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Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 3): Danças, tradições, cultura, e a origem da tatuagem

Continuação de Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 2): Descobrindo as comidas e as pessoas.

Eu confesso que vim a Samoa essencialmente atraído por sua beleza natural. Praias, coqueiros, a brisa do mar. No entanto, rapidamente aprendi que essa não está por toda parte, como mentem os cartões postais. É preciso às vezes dirigir horas (numa terra sem transporte público de confiança) para chegar da cidade a um daqueles paraísos. Também aprendi que Samoa tem uma cultura pra lá de interessante, e sobre a qual eu quase nada sabia. 

Num país essencialmente rural, insular, economicamente pobre, onde a maioria da população vive na subsistência e na informalidade, você há de imaginar o quanto eles são tradicionais, os samoanos. E são.

Hoteis caros quase todos oferecem espetáculos noturnos de dança e música tradicional aos seus hóspedes. Esses eventos são chamados de fia-fia na língua samoana. Todo mundo aqui sabe o que é, e vale a pena procurar.

Mas eu tenho uma notícia melhor: no Centro de Informações Turísticas, no centro da capital Apia, há de terça a quinta às 10h um espetáculo gratuito de três horas de duração com almoço livre incluso e demonstração de muitas tradições de Samoa: música, dança, o método tradicional de cozinhar nas pedras quentes e debaixo de folhas, esculturas em madeira e confecção de tecidos rústicos. Você aprende muito, e é sensacional.

Se você tiver sorte, como eu tive, haverá alguém também fazendo uma tatuagem tradicional samoana. Os polinésios são os mais antigos mestres da arte das tatuagens, e as tem como algo quase sagrado. Há todo um ritual em torno delas, e foi daqui que a prática passou aos ocidentais. 

Neste post eu quero passar a vocês algo do que vi.

O nosso palco de espetáculos, com os músicos a postos e uma samoana ali com a típica flor detrás da orelha. O hábito não é só para turista ver: você encontra muitas mulheres na rua usando uma flor ali, qualquer que seja.
Praticamente o irmão da Pocahontas em Samoa.
Estamos aqui num grande falé. Os samoanos tradicionalmente não moram em casas de alvenaria com paredes, mas nestas construções de madeira e palha com colunas ao redor. Grande parte das pessoas fora da capital ainda vivem em estruturas assim, embora mais humildes que esta da foto. Pra dividir os espaços, há às vezes “cortinas” ou divisórias de palha trançada.
Aqui pra tudo se usam os recursos vegetais disponíveis. Essa é uma cesta trançada com algumas raízes de taro dentro. (Taro, que eu mostrei no post anterior, é a base da alimentação dos samoanos e de muitos povos tradicionais aqui da Oceania.)
O rapaz samoano usando folhas de taro e o leite de côco para embrulhar palusami, uma das comidas típicas que eu mostrei no post anterior.
Para cozinhar o almoço à maneira tradicional samoana, o primeiro passo é aquecer várias pedras num fogo de chão.
Rapazes em lava-lava, esse saião masculino tradicional de Samoa, preparam o almoço nas pedras já bem quentes, como manda a tradição.
As pedras quentes e a comida são depois cobertas com folhas de bananeira ou o que houver. Depois de um par de horas, fica pronta a maravilha. Esse método samoano (e comum na Oceania em geral) chama-se aqui de umu. (Ele é diferente daquele dos maori na Nova Zelândia, que cozinham debaixo do chão. Os samoanos dizem que o umu é mais rápido e, num clima tropical, faz mais sentido.)

O coco, segundo o nosso apresentador samoano, é o alimento mais básico de Samoa. Segundo ele, uma família aqui consome em média 4-6 cocos por dia. 

A seguir, ele nos mostraria como abrir um coco seco usando uma mera pedra. Se você souber onde bater, ele abre direitinho como se tivesse sido cortado por uma máquina. Veja no vídeo abaixo.

Este falé me parece um pouco mais representativo dos que eu veria depois na casa de samoanos, com as pessoas fazendo as coisas no chão. Ali dependurados, panos coloridos típicos de Samoa, que são tradicionalmente feitos a partir de uma planta. O processo manual de fabricação é extremamente extenuante.
Uma bela samoana com sua vestimenta tradicional estampada, tecido originalmente feito a partir dessa planta que ela tem em mãos. Descasca-se o caule dessa planta e se tira a seiva, deixando só as fibras.
Esta senhora nos demonstrou como a fibra da planta é lavada à mão com uma concha marinha para retirar a seiva.
Em seguida, após secar à sombra, é preciso bater nas fibras por um bom tempo com um porrete pra alargar.
O resultado é este aqui, algo assim bastante macio. Essas “telas”, chamadas aqui de tapas, são então pintadas com extratos naturais. Hoje eles pouco usam esse método pra fabricar roupas; usam-no mais para fazer estampas para vender aos turistas, como abaixo.
Essas estampas eles fazem pressionando a tela limpa sobre moldes de madeira com tintas vegetais. Daí conseguem tapas com esses padrões.

Enquanto as mulheres se especializaram nessa fabricação dos tecidos, os homens é que fazem as celebradas tatuagens samoanas. Não qualquer homem: é preciso pertencer a uma família de tatuadores, como no tempo das guildas medievais europeias.

Nas línguas de vocês, alguém passa a ser um homem quando completa 18, ou 21 anos. Na língua samoana, não. Ser ‘homem’ tem um outro significado — significa dizem que ele é alguém que provê, que é capaz, em quem você pode depender e confiar. Alguém, portanto, poderia ter 60, 70 anos e ainda assim não ser considerado um homem“, explicou-nos sério o apresentador.

Se você não sabe subir num coqueiro, se não sabe ir ao mar e pescar para a família, em Samoa você não é considerado um homem“, eu o ouvi dizer já, inevitavelmente, me dando conta de que eu em Samoa teria problemas. 

E se você quiser ser ainda mais reconhecido, você pode fazer essa tatuagem dos quadris“, disse ele mostrando a sua própria, um padrão tatuado que tomava tudo do umbigo às coxas. “O processo é bastante dolorido, leva 11 a 12 sessões, 3 a 4 semanas, mas se você decidir fazer, não pode desistir sem terminar, senão trará vergonha a toda a sua família.

O apresentador, com suas tatuagens samoanas. Ele referia-se à dos quadris, que é como um rito opcional de homem a “super-homem” aqui em Samoa. “Se você fizer, saiba que a partir daí as pessoas da comunidade vão cobrar 150% de você.

Quando chegamos, havia um samoano gordo estirado na esteira do chão parecendo que morreu. Um tatuador com dois assistentes martelavam, cuidadosamente como se fossem escultores, a tinta nas virilhas do cara. Seu pai o acompanhava pra dar um apoio moral enquanto o cara gemia. Segundo o guia, horas a fio daquela dor, por vários dias, requerem uma fortitude mental muito grande também. (Por respeito ao cidadão, o guia nos pediu que não o fotografássemos naquela situação.)

Deixar a tatuagem sem terminar é o maior ato de covardia e humilhação para um homem em Samoa, assim como para os seus pais e toda a família e toda a vila“, nos disse o guia. Por isso, segundo ele, é comum que os pais desencorajem os filhos a tentarem a tatuagem, pois sabem que, se eles desistirem no meio do caminho, é uma humilhação para todos.

Na duração do processo, só quem pode se dirigir à pessoa sendo tatuada são os seus acompanhantes, o tatuador (que sempre precisa ter recebido ele próprio a tatuagem, pra saber o quanto dói), ou outros homens que já tenham feito a tatuagem, e que portanto podem empatizar com ele. Caso contrário, fica sendo uma provocação, alguém que nunca passou por aquela dor chegar e dizer “Não grite tanto”, etc. A pessoa é capaz de se aborrecer.

Há muitos turistas que vêm aqui querendo fazer uma tatuagem também — embora não exatamente dessas. A esses, o guia recomendou fazê-las no último dia da viagem, para evitar exposição ao sol. Se antes, quando tatuavam com extratos vegetais, havia muitos casos de infecção, parece que hoje estes são bem mais raros. Não é a minha praia, mas fica aí pra quem for fã. Seja como for, é impressionante.

É justamente essa parte do corpo, o quadril, que segundo o nosso guia samoano eles chamam de tatau na língua daqui, e que teria dado origem à palavra nas línguas ocidentais — seja a tatoo dos ingleses, tatouage dos franceses, ou uma “tatauagem” que virou tatuagem pros navegadores portugueses.

Esta aqui abaixo é uma dança tribal veloz dos hábeis samoanos, homens e mulheres. (Pra você treinar em casa e ficar fit.)

Depois de um tempo, o nosso breve almoço grátis estava pronto. (Você, ao final, podia deixar-lhes uma gorjeta, o que todo mundo fez.)

Em Samoa tradicionalmente não se usavam pratos: comia-se na folha. Aqui um pedaço de peixe, uma lasca de taro, e um pouco de palusami, comidas típicas em Samoa, como eu mostrei no post anterior. Tudo assado entre as rochas quentes e a folhas por cima, no que eles chamam de umu. Segundo me disseram, todo domingo é dia de um grande almoço de família feito à essa maneira tradicional.

Eu deixo vocês com uma dança mais cerimonial feminina que nos demonstraram. Há algo de semelhante às danças javanesas e balinesas da Indonésia, de quem os samoanos são parentes.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 3): Danças, tradições, cultura, e a origem da tatuagem

  1. Lindas danças, belos coloridos, belas flores, belas moças. E que rituais bonitos de ambas as danças. Riqueza cultural. Que dança ligeira aquela com os rapazes. Muito interessante.
    Que horror essa tatuagem e que curiosa, a provável origem do tatoo. É procedente.
    Que trabalheira essa para a confecção de tecidos e estampas. Estas bem bonitas. Tudo simples mas muito bonito. Curiosas essas habitações sem paredes haha
    Sugestiva e prática forma de cozinhar.
    Povo bonito, peles lindas. Adoro flores. Ficam lindas com elas.
    Muito bem o senhor ficou meu amigo viajante como irmão samoano de Pocahontas haha. Gostei da região.

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