You are here
Home > Samoa > Crônicas em Samoa, Oceania: A chegada

Crônicas em Samoa, Oceania: A chegada

PRÓLOGO: Num avião para Samoa

Pai, eu pequei. Pequei o pecado da chamada “gordofobia”, termo que tem sido utilizado para denotar a discriminação social contra pessoas gordas. No meu caso, foi literalmente uma fobia: eu via as pessoas enormes espremidas em seus assentos no avião, e conforme os pesados samoanos aproximavam-se, às vezes de ladinho pelo corredor do avião, eu numa daquelas adoráveis poltronas de que ninguém gosta, bem no meio, nem corredor nem janela, rogava para não viajar espremido. Quatro longas horas de voo ainda me separavam de Apia [lê-se a-pía, não ápia], a capital de Samoa.

Acho que uma mulher samoana pesa em média uns 80kg, e os homens, muitas vezes bem mais. É comum aquele físico de mamãe cozinheira ou de rei momo. Além disso eles, como os polinésios em geral, são bastante altos. Era comum ver mulheres de 1,80m, e homens ainda maiores. (Os atores Jason Momoa, o Khal Drogo de “Game of Thrones”, e Dwayne “The Rock” Johnson são ambos de origem polinésia. Frankie Adams, que faz a marciana Bobbie Draper em “The Expanse”, de 1,80m de altura, também.

Por sorte, voaram junto de mim pessoas de volume mais modesto. Saindo de Auckland, na Nova Zelândia, à tarde, eu chegaria a Samoa já nas primeiras horas da noite. Depois de um tempo viajando por países ricos e desenvolvidos, era hora de retornar à aventura que é viajar por lugares mais simples. Era hora também de ir ainda mais a leste, para o segundo fuso horário do mundo, 16 horas à frente do horário de Brasília.

O Aeroporto Internacional Faleolo, em Samoa.

Samoa foi o único lugar do mundo até agora onde eu encontrei bandinha tocando diante da esteira de recuperar a bagagem. Violão, e seu zé seresteiro cantando animado aquelas músicas de luau à beira do mar, na língua samoana. 

Na fila da imigração, um guarda passava acompanhado de um cachorro esperto, preto e grande, mas de ar amistoso, que saía cheirando todos nós e as nossas bagagens de mão enquanto esperávamos para ter os nossos passaportes carimbados pelos oficiais. Ou melhor, as oficiais, pois eram todas mulheres, já umas senhoras de seus 50 ou um pouco mais, uma delas usando uma flor em cima da orelha como realmente fazem muitas mulheres samoanas e do Pacífico afora.

Chegou minha vez. Folheando o meu passaporte e mostrando-se ligeiramente impressionada com a quantidade de estampas e vistos que já tomavam quase que todas as 32 páginas do meu passaporte, a senhora samoana decide endereçar-se à minha cara feliz.

— “E você está aqui para…?“, perguntou ela séria mas tranquila.
— “Turismo“, respondi.
— “Você já tem uma passagem para seguir adiante depois de visitar Samoa?”
— “Sim, para Fiji. Aqui está“, e lhe mostro a reserva do voo para dali a uma semana.

— “Aí de Fiji você volta para o Brasil“, completou ela meio em tom de pergunta, esperando eu confirmar.
— “Não. De Fiji eu vou pra Vanuatu, Nova Caledônia, Taiti, daí eu volto para a Nova Zelândia e, de lá, para o Brasil“.
— “Isso tudo por sua própria conta? Sozinho?“, perguntou ela como quem achava aquilo estranho.
— “Sim
— “Você não é casado?
— “Não
— “E você nunca foi casado?“, perguntou ela cada vez mais chocada.
— “Não.” “Talvez por isso”, complementei.

Ela sacudiu um pouco a cabeça, como quem diz “esse é maluco”, enquanto estampava o carimbo de entrada no meu passaporte.
— “Cara, você precisa se casar…”, completou ela, me devolvendo.
— “Um dia”, respondi eu sorrindo, e me fui.

Bem vindos a Samoa.


Músicos na área de retirada de bagagem no aeroporto de Samoa.

Samoa é um desses países de que a gente já ouviu falar mas dos quais não sabe praticamente nada a respeito. Esta pequena nação do Oceano Pacífico foi o primeiro país a se tornar independente na região: em 1962, da Nova Zelândia. São um povo muito orgulhoso da sua identidade cultural.

Embora os samoanos, que são um dos povos polinésios, já estejam nestas ilhas há 3000 anos ou mais, somente em 1722 é que o primeiro europeu chegou aqui: O navegador holandês Jacob Roggeveen. Porém, somente a partir de 1830, com os ingleses, é que o contato entre samoanos (polinésios geral) e europeus se tornaria mais forte. Os ingleses tinham uma missão importante além do seu imperialismo global: conversão religiosa. (Se hoje os africanos em geral e até a Índia, terra do Kama Sutra, são bastante conservadores e cheios de tabus acerca de sexo, agradeça em grande medida aos ingleses.)

Uma característica talvez inesperada, mas que você não deixará de notar aqui na Oceania, é a enorme presença de missionários evangélicos e a proporção de pessoas (nativas) pertencentes a igrejas fundamentalistas minoritárias, como os Mórmon, Testemunhas de Jeová, etc. Falaremos mais disso mais adiante. Por ora, basta dizer que há uma pororoca cultural entre certos costumes tradicionais polinésios e a camada de cima, de puritanismo cristão, incorporada dos europeus.

Samoa era tida como o último pôr-do-sol do mundo, mas em 2011 trocou de fuso horário para ficar mais próximo da Austrália, Nova Zelândia e da China, com quem tem cada vez mais contato comercial. Em vez de ser um dos últimos fusos horários, Samoa agora é um dos primeiros. A Linha Internacional da Data, que é uma mera convenção, ficou toda torta como consequência disso.

A Alemanha foi quem primeiro colonizou os samoanos, a partir de 1900. Ela, o Reino Unido e os Estados Unidos fizeram aqui aquela mesma suruba que a Europa fez na África, dividindo a gosto os pedaços entre si sem qualquer grande consideração com povos locais. Já naquele ano, os americanos tirariam seu taco: as ilhas menores mais a leste, chamadas então de Samoa Americana e colônia dos EUA até hoje. Já a atual Samoa, com suas duas ilhas maiores, era Samoa Germânica, mas passaria a mãos neozelandesas em 1914, após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e a consequente perda de suas colônias ultramarinas.

Desde 1961, os samoanos estão de volta coordenando seu próprio destino, numa região anacrônica onde em pleno século XXI o colonialismo estrangeiro ainda é comum. Grande parte dos territórios não são soberanos, seguem colônias da França ou dos EUA, mas Samoa já é livre — e eles são muito orgulhosos disso.

Saguão principal do aeroporto em Samoa: parece os ambientes populares no Brasil. Os samoanos são muito espontâneos e comunicativos.

O aeroporto tem um ar geral de posto de saúde ou órgão da prefeitura de atendimento à população no interior do Brasil: aqueles assentos grudados em fileira, de sala de espera; pessoas em geral de aspecto humilde, vestidas modestamente, com sandálias havaianas nos pés calejados e mostrando cicatrizes ou marcas de feridas nas pernas; crianças nos colos das senhoras ou a correr pra lá e pra cá; vendedores de café e lanches caseiros; e ainda o ocasional vendedor de DVDs piratas circulando com uma mochila nas costas a oferecer a mercadoria. Eis o aeroporto de Samoa.

Eu ainda não sabia como chegaria à minha pousada, embora já fosse noite. Como é característico dos países subdesenvolvidos, não há transporte público de qualidade. Eu precisava arrumar um táxi, a parte que mais antagonizo nestas viagens, pois sei que sempre impõem altos preços turísticos. A opção, pra quem não quiser táxi individual, é juntar-se a uma das vans semi-coletivas que saem despejando turistas em vários hotéis. Você diz o seu, e o motorista o deixa lá. É o melhor que se pode conseguir (por 25 tala, a moeda de Samoa, o equivalente a uns 10 USD.) Lembre que Samoa é um país bastante informal, então basta conversar e você arranja as coisas, mesmo sem reserva.

O meu motorista foi Thao, um tio samoano moreno de seus 60 anos com sotaque do sul dos Estados Unidos. Como muitos homens samoanos, ele vestia um toalhão colorido amarrado na cintura em vez de calças, algo que em Samoa se chama lava-lava. Ele falava todo o tempo; era engraçado, e um tanto descarado. No banco atrás do meu, ia um casal de moça francesa e rapaz alemão.

Homem samoano vestindo um lava-lava, numa das simples ruas de Apia, a capital.

—”Por que as mulheres samoanas são tão grandes?“, perguntou a moça francesa na van, no que seria o início de meia hora de perguntas e respostas.

— “Porque aqui nós comemos comida de verdade. Não é como vocês lá que ficam comendo sanduíche e cookie.“, respondeu Thao sem jamais perder a pose de tio humorado (e referindo-se provavelmente a alguma experiência que teve nos Estados Unidos).

— “E os homens aqui gostam dessas mulheres gordas assim?“, continuou a francesa.

— “We like the big mammas, oh yes“, esclareceu Thao.

— “E os homens, por que é que usam esses saiões?

— “No calor que faz aqui, você ficaria encharcado usando calças.

— “E os homens vestem alguma coisa por debaixo?“, perguntou a francesa agora entrando em terreno escorregadio. Todo mundo na van de repente viu-se atento à resposta que viria, pois certamente era curiosidade de todos.

— “Depende“, disse Thao em tom de ponderação.

— “Do que?

— “Do quão grande e durão você é”, completou Thao sem cerimônia. 

A conversa passaria de pato a ganso e de ganso a codorna várias vezes. Num dos raros silêncios, Thao anunciou orgulhoso que Samoa agora tinha semáforos. Treze deles. “Nós compramos da China. Esta estrada aqui, foram os chineses que asfaltaram. Eles chegam e logo resolvem. Os australianos e os kiwis [os neozelandeses] só querem saber de conversa.

Apesar dos semáforos, Apia, a capital de Samoa, é provavelmente menor que as menores cidades do Brasil. Teoricamente, aqui vivem 60 mil dos 200 mil samoanos do país, mas na real a cidade quase toda tem um aspecto de beira de estrada, exceto por um pequeno centrinho onde estão agências bancárias, farmácias e outras amenidades urbanas. As casas sequer têm número. No geral, o ar inteiro de Samoa é de zona rural misturada a beira de praia. Eu soube que apenas 30% da população é empregada; a grande maioria vive da subsistência em seus roçados e da pesca.

Eu no dia seguinte bordejaria por Apia para conhecê-la; hoje, era hora de me instalar onde eu havia feito uma reserva: no Tatiana Motel. Fosse no Brasil, seguramente seria suspeito de ser puteiro. Aqui, não. Tratava-se de uma pensão de família.

Quando cheguei, um travesti estava na sala vendo televisão. (Aqui em Samoa, travestis têm um status especial. Não são considerados homo nem transexuais. Tal qual na Índia, são considerados num terceiro gênero socialmente falando.) Assistia a um filme americano com a perna cruzada, com aquela pose de dama vendo a novela. Dava aquela olhadela exploratória para os lados da sala sempre que passava alguém, cumprimentando. 

O meu quarto era uma cafua, um quartinho pequeno com duas camas e um ventilador. Banheiro ficava fora, e era compartilhado como a cozinha. Fazia calor como no Nordeste do Brasil, e os mosquitos tampouco perdoavam.

O quarto onde me instalei.
A sala da pousada. Essa mesa, no dia seguinte, entraria pra as minhas histórias.
A porta da pousada. Os poréns dos trópicos (calor e mosquitos) são acompanhados, por outro lado, de uma vegetação exuberante. Daqui eu caminharia por essa beira de pista uns 15min até o centro.
O centro do centro de Apia, até arrumadinho, mas pequeno.
A Catedral da Imaculada Conceição, o maior templo católico em Samoa. Praticamente toda a população de Samoa hoje é cristã. Um quinto são católicos.
O interior da catedral, decorada de modo sui generis.
Muita coisa em madeira, e bastante colorida.
No interior da cúpula, imagens de personagens bíblicos em meio aos samoanos.
Samoa é fundada em Deus.” A maior parte dos samoanos é protestante, inclusive de muitas denominações minoritárias, como Adventistas do Sétimo Dia ou da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. A maioria é da Igreja Cristã Congregacional de Samoa. Aqui nesse muro, uma breve homenagem à Santíssima Trindade.
Se você ficou curioso quanto à língua samoana, ela é engraçadíssima. (Faamolemole é “por favor”.) As pessoas, no entanto, aqui também em geral falam inglês direitinho.

E, como eu disse antes, esse puritanismo religioso todo encontra uma cultura de outro modo bastante aberta e até meio libertina. Você nunca sabe qual dos lados vai encontrar. Passando inocentemente pela frente de uma farmácia em Apia, eu definitivamente encontrei o lado “pecado tropical”.

“Tome o viagra e vá mais fundo na toca do coelho”, diz Morpheus no cartaz. Coisas de Samoa.
Pílulas de ervas supostamente para aumento peniano. Cartaz numa farmácia de Samoa. E você acha que o Brasil é que é a terra da zoeira?

As crônicas em Samoa continuam no post seguinte. Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 2): Descobrindo as comidas e as pessoas

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

Deixe uma resposta

Top