” nas suas viagens…

  2. Gente, que maravilha haaaaaaaa!,,, que belos templos, que lindas paragens, lindas lanternas, que jogo de cores, que beleza de criatividade, saudades da minha infância onde essas lanternas eram comuns nos são Joões, lindas, alegres e eram colocadas nas lâmpadas e enfeitavam as festas nordestinas de junho. Belos tempos, Essas imagens magnificas me fizeram voltar no tempo.
    Belíssimos templos, portentosa natureza, cativantes altares de Buda. um espetáculo para quem gosta da Asia e da sua cultura.
    Amei o mapa com a Ásia no centro. Da bem para se ver as dimensões dela e de outras regiões.
    Excelente postagem. Adorei. Que venha mais Asia: O lugar onde nasce o Sol.

  3. Eita beleza!…. Impressionantes os efeitos luminosos, as nuances e tons que surgem desse jogo de cores das lanternas, das paredes, dos telhados, enfim dessas estupendas manifestações da arte, da imaginação, da cultura e da religiosidade desse povo, Um encanto para os olhos e o coração. Esses tons são dos meus preferidos. Adoro verde laranja ou vermelho ou coral, e branco. Uma graça, esse verdadeiro arco iris, nessa miríade de belas cores. Valeu, viajante. Bela região, bela escolha, bela postagem.

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