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Bem vindos a Luganville e Espiritu Santo (assim com U), em Vanuatu

Terra à vista! 

Você talvez não soubesse que os portugueses tinham chegado assim tão longe. Verdade seja dita, o português Fernão de Magalhães foi o primeiro a circumnavegar o globo (de 1519 a 1522), então há poucos lugares aonde os portugueses não foram. O que você provavelmente não imaginava é que houvesse terras assim tão longe com nomes portugueses.

Muito, muito distante do Espírito Santo brasileiro há um semi-homônimo, Espíritu Santo (que os nativos e os ingleses, que vieram aqui depois, acabaram por grafar com U, e essa permanece a grafia oficial) uma ilha no Oceano Pacífico batizada assim pelos navegadores portugueses em 1606. O povo aqui a chama simplesmente de “Santo“. Ela é a maior ilha de Vanuatu, embora fique a 1h de avião da capital Port Vila.

Mapa de Vanuatu. Repare na ilha maior, ali acima: Espíritu Santo, com a cidade de Luganville, que é a segunda maior do país.

Sua principal cidade, Luganville, é — se vocês me permitem dizê-lo sem firulas — uma beira de pista entre o mato e o mar. Há um posto de gasolina, uma fileira de casas na rodovia, um mercadão sujo e coberto, e umas duas ruazinhas por trás. Acabou. A população aqui em Santo é altamente rural, mais ainda que a média nacional.

O bom disso, do ponto de vista turístico, é que há muitos ambientes íntegros, belos e pouco explorados. Por exemplo, há uma caverna descoberta apenas no ano 2000, que recebeu a alcunha de Millennium Cave e hoje é uma das principais trilhas da ilha.

Uma curiosidade, antes de eu relatar a minha vinda aqui, é que esta ilha de Vanuatu, quando da independência do país das mãos de Reino Unido e França em 1980, tentou ficar autônoma. Seu líder foi um cidadão chamado Jimmy Stevens, apelidado de “Moisés”, que diziam ter 23 esposas e quatro dúzias de filhos. Ele recebeu auxílio financeiro de um grupo norte-americano chamado Phoenix Foundation, que pretendia fazer daqui um paraíso fiscal. (Olha as tretas.)

Só que esqueceram de mandar armamentos. A revolta aqui deflagrou a chamada “Guerra dos Cocos”, pois os partidários de Jimmy Stevens lutavam com arcos, flechas, e paus e pedras e o fim do caminho. (Não confundir com a Revolução dos Cocos, dos nativos da Ilha de Bougainville — aqui perto — contra os planos de uma mineradora australiana, e que inspiraram o filme Avatar.) Jimmy foi preso, morreu de câncer de estômago em 1994, e Espíritu Santo segue sendo parte de Vanuatu. Foi aonde eu vim.

Vistas do alto.

Segui ao final da manhã para tomar o meu avião de Port Vila a Luganville. Ventiladores de teto, daqueles de lanchonete, decoravam os saguões do aeroporto. O meu lanche perto da hora do almoço também foi desse naipe, daqueles salgados que vendem a quem está na fila de posto de saúde.

Das glamurosas cadeiras plásticas onde nos sentávamos, vimos uma janela do Skype abrir no telão e se sobrepor às informações sobre os voos. Adoro esse surrealismo dos países em desenvolvimento. (Certa vez, na Indonésia, me abriu uma do anti-vírus Avira durante o filme no cinema. E vocês aí achando que o Brasil é que é uma esculhambação.)

Saguão principal e único do aeroporto de Port Vila, capital de Vanuatu. Como não tem muito espaço do outro lado, você só sai daqui na hora de embarcar. Olha a janelinha do Skype lá no telão.

Depois de 50 minutos de voo, aterrissamos em Luganville. Parecia que alguém fez uma pista de asfalto no meio da roça, sem nada muito chamativo — além do verde — ao redor.  Como o porco-do-mato é um animal bem quisto aqui, e sua presa consta até na bandeira do país (veja no mapa lá em cima) e, tradicionalmente, só pode ser usada pelos chefes de tribo, há uma grande presa de porco em forma de monumento à saída do aeroporto.

Presa de porco-do-mato, um dos símbolos nacionais de Vanuatu, e que consta na bandeira. Aqui um monumento a ela na saída do aeroporto de Luganville, em Espíritu Santo.

Taxistas, como em todo lugar, não demoraram a me abordar. Nem demoraram a tentar me enrolar quando eu buscava transporte para a cidade.

Aqui não é como Port Vila. Esses ônibus [vans] que você está vendo aí foram reservados já com antecedência. Aqui são 1000 vatus [uns 10 dólares] o táxiVamos.” O aeroporto, no entanto, fica a bem poucos quilômetros da cidade; eu estava sem muita bagagem, e encasquetei de que não iria pagar 10 dólares aqui por isso — o quíntuplo do que me haviam indicado. (Às vezes o que incomoda nem é o valor absoluto, mas saber que estão levando vantagem sobre você.)

Você começa a discutir o preço e eles já começam com a carochinha: “Qual o seu nome?”. Eu via algumas pessoas entrando nas vans e indo. Abaixou pra 500, depois pra 400. Cheguei a perguntar a um, mas que pelo visto era compadre dos taxistas, ou ia pra outro lugar, mas logo apareceu um que me levou pelos devidos 200 vatus até a porta da minha pousada. Não se deixe enganar.

Essa casa amarela foi a minha simpática pousada, o Motel Hibiscus, na rua de trás da pista. Você vê que rapidinho a “cidade” acaba.

Perguntei a Louis e Marie onde comer. Ele era francês, um homem branco de seus 45 anos com tatuagem na perna e aquele jeito espótico que os homens franceses geralmente têm. Ela devia ser um pouco mais velha, uma mulata aqui de Vanuatu com aquele jeito de quem bota a casa em ordem (e o marido também). O marido passa como funcionário dela para poder ter visto de residente; quando eu fiquei com eles, ele estava compondo pra ela um anúncio de vaga de emprego para pôr no jornal (obrigação legal), à qual ele se candidataria e, naturalmente, ganharia.

— “Comida de turista ou local?“, perguntou ele sem pausar.
— “Local“, respondi eu, naturalmente.
— “Vá ao mercado“.

Eu estava com fome, pois não havia almoçado direito, e lá eu fui. Em 1h você vê tudo de Luganville.

A pista, que é de fato a única rua de Luganville. A cidade se estende por uns 2 Km de pista: vai do mercado ao posto de gasolina.
A rua de Luganville, numa outra altura, com as mulheres nos típicos vestidos coloridos daqui.
O mercado central da cidade.
Pessoas circulando. Percebam que esse indivíduo na minha frente está quase nu, mesclando trajes tradicionais com sua mochila sport.
Quando eu crescer, quero que a minha barba seja assim. (As crianças devem adorar.)
O interior do mercado. De manhã há mais movimento que à tarde. Aqui, algumas bancas já estavam vazias. O lugar é bem precário, como vocês podem ver.
Nos fundos do mercado. (Poluição com plástico é um problema no mundo inteiro.)
Caranguejos vivos sendo vendidos no chão do mercado.

Entrei ali, dei uma circulada sem ver quaisquer outros turistas, as vendedoras (pois são quase sempre mulheres) me olhavam com aquele ar lânguido de quem queria vender mas não esperavam vender mais muito, e eu seguia. 

Acabei por comer numa área ao lado, onde havia “restaurantes”. Entre aspas para que não imaginem ambientes fechados; aqui eram apenas mesas externas diante de janelas que davam para cozinhas de onde mulheres lhe serviam. Essas, sim, me chamavam com afinco.

Moscas estavam por toda parte. Parei numa das janelas, onde abordei uma moça negra de seus 35 anos. Ela tinha frequentado escola francófona, então meu inglês foi perdido. Mudei para o francês, que ela falava bem, e pedi-lhe um prato de peixe com legumes refogados e arroz. Sentei-me sozinho àquelas mesas naquela tarde úmida e quieta de Luganville.

As mesas ao lado de fora.
Uma das cozinhas, com as cozinheiras ali.
O meu almoço nesta tarde. Peixe, arroz branco, e legumes refogados no molho de soja. Coisa básica, mas não estava mau. (A jarra ali é água.)

O almoço não estava mau, mas você percebe que é aquela coisa bem básica, sem nenhum tempero especial, com shoyu de mercearia. Mas comer em Vanuatu, a menos que seja nesses mercados, não é barato. Facilmente te querem cobrar o equivalente a 10 dólares numa refeição simples, pois tudo vem de longe. Para o jantar, eu sabia portanto que teria de ativar o modo Cheap Thrills, e passei numa das mercearias mal-iluminadas dos chineses para comprar peixe de lata e miojo.

(Fala-se muito contra os chineses, e aqui eles estão também, mas se não fossem eles, num lugar como este não se teriam talheres, copos, nem nenhum utensílio de uso doméstico, pois os australianos e neozelandeses vêm aqui visitar como turistas, abrem hotéis para os seus compatriotas ficarem no conforto, mas nunca se preocuparam em atender às necessidades da população local. Até aparecerem os chineses.) 

Dei mais uma volta em Luganville. 

Rua em Luganville. (Quando a sua cidade tiver táxis bonitos como aquele ali verde, me fala.)
O mar, à beira da cidade.
Hibiscus selvagem (Hibiscus hispidissimus), que dá num grande arbustão e cai assim enfeitando o chão. Depois eu mostro a planta.  

Eu falei que a noite (tão cedo quanto 18h) em Port Vila era tipo zona rural escura, em que a única luz provinha dos faróis dos carros. Bem, Luganville é tipo a mesma coisa, só que sem os carros. O silêncio, eu acredito, é ainda maior que na zona rural brasileira, onde você volta e meia escuta uma televisão alta ou os gritos de alguém. Aqui são só as cigarras — eu cheguei a olhar de novo o relógio pra confirmar que ainda eram 18:30h.

A cidade fica deserta, pois muita gente vai pra casa, nos outros povoados. Do posto de gasolina saem umas caminhonetes à tarde que levam todo mundo em pé atrás, e que eu investiguei para quiçá tomar uma num dos próximos dias. No dia seguinte, esperava-me o passeio da Millenium Cave (com trilha na floresta, por cavernas, e em cânions) pelo meio aqui da ilha de Espíritu Santo. Vejo vocês lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Bem vindos a Luganville e Espiritu Santo (assim com U), em Vanuatu

  1. Adoro essas partes históricas das suas postagens jovem viajante e em relação aos portugueses creio que a importância deles ainda não foi reconhecida. Grandes navegantes, chegaram a locais nunca dantes navegados como bem diz Camões.
    Essas estórias, histórias, hábitos, tretas e jogadas dos países que adoram explorar os tolos são homéricas. Um horror. Eita países que não se emendam, Até hoje a politica externa é a mesma explorar sempre.
    Coitado do tal Jimmy. Caiu no esparro. E que visão surreal essa a partir do avião. Uma maravilha. Parece uma nave chegando ao paraíso haha
    Hahah tragi-cômica a comparação com as iguarias que são vendidas nas portas dos postos de saúde; ôh coitados hahaha gorduras, massas e corantes. arrrimaria.
    Nossa, coitado do aero e dos viajantes. Parece um outro numa determinada capital em que fui e que mais parecia uma garagem. Um horror. Este ai é um pouco melhor. Adorei o perfil dos recepcionistas da acomodação. E que mercado. Corajoso, o senhor, meu jovem. Apesar de tudo o prato parecia bonito. Mas que horror esse alimento enlatado, Arrrimaria.
    Lindos o mar e a vegetação. Belos hibiscus. viva a natureza. Curiosa a regiao.

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