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Conhecendo o povo Maori e a sua cultura tradicional em Rotorua, Nova Zelândia

Os Maori são um povo amável, ainda que guerreiro. Guerreiros amáveis. Antes, no entanto, de relatar o que vi, permitam-me um breve prólogo sobre a Polinésia, à qual eles pertencem, pois quase nada aprendemos sobre ela no Brasil.

Prólogo: A Polinésia

A Polinésia, e não a Ásia, é a região mais a oriente no mundo — assim como também a mais a ocidente. Ela tem os primeiros fusos horários e os últimos. A Linha Internacional da Data, que se convencionou traçar sobre o Oceano Pacífico (aqueles fins do mapa que você tem na parede, uma mera convenção no globo terrestre), passa exatamente ao lado de países polinésios como Samoa, Tonga, e Taiti. Economicamente pobres eles podem ser (depois de séculos explorados pelos europeus…), mas são culturalmente riquíssimos, além da natureza exuberante. E um povo intrépido: quem mais se aventurou no maior oceano do mundo de canoa?

Os polinésios são o povo do Oceano Pacífico, essa grande massa azul que a gente costuma erroneamente crer vazia de gentes. Reparem no mapa abaixo, que o seu currículo de História e Geografia nunca mostrou (ainda que tenha relevância com o Brasil, já digo por que).

Aotearoa, que significa “Terra da Nuvem Comprida”, é o nome original Maori para a Nova Zelândia.

Estão vendo aquele grande triângulo no oceano? Não, não é o triângulo das Bermudas, é o Triângulo da Polinésia. No extremo norte está o Havaí (de nativos polinésios ainda presentes), perto da América do Sul a Ilha de Páscoa, hoje pertencente ao Chile, e cuja população nativa praticamente desapareceu, e a sul a Nova Zelândia. No meio, uma grande quantidade de ilhas habitadas por nações polinésias.

Nessa área os polinésios chegaram há milhares de anos a partir do Sudeste Asiático. Suas línguas (e sua genética) têm relação com aquelas da Malásia, Filipinas e Indonésia. São idiomas da família Austronésia, que praticamente não tem nada a ver com as línguas da Ásia continental.

Naquela vastidão azul os polinésios se dispersaram em longas canoas (merecem o título de navegadores mais intrépidos do mundo) até chegarem mesmo à América do Sul e se tornarem ancestrais de alguns de nós. Embora isso tenha sido disputado por muito tempo pelos historiadores, análises genéticas recentes mostram que alguns indígenas sul-americanos, como os Aimoré (os mesmos Botocudo), são aparentados dos polinésios. (Pra quem lê inglês e quiser ver os artigos, aqui e aqui.)

À Nova Zelândia estima-se que os polinésios tenham chegado por volta dos anos 1250-1300 — uma migração relativamente recente, poucos séculos antes dos ingleses. Isso deu-lhes tempo, contudo, de desenvolver uma cultura distinta, ainda que aparentada dos seus irmãos em Samoa, Taiti e outros países polinésios. A partir dessa chegada é que esses polinésios que aqui vieram (e que trouxeram consigo algumas variedades de plantas) chamam-se Maori. Eles hoje são cerca de 600 mil indivíduos, ou 15% da população neozelandesa.

A expressão cultural Maori mais mundialmente famosa não é outra senão o Haka, muito conhecido dos fãs de rúgbi. Trata-se de uma dança de guerra que foi prontamente adotada pelo All Blacks, a seleção nacional neozelandesa de rúgbi (onde participam muitos maori), na apresentação antes da partida. Consiste em movimentos para apresentar a sua força, conectar o grupo, e fazer caretas para intimidar o adversário. O vídeo abaixo é um bom exemplo, num jogo contra a França (que tomou uma lavada).

Eu sei, no vídeo eles não parecem muito amáveis, mas são. (Guerreiros amáveis, eu avisei.)


Rotorua é um dos melhores lugares da Nova Zelândia onde conhecer algo da cultura Maori. É, verdade seja dita, o que há de mais culturalmente interessante no país. 

Embora os Maori hoje estejam em grande medida bem misturados na vida moderna cotidiana da Nova Zelândia (ainda que sofrendo de situação socioeconômica desvantajosa, como os negros nos EUA), aqui há várias performances onde conhecer algo da cultura Maori tradicional, ver seus trajes antigos, comer suas comidas típicas, etc.

Eu fui a duas apresentações: uma no próprio parque Te Puia, cuja parte geológica eu já mostrei anteriormente, e outra à noite, na Tamaki Cultural Village para um jantar Maori com música, etc.. Recomendo ambas. (A primeira basta comprar à bilheteria, mas a segunda pode valer a pena reservar no site com antecipação.)

Tudo em geral começa com uma encenação de como seria a recepção de um forasteiro num vilarejo Maori. Há de início a intimidação, para que você os trate com respeito, e depois é feito um convite aceitando você como convidado. Isso normalmente é na forma de algo colocado no chão para você pegar e trazer para o chefe. Você então saúda a todos tocando sua ponta do nariz com a ponta do nariz de cada um, e olhando bem de perto nos olhos. Hoje em dia, isso é combinado com o aperto de mão.

A princípio pode parecer estranho, invasivo demais, mas fiz com um bando de gente e, na real, achei que na verdade ajuda a quebrar o gelo. Depois de roçar o seu nariz com o da outra pessoa, você fica mais à vontade. Sério.

Eu muito à vontade com os Maori. As caretas de intimidação costumam sempre incluir a língua pra fora e esbugalhar os olhos.
Arte Maori. Um guardião espiritual esculpido em madeira. Exposição no parque Te Puia.
Outro guardião espiritual, também no parque Te Puia.

Se você quer ver a tal tentativa de intimidação de que falei, abaixo é um vídeo que fiz com turistas na visita à noite. (Na da manhã eu estive no lugar do cidadão lá na frente. Ainda que você saiba que é encenação, aquelas lanças girando perto da sua cara retesam seus músculos. Você tem que dizer ao seu instinto que é faz-de-conta.)

A esta altura já deve estar todo mundo achando os Maori um povo bravio, quiçá até bruto. A verdade, entretanto, é que eles são mais sinceros, gentis e calorosos que os neozelandeses de origem europeia (em geral relativamente frios e individualistas, como os demais povos de língua inglesa). Ainda que o meu contato tenha sido limitado, esse é o tipo de coisa que não se demora a perceber.

Com uma garota Maori em trajes tradicionais.
A sogra…

Outra coisa que você não demora a perceber é que os Maori são em geral altos e corpulentos. Eles não só têm um biotipo grande, como também frequentemente são gordos. Há uma aceitação maior do corpão pesado tanto no homem quanto na mulher entre eles — e entre os polinésios em geral, como mostrarei depois —, mas é também uma questão de saúde pública por eles serem mais pobres e hoje em dia comerem muito fast food barato, como ocorre nos Estados Unidos.

Tradicionalmente, a comida Maori inclui batata-doce, outras raízes, peixes e aves, tudo cozido debaixo do chão. Esse método, chamado de hangi, consiste em esquentar rochas ao fogo, pô-las num buraco, colocar a comida enrolada por cima, cobrir de terra, e deixá-la cozinhar lá dentro. Leva horas, mas fica uma beleza. Experimentei-o numa das noites. (Melhor que forno à lenha.)

Homens Maori preparando o jantar.
Rochas bem quentes lá embaixo.
A janta. Hoje, é claro, asseadamente arrumada.

Deixo vocês, por ora, com a música deles.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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