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Bem vindos a Fiji e à Melanésia: Praias, mar e sossego na Oceania

PRÓLOGO: Melanésia, a terra dos negros que não são da África

Mulher fijiana vendendo coisas que eu depois contarei a vocês o que são.

Essa mulher negra de Fiji na foto ao lado é tão africana quanto Maria Sharapova ou a primeira-dama da China. Seus ancestrais saíram da África há mais de 50 mil anos, como os de todas as pessoas dos outros continentes, e o fato de ela parecer africana não diz nada.

Geneticamente, “raça” é um conceito fantasioso, que só existe na cabeça de quem inventou de distinguir as pessoas com base na aparência. Por dentro, a genética de dois povos parecidos aos olhos pode ser bastante diferente. Tampouco o fenótipo dela é “primitivo”; ele é adaptado à sua região de muito sol, enquanto que os seres humanos que migraram às zonas temperadas do globo adaptaram-se adquirindo uma pele mais clara, mais susceptível a receber o raro sol que há naquelas regiões. 

Estamos na Melanésia, esta outra terra onde as pessoas caracteristicamente têm pele negra. (O nome Mela+nésia quer dizer exatamente isso: ilhas, como no mesmo sufixo de Indonésia ou Polinésia, de gente escura, como em melanina ou melatonina.) Os aborígenes australianos também têm pele escura, mas mesmo deles os melanésios são distintos, pois já habitam estas ilhas há milhares de anos. Vejam o mapa abaixo.

Regiões insulares da Oceania. A Melanésia é a mais antiga delas em termos de habitação humana. Estima-se que os seres humanos tenham vindo habitar a Oceania há mais de 50 mil anos atrás, primeiramente Nova Guiné e Austrália, que à época estavam juntas. Cerca de 7 mil anos atrás, passaram então para as demais ilhas que hoje são a Melanésia. Só muito depois, cerca de 3 mil anos atrás, é que povos do Sudeste Asiático vieram a compor o que hoje são a Micronésia e a Polinésia (cujas línguas ainda são aparentadas daquelas das Filipinas e da Indonésia, por exemplo). A Melanésia, nesse sentido, é bem distinta e mais antiga, portanto.

Embora pouco conhecidos mundialmente por serem pobres, e quase completamente desconhecidos no Brasil por estarem longe de nós no globo e não termos ligações históricas, os melanésios são donos de uma cultura muita rica. Quando pensam em Fiji, a maioria das pessoas nem se lembra de que aqui há pessoas também, não só coqueiros e praias. Os ambientes são lindos, não restam dúvidas, mas as pessoas também estão aí por conhecer.


Eu cheguei a Fiji era de manhã, uma manhã fresquinha de sol como costuma ser o caso aqui no meado do ano. Estávamos em junho, e eles aqui têm um inverno semelhante ao do Nordeste do Brasil, mas sem as chuvas — só sol e temperaturas amenas de 25-28 graus.

Eu havia reservado um albergue, o Bamboo Backpackers, à beira do mar, e a equipe vinha me buscar no aeroporto. Tudo corria no maior sossego, como costuma ser o caso em Fiji. Eles, inclusive, fizeram disso um mote turístico para o país: Fiji time”. Nada aqui é muito veloz — nem o compasso da vida, nem os atendimentos, nem a internet. Eles dizem que você está de férias e não tem razão para ter pressa, que deve mais é relaxar. (Uma faca de dois gumes, obviamente, com a qual eu me encontraria diversas vezes nesta estadia.)

Confesso, eu só soube da existência de Fiji no filme O Show de Truman (1998), em que o personagem de Jim Carrey sonhava em visitar estas ilhas remotas. Cheguei até a pensar que fosse um lugar fictício. Não ache, no entanto, que a coisa não andou nestes últimos 20 anos: Fiji hoje é visitadíssimo por australianos, neozelandeses, norte-americanos e muitos europeus. Eu acabava de chegar de Samoa, e não demorei a notar o quanto Fiji tem muito mais infraestrutura, mais comércio, e uma indústria turística mais desenvolvida — creio que a maior dentre todas estes pequenas nações do Pacífico.

Duas simpáticas fijianas de azul me atenderam no aeroporto, uma na imigração e a outra foi a algoz na alfândega que jogou fora o pote de mel que eu tolamente trazia da Nova Zelândia. Nunca viaje carregando mel como souvenir (ou qualquer outro produto natural) nesta região do mundo, pois eles são muito rígidos com biossegurança. A moça, no entanto, foi tão gentil que eu nem liguei muito para o mel.

O lugar que me esperava era de piscinas, redes amarradas nos coqueiros, e praia. Fiji é o destino do sossego por excelência.

Que coisa horrível. Vida dura. (Pra que fique registrado: esse lugar me custou menos de 20 dólares a noite.)
O lugar onde fiquei tinha essas choupanas, onde tínhamos comidas e bebidas, além de prédios separados onde eram as acomodações.

Numa dessas, eu conheci a filha da cozinheira. Na mesa ao lado da minha, quando eu batalhava com a internet lenta numa dessas manhãs, duas moças conversavam em inglês. “Estava uma porcaria. Você me desculpa, mas um barman que não saiba fazer uma margarita que preste não é digno do nome.“, disse uma com aquele tom de declaração indignada. Eu ri. Elas viram.

“Não é verdade?“, perguntou-me confirmando Funmike [o nome é nigeriano, lê-se algo como “Fumika”, não Fun Mike], uma moça negra e bem pesada dos seus 30 anos. A outra, Judith [que reclamava que pronunciam sempre algo parecido demais com “Judas” em inglês], uma morena com leves traços asiáticos pela mãe chinesa. Ambas aqui de Fiji, este multicultural país. Mais tarde elas me diriam que a primeira coisa que notaram em mim foram as minhas calças Armani — falsas.

À tarde, elas me apresentariam a bu, desta vez não alguém, mas como eles aqui chamam coco verde com rum jogado dentro para misturar-se à água de coco. E não é que fica bom?

(O engraçado era ver Funmike dando suas “despachadas” sobre os funcionários. Ela e a mãe haviam sido recentemente contratadas para começar a pôr as coisas em ordem. “Ontem eu pedi e não tinha. Deixaram acabar o coco. Como é que deixam acabar justo coco verde na porra de uma praia dessas cheia de turistas?“, refletia ela, desbocada.)

Bu, como eles chamam aqui coco verde (apesar de pelado) com rum jogado dentro para misturar-se com a água. Servido com a flor, pois estamos na Oceania.
Tomando bu na praia em Fiji.
Com o pessoal. Ô vida boa.

Fiquem com o indescritível pôr-do-sol daqui. Mais relatos ficam para o post seguinte. Fiji time.

O pôr-do-sol em Fiji.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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