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Visitando o belo Kek Lok Si, o maior templo budista da Malásia

Era um dia nublado de chuviscos quando eu resolvi ir à Colina de Penang e, de lá, vir conhecer o Kek Lok Si, o maior templo budista de toda a Malásia. Ele fica em meio a colinas bastante verdes, entrecortadas por estradas, e com algo de urbanização desordenada (à là Terceiro Mundo) aparecendo aqui e ali.

Você caminha pelas barracas que mostrei no post anterior e depois por umas beiras de estrada, mas nada muito longo. No total, é uma caminhada de seus 30-40 minutos separando a subida para a Colina de Penang e a entrada do templo.

Você verá o Kek Lok Si já a alguma distância pelo seu imenso pagode budista no alto. É dos lugares mais fascinantes a visitar aqui em Penang e em toda a Malásia.

A entrada para o templo Kek Lok Si, com seu imenso pagode lá em cima. Os pagodes são essas torres tradicionais do sul e sudeste da Ásia, originalmente inspiradas nas stupas budistas, monumentos antigos que simbolizam o caminho da elevação espiritual rumo ao alto.
Os últimos 10 minutos de caminhada são por uma uma beira-de-estrada assim. É pouco movimentado e relativamente seguro. Só tenha atenção.
Vistas que lembram o Brasil aqui na Malásia.
No caminho você passará por um manufatureiro de esculturas budistas, desses de beira-de-estrada.
O pequenino aprendiz tirando um cochilo durante os estudos.

Aqui vai algo que vocês provavelmente não sabiam: as universidades modernas têm sua origem última nos mosteiros budistas. Esse monginho aí é o prelúdio do universitário de hoje.

Permitam-me uma breve digressão. As universidades ocidentais surgiram na Idade Média europeia, sob patronato da Igreja. A nossa historiografia eurocêntrica e brancocêntrica pouco situa isso na História; conta como se fosse um surgimento espontâneo, uma iluminação repentina do clero europeu, meio “do nada” (pois a Europa raramente admite que absorveu algo de outros povos). Ora, meus caros, dificilmente algo na História surge “do nada”.

Quando surgiu a primeira universidade cristã (Bolonha, em 1088), os islâmicos há 300 anos já tinham suas madraças, escolas islâmicas adjacentes às mesquitas para estudar não apenas teologia, mas também matemática, astronomia, literatura, lógica, etc. Enquanto se faz um escarcéu sobre Gutemberg e a imprensa no século XV, os árabes e persas eruditos já eram escolados e liam livros há séculos. A escola de Al Quaraouiyine em Fez, no Marrocos, fundada no ano 859, hoje é uma universidade e é a instituição de ensino mais antiga do mundo ainda em operação. (E, só para constar, ela foi fundada por uma mulher: Fatima Al-Fihri, filha de mercadores.)

Pois bem. Os islâmicos, por sua vez, adotaram o conceito de madraça (escola islâmica) a partir de suas conquistas de terras budistas na Ásia Central no século VIII. Os budistas há séculos já tinham suas escolas nos mosteiros, onde os monges estudam as escrituras budistas entre outros temas. Alguns historiadores apontam que a criação de madraças, inspiradas nas escolas budistas, inicialmente serviu de estratégia para educar nas linhas do Corão os novos povos convertidos, além de ensinar-lhes o idioma árabe. 

Vejam se essa não lhes parece uma proposição muito mais parcimoniosa do que a tese convencional de que as universidades surgiram como “geração espontânea” na Europa.

Muito bem, vamos ao templo.

O Kek Lok Si, no alto das colinas de Penang, Malásia.
No templo, neste dia nublado.

O Kek Lok Si é, na verdade, um complexo, e não somente um pavilhão. Há vários pavilhões, altares, jardins, e o pagode. Além, é claro, de lojinhas. Às vezes lembra um colorido parque temático budista, mas é assim que os templos asiáticos são.

Incensários e velas à entrada de um dos pavilhões, com vista para as colinas.
Um dos pavilhões principais do Kek Lok Si. (Sim, as pessoas vêm aqui de carro. Não estamos na Idade da Pedra.)
Vista com detalhes para o telhado.
Interior de um dos pavilhões, com uma “árvore” onde amarrar laços fazendo um desejo. (Já as fitinhas do Bonfim eu não sei se são de inspiração budista, ha ha)
Altar budista de frente.
Altar budista com suas oferendas de flores e frutas. Na parede, nas laterais da foto, você pode ver várias pequeninas imagens de Buda ornamentando.
Centenas, se não milhares, de pequenas estátuas de Buda nas paredes internas do templo. O propósito não é meramente estético, mas também espiritual. Os budistas crêem que assim melhoram a energia do lugar.
Pavilhão e jardins internos.
Imagens de Buda nos jardins.
Áreas simpáticas por onde caminhar.
Tranquilidade ali em meio às flores.
E o pagode lá no alto.

Não é possível entrar no pagode, lamentei. Eu queria subir, mas não é possível. Contentei-me com as vistas daqui. 

O pagode, da sua entrada.
De perto. Aquelas arcadas mais no alto são típicas aqui do sul e sudeste da Ásia.
E na lojinha, olha o que eu achei. O gosto lembra uma espécie de Sprite vagabunda de mercearia.

Uma chuva fina começou, e foi agradável estar ali por aqueles jardins bucólicos enquanto a água caia do céu. Ambiente muito tranquilo. 

Deixo vocês com mais algumas imagens do interior e detalhes do budismo.

Interiores bem decorados.
Um altar ao Buda Vairochana.

Se você se interessa por budismo, vale saber que há vários Budas. Na cosmologia budista, são muitos os espíritos iluminados além do buda histórico, Sidarta Gautama. Além disso, eles discutem que o Buda tem muitas naturezas. É semelhante à discussão milenar no Cristianismo sobre a natureza do Cristo, se duas — humana e divina — ou apenas uma, humana, ou apenas uma, divina. Coisa que divide igrejas cristãs ainda hoje. Só que no budismo, é bem mais complexo. Eles dizem que esse Vairochana Buddha (acima) é uma das três naturezas do Buda histórico.

Este é o Buda Amitabha, mais um dos chamados “Budas Celestiais”. Eles são quase todos retratados da mesma forma, exceto pela cor-símbolo (aqui o vermelho) e pelo mudra, que é o signo feito com a mão. (“Mudra” quer dizer “selo” em sânscrito.) Percebam que os Budas parecem idênticos, mas os mudras que fazem com a mão são diferentes. Seus atributos de sabedoria também são distintos. Amitabha é reverenciado, em particular, por sua incrível percepção do vazio das coisas materiais. Ele teria já vivido muitas vidas na Terra como sábio, e a esta altura já escapou da roda das encarnações.
O Buda Amogasiddhi, que representa a coragem de pacificar sem medo diante do mal.
Este é o Buda Ratnasambhava, da cor amarela, é o Buda que ajuda a promover a equidade, que supera a ganância e o orgulho.
E este é o Buda Akshobhya, da cor azul e da água, o Buda da consciência, que transforma a cólera em sabedoria.

Juntos, esses são chamados de “Os Cinco Budas da Sabedoria”. É bastante pano pra manga. Mais sobre budismo nestes posts aqui.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando o belo Kek Lok Si, o maior templo budista da Malásia

  1. Que maravilha esse templo. Que belo Pagode, que lindo interior com seus estupendos coloridos e efeitos visuais e simbólicos; que espetáculo de manifestação e arte religiosas, que cultura soberba a desse povo/região. Maravilha. Cada postagem é mais bonita que a anterior. cada local mais belo. Incrível.
    Gostei de saber das origens das Universidades. Pelo lado de cá da Historia ocidental so há referencias ao seu surgimento na Europa do Medievo. Muito interessante. Esperado esse comportamento por parte da” soberba”( no sentido de soberbia) Europa. Valeu, jovem viajante. Breve espero ver essas belezas ao vivo. Congratulations

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