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5 coisas que aprendi após viver na Índia

Faz alguns anos desde que vivi por uns meses na Índia. Digo que “vivi”, e não simplesmente passeei, porque fiquei grande parte do tempo com famílias indianas — participando dos seus eventos sociais, tendo que tomar transporte público, e indo fazer compras no supermercado. Em suma, experimentando a rotina do dia-dia na Índia, além de ir explorar os seus vários cantos e recantos.

A experiência foi hiper-marcante (embora nem sempre agradável). Hoje, em retrospecto, sou capaz de destacar algumas coisas que aprendi naquela viagem e que carrego comigo até hoje. Achei que seria legal compartilhar.


1. O ser humano é muito maleável e se habitua a viver em (quase) quaisquer condições

Uma coisa é você saber isso, outra é vê-la ao vivo e experimentá-la (daí a minha paixão por viajar). Na Índia eu vi criancinhas nuas brincando na lama com filhotes de porco-do-mato sob os olhares da família na frente de casa; vi sacerdotes hindus imundos e aparentemente pouco preocupados com isso; e andei de pés descalços nas ruas de Nova Délhi com indianos de várias classes (e castas), que me olhavam como se eu fosse um fresco por hesitar em tirar os calçados naquelas ruas pouco limpas.

Não estou fazendo apologia aos notórios baixos níveis de higiene dos indianos (até porque, francamente, higiene é uma das coisas que no Brasil é superior a quase todo o restante do mundo). O que à época me chocou foi ver o quanto as pessoas são capazes de se adequar a padrões, parâmetros e gostos diferentes. O que é socialmente aceito num lugar pode ser o reverso do que é socialmente aceito em outro. As pessoas e coletividades são muito maleáveis, e a Índia me mostrou isso de forma bastante clara.

2. O “jeitinho brasileiro” não tem nada de particularmente brasileiro

Grande parte dos brasileiros (inclusos autores às vezes consagrados) criaram essa mitologia de que há algo particularmente brasileiro em dar-se um “jeitinho” para resolver as coisas. Eu entendo: são pessoas que, via de regra, só conhecem o Brasil, ou quando viajam ao exterior limitam-se a países mais formais e ordeiros, onde as regras da vida diária tendem a funcionar melhor, como na Europa ou na América do Norte. Mas vá a qualquer um dos outros 150 países em desenvolvimento que há no mundo, onde as coisas no dia-dia não funcionam tão bem assim, e você verá “jeitinhos” mil — tão quanto ou pior que no Brasil.

A Índia é um desses lugares. Dá-se jeitinho no trânsito; dá-se jeito de furar até fila de caixa de banco ou de supermercado; e por aí vai. Aqui na Índia eu, por exemplo, consegui pagar a um motorista de ônibus interurbano para atrasar a saída em 15 minutos enquanto eu esperava uma encomenda (eu relatei essa história aqui). Você se imagina fazendo isso no Brasil?

Jeitinho não tem nada a ver com brasilidade, mas com qualquer contexto onde há flexibilidade e informalidade suficientes para cada caso ser tratado como um caso, onde você depende mais da pessoa com quem está tratando do que de um sistema de regras rígidas. E isso a Índia te mostra de sobra.

3. A espiritualidade na Índia (como pelo Oriente afora) não é “pura” ou “iluminada” como os ocidentais muitas vezes creem

Há, sem dúvida, uma grande riqueza de tradições espirituais na Índia, como no restante do Oriente, mas não pense que por isso todos aqui são uns anjinhos, nem que se trata de uma religiosidade pura, imaculada, como se não estivéssemos na Terra. 

Muitos ocidentais, conhecendo em detalhes e de perto (no dia-dia e na História) as maracutaias e perversões feitas em nome do Cristianismo, frequentemente creem que no Oriente tudo é diferente. Que lá as pessoas são elevadas, espiritualizadas, e não materialistas como no Ocidente. A Índia, então, é às vezes tida como um lugar de iluminação onde as pessoas todas são muito espiritualizadas e virtuosas — praticamente uns budas caminhando sobre a Terra. (Certa vez até ouvi de uma senhora brasileira, muito fã da Índia e visitante recorrente do país, que “os indianos são tão iluminados que o pobre não se importa de ser pobre, porque ele sabe que tem um karma a cumprir e na outra encarnação vai ter uma vida melhor“.)

Não é bem assim. Trabalhei com indianos pobres e eles têm muitas queixas (legítimas). Vamos superar os estereótipos. Bastam alguns dias na Índia para você perceber (se tiver os olhos abertos) que os indianos fazem maracutaias ao extremo — eu diria até que mais que no Brasil, pois os brasileiros malandros às vezes recorrem à violência, enquanto que na Índia a malandragem é mais pura. 

Você, além disso, encontra comercialização e dinheiro imiscuídos ao budismo e ao hinduísmo ainda mais que no cristianismo e no islã, eu diria. O que eu achei mais devotado, tanto na Índia quanto em alguns outros países orientais como a Tailândia, foi um trabalho social maior. Vi, por exemplo, templos hindus regularmente darem refeições imensas (e gratuitas) às massas de pobres — se não resolvendo os problemas estruturais, ao menos agindo de forma muito atuante.

No entanto, gente continua sendo gente, com virtudes mas também seus vícios e fraquezas. O que há é uma cultura mais aberta à metafísica. Por exemplo, você pode facilmente ouvir de um indiano algo tipo: “Se alguém estiver pensando em você, você sente isso de alguma forma“, enquanto que se você disser isso a um europeu ou norte-americano médio, ele vai achar que não há lógica nisso e que você está maluco. Da mesma forma que os indianos são quase todos dados a numerologia, astrologia, mapa astral na hora de casar, etc. 

Só não ache que, por isso, se tratem de pessoas de maior coração ou de religiões mais virtuosas. Seja realista.

4. Paciência para aceitar aquilo que você não pode mudar

Filosofias de todo o mundo antigo, da Grécia à China, falam que é sábio não se inquietar diante daquilo que não está sob o seu poder. Se não há o que você possa fazer a respeito, de que adianta se exasperar? Melhor concentrar suas energias naquilo que você pode mudar. Eu já havia visto esse dizer em muitos lugares, mas foi na Índia que eu o aprendi de fato.

Não foi nenhum curso nem aula, foi o dia-dia mesmo. Às vezes eu me vi trancado em trens desconfortáveis, sem espaço, quentes e super-lotados por horas a fio (como relatei aqui). Se você não aprender a aceitar aquilo em paz, você pira.

Hoje em dia, se eu escuto “O avião vai atrasar 6h“. Ok. Vou logo procurar algo que fazer.

Que calor horrível!“. Let it be. Às vezes estou no mesmo ambiente com pessoas que estão se matando de reclamar, incapacitadas de fazer qualquer outra coisa porque estão gastando energia se exasperando, e sem poder fazer realmente nada a respeito.

É uma passividade inteligente. Você guarda a sua atividade para onde você realmente pode fazer uma diferença.

5. Uma sociedade com milhões de vegetarianos não é nem de longe o escarcéu que às vezes pintam no Ocidente

Os Ocidentais às vezes acham que sem comer carne não há vida; que ser vegetariano é alguma modinha nova que não condiz com a natureza das pessoas, etc. Olhe, na Índia há cerca de 400 milhões de vegetarianos que o são desde o nascimento, isso de uma tradição de milhares de anos, e ninguém morre por deficiência disso nem daquilo.

Os indianos conseguem, inclusive, a proeza de ter uma elaborada indústria de couro sem precisar matar as vacas pra isso. “Não morre uma vaca de que não se fique sabendo“, disse-me certa vez um artesão indiano no Rajastão, pois prontamente alguém vai lá arrancar-se o couro. 

Portanto, é uma questão de opções sociais. Na grande maioria dos casos, ser vegetariano é uma simples questão de escolha. Os indianos — com uma das mais festejadas culinárias do mundo — estão aí pra mostrar que essa é uma escolha não só viável, mas feliz.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “5 coisas que aprendi após viver na Índia

  1. Meu sonho é a Índia. De uma atração, um visgo inexplicável… Nada do que eu li /vi até hoje me fex pensar ao contrário. Cada dia mais a curiosidade é crescente e latente. O seu post só me faz instigar ainda mais e crescer a vontade de apurar tudo isso de pertinho… Esse “repeteco” da Índia rende sonhos hein…. RS. Curti. Apesar de seus resumos e balancetes, diga-me, Mairon, como vc classifica sua viagem à Índia em relação a tudo que já foi visto? Voltaria ou encontrou o suficiente? Bjs Namastê😘🙏

    1. Namastê, Daniele, eu fico contente por ter instigado ainda mais essa sua vontade latente! 😉
      Uma viagem à Índia sempre é memorável. A cultura do país é tão única que não tem como ela não deixar uma marca. Nem todo mundo gosta da Índia, mas não há como ela passar despercebida.

      Em relação ao que você perguntou, eu voltaria, sim. Ainda há partes do país que eu gostaria de conhecer, como Calcutá e os demais estados do nordeste indiano, que têm uma cultura regional muito particular. (Cheguei a elaborar um pouco mais sobre isso no post seguinte de dicas, que a esta altura talvez você tenha visto.)

      Em suma eu diria que a Índia é um universo nela própria. É como o mundo árabe, que tem seus charmes, desafios e peculiaridades, só que tudo num país só. Pra mim, foi uma viagem muito formativa também. Não sei se a esta altura eu me disporia novamente a passar semanas sem banho de chuveiro ou a encarar as longas viagens de trem em vagões superlotados como fiz, mas valeu ter feito ;-).

      Espero que você consiga realizar esse anseio e visite-a um dia! Bjs!

  2. Maravilha. A Índia é mesmo uma região que precisa ser visitada pois tem uma aura toda particular. Em que pesem esses aspectos levantados pelo viajante , ha em muitos, e eu me incluo, essa vontade de conhecer esse universo que para nós nos parece magico. Não gostaria de passar os percalços que o jovem viajante passou mas ficaria muito feliz em conhece-la.
    Em tempo: informo ao viajante que adoro comida indiana e a visão desses quitutes me fez sentir saudade de um bom restaurante indiano, coisa rara aqui na minha região. Valeu

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