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As 5 piores coisas de se morar na Holanda

Nem tudo são flores em terras holandesas. Eu tenho uma satisfação imensa de ter morado na Holanda pela maior parte dos últimos 10 anos, não somente em nível pessoal como também por ter realmente gostado da experiência de viver no país.

No entanto, preciso dar um parecer sincero e equilibrado. Depois de fazer uma lista do que mais gostei morando na Holanda, nada mais justo do que revelar também aquelas coisas de que menos gostei.

Certo dia da minha janela em Amsterdã. Vista mais do que típica na Holanda.

1. O Clima.

O clima holandês é caracterizado por muitos dias nublados, chuviscos por dias a fio, sol raro, e ventos fortes o ano inteiro. Chove em média 182 dias por ano na Holanda, e mais um tanto de dias não têm chuva mas são encobertos. Em suma: é aquele clima cinzento e depressivo. De longe, esta é a maior queixa dos estrangeiros que vêm morar aqui.

Eu já havia morado no Canadá antes, e frio não é problema pra mim. Mas na Holanda você sequer tem neve (só raramente). Os dias de sol são lindos, mas são quase tão raros quanto a neve. O mais típico aqui é o tempo mudar de chuviscos a 20ºC no verão para chuviscos a 2ºC no inverno. Valha-me Deus…

E não é só a questão do tempo feio que você vê pela janela, é também chegar ao trabalho ou ao cinema molhado, ou ainda pedalar no chuvisco contra os ventos de 50 Km/h ou mais. 

Todos os meus amigos que moravam na Holanda e foram embora alegram-se de agora ter um clima mais digno. A observação mais comum que escuto é “Nossa, não sei como eu aguentava“.

2. A Comida.

Eu disse num post anterior que Amsterdã (como algumas outras cidades holandesas) têm excelentes restaurantes estrangeiros, especialmente asiáticos — isso é fato. Só que não dá pra comer fora em restaurante todos os dias. No dia-dia, você está à mercê do que é servido na cafeteria da universidade ou do trabalho e das opções acessíveis, a menos que prepare todas as suas refeições (o que, convenhamos, é pouco prático no mundo movimentado de hoje).

A comida na Holanda é, sem dúvidas, o segundo maior desafeto dos estrangeiros que moram aqui (após o clima).

Os holandeses não têm bem uma culinária muito digna de nome; seus almoços restringem-se em geral a um sanduíche de pão-de-forma com queijo amarelo todos os dias, acompanhado de um copo de leite ou de coalhada (karnemelk em holandês).

Em ocasiões especiais, os holandeses podem preparar um stamppot, que é aquele amassadão de batata acompanhado de linguiça. Temperos? Não, obrigado — exceto pimenta cominho, que eles acham de pôr em quantidades copiosas na maior parte das sopas.

No mais, estamos falando apenas de muitas frituras, queijo, e saladas sem muita personalidade.

Salve-se quem puder.

3. Os holandeses frequentemente têm o tato social de uma criança (malcriada) de 10 anos.

Os holandeses têm uma língua simples e direta, e em geral orgulham-se de ter uma cultura de franqueza e poucos rodeios. Tudo isso pode parecer lindo em tese (e tem, sim, algumas vantagens), mas na prática incorre em muitas situações sem-noção. Até os alemães se espantam.

Alguns exemplos que presenciei:

  • Um rapaz entra à minha frente no meu prédio, passando por uma daquelas portas que têm um peso pra fecharem sozinhas. Eu, como entrei logo depois dele, não tive o trabalho de procurar por minha chave. Agradeci-lhe, ao que ele responde (sem rudeza, simplesmente falando o que veio na cabeça): “Não precisa agradecer, eu abri a porta pra mim mesmo, não pra você.
  • Numa reunião tranquila entre colegas de departamento, um holandês chega à nossa colega turca com um vaso de flores.
    – “Trouxe pra você.
    – “Nossa, obrigada.”
    – “Esse vaso estava empatando lá na sala, e eu acabei comprando flores demais ontem, não sabia o que fazer com essas, aí resolvi lhe trazer.
    – ...
  • A cunhada de uma amiga holandesa, com quem ela tem uma relação normal, lhe pergunta quando afinal seria a sua celebração de aniversário. A cunhada tinha uma viagem por marcar, mas queria primeiro saber a data da festa pra se orientar. Ao que minha amiga responde (sem maldade intencional, sendo simplesmente exemplo da falta de tato social holandesa mesmo): “Pode marcar sua viagem, eu não estou planejando convidar você pro aniversário, não.”

Esta última, reconheço, foi talvez sem-noção até para os padrões holandeses, mas só aqui alguém pode dizer essas coisas sem se tocar nas nuances do que diz. (A minha amiga estava sem entender por que a cunhada ficou ofendida e veio me perguntar se eu entendia.)

Já tive gerente de banco alegando que problemas ocorreram porque eu fui azarado, e mais um sem-fim de situações comigo e com amigos — algumas mais perdoáveis, outras menos.

Às vezes a inteligência emocional e o tato social parecem tão embotados que você se esquece de que está lidando com adultos. 

[Quando você estiver em Schiphol, o aeroporto de Amsterdã, repare numa coisa. Em outros países, passageiros atrasados são solicitados com presteza a comparecer ao portão X. Já em Schiphol, a mensagem é: “Passageiro fulano, você está atrasando o voo. Venha ao portão tal, ou nós daremos seguimento com a retirada da sua bagagem” (“You are delaying the flight. Come to gate x, or we will proceed to offload your baggage“). Repare quando estiver por lá.]

4. Padronização excessiva?

Há quem não se incomode com isso, mas eu sou amante da criatividade.

Na Holanda, quase todas as casas são iguais. Bonitas, mas quase idênticas — em parte por leis que regulam a estética dos prédios, mas em parte por falta de inventividade das construtoras mesmo.

Os menus dos cafés são tão semelhantes que, muitas vezes, os garçons perguntam o que você vai querer antes mesmo de lhe trazer o cardápio, pois eles têm praticamente as mesmas coisas sempre. Os bolos, chás e sucos são sempre os mesmos, e me parece haver não mais que uns 5 tipos de sopa que se repetem onde quer que você vá no país.

Por toda parte na Holanda, há uma dúzia de redes especializadas que estão por toda parte e quase monopolizam os seus respectivos mercados (Etos para cosméticos; AKO para jornais e revistas; HEMA para utilidades do lar; Kiosk para sanduíches e comidas de viagem nas estações de trem; Albert Heijn entre os supermercados, e outras redes hiper-comuns que devem ter centenas de lojas pelo país e que você vê por toda parte). Uma praça comercial na Holanda frequentemente não é mais que um “ajuntado” com uma de cada dessas aí.

É prático, é fácil, cria familiaridade, mas depois de um tempo, satura.

Imenso banheiro, algo muito comum na Holanda. (Repare no meu tênis ali para dar uma ideia de tamanho.)

5. Habitações pequenas, velhas, e caras.

Qualquer cidade muito cotada tem imóveis caros, mas eu nunca vi algo do nível de loucura de Amsterdã — talvez só comparável a outros lugares de mercado imobiliário igualmente inflado como Londres, Singapura ou Hong Kong.

Apartamentos de 60m² precisando de reforma em Amsterdã podem facilmente custar 300.000 euros ou mais, e são vendidos em forma de leilão pra ver quem dá mais. Você pode levar anos até conseguir comprar algo, e os proprietários, sabendo da demanda, empurram qualquer coisa por preços astronômicos. Aluguéis de apartamentos com apenas um quarto saem corriqueiramente por 800-1.000 euros por mês ou mais.

E lugares apertados. Muitos banheiros na cidade são tão pequenos que sequer têm pia — a pessoa sai com as mãos sujas e precisa ir lavá-las na cozinha ou no lavabo mais próximo, o que às vezes não acontece. As casas altas, tradicionalmente sem elevador, têm escadas íngremes, velhas e empoeiradas que fazem parecer que você adentrou alguma pirâmide egípcia ainda não escavada.

Há quem não ligue — tenho amigos estrangeiros que não veem grandes problemas nisso, já outros que concordam comigo. Acho que depende muito daquilo a que você está habituado. Eu, pessoalmente, gosto de espaços amplos e abertos, e fico a me perguntar qual o valor de ter um alto salário e morar apertado quando pelo mesmo dinheiro você consegue algo muito mais vasto em outro lugar. A resposta, naturalmente, dependerá da vida que cada um leva.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “As 5 piores coisas de se morar na Holanda

  1. Hahahaha menino, bem elencados os limites da Holanda, embora para mim o clima não se configure um problema nem a padronização. Acho lindas as casinhas e harmônicos os conjuntos.
    Esses lavabos so não sao piores que aqueles dos contêineres de com que se parecem alojamentos de HK hahaha. Merecem uma foto. Espero que o senhor registre hahah , meu jovem hahah. Para mim o mais chato é mesmo falar o que vem na boca.
    É verdade!… nem tudo são flores. mas o balanço com certeza é muito positivo para a Holanda, ao meu ver. Abraços fraternos.

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