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Rumo a Wellington: A capital da Nova Zelândia e o espetacular museu “Te Papa”

De Auckland (a maior cidade da Nova Zelândia) a Wellington (a capital). Era o meu trajeto do dia.

Tinha tudo pra ser um dia lindo. O sol raiava, era uma manhã fresquinha, e eu me preparava para embarcar numa cênica viagem de trem desde Auckland até Wellington, a capital neozelandesa, no extremo sul da Ilha Norte do país. 

Começou bem. Todos os trens são cênicos e turísticos na Nova Zelândia: como é habitual nos países de língua inglesa, há um predomínio do automóvel e das estradas, mas aqui há linhas especiais de trem nas quais turistas podem fazer uma viagem mais gostosa apreciando a paisagem. Há comentários em inglês e mandarim (o que achei revelador), e o trem era deveras confortável. Essa era a linha Northern Explorer, a única que funciona no inverno. (No verão, há outras na ilha sul também.)

Já as paisagens da Nova Zelândia dispensam comentários.

Tomando meu KiwiRail ainda de manhãzinha em Auckland, antes do sol raiar.
Trem bem confortável.
Vistas campestres pela janela.
Montanhas ao fundo.
Costumamos às vezes imaginar a Nova Zelândia como “natureza selvagem”, mas a grande maioria são, na verdade, paisagens rurais. Estima-se que haja nada menos que sete cabeças de ovino por pessoa na Nova Zelândia, e vacas leiteiras também não faltam, sobretudo aqui na Ilha Norte. (Você deduza aí as disputas políticas, já que essas imensas propriedades hoje de neozelandeses de origem europeia são de terras tomadas do povo Maori.)

Estava tudo lindo, até que após algumas horas o nosso trem parou. Avisaram-nos que havia ocorrido um acidente mais adiante na ferrovia e que, infelizmente, não seria possível prosseguir. Gentilmente, nos colocariam para as 7h restantes de viagem num ônibus até Wellington.

No ônibus, onde não coube todo mundo, veio sentar-se ao meu lado uma neozelandesa louca. Dessas pessoas que falam para si mesmas, comentando sobre pessoas e coisas que você não conhece, com um sorriso estampado no rosto, e aquele olhar de quem não gira bem da cabeça. A mulher “conversou” comigo por 5 horas a fio. (Ria. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.) Ainda bem que eu sou bem treinado em escutar pessoas que gostam de falar — em lugar de dialogar —, mas mesmo assim foi pauleira. Ao menos ela falava coisa com coisa, apesar da loucura. Além de aprender que seu filho Gilbert, de 11 anos, estava com a guarda na mão do pai (não me surpreendeu), e que o primeiro marido morreu de câncer, ela me falou um pouco sobre alguns lugares da Nova Zelândia, sobre como se desenvolveu a cultura do bom café aqui, entre outras coisas. Não foi de todo ruim.

Como resultado, também acabei me desencontrando de minha amiga que iria me esperar na estação de chegada em Wellington. Por sorte, encontrei wi-fi grátis em todo o centro da cidade. Logo a seguir, encontrei bebedouros na rua. Fiquei a me perguntar se, a seguir, viria alguma lady neozelandesa oferecer-me flat whites gratuitos enquanto eu aguardava o ônibus.

A fachada da bela estação de trens em Wellington, onde o ônibus nos deixou. Por dentro é uma estação simples, mas não é má.

A sorte foi ser precavido e ter me informado sobre o endereço e como chegar à casa da minha amiga em caso de algum desencontro. Foi providencial. Tomei o ônibus e fui, rumo às colinas de Wellington à noite.

No ônibus, para não acharem que essas atrapalhações só ocorrem no Brasil, eu disse ao motorista as imediações de onde queria parar. Ele fez que sabia e mandou entrar. Depois, quando quase só restava eu no ônibus, ele pergunta de novo. Eu repito, ele diz que não sabe onde é. Ele pergunta o nome da rua pra onde eu ia, e quando eu digo, ele diz que já ficou pra trás. Que ótimo. Fomos até o final e, no percurso de volta, ele me deixou no lugar certo. Ao menos foi gentil. 

Depois ainda caminhei um pouco com as minhas bagagens pelas ruas ondulantes à beira de penhascos, que são características de Wellington (que parece estar quase toda no alto de colinas voltadas para o centro, abaixo, no porto à beira-mar), e cheguei para o fim de semana.

Wellington é apelidada pelos seus residentes de Windy Welly, em referência ao vento super-forte que bate aqui constantemente. É pior que a Holanda, onde já morei, e notória por seus moinhos de vento (também não sem razão de serem). Dei um pouco de azar que o tempo estava horrível, uma chuvarada com neblina que quase não nos permitia ver nada (vocês verão a foto minha no Mt. Victoria, um ponto alto de observação, com vista para a cidade), mas ao menos houve um momento cálido de ficar na casa aconchegante dos pais da minha amiga.

A vista para a baía de Wellington lá do alto, na manhã seguinte. É uma cidade pequena, de seus 400 mil hab., ainda assim a segunda maior da NZ após Auckland.
Muitas vizinhanças de Wellington ficam no alto, nas colinas ao redor do centro da cidade. Aqui a vista de uma, para o mar numa nebulosa manhã de domingo.
Eis aqui eu no Monte Victoria, um ponto de observação, com a cidade lá atrás. Fomos por pura cortesia dos pais da minha amiga, pois estava uma chuva danada.

Super acolhedores, você percebe que culturalmente os neozelandeses de origem europeia estão 100% conectados com o restante do mundo anglófono, e praticamente nada com os Maori. Nosso café da manhã de domingo foi de panquecas com xarope de maple importado do Canadá, nozes, iogurte e banana, além de bacon para os que assim o quisessem (o bacon ia misturado com todo o restante).

A cidade em si é charmosinha, mas não tem lá tanto a ver. A principal atração é o Museu da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa, abreviado simplesmente como “Te Papa”. No idioma Maori, isso quer dizer algo como “o lugar de tesouros desta terra”. Super interativo, bem feito, e gratuito. Você aprende bastante sobre os Maori, sua chegada à Nova Zelândia, e a história mais recente do país. Vale muitíssimo a pena. 

À entrada do Museu Te Papa, em Wellington.
Coral de crianças numa casa montada com arte Maori, dentro do museu.
Foto antiga de uma mulher maori em trajes tradicionais.
Dentre os muitos detalhes sobre as navegações polinésias, um que me chamou a atenção foi sobre como eles usavam um côco furado para orientar-se pela localização das estrelas. A depender do ângulo que você olhar para o céu, é possível. Eles, afinal, navegaram assim o maior oceano do mundo e chegaram até aqui.

Wellington, como eu disse, não é uma cidade turística por excelência, mas tem um centrinho simpático, e é notória por seus cafés — algo raro no mundo anflófono, mas que aqui vale a pena. Os neozelandeses (ou os australianos, dependendo de a quem você perguntar) são os criadores do flat white, um espresso com leite hoje popular até mesmo na tradicional Europa. O café aqui é surpreendentemente bom.

Fui tomar um com torta de maçã com minha amiga e seus pais, que me apresentaram também das guloseimas mais típicas da Nova Zelândia: chocolate fish e pineapple lumps. Não, meu querido, não vá já longe imaginando peixe assado com chocolate; esses “quitutes” são simplesmente doces industrializados com que as crianças aqui se acostumaram. (Você superestimou a culinária neozelandesa.) Fiquemos com o café.

Chocolate fish, arquetípico na Nova Zelândia: marshmallow coberto de chocolate, no formato de um peixe.
O café (flat white) com torta de maçã. Esses, sim.
As ruas do simpático centrinho de Wellington.
Monumento no centro de Wellington aos jogadores de rúgbi. Os All Blacks, a seleção nacional neozelandesa de rúgbi, são aqui tão populares quanto a seleção de futebol no Brasil. Atrás, os pinheiros característicos da Nova Zelândia.

Wellington, caso você não saiba, é a capital mais austral do mundo: nenhuma outra capital do mundo fica tanto a sul. Estamos aqui a 41° de latitude sul, bem mais que os 35º de Canberra, na Austrália, ou os 34º de Montevideo ou Buenos Aires.

Ainda assim, eu rumaria ainda mais para sul, pois havia toda uma Ilha Sul da Nova Zelândia a descobrir. A começar, a travessia de 3h de ferry pelo Estreito de Cook, que separa as duas grandes ilhas do país. No post seguinte.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Rumo a Wellington: A capital da Nova Zelândia e o espetacular museu “Te Papa”

  1. Muito simpática a capital. Ruas bonitinhas no centro, mas a natureza é quem dá o tom. É mesmo soberba. Muito bonitas essas paisagens da NZ. Belas e convidando ao relax. Gosto muito do campo.
    Achei belissima a decoração do palco para a apresentação do coral e, sobretudo, a figura da mulher maori. Bela e respirando personalidade e determinação.
    Fiquei de água na boca com a torta de maçã hahah, um dos meus pontos fracos em comilanças haha.
    O museu parece muito bom mesmo.
    Coitado do senhor, meu caro viajante, com essa companhia hahaha. Imagino o desconforto haha Ossos do ofício haha. Sorry.
    Gostei de conhecer a região. Muito interessante. Ótima postagem.

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