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Em passeios e resorts pelas Ilhas Mamanucas e Yasawas em Fiji: Indo do luxuoso ao basicão

Eu no post anterior mostrei meu breve contato com o Fiji autêntico, dos fijianos. Como turista, contudo, o que me marcou mais foi mesmo o passeio pelos resorts nas ilhas Mamanucas e Yasawas — não há como mentir.

Não venha a Fiji para ficar só num hotel ou hostel na ilha principal fazendo tours diários bate-e-volta. Conheci alguns turistas que vieram de longe, da Europa, e passaram uma semana nisso. Só depois eu me dei conta do quanto eles deixaram de aproveitar. Organizar um passeio de vários dias às ilhas Yasawas é essencialíssimo. (Eu costumo ser muito comedido com isso de dizer que tal coisa é “visita obrigatória”, mas aqui digo isso sem pudores.)

Repare nas Yasawas e Mamanucas lá na esquerda do mapa.

As Mamanucas [mamanútsas] e as Yasawas são conjuntos de pequeninas ilhas a noroeste da ilha principal de Fiji. Um empresa neozelandesa, a Awesome Adventures, organiza passeios completos com os traslados de barco entre as ilhas e as reservas nos vários resorts que há (há uns 20-25 no total, e você pode escolher). Não é necessário reservar antes pela internet; qualquer acomodação em Fiji trabalha como vendedor para a Awesome Adventures e você fecha o pacote completo com eles, olhando o catálogo de resorts e fechando as datas que quiser.

A minha recomendação, portanto, é dar-se alguns dias na ilha principal de Fiji e, assim que chegar, planejar um passeio de 5-10 dias pelas Yasawas. (Foco-me nas Yasawas porque elas são mais distantes. As Mamanucas são muito visitadas por day trippers, turistas vindo só passar o dia, e são mais zoneadas.)

Cada resort exige um mínimo de 2 noites, e depende de disponibilidade individual — mas sempre há opções. Todos os dias, um barco da Awesome Adventures passa por todas as ilhas, de manhã levando embora quem estiver fazendo check-out rumo a outra das ilhas, e de tarde trazendo pessoas novas. Há resorts calmos e resorts de festa.

Na manhã, em Port Denarau, últimos ajustes.
Seu dinheiro voará do seu bolso como esse pássaro da nota de 20 dólares fijianos. Os resorts todos só vendem pensão completa: com as três refeições, já que não há mais nada nas ilhas. Os resorts são categorizados de acordo com o grau de luxo, então o preço depende das suas escolhas. Mas não é absurdo. Calcule uns USD 100-150 por dia com tudo incluso. Você pode pagar em dólares fijianos, há quem aceite dólares americanos, e costuma ser possível pagar também com cartão de crédito, embora às vezes haja uma sobretaxa de 3-5%.

E a experiência?

Nós partimos de Port Denarau numa destas manhãs. Um ônibus da Awesome Adventures veio nos pegar, entregar-nos ao porto onde trocamos os nossos vouchers por passagens, e às 8 da manhã já estávamos embarcando. Sugiro levar bem pouca bagagem, só o que você consegue carregar consigo, porque nas paradas uma lancha pequena carrega você e quem mais for ficar numa dada ilhota, às vezes até sendo preciso desembarcar ainda com água nos joelhos. Então calçados que possam molhar (havaianas mesmo) são o indicado.

E vamos nós! Deixando Port Denarau pra trás. (O barco é grande, com assentos no espaço fechado embaixo e no deck em cima. Cabem bem umas 100 pessoas, embora às vezes seja preciso sentar-se no chão ou onde for.)
Aí é que você começa a ver as paisagens de Fiji, e a entender porque viajar às Yasawas é essencial.
Uma das primeiras ilhotas é essa daí, nas Mamanucas. É a menor de todas; as demais estão longe de ser tão miúdas assim. (Mas como eu disse, essas mais próximas são mais badaladas por turistas que vêm só passar o dia. Pode valer mais a pena se distanciar mais.)
E vamos nos aproximando das outras ilhas, à là Robinson Crusoé.
Aquele cidadão passa o dia ali naquela rocha (pago pela Awesome Adventures) para saudar os turistas que passam. Empregão.

O meu primeiro resort foi o Octopus, pra o começo do que seria uma viagem de 5 dias.

Meninos, eu vi. Vi ilhas desertas escorchadas pelo sol; vi mares reluzentes de águas azuis profundas ou semi-transparentes (a depender de onde você olhasse); vi-me pulando fora da canoa e correndo praia acima com a mochila nas costas quando a onda retraiu; e vi-me vivendo como uma celebridade ou um banqueiro em férias por duas noites nessa ilha.

Aqui eu desembarquei.
O desembarque é assim.

Chegando, um drink de boas-vindas, e fui ter com o gerente italiano, Cesare. Animador de festas, ele se revelaria.

Aqui, como em todos os resorts, você tem tempo livre de sobra para ler, relaxar, ir à praia — fazer o que quiser —, mas a sua rotina é pontuada pelas refeições inclusas e à noite há sempre entretenimento.  

Almocei com um casal de ingleses jovens. Pareciam mais novos que eu — ela uma descendente de indianos, ele um rapaz branco d’aquele humor cáustico britânico característico e os lados do cabelo já brancos (que me faziam imaginar o Mercúrio dos X-men a cada momento que eu olhava pra ele). 

À noite, juntariam-se à nossa breve trupe uma garota suíça loira bela como um conto de fadas, uma colombiana gordinha risonha (que riu incrédula da pergunta quando eu lhe questionei por onde andava Shakira), e uma francesa negra das Ilhas Maurício. 

Antes de eu passar ao entretenimento noturno, preciso dizer que o tempo todo era um sossego só. Piscina, vôlei na areia, e cada pôr-do-sol dos mais bonitos que já vi.

À tarde no resort.
O restaurante onde fazíamos as refeições era assim, com areia de praia para os pés.
Só interrompíamos o nosso sossego ao som dessa concha, soprada por um dos funcionários nas horas das refeições.
Funcionários fijianos muitíssimo simpáticos. (Sim, em Fiji, como por toda a Melanésia e na Polinésia, os homens gays não precisam ficar no armário.)
O lindo pôr-do-sol que tivemos.
A praia à luz do entardecer.
Esse é Lai, o ancião dos fijianos daqui, com seu garboso fenótipo de “preto velho”. Em poucas horas ele nos apresentaria à cerimônia do kava, importante por toda a Oceania.

A cerimônia do kava marcava o começo da noite. Embora pouco conhecido mundo afora, o kava é uma bebida tribal tradicionalíssima nos países da Oceania. Aqui em Fiji, como tudo, ele caiu nas graças da indústria do turismo e virou atração. Os fijianos gostam de dizer que, se você não experimentou kava, não veio a Fiji.

Trata-se de um pó levemente entorpecente feito da raiz de uma planta nativa (do gênero da pimenta-do-reino) e misturado com água. Você ouvirá muitos turistas comentando — e certamente muitos sites dizendo — que o kava tem aparência e gosto de lama. Não concordo. O aspecto talvez, ligeiramente, amarronzado e ralo. O gosto, no entanto, lembra mais um chá de canela sem açúcar e em temperatura ambiente, com aquele mesmo leve ardor/frescor que a canela dá na língua. O efeito é relaxante, embora digam que se tomado em maiores quantidades você pode começar a “viajar”. 

Lai após preparar o kava, mostrando como é que se faz.

O preconceito quanto ao gosto do kava me parece efeito de assistir ao seu modo de preparo, espremido com um pano sobre uma larga cumbuca de madeira. A cada um ele é servido numa cuia de casca de coco. Em Samoa era preciso dizer algo antes de beber; já aqui, diz-se “Bula!” (a saudação no idioma fijiano) bate-se palma uma vez antes e três vezes depois de beber. (Como o chimarrão, é preciso beber todo antes de passar a cuia.)

Entorpece mesmo? Levemente, mas depende do quanto você tomar. É o efeito oposto, relaxante, equivalente à força de um café espresso ao contrário, eu diria. (Numa outra noite eu tomei uma segunda cuia e fiquei meio letárgico até o dia seguinte. Você dorme feito um anjo.)

Se você estiver curioso, abaixo há um pequeno vídeo que fiz na cerimônia. O segundo vídeo é de quando os fijianos trocaram as cuias de kava pelos violões.

A noite aqui é uma criança — e uma criança repleta de mimos. Depois de um vultuoso jantar (delicioso, mas desses de hotel, nada particularmente típico), tivemos uma noite de jogos animada por Cesare em que as mesas vencedoras ganhavam garrafa de champanhe, 100 dólares pra gastar no bar, coisas desse tipo. Você se sente quase o Lobo de Wall Street ou um desses salafrários do mercado financeiro nas suas festas nas Bahamas.

A nossa mesa ganhou a garrafa de champanhe. Um dos jogos foi uma competição para ver quem bebia mais rápido uma lata de cerveja, um cálice de vinho e uma dose de vodka. O nosso representante foi justo o  rapaz inglês sósia de Mercúrio. “Oh não, ele não bebe vinho”, comentou preocupada a sua namorada quando avistou os elementos da competição. Tememos apenas por um breve momento; logo ele se revelou muito mais veloz que os demais competidores. (Antes de retornar à mesa, ele passou no banheiro pra vomitar o vinho.) Problemas de primeiro mundo.

Esse sou eu indo para uma das outras ilhas, a outro resort.
Esse é o capitão Tua, nosso piloto.

O meu segundo resort foi o White Sandy Beach, organizado por fijianos e muito mais modesto. Foi um contraste imenso após a minha primeira experiência. Não foi ruim, mas muito diferente.

Se no primeiro resort havia piscina, coquetéis, e garrafas de champanhe, aqui havia redes onde descansar, turistas macaqueando nas árvores, e brincadeiras de “morto-vivo” ou “siga o mestre” como nos tempos de antes de haver distrações eletrônicas.

Se no outro havia os requintes de ser tratado como uma celebridade, aqui o contato — como você há de imaginar — era mais próximo, e numa das noites tivemos a fortuna de ser sexta-feira, portanto noite de lovo aqui, o jantar caseiro tradicional fijiano.

O White Sandy Beach, um dos resorts mais modestos (mas também mais barato, e cujos donos são gente local, familiares fijianos, não estrangeiros.)
Meus amigos turistas macaqueando numa das tardes.
A lindeza do pôr-do-sol é a mesma.
Essa foi a nossa mesa de lovo, refeição preparada à maneira tradicional fijiana, no fogo de chão. O lovo em Fiji é semelhante ao umu em Samoa, que mostrei num dos posts anteriores. Aquecem-se rochas no fogo, põem-se raízes, legumes e peixe em cima, e cobre-se tudo com folhas. Depois de um par de horas, a delícia fica pronta.
Aqui temos peixe, algas refogadas, taro (a raiz mais popular da Oceania, branca ali na direita do prato), uvas-do-mar (que são essa alga verde com bolinhas, recheadas de água do mar e que fazem dispensar o sal na comida), e à esquerda um bolinho de folhas de taro cozidas com recheio de leite de côco (muito semelhante ao palusami samoano). Tudo saborosíssimo (menos as tais uvas-do-mar, que tem gosto mesmo de bolhas de água salgada).

Os camaradas aí no resort, antes do lovo, ainda haviam nos levado ao alto-mar com máscaras de snorkel para vermos arraias. Esses passeios opcionais também são comuns. (As arraias são lindas e impressionantes, mas o nosso piloto de lancha era um lunático, que foi a tal velocidade que todos saltávamos nos bancos da lancha feito em perseguição de filmes de ação — só que na vida real depois você desce outra vez e arrebenta a bunda.)


O veredito final?

As Yasawas são um pequeno universo de mochileiros. Há visitantes que vão em família com crianças, mas apesar do preço um tanto alto para mochileiros, esses dão o tom e são a maioria aqui. 

Afora a indiscutível curtição das praias, da boa comida e do sossego, a delícia é você chegar no primeiro dia sem conhecer ninguém, e com o passar dos dias ir reconhecendo as caras. Voltei no dia final da minha estadia reconhecendo caras de amigos que eu fiz e de gente que não cheguei a conhecer, mas que reconheci. 

Revi os ingleses e, de repente aquele momento mágico de realização: Anna está aqui atrás, a menina colombiana está ali, a suíça Jasmin mais ali. Você vai revendo as caras. Parece passeio de verão para alguma colônia de férias, tipo de filme americano, só que internacional. 

A viagem no barco de volta à mainland de Fiji foi como último episódio de seriado em que todos os personagens reaparecem. Inesquecível.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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