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Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 2): Descobrindo as comidas e as pessoas

(Continuação de Crônicas em Samoa, Oceania: A Chegada.)

Isso na minha mão é um quitute com recheio de abacaxi doce que eles aqui chamam de pai. (Eu levei dias para me dar conta de que era uma imitação de pie, torta em inglês.) Horrível — o amigo ali da foto comeu muito do meu —, mas graças a Deus foi algo muito pouco representativo do que eu viria a conhecer da culinária de Samoa.

Uma caminhada por Samoa tem algo de familiar. Lembra o interior do Brasil no litoral do Nordeste ou na Região Norte, só que com algumas excentricidades, e mais sossegado, sem a criminalidade e tráfico de drogas do jeito que há no Brasil. É um interior tropical do Brasil sem crime organizado. 

As pessoas quase todas se vestem de forma simples, com suas sandálias tipo havaianas onde quer que seja. Decorando os ambientes, por muitas partes aqueles pôsteres grátis que dono de bodega recebe e estampa pra fazer-se visto, tipo pôster da coca-cola, calendário com propaganda de cerveja, essas mesmas coisas que encontramos na zona rural e pelas periferias do Brasil.

O mesmo aspecto do interior do Brasil tropical, em Samoa.

Eu, depois da minha volta inicial na primeira manhã em Apia, capital de Samoa, precisava de algo pra comer. Estávamos quase às 10 da manhã e eu tinha apenas enrolado o estômago com um Nescafé adoçado.

Por sorte, eu estava no lugar certo, na hora certa. Samoa tem das culinárias mais saborosas que eu já encontrei em minhas viagens, e era segunda-feira de manhã, hora de passar no mercado, que aqui a essa hora é também cheio de coisas já prontas para comer.

Tomando uma água de côco no mercado central de Apia, em Samoa. (Eles aqui vendem o côco assim pelado.)

Quem aí no Brasil toma café da manhã apenas com pão, “frios” (queijo e presunto), e café ou leite com chocolate, está passando batido pela imensa riqueza de comidas típicas de café da manhã que há no país. No interior do Nordeste, não me faltavam inhame com manteiga, fruta-pão, aipim cozido, banana da terra, cuscuz de milho com ovos, etc. Qual foi a minha surpresa ao encontrar tantas dessas frutas que me são familiares aqui em Samoa, sendo comidas à beça — com certos toques de diferença.

Havia também, é claro, outras coisas bem peculiares que nunca me havia ocorrido sequer conceber. Sendo como sou, quis comprar um de cada para experimentar tudo.

Comprei no mercado inhame cozido com leite de côco e uma pitadinha de sal.
Kokoesi, um mingau de mamão com chocolate.
A combinação de mamão com chocolate pode parecer estranha, mas ficou gostosa. (Me pareceu que usam mamão ainda meio verde.)
Taro, uma raiz típica aqui da Oceania, o alimento mais básico da região. É comido de várias formas. Aqui, ele assado.
Uma lasca de taro. Tem uma consistência levemente macia, embora não tenha gosto. É como um pão, a ser comido com outras coisas que tenham sabor.
Esse é palusami, uma deliciosa bomba calórica de creme de leite de côco com folhas de taro, que no interior cozinham como um espinafre. O negócio é perigosamente gostoso, pois você corre o risco de ficar do tamanho dos polinésios comendo isso.
O palusami aberto. Você não come as folhas externas, só aquelas que estão juntas com o creme de côco. As folhas de taro cozidas têm um sabor que lembra espinafre cozido. Tem essa cara de selva, mas o negócio é surrealmente gostoso.
Bananas assadas.
Fruta-pão assada. Embora a encontremos no Norte/Nordeste do Brasil (como também no Caribe), ela é nativa aqui da Oceania e da Indonésia. Os portugueses é que nos trouxeram. (Eles aqui em Samoa a comem assada, mas eu prefiro o jeito que se come na Bahia, fervida e com manteiga por cima.)
Esse é um faiai eleni, pedacinhos de sardinha num creme de côco com cebola picada e outros temperos. Servido assim na casca de coco. Delicioso.

Eu sei que levei um de cada e fui lavar a égua na pensão, aonde cheguei carregado. Só o que não imaginei é que eu teria companhia.

Sentei-me à mesa da copa para comer, e juntou-se a mim a tia da recepção, uma senhora obesa de seus 50 anos. Como a maioria das samoanas, além de pesada ela tinha os cabelos compridos presos feito coque atrás da cabeça, por causa do calor.

Embora eu tivesse “dado a partida” oferecendo um pedaço de inhame, a tia se sentou e ia se servindo da minha comida sem a menor cerimônia, no maior “comunismo” como diria a minha avó. (Não estou reclamando, foi engraçado e pusemos-nos a conversar, mas achei curiosa a folga.) Ela ainda complementou o lanche dela com dois pães carregados de manteiga, e trouxe uma penca de bananas pra repartir comigo. Pequenas, mas dulcíssimas e deliciosas.

Era engraçado a tia ser continuamente interrompida em sua glutonice (com as mãos) pelo telefone lá na recepção, que tocou bem umas 4 ou 5 vezes enquanto comíamos, e a cada hora ela protestava. “Odeio telefone“, dizia procurando ao redor algo para limpar as mãos.

Eu não posso falar muito da tia, pois nesta manhã comi feito um polinésio.

Os samoanos às vezes têm um ar meio escabriado, como diria o povo antigo no interior do Nordeste, aquele jeito meio suspeitoso, de quem o olha com certo receio, sem muita confiança em você — em suma, como fazem as cabras. Mas são calorosos, embora me pareçam um pouquinho menos abertos que os brasileiros. Lembram muito os mexicanos do sul, também pelas suas caras redondas e cabelos escuros compridos — a cara de índio. Vale saber que muitos de nós brasileiros devemos ter sangue polinésio, aparentado dos samoanos, já que se descobriu que tribos indígenas do Brasil tinham origem de imigrantes aqui da Polinésia. Somos parentes.

Depois daquela farta mesa, cadê a coragem pra se levantar? Deu uma leseira… E fiquei a observar os meus arredores.

As moças da limpeza cantarolavam com o rádio ligado tocando aquelas músicas românticas americanas, que elas imitavam. Aquelas gargalhadas, aquele mesmo calor humano engraçado do Brasil. Uma vez eu terminei a letra pra uma, que riu. Era curiosíssimo vê-las, a trupe de jovens samoanas, lado a lado com as turistas europeias, norte-americanas ou australianas por vezes insossas, sérias, reservadas, às vezes cheias de si, com suas posturas com ar de lógica e racionalismo, contrastando com as samoanas descoladas e, às vezes, deveras debochadas.

Eu posso listar pra vocês muitos países onde mulheres sozinhas escutarão assobios e cantadas gratuitas de homens na rua, mais que no Brasil. Samoa, no entanto, foi o primeiro país onde mulheres assobiavam ou faziam chamados pra mim na rua (normalmente quando havia mais de uma, vale dizer). As garotas riam e me olhavam com aquela mistura de divertimento e interesse (sem falsa modéstia aqui).

Eu vi muito disso quando segui ao terminal de ônibus, logo após me levantar, em busca de um que me levasse às sliding stones, uma área noutra parte da ilha onde há um rio com pedras de onde se escorrega do alto pra dentro da água. (O passeio perfeito pra alguém que acabou se fazer uma refeição, eu sei.)

O terminal de ônibus em Apia.
Os ônibus em Samoa todos são ônibus escolares americanos (daqueles amarelos) personalizados. Os motoristas lhes dão nomes tipo esse aí, Prison Break, cores a gosto, e música a gosto também (normalmente, versões “reggaeficadas” do que quer que esteja em voga, seja Adele, sejam músicas natalinas).

Agora você imagine aqueles ônibus apertadinhos, com espaçamento feito para crianças em idade escolar, sendo ocupados pelos nada-pequenos samoanos adultos. É quase uma sacanagem. Você vai apertado feito uma sardinha, mas essa não seria uma experiência que eu teria hoje.

Como os motoristas aqui se governam, ninguém lhe deve satisfação sobre horários. “Depois das 2h da tarde, não confie demais em achar nenhum ônibus“, alguém havia me dito. Dito e certo, pois o que eu queria jamais apareceu, mesmo após 1h de espera circulando ali e trocando olhares com uns(mas) e outros(as).

Vai ver foi o destino me salvando de algum embrulho no estômago ou de uma queda nas pedras.

Desisti do ônibus e fui dar uma volta por Apia.

A costa em Apia, a capital de Samoa, numa tarde destas.

As pessoas mundo afora, habituadas a ver estas nações insulares do Oceano Pacífico apenas em anúncios de hotel-resort ou em promoções ao turismo, costumam achar que tudo aqui são praias lindas. Não são. Há lugares lindos, mas nem todos têm aquela cara de papel de parede de computador.

Andei por aquele litoral rochoso passando por pessoas que iam e vinham. Vi o Capitão Caverna urinando no mar, estudantes saindo da escola, um mercado popular de artesanias, e casas humildes com galinhas ciscando na frente.

A baía onde fica a capital Apia é assim, uma área portuária, com rochas e sem ondas. Se você quiser praias, tem que se deslocar algumas horas.
Capitão Caverna.
Mercadinho básico de roupas e outras artesanias. Há muitas roupas coloridas pra quem gosta, mas atente pois os materiais de menor qualidade são mesmo feitos na China.
A saída da escola, com o vendedor à porta. Aqui pelo visto as havaianas são tão onipresentes que são até parte do uniforme escolar.
O centrinho de Apia tem áreas assim urbanizadas, mas são mínimas, restritas a pouquíssimas ruas.
Basta andar um pouco, e o ambiente já é assim, mesmo na capital do país. (Imagine o resto, que eu veria a seguir.)
O prédio mais bonitinho é esse, do Centro de Informações Turísticas. O turismo é nevrálgico à economia de Samoa, então é dos poucos prédios com ar condicionado, muito bem arrumado, e com funcionários bilíngües e atenciosos.

Há nesse simpático centro de informações turísticas, todas as semanas, espetáculos gratuitos de apresentação cultural que você não pode perder. Eu o veria no dia seguinte.

Por hoje, ganhei um côco da tia pesada da pensão, e — já quase samoano — fiquei de boa naquilo ali.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

4 thoughts on “Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 2): Descobrindo as comidas e as pessoas

  1. Que interessante esse contexto todo de Samoa com seus hábitos, sua cultura, seu povo, suas atitudes, seu astral e espontaneidade. Muito gostoso. Parecido com alguns aqui do N_NE do Brasil.
    Adorei ver a variedade de ” verduras de café” como se chama aqui no NE. Uma riqueza. Deve ser bom saboreá-las com molho de coco. Acho que não apreciaria esse mamão com chocolate hahah, entretanto esse coco parece estar ótimo. Buena cara haha
    Lindinho esse lugar para os turistas. Uma fofura. Belo esse florido caramanchão.
    Achei interessante o lugar.

  2. Meu amigo, esses ônibus velhos, caindo aos pedaços, esquisitos, doados pelos norte-americanos como se fossem o Ó do borogodó , são uma praga medonha, horrorosa e espalhada por todos os lugares por eles colonizados e/ou nos quais eles dão pitacos hahaha. Parecem aquelas fubicas velhas,os antigos trios elétricos dos idos de 1940, verdadeiros espantalhos, enormes trambolhos hahaha, magnifico presente de grego hahah. Um horror de feios e desengonçados. hahahahahahah. Esses pelo menos são engraçados e bem coloridos. Ficaram até bonitos, Os encontrados aqui no Brasil, com seu amarelo ovo cheguei, baixei e saravei , são uns desastres haha. Coitados dos samoanos haha ninguém merece haha.

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