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Haarlem: A linda cidadezinha holandesa que deu nome ao bairro de Nova York

Muitos brasileiros sabem do Harlem, famoso bairro barra-pesada de Nova York, mas poucos já ouviram falar da linda cidadezinha holandesa que lhe deu nome: Haarlem, assim com um “a” a mais, em holandês.

Em 1624, ainda no princípio da colonização europeia da América do Norte, os holandeses assentaram-se lá num pedaço de terra e fundaram o que mais tarde se tornaria Nova York. De início, chamava-se Nova Amsterdã (Nieuw Amsterdam).

Primeiro leilão de escravos em Nova Amsterdã em 1655“, do ilustrador Howard Pyle, publicado numa revista semanal nova-iorquina em 1895. Perceba com a arquitetura de então era a cara das cidades da Holanda.

Foi aquele o mesmo ano em que atacaram Salvador, a então capital do Brasil, na dita “Era Dourada” da história holandesa, de suas expansões marítimas. O Rio Hudson, que desemboca em Nova York, era à época chamado de Rio Maurício, em homenagem a um Maurício de Nassau (príncipe e regente holandês entre 1618-1625) da mesma linhagem do outro Maurício de Nassau que viria a governar um pedaço do Nordeste do Brasil entre 1637-1644. Os holandeses estavam por toda parte.

Qual foi a minha surpresa ao saber que iria morar na Haarlem original — uma cidade que eu nem sabia que existia.

Eu me preparava para mudar-me do Canadá à Europa, e acostumar-me a um jeito de vida muito diverso. A filiação afetiva e institucional dos norte-americanos (e de tantos brasileiros) por automóvel e rodovias seria agora substituída por um entorno feito para trens, bondes elétricos, densidades urbanas maiores, e um povo com hábitos muito distintos. Morar na Europa viria a ser das experiências mais significativas da minha vida.

Centro de Haarlem, na Holanda. Os centros de cidade europeus, compactos, com seus belos calçadões, arquitetura antiga, espaços para bicicletas, e reduzida presença de carros era uma transição enorme para quem até então só havia vivido no Brasil e na América do Norte.

Quando eu cheguei era um setembro, miraculosamente ainda ensolarado e relativamente caloroso para quem conhece o notório clima cinzento e chuvoso holandês. Brumas de manhã, pores-do-sol à tarde, e todas as descobertas de um lugar novo.

Mapa da Holanda. Haarlem fica a poucos quilômetros a oeste de Amsterdã, uns 15min de trem, com partidas constantes.

Haarlem fica a meros 15 minutos de trem desde Amsterdã, e é uma visita recomendadíssima pra quem busca ver o charme das cidades holandesas sem necessariamente o aspecto de “vida noturna” que tem a capital. Faz um ótimo e fácil bate-e-volta a partir da capital. (Trens na Holanda não requerem compra antecipada, nem têm reserva de lugares. Basta chegar à estação, comprar a passagem, e embarcar no próximo trem. O mesmo para a volta. Pode ficar tranquilo que os trens aqui nunca esgotam.)

Como em tantas cidades europeias, há uma praça central (Grote Markt, ou “grande mercado”) com uma catedral e muitos bares e restaurantes com suas mesas do lado de fora.
O coração da praça principal é a Grote Kerk (“grande igreja”), a Catedral de São Bavão (St. Bavus Cathedral), em homenagem a esse santo aqui da região dos Países-Baixos e da Bélgica. Não se sabe exatamente desde quando existe uma igreja aqui, mas a reconstrução principal se deu em 1479. Com a Reforma Protestante, a igreja foi confiscada do Vaticano já em 1578.
A catedral de outro ângulo, num inusual dia ensolarado em outubro.
Haarlem em si foi fundada nos idos do século X, e recebeu status oficial de cidade em 1245. Este é o Rio Spaarne, em torno do qual a cidade se formou desde a Idade Média.
Remanescência das muralhas da cidade, com suas torres. “Anno MDCXLIX” (deixo com vocês a leitura dos algarismos romanos 😉 )
Como estamos na Holanda, não poderia faltar um moinho de vento na paisagem. Este, que recebe o nome de De Adriaan, foi originalmente construído em 1779. Sua forma atual data de 1932.
Canal em Haarlem. Os holandeses são mestres em manejar escoamento de água, e fizeram canais por toda parte desde a Idade Média. Amsterdã é famosa por seus canais, e Haarlem também tem os seus.
Ruelas do centro da cidade, áreas onde só passam pedestres e bicicletas.
Área de apenas pedestres e bicicletas no coração de Haarlem.
O melhor dia para visitar Haarlem é sábado, quando as ruas ficam bastante animadas e ocorre uma espécie de feira livre de queijos e outros produtos no centro (venha das 9-15h).
Haarlem também é conhecida pelos seus hofjes (“jardinzinhos”), que são áreas fechadas de casas ao redor de um jardim interno. Recantos muito fofos e tranquilos.
A vista para o rio num dia de primavera, com muita arquitetura holandesa ao redor.

Aqui eu morei por 4 meses, indo à universidade em Amsterdã de segunda a sexta, aproveitando a animação interiorana aos sábados, e amaldiçoando a tranquilidade excessiva do lugar aos domingos, quando (até recentemente) sequer os supermercados abriam.

Certa vez, tive que voltar de uma festa em Amsterdã no último ônibus (mais baratos que os trens), e acabei dormindo no caminho: fui parar na garagem. O motorista não me viu e não me chamou. Tomou um susto quando eu acordei e o abordei no ônibus escuro já na chegada. Eu acabei tendo que fazer o que nunca antes havia feito na vida (e que jamais voltei a fazer desde então): pegar carona no meio da noite em um carro aleatório que me abordou na rua. Por sorte, eram outros motoristas saindo do trabalho. Coisas da segurança da Europa.

Não teve jeito: eu me mudaria para Amsterdã. Mas não deixei de incluir um passeio a Haarlem sempre que amigos vinham visitar a Holanda. Alguns chegavam a dizer que, pela tranquilidade e ausência de hordas de turistas, até preferiam-na à capital holandesa, mas aí eu deixo a seu critério descobrir.

O centro de Haarlem já no inverno. Quase nunca neva, mas as árvores perdem as folhas e o habitual vento holandês fica ainda mais frio.
As ruas pitorescas do centro de Haarlem, que às vezes parecem mais um museu a céu aberto, mas que são uma cidade normal aqui na Holanda.

A quem ficou curioso, os holandeses em 1667 trocaram a então “Nova Amsterdã” — com seu vilarejo adjacente de “Haarlem”, que viraria o bairro — pelo Suriname, país caribenho no norte da América do Sul, nosso vizinho. Como resultado da Segunda Guerra Anglo-Holandesa (1665-1667), na qual os ingleses invadiram e tomaram as posses holandesas na América do Norte e os holandeses por sua vez tomaram as valiosas ilhas e terras caribenhas produtoras de especiarias (açúcar) dos ingleses, o Tratado de Breda (1667) consolidou as coisas como elas estavam. Nova Amsterdã ficou com os ingleses e foi rebatizada de “Nova York”; já o Suriname permaneceria como colônia holandesa até adquirir sua independência em 1975.

Os holandeses seguiam no que mais lhes interessava à época: o enriquecedor comércio mundial de especiarias. Desenvolveriam, nessa sua “Era Dourada”, uma das mais esplendorosas cidades à época: Amsterdã, a “Veneza do Norte”.

O sol visto da minha janela em Haarlem, com vista para a catedral sob o céu poente.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Haarlem: A linda cidadezinha holandesa que deu nome ao bairro de Nova York

  1. Mairon, o Maurício de Nassau pelo qual o rio Hudson era chamado anteriormente não seria por conta do Príncipe João Maurício de Nassau, filho do Guilherme de Nassau, ao invés do nosso governador neerlandês?

    A propósito, continue a postar sobre a Holanda!

    1. Muito boa observação, Nuno! Revi a questão e, de fato, era um outro “Maurício de Nassau”, filho de Guilherme “o taciturno”, que regia a Holanda à época. O nosso governador neerlandês no Brasil (este, sim, “João Maurício de Nassau-Siegen”) é mais jovem e só aparece depois. Obrigado por me chamar a atenção, fiz a retificação no texto.

      E obrigado pelo encorajamento! Vem bem mais aí sobre a Holanda.

  2. Essa Holanda maravilhosa, linda, com sua arquitetura sui generis, com cidades que mais parecem saídas de algum livro de contos, seus belos canais, suas flores e jardins sobretudo interiores, seus charmosos e históricos moinhos, suas belas praças, pontes enfeitadas de flores, assim é a Holanda, assim é Haarlem!…
    Ruelinhas lindas cheia de canteiros floridos, lugares gostosos de visitar, estar, papear e descansar!… bem arborizada e com um belo rio. Seu casario chama a atenção pela beleza e pelos tons, Linda cidade, lindo país, Um encanto, Impressionante o porte da sua catedral. `Parabéns, jovem viajante. Belo recanto,

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