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Fazendo a Millennium Cave em Vanuatu: Trilha, caverna, e rio na floresta

Não é todo dia que eu entro num passeio onde uma das principais recomendações é “ir com uma roupa que você não vai querer mais“. Passei um bom tanto da tarde anterior pelas lojas de chineses para comprar uma bermuda vagabunda, e custou-me selecionar qual camisa seria “sacrificada”.

Um dos lugares mais populares de Vanuatu entre os turistas é a Millennium Cave, uma caverna (re)descoberta no ano 2000 na ilha de Espíritu Santo. (“Re” porque grandes quantidades de população aqui da Oceania morreu de doenças contagiosas quando os europeus vieram aqui entre 1600-1800, tal como já havia ocorrido nas Américas.) Hoje, a caverna é parte de uma trilha guiada de cerca de 4-6 horas de duração, que inclui caminhada na floresta, pela caverna, e descer a correnteza boiando num canyon.

O passeio é um pouco exigente (não recomendo a obesos nem idosos), mas é uma delícia. Requer uma disposição física mediana; não é preciso ser atleta; você pena, mas é recompensado.

Acertei-o por 6.000 vatu (o equivalente a uns 60 USD) através da minha acomodação. Você pode pesquisar pelas agências de Luganville; o passeio é operado por uma associação de moradores aqui da ilha, mas as agências (e hotéis) sempre agregam a porcentagem deles. (Esse aí é um preço bom, o mais comum de achar foi 8.000, mas não pague muito mais que isso.)

A paisagem aqui na ilha de Espíritu Santo, Vanuatu.

No dia de manhã, eles passaram às 8:30 na acomodação para me pegar. A solicitação é levar toalha, almoço consigo, água, etc. Eu, no entanto, detesto ficar carregando coisa: sou a antítese do sacoleiro nesse sentido. Não gosto de carregar garrafinha d’água, nem mochila, nem coisas que não caibam nos bolsos. Levei, contudo, a máquina fotográfica, que eles asseguraram que transportariam num compartimento a prova d’água na parte onde nos molhamos inteiros.

Pus três ovos cozidos no bolso da bermuda para almoçar (sentindo-me praticamente o Didi Mocó, de Os Trapalhões), mais algumas balas caso precisasse de uma injeção rápida de glicose, e água eu beberia do rio mesmo. Assisti a muito Rambo quando era pequeno.

O meu almoço, que eles pediram pra estar selado a prova d’água. Ei-lo.
A associação de moradores que era a nossa primeira parada.

A parte mais desafiadora do passeio foi a primeira: 45 minutos de carro por uma estrada de terra esburacada com o motorista ouvindo sua coleção de músicas românticas dos anos 90 (Céline Dion, Bryan Adams, & cia).

A estrada Espíritu Santo adentro.

Paramos a seguir num vilarejo rural bem pobre, onde a trilha teria início com os guias. A parte humana, como sempre, me encanta tanto quanto a natural. Vi criancinhas negras e loiras a circular por aquele chão de terra batida, com cachorros sociáveis e galinhas a passear. A moradia das pessoas, como você há de imaginar, é pra lá de básica.

Eles aqui vivem assim, em casas de palha e sob telhados de lona plástica.
Criancinha loira acompanhada de um cachorro esquálido, embora alegre.

Éramos umas 15 pessoas, entre elas uma família de noruegueses, vários australianos, alguns neozelandeses, e eu era basicamente o único moreno entre louros estrangeiros e negros melanésios. Juntaram-se a nós uns cinco homens dali que seriam os nossos guias, e que pareciam conhecer o caminho todo de trás pra frente e de frente pra trás. Como era obrigatório, deram-nos uns coletes salva-vidas para a parte na água, catei uns maracujás no chão, e seguimos.

As primeiras horas são só alegria; dão a impressão de que a trilha é fácil e mais um “passeio” no bosque tropical. Engano. Aos poucos vão aparecendo as escadas de madeiras a escalar, as travessias no lamaçal, e as descidas íngremes agarrado no cipó ou nas plantas que houver. (Por sorte, Vanuatu não tem animais venenosos.)

O começo era só alegria, atravessando pontes de bambu na selva.
Nas selvas do Espíritu Santo.

Conforme o tempo passava, o percurso ia ficando mais duro. Mais escadas de madeira a subir ou descer, mais ladeiras íngremes agarrado a uma corda, e poucos se salvaram de escorregar na lama (eu durei um tempo, até que caí também). 

He said ‘walking up to a cave’, not ‘climbing ladders to save your life’“, protestou uma garota australiana que veio à trilha recomendada por um amigo. (A tradução, que perde algo do espírito do original, fica algo tipo: “Ele disse ‘ir caminhando acima até uma caverna’, não ‘subir escadas pra salvar sua vida’.”)

Depois o lamaçal ficou tamanho que dava a impressão de que o sapato ia ficar.

O mais desafiador, entretanto, foi fazer a trilha cercado por um grupo de jovens missionários australianos, que vinham debatendo passagens bíblicas com aquele fervor de leituras literais simplistas, do tipo que você às vezes escuta entre vendedores de camelô ou daquela pessoa que se sentou junto de você no ônibus.

A coisa não prestou quando chegamos à entrada da caverna, onde os nativos daqui fazem sinais com argila no rosto de todo mundo — de acordo com a sua crença, uma pintura de proteção contra maus espíritos da caverna.

Pronto, os evangélicos começaram a dizer que não iriam aceitar, porque o deus deles era maior que tudo isso, e eles não precisavam de pintura protetora nenhuma. (Senhor, dai-nos paciência.) Os guias ficaram com aquela cara de “E agora, o que que a gente faz?”, olhando um pro outro. Interpelavam, dizendo aos australianos que “todos os turistas põem”. 

Os rapazes estavam adolescentemente irredutíveis. A birra era tanta que nem olhavam mais para os vanuatenses. Faziam aquela pose de birra, de moleques mimados, de “não vou pôr e pronto”.

Um deles, o mais exaltado (um rapaz barulhento de origem chinesa) perguntou em tom duvidoso à mãe de uma família norueguesa que fazia o trajeto conosco. “Você vai pôr?”. “Por que não?”, respondeu ela como quem não via razão para aquele escândalo.

Ainda tentei argumentar: “Cara, não é questão de você precisar de proteção ou não, é questão de respeitar os costumes deles. Eles avisaram disso antes do passeio. Você vem pra a terra deles, deve que respeitar as normas.” Mas eu esqueci que fundamentalistas são imunes a argumentação. O cara me sai com um: “Você sabe qual o nome dessa terra? Espíritu Santo, terra do Espírito Santo! Eu não preciso de proteção porque essa é a terra do meu deus!

O nível intelectual dos membros do Estado Islâmico deve ser parecido. 

Desejei ardentemente que eles estivessem num país mais rígido, auto-confiante, onde diante da recusa eles seriam mandados voltar o caminho todo a pé. Eles que experimentem chegar a uma mesquita na Turquia ou um templo budista no Japão e dizer que não vão tirar os sapatos.

Mas os vanuatuenses são pobres, dependem do turismo, são muito bonzinhos e certamente ficam com medo de desagradar o turista e dar numa repercussão ruim pra o tour deles. Deixaram os australianos virem sem a pintura — o que, mais à frente, gerou certa indignação quando outros guias que estavam mais adiante ficaram sabendo. Não fiquei atrás esperando pra ver o desfecho, mas segundo disse um guia eles ficaram lá rezando e depois entraram na caverna.

A entrada da caverna.
Caverna adentro.
À entrada da caverna, com água nas canelas e a cara pintada. (A lanterna é fornecida pelos guias, não é preciso levar.)

Na caverna você entende por que dizem para vir com uma roupa que você não queira mais. Há fezes de morcego em toda parte, inclusive caindo do teto e, sobretudo, na água. O odor é maravilhoso, como você há de imaginar. A roupa, então, fica uma beleza.

Saltitamos de pedras em pedras, com água a diversas alturas no escuro, e em coisa de 40 minutos chegamos ao outro lado, onde faríamos a pausa para o almoço. No local uma passava uma gostosa corredeira que dava seguimento pelo cânion onde caminharíamos. Já que nos encharcaríamos em breve, aproveitei que havia umas cascatas ali e fui logo me molhar por inteiro.

O outro lado da caverna, onde paramos para almoçar.
Com a cara ainda pintada.
As corredeiras onde era possível se banhar.
Encharcado e feliz.

Comi os meus três ovos (que a esta altura estavam meio molhados), bebi daquela água refrescante, chupei uma bala e estávamos prontos para seguir canyon adentro.

Esta agora seria a parte mais linda do passeio: trilhamos uns 40min pelas grandes rochas do canyon e, com um cansaço já começando a bater, seríamos agraciados com 45min de nos deixarmos ser levados correnteza afrente, só olhando a floresta e o céu lá em cima.

Por caminhos tortuosos e escorregadios, mas lindos.
Por aqui prosseguimos. A água, aos poucos, ia ficando funda até alcançar vários metros (daí os coletes salva-vidas). Água limpa e agradabilíssima após as horas de esforço. Não tirei fotos quando estava na água (a câmera estava guardada num compartimento a prova d’água com os guias), mas digo-lhes que boiar sendo levado pela correnteza enquanto olhava as árvores e vinhas lá no alto é uma sensação mágica.

Essa parte no canyon é a mais especial. Ao fim, você pensa que acabou, mas ainda há 40 minutos trilha acima, para retornar lá ao alto. É nessa hora que a fraqueza bate, quando você já está todo relax e ainda tem que subir escadas de madeira na vegetação lamacenta. Várias vezes você pensa que já acabou, e ainda tem mais.

Ao fim eu estava podre. E chegando de volta à vila, o primeiro que vejo é um cara na maior tranquilidade, “de boa” tomando sorridente um cafezinho enquanto assistia aos turistas exaustos voltarem.

Olha a cara do elemento! Tranquilão com seu cafezinho enquanto voltávamos quase mortos.
Tinha que ser outro que não eu para não conseguir uma xícara também.

Trilha digna é assim, com cafezinho no final.

Esse sujeito era engraçado como a cara sorridente dele dá a indicar. A habilidade deles de não perder a alegria apesar destas condições precárias é de impressionar. Ainda nos serviram mamão, bananas, melão e melancia antes de nós retornarmos a Luganville. Umas 17h eu estava de volta, pronto para descobrir como iria ao norte da ilha no dia seguinte. No fim das contas, não precisei jogar fora as roupas.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Fazendo a Millennium Cave em Vanuatu: Trilha, caverna, e rio na floresta

  1. Talvez a alegria deles apesar da precaridade é porque este é o universo que eles conhecem. Pra quê quereriam mais se a natureza dá praticamente tudo o que eles precisam? Certamente pra nós, urbanoides, é que não serviria…quanto ao fundamentalismo religioso, no mundo todo tá ficando de lascar!

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