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A Praia de Champanhe (Champagne Beach), Turtle Bay, Towoc e outros refúgios naturais em Espíritu Santo, Vanuatu

Chegou a hora de ir a belas praias remotas, a lugares quietos da natureza (onde parece não andar ninguém), e de ver como encerrei o meu passeio aqui em Vanuatu. Hora de subir a costa nordeste desta Ilha do Espíritu Santo.

A ilha de Espíritu Santo. Repare na escala, e que só tem estrada mesmo naquela costa nordeste. O resto é interiorzão com gente vivendo na floresta. A Praia de Champanhe é um daqueles soizinhos mais pra cima.

Eu havia chegado podre da trilha da Millennium Cave quando Marie, a dona da pensão, me disse que haveria um casal de hóspedes australianos subindo de carro na mesma direção que eu no dia seguinte. O meu plano original era ir na caminhonete coletiva com o povão atrás, mas uma carona sempre vem a calhar. Só esqueci que não estava no Brasil, e que nos países anglófonos as pessoas têm uma cultura mercenária de pôr um preço em tudo. O cara me cobrou a carona (o que não é o mesmo que dividir a gasolina), mas mesmo assim valeu a pena.

Na manhã seguinte, seguiríamos conversando amenidades até Turtle Bay, uma baía quieta onde é comum avistar tartarugas marinhas. (Não vi nenhuma.) O mais bonito ainda estava por vir. Aqui foi só uma pausa pitoresca para aquele café no meio da manhã.

Turtle Bay, a Baía das Tartarugas.
Lugar muito pacato. Não havia hóspedes, então só ouvíamos as nossas próprias vozes, afora os sons da natureza.
Um cachorro da pousada aqui monitorava ali o “vazio”.
O que mais adoro nestas paragens remotas de Vanuatu é a sensação de estar num lugar quase sem gente, onde a natureza simplesmente é.

Wayne e Joanne, os meus companheiros de viagem, eram visitantes de outros carnavais aqui. Ele, um homem de seus 50 e poucos anos, cabelos já brancos, olhar arguto e aquelas sandálias com as calças compridas; ela, da mesma faixa, parecia uma dona de casa de filme americano (das mais contidas, não das abestalhadas). Pareciam já ter vindo diversas vezes, e conheciam outros australianos donos de hotéis e pousadas. Conversaram aqui sobre fulano e beltrano que eu não conhecia. Como eu disse antes, no setor turístico destes países mais pobres o grosso do dinheiro passa de estrangeiro para estrangeiro.

Uma exceção são os bangalôs simples administrados por famílias locais. Iríamos agora a um deles nas proximidades da famosa Praia de Champanhe (Champagne Beach). Hospedando-nos com eles, éramos eximidos de ter que pagar a habitual taxa de uso das praias. Aqui na Oceania é muito comum que comunidades locais tenham custom rights (aqui às vezes escrito kastom), direitos usufrutuários tradicionais que lhes permitem cobrar uma taxa dos turistas que vêm se banhar nas suas áreas ancestrais.

O lugar se chama Towoc (às vezes escrito Towock, #ficaadica), nome também da praia em frente aos bangalôs, Towoc Beach. Estamos falando de cabanas de madeira dispostas num gramadão, com coqueiros aqui e ali e o mar mais adiante. Como sempre na Oceania, há mais árvores perto do mar do que geralmente supõe a nossa brasileira imaginação, habituada ao nosso litoral desmatado.

Towoc, aqui na Ilha de Espíritu Santo, em Vanuatu.
Essa proximidade de árvores com água do mar me fascinou.

Eu fico a imaginar que o Brasil de antes dos portugueses devia ser algo assim — e fico com saudades daquilo que nunca tive.

Os bangalôs de onde fiquei, com uma garotada a brincar ali adiante.
Garotada brincando.
Do galo ao painel solar. Aqui foi dos raros lugares em que estive onde havia wi-fi mas não pegava sinal de celular.
O meu bangalô. O banheiro ficava do lado de fora, tipo banheiro de roça, e é claro que à noite deu vontade e eu tive que ir no breu, só com a luz do celular.

Na hora que cheguei aqui, a Praia de Towoc estava com a maré baixa, e um riacho cristalino vindo não-sei-de-onde misturava-se à água salgada. Um casal lá adiante brincava na água sob os olhares de um cachorro marrom e branco. Não era uma praia de cartão postal (como a Praia de Champanhe viria a ser), mas havia um quê paradisíaco ali.

A Praia de Towoc com a maré baixa. (Parece cena de A Lagoa Azul.)
A vista deste “paraíso perdido” na manhã nublada.
Daqui vinha um córrego a se misturar com o mar, à beira da floresta.
“De boa” na água.
A vista do lugar quando o sol ensaiava raiar por detrás das nuvens.
À tarde, com a maré subindo, ficou assim.
Parecia que eu iria ouvir um soar de trombetas e receberia alguma mensagem dos céus.
No paraíso.

Fiquei ali um tempo, sozinho com a maré enchendo aos poucos (e eu olhando para que ela não levasse embora as minhas havaianas deixadas sobre uma pedra). Você se sente uma tartaruga marinha tranquilamente indo de lá para cá, avistando os peixes. Como a água é rasa, dá pra ir um bom tanto.

A uns 10 minutos a pé na estrada de chão, chega-se à Champagne Beach. Dizem que esse nome se deriva de bolhinhas na praia, como se água fosse de um espumante. Não vi nada além da espuma habitual do mar, mas tampouco importa. Importa que a praia é deslumbrante.

Ecce Champagne Beach, em Espíritu Santo. Divina.
Das águas mais belas que já vi.
Só alegria! A vida que eu pedi a Deus.
Do semi-transparente ao azul.
Aí o cidadão fica feliz.

Você fica ali na tranquilidade daquelas águas azuladas e cristalinas até não poder mais. Neste caso, quem dita é a fome, e voltei para os bangalôs após o banho para uma devida refeição. Fizeram-me um omelete com legumes que não estava mau, embora nada particularmente típico. Era apenas uma noite aqui, e na manhã seguinte já deveríamos partir ao aeroporto de Luganville para retornar a Port Vila. Eu, dali a outra noite, já deixaria Vanuatu, depois de todas estas emoções aqui.


EPÍLOGO

Wayne e Joanne tomaram café da manhã comigo às 06:00h. Eu teria a possibilidade de ir agarrar uma caminhonete coletiva na beira da pista principal descendo para Luganville, mas qual foi a minha surpresa ao descobrir que o casal australiano estava no mesmo voo que eu. Acertamos uma nova carona, desta vez gratuita.

Este seria talvez o embarque mais precário da minha vida — e olhe que eu já vi bastante coisa. Chegamos a tempo, mas vinte minutos antes da partida do voo nós ainda estávamos todos numa fila que não andava, tentando fazer o check-in e despachar bagagens. Alguém ali me disse que eu não me preocupasse, que os horários eram pro forma e que o voo não sairia antes de todos terminarem.

Embora houvesse algumas lâmpadas brancas fluorescentes funcionando com os ventiladores de teto, tudo era escuro como numa casa de estoque. O que mais adorei foi o cartão de embarque que produziram, escrito a caneta. Não havia qualquer detecção de metal; era pegar esse papel e entrar no avião, que saí da pista atrás desta casinha.

O célebre aeroporto de Luganville, esperando o check-in.
O meu inesquecível cartão de embarque da Air Vanuatu, com as informações a caneta.

Despedi-me de Wayne e Joanne, e ele me entregou uma brochura da igreja dele, muito semelhante àquelas entregues pelas Testemunhas de Jeová, que aceitei por consideração.

De retorno a Port Vila, ainda passei uma noite na pousada de Jack, que estava com pneumonia — mas isso não o impedia de fumar. Revi o simpático caseiro, a cozinheira, a jovem e perspicaz gerente Pauline (que talvez fosse filha deles), e assisti divertido a duas hóspedes idosas — uma australiana e uma alemã — que não paravam de discutir uma com a outra, dessas que ficam se insultando sem deixarem de ser companheiras por isso. Se uma dissesse que é rosa, a outra dizia que era azul.

E eu, era hora de singrar os ares rumo a outras paragens.  

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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