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Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 4): Indo a Savai’i, a outra ilha

Continuação de Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 3): Danças, tradições, cultura, e a origem da tatuagem

Há duas ilhas principais em Samoa: Upolu [Upôlu], onde ficam a capital (Apia) e o aeroporto internacional, e Savai’i [Savái], uma outra ilha até ligeiramente maior, mas ainda menos urbanizada. Um ferry 4x ao dia liga uma a outra, basicamente o único caminho para se chegar a essa parte ainda mais remota do país.

Em Savai’i é que eu conheceria de perto algumas das mais belas riquezas naturais de Samoa, e onde eu também teria um contato mais próximo com samoanos. Há diga que em Savai’i é que se vê “a Samoa de verdade”, the real Samoa.

Savai’i.
O mapa de Samoa, com suas duas ilhas principais. O ferry leva cerca de 1h para cruzar o Estreito de Apolima.
E para quem se esqueceu de onde estamos no globo, ei-nos. São mais de 3.000Km a leste da Austrália, 5h de voo de Brisbane pra cá, no Oceano Pacífico.

Se você reparou bem ali no mapa de Samoa, Apia, a capital, não está exatamente na ponta da ilha. De lá é preciso tomar um ônibus (ou táxi, se você tiver muita bagagem, quiser gastar dinheiro, ou tiver medo de gente) até o cais, no extremo oeste da ilha de Upolu. Dá em média 1h30min de jornada. (Procure se informar sobre os horários atualizados do ferry no Centro de Informações Turísticas. Os ônibus partem do terminal de Apia rumo ao cais cerca de duas horas antes.)

Não é possível reservar passagem no ferry pela internet nem por telefone; é preciso fazer fila no mui elegante e high-tech terminal no cais. (A bilheteria abre 20 min antes da partida do ferry. A passagem só de ida custa 12 talas, o equivalente a uns US$4.)

Eu saía da apresentação cultural no Centro de Informações Turísticas de Apia (que mostrei no post anterior), onde deixei a minha mochila e de onde parti direto ao cais, inspiradíssimo para ter com os samoanos. Olha o ônibus que me levou.

O meu ônibus de ida até o cais foi assim, cheio de calor humano.
O elegantérrimo terminal de passageiros no cais de Upolu, com o senhor de verde ali a usar seu internet banking enquanto espera.
O entorno do cais no extremo oeste da ilha de Upolu. Belas palmeiras, e um belo mar.

Como o almoço durante a apresentação cultural havia sido modesto e eu não sabia quando seria a minha próxima refeição, resolvi merendar algo enquanto aguardava.

Deliciosos drinks à disposição.
A minha merenda de pãozinho e ovos cozidos, comprados na venda do cais.
O ambiente humano, como eu já coloquei antes, é bem semelhante a muitas zonas rurais do Brasil, com suas mercearias cheias de propagandas da coca-cola, salgadinhos baratos, e ofertas de recarregar crédito de celular.
O cor do mar no Estreito de Apolima, entre as ilhas de Samoa, vista do ferry.
Este é o cais de Salelologa, do outro lado, na ilha de Savai’i. Como você pode ver, urbanização é quase zero. Ao contrário de Upolu, com seus 13 semáforos, aqui em Savai’i não há nenhum sequer.

No cais, há um enxame de taxistas aguardando turistas. Como o ônibus estava ficando lotado demais para a minha bagagem — e eu não sabia ao certo onde ele me deixaria — negociei o preço com um taxista e segui viagem.

Uma estrada asfaltada de mão dupla contorna a ilha de Savai’i, e é só. Praticamente tudo se encontra à beira da pista. Mato adentro, rumo ao centro da ilha, só breves estradas de chão e trilhas usadas pelos próprios samoanos. Há pouco turismo.

Os samoanos aqui, como na maioria do país, são agricultores e pescadores vivendo quase integralmente na subsistência. Cultivam seus roçados de frutas, taro ou outras raízes, usam canoas simples para ir pescar, e vivem em habitações bem humildes.

Um aglomerado de casas mais ou menos próximas, com uma escola e uma igreja por perto, e eles já chamam aquilo de “vila”, ainda que não haja ruas nem números nem nada — só a pista e o mar como referência.

O jeitão geral de Savai’i — e, em verdade, da maior parte de Samoa.
A linda costa.
Se você adentrar a ilha, a coisa fica meio Robinson Crusoé.

Eu me instalei num hotel simples e agradável à beira do mar. (Não era exatamente à beira da praia, pois muito da costa aqui é rochosa, mas havia praia relativamente perto.)

No entanto, nestes lugares você fica um tanto limitado. O restaurante do próprio hotel era a minha única opção. Não havia praticamente nenhum lugar aonde eu pudesse ir a pé, exceto uma vendinha muito básica. Ônibus existem, mas levam eras pra passar. A maioria dos turistas acaba fazendo passeios arranjados com o próprio hotel.

Por sorte, a equipe do meu hotel era muito simpática. Faria amizades, e iria até à praia com duas funcionárias.

No hotel à beira-mar. Quero mais o que da vida?

Estamos em Lalomalava, no leste de Savai’i. Eu poderia passar os dias só ali, lagarteando ao sol entre uma refeição e outra, indo ao mar e aproveitando a vista. Mas eu não me contento só com isso.  

Quem me atendeu no hotel foi Kimberley, Kim, uma prestativa samoana (pisciana) de 24 anos, olhar lânguido, sorriso gentil marcado por um dentre de outro implantado do lado, e corpo de quem já havia parido três filhos. Kim era também, como muitos samoanos, testemunha de Jeová. Tornaríamos-nos amigos.

Naquela mesma noite em que eu cheguei, ela me serviu no jantar um delicioso oka, um prato samoano de peixe cru temperado no leite de côco. Aliás, melhor dizendo, Kim foi quem tomou o meu pedido, pois quem me serviu o prato mesmo foi a própria chef, Fiasili, uma samoana (ariana) de 20 anos e longa trança escura que contrastava com o uniforme branco da sua função. A esta altura, já circulava o babado do turista desacompanhado no hotel. Não demorou para Kim me dizer que a chef, além de boa cozinheira, estava solteira.

Essa conversaria era demais para o (libriano) latino-americano aqui. 

Acertamos de, na manhã seguinte, elas me levarem à praia e para conhecer o vilarejo das duas.

O meu oka, prato samoano estilo uma sopa fria, e semelhante um pouco a um ceviche, mas diferente, com leite de côco, pepino cortado e tomate, junto ao peixe cru. Muito saboroso.

De manhã, as duas vieram à paisana me buscar após o café da manhã, e nós tomamos juntos o ônibus. Tomar ônibus em Samoa é uma experiência diferente. É como juntar-se àquele seu vizinho que usa o som do carro bastante alto e de gosto musical duvidoso. Você segue todo o trajeto ouvindo aqueles hits da rádio no som com o bass bem forte. Ouvi versões reggaeficadas de Adele, Hello from the other side, inclusive algumas traduzidas em samoano, e até de Bará Berê do Michel Teló. Juro. (Não achei na internet a versão samoana, mas se você estiver duvidando que a música tenha ido tão longe, veja este vídeo dela em vietnamita, num programa de TV do Vietnã. A partir de 1:20min.)

Fiz um breve vídeo (abaixo) do ônibus público samoano nossa ida à praia, para quem quiser compreender melhor a sensação. (Na ida, o ônibus foi praticamente vazio. A volta, em horário de saída da escola e crianças voltando para casa, foi beeeem diferente nesse sentido.)

Chegamos um tempo depois à Praia de Faga [os samoanos pronunciam algo como fã-a]. Como é de costume em Samoa (e em muito da Oceania), as praias são pagas, não a um ente privado, mas à comunidade do lugar. Normalmente há um responsável por coletar o dinheiro. Quem é dali não paga, mas turistas, sim, coisa de 5-10 talas, o equivalente a uns 2-4 dólares. Vale a pena se informar antes sobre o custo, para não se surpreender depois.

Águas rasas, praia muito tranquila — e o melhor: ela estava vazia, só para a gente.
Olha a serenidade do lugar, com árvores à beira da praia.
A Praia de Faga, em Samoa. (O Brasil também tem praias lindas, mas muitas delas estão urbanizadas demais. Está cada vez mais difícil encontrar praias assim só com a natureza. Foi o que eu mais valorizei nesta praia aqui em Samoa.)

Você não imaginariam, mas muitas samoanas são pudicas, graças ao trabalho dos missionários aqui desde o século XIX. Não se engane por ver os trajes tradicionais quase sem roupa dos samoanos. As minhas amigas aqui entraram no mar de roupa e tudo, sem tirar uma peça que fosse. #Chateado.

Perguntei a Fiasili se ela também era testemunha de Jeová. Ela fez uma cara de “Tá louco?”, e disse que era da CCCS (Congregational Christian Church in Samoa), fundada pelo missionário inglês John Williams aqui no século XIX. Essa é a denominação mais comum entre os samoanos. (O missionário morreria comido por canibais em Vanuatu, na Melanésia, perto daqui.)

Ambas encharcaram-se de blusa e saia, e não se mostraram muito à vontade com a ideia de eu posando sem camisa na beira da pista, muito menos a inconcebível proposição de que eu caminhasse até o vilarejo delas em calção de banho para me secar no caminho. Não; tinha que vestir ao menos a bermuda e, definitivamente, pôr a camisa. (Sabe-se lá por que, já que os homens samoanos às vezes estão sem camisa.)

Vesti-me molhado para conhecer as famílias.

Os samoanos tradicionalmente vivem nesses falés, de madeira e palha. Embora hoje eles sejam equipados com televisão e tomadas (com fios puxados da pista), os falés continuam comuns. Eles usam panos coloridos dependurados como paredes, para separar os cômodos. (Estes falés na foto estavam para alugar; há turistas que vêm e acham de pagar para “se hospedar” num desses, mas não foi algo que me atraiu.)
Um altar que encontrei na casa de alguém aqui, feito ali entre as toras que sustentam o falé. Percebam os detalhes regionais com muitas flores.
A pista que circunda Savai’i (com a fiação de onde os samoanos puxam eletricidade para os seus falés).

A situação geral, os roçados de subsistência etc., são de quase inteiro subdesenvolvimento. Equivale às zonas rurais pobres do interior do Brasil. Por sorte não parece haver seca, mas tudo é muito básico. Um falé com sofá e televisão. É como uma casa de cômodos espalhados, ligados apenas pela fiação elétrica que passa de lá pra cá, crianças pra lá e pra cá, às vezes a brincar com as extensões soltas. Cachorros, porquinhos, … chuveiro do lado de fora, banheiro não cheguei a ver como era, mas seguramente muito básico. Meninos com feridas ou cicatrizes de feridas nas pernas, sabe-se lá do quê (pareceu-me mais sequela de doença de pele do que coleção de acidentes).

As famílias samoanas são muito numerosas. Fiasili tinha 5 irmãos e 3 irmãs; era portanto uma de 9. Já Kim era uma de 11. Em Samoa, eles aqui dizem, quanto mais melhor: quanto mais mãos carregando um peso ou um fardo, mais leve fica pra cada um. (Claro que essa filosofia não antevê “problemas de junta” entre as mãos, entre as pessoas de uma mesma grande família ou comunidade.)

Eu, Fiasili, e dois dos seus irmãos menores. De repente — como sempre me ocorre quando viajo a um lugar marcante — fiquei a pensar em como a minha vida seria diferente se eu ficasse ali, não fosse embora. Imagine se eu tivesse 10 filhos. As pessoas imediatamente pensam no trabalho que isso daria, mas num lugar destes não há os mesmos gastos; eu penso é em como o meu próprio senso de identidade seria diferente, sabendo-me pai de 10 filhos. Não sei se morar em apartamento numa cidade grande levaria a uma vida mais feliz. Um dia desses eu viajarei e acabarei ficando.

Kim me contou que era separada do marido porque os seus pais brigaram com os seus sogros (imagina isso no Brasil?). O marido então a largou quando ela estava grávida do terceiro filho. Dos nascidos, ele ficou com um e deixou o outro pra ela. Um lado não via mais o outro. Kim, por consequência, não era a pessoa mais alegre que eu já conheci.

Conheci os seus pais. O pai parecia um homem rústico, de poucas palavras. Já a mãe era mais sociável, ou pelo menos dominava melhor o inglês, já que era professora na escola ali perto. Ela, uma senhora pesada, bordava sentada com as pernas cruzadas num falé enquanto espiava a televisão ligada e conversava comigo.

Por fim, conheci Peter, o irmão gay de Kim, um rapaz moreno de cabelos compridos, roupas femininas e fala suave bastante educada. Não se identificava, contudo, como mulher. Como eu disse antes, aqui na Polinésia há uma tradição de homens gays saírem do armário e viverem como tal, embora segundo Kim muitas famílias não aceitem e muitos chefes de vila os expulsem. Segundo Kim, o pai dava surra, punha de castigo, mas nada funcionava. Hoje ele tolera o filho, embora — eu os vi um na presença um do outro — não pareça assim tãão à vontade. Meio que teve que aceitar, pra não perder o filho.

Ao nosso redor, dezenas de mamoeiros espalhados, pés de fruta-pão, e bananeiras várias. “Um pé de fruta-pão desses alimenta uma família inteira por 50 anos, dizem. Mas aqui em Samoa a gente diz que quem come só fruta-pão é preguiçoso, porque não dá trabalho. O homem de verdade tem que plantar [a raiz] taro e trabalhar no roçado“, esclareceu-me Kim com seu sorriso lânguido brevemente mostrando o seu dente de ouro, como quem ironizava por dentro aquela acepção.

Peter, de facão na mão, foi me mostrar o roçado da família com duas primas menores, também com seus facões em mãos, mato adentro. Eu, sendo brasileiro, me senti intimidado por aquele pessoal armado ao meu redor. Chegou a me ocorrer que, se fossem me assaltar, eu teria pouco a fazer. Coisas da nossa obsessão, escaldados que estamos com a (falta de) segurança pública no Brasil. Aqui na Oceania facão não é arma de assalto, é um mero utensílio pra cortar os galhos no caminho ou abrir cocos.

Peter mostra o caminho.
Os roçados no interior de Savai’i, em Samoa. Tudo muito simples.
Taro, pra os curiosos, é essa planta. Sua raiz é a base principal da alimentação nos países tropicais da Oceania. Ela lembra um inhame grosso, e sozinha não tem muito sabor. (Neste post eu mostrei como comi taro com leite de côco, peixe, e outras coisas à maneira samoana.)
Raízes de taro ali pra vender na barraquinha.
O ponto onde esperamos o ônibus por um tempo, para a volta.

Kim arrumou-se para a tarde, pois a sua folga era só de manhã. Fiasili também. Quando o ônibus chegou depois de uma era, estava bem cheio. Entramos, e depois entrariam ainda mais outros, sobretudo crianças e adolescentes em uniformes escolares.

Achei curioso como as pessoas sentavam-se nos colos umas das outras sem a menor cerimônia, de acordo com a idade e o peso. Eles normalmente fazem questão que os estrangeiros sentem, e ficam um pouco desapontados se você se recusar. Sentei-me, e uma garota de seus 10 anos que poderia ser filha tomou a liberdade de se sentar no meu colo sem nem me perguntar. 

É semelhante aos ônibus cheios do Brasil, mas é diferente. Enquanto no Brasil dos ônibus das grandes cidades há aborrecimento, cansaço e estresse, aqui havia aconchego. Parecia uma grande família samoana.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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