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Chegando a Auckland, Nova Zelândia: Imigração e impressões

Prólogo: Imigração e alfândega

Depois de voar 10h desde Singapura, chegava eu a este remoto país. A Nova Zelândia é tão longe que, mesmo saindo da Austrália, voar até aqui ainda leva 3-4h.

A Nova Zelândia, cá no canto inferior direito do mapa, está três fusos horários à frente de Tóquio. Costumamos imaginar o oriente asiático como as terras mais a leste, mas a Oceania é mais.

A alfândega para entrar na Nova Zelândia é uma novela. Compreensivelmente, há uma preocupação grande quanto à biosegurança, pois estas ilhas tão remotas e de biodiversidade peculiar são muito vulneráveis a pestes e doenças trazidas de fora.

No entanto, há um certo terrorismo exagerado: por toda parte, desde o formulário que você recebe pra preencher no avião, há “Multa instantânea de 400 dólares se você trouxer qualquer alimento e não declarar!”. Eles visam sobretudo quem traz frutas frescas, laticínios, mel ou carnes — todos proibidos. (Não traga absolutamente nada comestível para a Nova Zelândia, a não ser coisas assim muito industrializadas, tipo chocolate.)

Eu, que quase nunca carrego comida comigo de um país a outro, fiquei até meio paranóico a me perguntar se não tinha mesmo nenhum resto de biscoito ou outra coisa que me fizesse tomar a tal multa instantânea de 400 dólares neozelandeses (o equivalente a uns 290 USD). Eu trazia uns chocolates coreanos comigo, e por via das dúvidas declarei. (Acho que nunca antes, em nenhum país, eu havia tomado o corredor de “Sim, quero declarar” em alguma alfândega.) 

Disseram-me prontamente que o chocolate não era problema. No entanto, antes de passarem as bagagens pelo raio-x (o que eles fazem com praticamente todas), me fizeram perguntas pra confirmar: 

— “Não está mesmo trazendo nenhum outro alimento? Alguma banana, maçã…?

— “Não.”

— “Mais alguma coisa que você queira me dizer?”, perguntou atento o policial. A sensação é de como você estivesse sob inquérito.  

— “Não.”

Mesmo sem ter nada, eles forçam tanto a barra que você só pensa em se ver livre dali.

“Segurando o meu passaporte brasileiro, ele me pergunta ‘Como se diz quatro em espanhol?’, com aquela mistura de pretensa informalidade e ignorância geográfica característica dos países de língua inglesa.”

Momentos antes, já me haviam tomado quase meia hora na imigração em si (o controle de passaportes). Chegando ao guichê do oficial de imigração, eu havia entregue o formulário já preenchido no avião e dali passei em questão de minutos. Ingenuamente, achei que havia terminado. Não. Pouco mais adiante, após coletar a bagagem mas antes de passar pela alfândega (que descrevi acima), havia mais um ponto de triagem e controle, onde um senhor determinava se você iria pelo corredor número 1, 2, 3 ou 4. Parecia jogo do Sérgio Malandro.

Segurando o meu passaporte brasileiro, ele me pergunta “Como se diz quatro em espanhol?”, com aquela mistura de pretensa informalidade e ignorância geográfica característica dos países de língua inglesa.

Em espanhol se diz quatro, e o mesmo em português, que é a minha língua materna”, respondi eu, sempre em inglês.

Ele fez uma breve cara de surpresa, como quem diz “Ah é?”. Continuou a pantomima de contar os números nos dedos em espanhol até chegar a quatro. Eu recitei a ele os números também em português, mas ele não pareceu apreender muito. Enfim, me enviou pelo corredor número quatro, como se eu não soubesse contar. 

Chegando lá, surpresa, mais uma fila de imigração, desta vez aparentemente seleta para viajantes “suspeitos” ou de países que requerem certa averiguação mais profunda. Não acho que façam isso com todos os brasileiros, mas homens jovens viajando sozinhos são sempre “grupo de risco” na visão desses países. Além do mais, no formulário eles haviam me pedido para listar todos os países onde estive nos últimos 30 dias. Ca-ham, foi uma lista de uns oito, inclusos aí Jordânia e Omã. 

Acho que metade de toda a inquisição da moça oficial foi sobre a minha experiência nos países árabes por onde passei. Sim, perguntou o que eu fazia da vida e quanto tempo iria viajar pela Nova Zelândia, mas a saraivada de perguntas mesmo foi: “Você não ficou com medo de viajar pela Jordânia? Lá é perigoso? Quando você esteve no Egito, ficou quanto tempo? Conhecia alguém? Ficou o tempo todo no Cairo?”.

Eu tenho sangue frio pra essas coisas, até porque não tenho nada a esconder. Mesmo assim, depois de um tempo, satura. Quando viu em meu passaporte o visto para o Irã, que visitei em 2015, aí veio mais uma série (curiosamente, não houve uma pergunta sequer sobre os países não-muçulmanos). A única coisa irritante era ouvir a mulher pronunciando “Ai-ran”, como fazem Trump e os jornalistas ignorantes da Fox News.

Devo admitir que, todo o tempo, a postura dos policiais foi respeitosa, diferentemente do que pode ocorrer nos Estados Unidos. Só acho meio pretensioso esse excesso de temor que um país como a Nova Zelândia tem, de sentir a necessidade de questionar alguém 10x mais tempo do que lugares mais ricos, como Singapura ou Hong Kong, onde deixam você passar rapidamente, e nem por isso andam experimentado atentado terrorista. Eles da Nova Zelândia se juntam a campanhas para bombardear os países dos outros e depois ficam assim, temendo represália.

Depois de um tempo que não contei, passei. Após a imigração e a alfândega da multa instantânea de 400 dólares, recolhi a minha bagagem do outro lado da máquina do raio-x e fui embora. Finalmente eu entrava no país. Bem vindos à Nova Zelândia.


Ruas de Auckland, que não é a capital (esta seria Wellington), mas é a maior cidade da Nova Zelândia, com 1,4 milhão dos 4 milhões de neozelandeses que há no país.

Depois do calor equatorial da Malásia e de Singapura, era hora de pegar em junho o fim do outono do hemisfério sul na Nova Zelândia. Faz frio, embora nada brutal. Peguei 10 graus à noite em Auckland, que fica no norte da Ilha Norte (veja no mapa abaixo).

A Nova Zelândia se tornou mundialmente famosa por suas paisagens, especialmente após a filmagem de O Senhor dos Anéis aqui. A fama é mais que merecida, como vocês verão ao longo dos posts seguintes. Auckland, a maior cidade do país embora não seja a capital (Wellington), é no entanto um lugar de poucos atrativos.

As duas grandes ilhas da Nova Zelândia. Auckland (a maior cidade) lá em cima, e Wellington (a capital) no meio.

Auckland não é necessariamente feia, mas é uma cidade sem sal, que tenta parecer uma grande metrópole (à là Toronto ou Nova Iorque) sem conseguir ser. Aqui vivem 1.5 milhão de habitantes, um terço da população da Nova Zelândia. No entanto, ela é uma cidade espalhada, com um centro pequeno, e cuja animação se limita a algumas quadras. Como você vê de qualquer parte os morros que cercam a cidade e o mar, não há a sensação de estar num centro urbano envolvente, mas num vilarejo grande, onde a roça está logo ali perto.

É cara pra caramba. Mais cara que a maioria dos países europeus (na minha memória, apenas a Suíça, a Noruega, a Grã-Bretanha e a Holanda conseguiram ser mais caros). A razão em parte é a distância: muito é importado, o que encarece.

A principal característica de Auckland, na verdade, é a grande presença de imigrantes. A maioria dos estrangeiros que se mudam para a Nova Zelândia vivem aqui. As ruas estão pontilhadas de bodegas étnicas internacionais: cafeterias e restaurantes simples vendendo kebab turco, comida chinesa, indiana, tailandesa, etc. (Comida neozelandesa propriamente dita existe tanto quanto a culinária inglesa. Desafio você a citar dois pratos típicos que sejam.)

No avião em que vim, acho que 1/3 era de indianos. As conversas que eu ouvia entre eles nas poltronas próximas a mim eram: “Há quanto tempo você já está na Nova Zelândia?”, “9 anos”, “Ah, nós chegamos o ano passado”, dizia a moça referindo-se ao marido e aos filhos, além dela própria. (Os indianos quase sempre têm vários filhos, pois este é um valor importante na sua cultura.) Considere-se, além da imigração, as díspares taxas de natalidade, entre indianos e orientais que têm vários filhos e os neozelandeses de origem europeia, que atualmente limitam-se a um ou dois. 

Na capa de um jornal vi um parlamentar neozelandês comentando que algo precisava ser feito para coibir ou reduzir a imigração, pois do jeito que está “a Nova Zelândia daqui a uns anos vai se tornar uma colônia asiática.” Os preços de propriedade em Auckland estão absurdamente altos devido a essa demanda estrangeira, e todo mundo na Nova Zelândia comenta isso.

Eu acho interessante perceber o quanto que esses antigos “paraísos de desenvolvimento” (enquanto o mundo lá fora era explorado e se lascava) estão sendo gradativamente tomados por imigrantes das respectivas vizinhanças pobres em todas as partes do mundo: os EUA se tornam a cada dia mais latinos, com a previsão de que os não-brancos já serão a maioria da população daquele país a partir de 2041; a Europa encharca-se de árabes e de africanos vindos de suas ex-colônias; e aqui no Pacífico a Nova Zelândia, assim como a Austrália, enchem-se a cada dia mais de imigrantes orientais e indianos. Suas quantidades crescem a cada ano (e o que são 4 milhões de neozelandeses ou 20 milhões de australianos para os mais de 1 bilhão de habitantes que tem a Índia e a China individualmente?). 

No trem turístico que eu viria a tomar em alguns dias, o comentário no áudio era em inglês e mandarim — da mesma forma que nos EUA crescentemente há o uso do espanhol, para os imigrantes e turistas que vêm sem entender inglês. Estou curioso pra ver como é que vai estar isto aqui daqui a 100 anos (o que é um vapt-vupt do ponto de vista histórico).

Vista da janela do meu quarto em Auckland.
Ruas de Auckland num dia quieto.
A beleza fica por conta das árvores.
Outono na cidade.

O meu albergue ficava na rua Karangahape Road. Não estranhe o nome. Se você tiver se esquecido, já no aeroporto se lembrará de que não há apenas brancos de origem inglesa aqui na Nova Zelândia: há também a forte população Maori [lê-se Maôri], o povo polinésio que já vivia aqui antes da chegada dos ingleses em 1769. Muitos lugares têm nomes Maori no país, e você os encontra facilmente por aqui.

Já no aeroporto, dois Maori bem gordos e animados me atenderam quando entrei numa loja de eletrônicos para comprar um adaptador. Para você que reclama da tomada de três pinos brasileira, eles aqui também têm uma bem estranha, e diferente da nossa. (A deles têm três entradas largas em vez de pinos redondos.)

Os Maori são uma onda. Eles frequentemente se comportam de modo bem diferente dos neozelandeses de origem europeia (é uma cultura social diferente, como no caso dos negros nos EUA), e têm um porte físico bem grande e geralmente parrudo. Falaremos mais deles nos posts a vir. 

Pôster com Maoris em trajes tradicionais em Auckland. Eu veria bastantes deles no decorrer dos dias aqui, embora hoje em dia vistam-se à moda ocidental, como os demais neozelandeses.

Na tarde em que cheguei, fui logo dar um passeio no centro (o Central Business District, como eles o chamam aqui, às vezes abreviando como CBD). É a parte de Auckland one há prédios altos, a conspícua torre comprida da foto inicial, e algumas ruas comerciais mais movimentadas. Embora não tenha lá grande personalidade própria, é uma área animada.

Queen Street, a grande artéria principal de Auckland.
A Sky Tower, torre de telecomunicação símbolo de Auckland. Com 328m de altura, ela é a estrutura mais alta de todo o hemisfério sul.
O fim da Queen st. é o porto, o Queen’s Wharf (“Cais da Rainha”).
Vista no porto de Auckland. Águas do Oceano Pacífico, aqui quieto.
Vista do porto para o centro de Auckland.

Como eu disse, não é uma cidade lá de grandes charmes.

À noite, acordei à 1 da manhã sem sono devido ao jet lag (a diferença de fuso horário), e resolvi sair pra caminhar. As ruas estavam mais quietas ainda, com algumas pessoas a sair de clubes e a retornar de táxi das festas. Vi fechado o restaurante tailandês onde eu havia jantado por 10 dólares (ô saudade da comida boa e barata que havia deixado pra trás em Singapura no dia anterior), e encontrei um boteco turco ainda aberto onde era possível tomar um espresso. 

Sentei-me no banco da rua vazio, e me diverti quando algumas garotas embriagadas passaram num táxi gritando pela janela qual era o meu preço.

Já na manhã seguinte, eu deixaria Auckland para trás rumo a Rotorua, no interior. Minha viagem à Nova Zelândia começaria a ficar interessante.

Ruas vazias de Auckland na madrugada.
A Sky Tower de Auckland à noite, em meio ao centro.
Igreja por onde passei, com a bela folhagem de outono, no caminho para a rodoviária na manhã seguinte. Era uma mera palhinha da beleza neozelandesa ainda por vir.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Chegando a Auckland, Nova Zelândia: Imigração e impressões

  1. Interessante a cidade. Gostei da torre e das arvores com tons outonais. Tambem do belo estilo da igreja.
    Boa reflexão sobre a síndrome do medo árabe/islâmica que atinge vários países, em particular os mais desenvolvidos. Ao meu ver em parte se deve à propaganda e campanha ocidentais/norte- americanas e em parte desconhecimento, ignorância em relação à civilização, hábitos e cultura árabe e ou islâmica. O desagradável é a pessoa ser submetida a esse verdadeiro interrogatório por conta dessa fobia. Mas são ossos desse oficio, meu jovem viajante. Por aqui pela America do Sul a coisa é menor porem também tem umas nuances dessas.

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