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Kazan, a bela capital da República do Tatarstão, na Rússia

Bem vindos à República do Tatarstão, na Rússia!

Eu sei, a cabeça de muita gente deve ter dado um nó: Como assim “República do Tatarstão” e ao mesmo tempo “na Rússia”? Simples: a Rússia é repleta de repúblicas não-soberanas mas que tem certa autonomia. Aqui, ao contrário do Brasil, nem todas as unidades da federação gozam do mesmo grau de autonomia. A Rússia possui “territórios” (krai), “províncias” (oblasts), e repúblicas — dentre outras categorias. As repúblicas são 22 das 85 unidades da federação que a Rússia tem, e são as mais autônomas de todas. Geralmente, representam áreas de maioria étnica não-russa, como neste caso do Tatarstão.

Acompanhem-me, pois vir aqui foi uma experiência fascinante. Quando você adentra a Rússia, para além de Moscou e São Petersburgo, é que você realmente começa a tomar dimensão da sua grandeza não apenas territorial, como também de diversidade étnica e cultural.

Meu café da manhã no trem russo entre Moscou e Kazan.

Bom dia pra vocês que acordaram ouvindo russo. Esse foi o meu café da manhã, servido poucas horas antes de o nosso trem chegar a Kazan. Havia sido uma viagem noturna de quase 12h desde Moscou, num confortável compartimento com assentos longos que fazem as vezes de camas. 

Na noite anterior, saímos de uma das muitas (e muito) esculhambadas estações de trem de Moscou, com direito a painéis apenas em russo, pouca informação e muita zona. (Recomendo a todos chegar sempre com boa antecedência quando for tomar qualquer trem em Moscou.) Acho que até as inglamurosas rodoviárias brasileiras são melhores. 

O trem, contudo, foi quase luxo. Sequer compramos primeira classe, mas — sem percebermos — compramos passagens num dos trens russos mais modernos, eu e a amiga canadense com quem viajava. Sapatilhas descartáveis de pano, escovas de dente, e jantar ou café da manhã incluso.

Ainda à noite, após embarcarmos, uma comissária russa estonteantemente bem arrumada (com uma longa trança hiper bem-feita no seu cabelo preto) veio à entrada do nosso compartimento nos apresentar, com uma tranquilidade elegante, as amenidades do vagão. Pena que eu não entendi nada (até porque eu estava distraído olhando pra ela), mas ela não se deteve na sua fala memorizada. (Nota: Os funcionários dos trens russos podem ser mais prestativos ou menos prestativos, varia; o que nunca varia é que jamais falam uma única palavra que não seja em russo.) Minha amiga tampouco entendeu bulhufas, e o terceiro elemento, um homem russo com ar tranquilo de funcionário de empresa a pensar sobre a vida, ficou na dele. Por sorte, a comissária estava preparada com o texto traduzido para o inglês no celular e nos mostrou.

Foi uma noite agradabilíssima. 

Depois de 12h do balaco-baco do trem embalando o sono (e do café da manhã de mingau de aveia e pão com manteiga), chegamos a Kazan.

Lamaçal no interior da estação de trens em Moscou.
O russo não é um idioma fácil, mas aprender ao menos a ler o alfabeto cirílico já é um passo importante. Ali, por exemplo, está escrito “Hot Dog” em neon amarelo.
Elegância no interior do vagão, aqui com a vista do interior do nosso compartimento. São 4 lugares, um “beliche” de cada lado. À noite, você deita aquele de cima para dormir.
Corredor do vagão, com ali uma pontinha da (outra) comissária uniformizada. (É comum haver duas, ou no mínimo uma, por vagão.)

Kazan é uma cidade de 1 milhão de habitantes às margens do famoso Rio Volga, o maior da Europa. (Geograficamente, ainda estamos na Europa. A Ásia só começa após os Montes Urais, mais adiante.) Ela é a 6ª maior cidade da Rússia, e uma das sedes da Copa de 2018.

Localização do Tatarstão dentro da Rússia, e de sua capital, Kazan.

Como eu disse no começo, Kazan é a capital da República do Tatarstão, uma entidade não-soberana dentro da Rússia. Eles elegem até “presidente”, embora este esteja submisso a Vladimir P… a Moscou. São 4 milhões de pessoas, metade deles tatars muçulmanos.

OK, vamos a um pouquinho de pano de fundo, senão não dá para compreender esta região. Esta é uma das partes do mundo sobre as quais nós no Brasil quase nada aprendemos. No mapa, a gente apenas vê “Rússia” e umas outras ex-repúblicas soviéticas no mapa, mas isto aqui é de uma riqueza histórica e um diversidade cultural impressionantes.

Voltemos a fita para 1200. Não havia “Rússia”, apenas alguns principados eslavos que haviam se cristianizado por influência de Constantinopla alguns poucos séculos antes. Povos turcos de vários tipos começavam a deixar o centro da Ásia e ir à atual Turquia, que naquela época era ainda o Império Romano do Oriente, falante de grego. Mais adiante no oriente, no que viria a ser a Mongólia, Gêngis Khan (1162-1227) já era nascido e começava a ganhar moral.

Cem anos depois, lá por 1300, o império mongol já havia se formado e quebrado em distintos pedaços. Os descendentes de Gêngis Khan dividiram entre si o que foi o maior império contíguo da História: da China até o Rio Danúbio, na Europa, incluindo toda a Rússia, toda a Ásia Central e o Oriente Médio. Com os descendentes do filho mais velho de Gêngis Khan, ficou esta parte mais a ocidente do império, o que viria a originar a Rússia. Seu neto, Batu Khan, fundou aqui o Khanato da Horda Dourada, que governaria a região por mais um tempo.

Por ora, basta saber que a nação russa nasceu nesse misto: entre eslavos cristãos, mongóis e outros povos orientais xamanistas, e povos túrquicos crescentemente islamizados no centro da Ásia. (“Túrquicos” refere-se não apenas aos turcos que foram parar na atual Turquia, como também aos seus parentes que ficaram na Ásia Central e falam idiomas semelhantes, como no Turquemenistão.)

Como ficou dividido o enorme império mongol nos idos de 1300. Percebam o Khanato da Horda Dourada, em amarelo. Moscou e Kiev a esta altura haviam recobrado algo de autonomia, mas como ducados vassalos, pagando tributos ao khan da Horda Dourada. (As linhas mostram as viagens do grande cronista medieval árabe Ibn Battuta, que viajou o mundo. Tanto ele quanto o seu quase-contemporâneo Marco Polo, mais famoso, viajaram nessa época de domínio mongol.)

Como chegamos disso nos tatar?

“Tatar” foi, na verdade, um apelido errôneo que os europeus atribuíram aos invasores mongóis na Idade Média. Havia, sim, uma tribo mongol com esse nome, mas eles sequer foram tão importantes. O que houve é que o nome foi rapidamente associado ao tártaro, um dos infernos na mitologia greco-romana, e a associação era tentadora: aqueles guerreiros nômades não-cristãos provinham do inferno. Daí o nome às vezes posto com R, “tartar” — de onde vem, por sinal, o nome do molho tártaro, originalmente daqui. (Achou que era porque o molho vinha do inferno?)

Em 1313, a Horda Dourada converte-se formalmente ao Islã, abraçando aquela que já era a fé de muitos de seus súditos túrquicos, daquela região da Ásia Central. Tudo segue muito bem até os idos de 1430-1470, quando derrotas militares e crises de sucessão ao trono levam à sua fragmentação em khanatos menores — dentre estes, o Khanato de Kazan, surgido em 1438.

Mapa de 1500. O Grão-Ducado polonês e lituano em rosa. A Rússia se formando após Moscou conquistar seus vizinhos. Os khanatos resultantes da Horda Dourada na direita do mapa cairiam um a um.

Os principais inimigos aqui, diga-se de passagem, eram os poloneses e lituanos, que a essa altura estavam unidos num poderoso Grão-Ducado da Lituânia. No entanto, são os moscovitas que vão dar o bote e levar ao fim o domínio tatar nesta região.

É curioso porque Moscou começa a ganhar poder exatamente como vassalo “testa de ferro” da Horda Dourada, para combater os vizinhos poloneses e lituanos. Até que Ivan III, o Grande (1440-1505), em 1480 libera Moscou completamente do domínio tatar e se começa a falar em “Rússia”. Casando-se com a sobrinha do último imperador romano do oriente, diante da queda de Constantinopla para os turcos otomanos, Ivan declara Moscou então a sucessora oficial: a Terceira Roma. Esta é uma imagem ainda muito presente dentro os russos mais conservadores.

Ivan IV, o Terrível, é quem conquistará o Khanato de Kazan em 1552. O mesmo fim teriam os demais khanatos descendentes da Horda Dourada. O Khanato da Crimeia duraria até 1774, sob proteção dos seus parentes turcos otomanos em Istambul.

Os tatar, no entanto, não desapareceram. O nome virou uma denominação genérica para esses povos de origens do centro da Ásia e (via de regra) fé islâmica, em contraste aos russos eslavos de fé cristã. O Cazaquistão, país independente desde o fim da União Soviética em 1991, era um khanato “tatar”. Dentro da Rússia, são hoje 7 milhões de pessoas que se identificam como tatar, em diferentes sub-grupos. Dois milhões deles estão aqui no Tatarstão, sobretudo em Kazan, falando uma língua própria (além do russo). E, como você há de imaginar, o que não falta também é gente de sangue misturado.

Kazan fica na confluência dos rios Volga e Kazanka. (Esse é o Kazanka. O Volga, mais fora da cidade, é ainda maior.)

Devidamente apresentados, agora preparem-se, pois Kazan é de cada beleza arquitetônica maior que a outra.

Quando eu cheguei, logo à estação de trem fui acolhido por adolescentes russos ajudando voluntariamente os turistas. (Basta você sair de Moscou e São Petersburgo, e sua opinião sobre os russos vai mudando. Você percebe como eles são mais afáveis fora das grandes cidades.) Como preparação para Copa do Mundo de 2018, muito se melhorou em termos de assistência ao visitante e sinalização em inglês. É perceptível.

Meu hostel, o Kazanskoye Podvor’ye (recomendadíssimo), ficava no principal calçadão de Kazan, a Rua Bauman. Kazan toda é boa de andar, e faz-se tudo a pé. Todas as principais atrações ficam no centro. Há um kremlin (“fortaleza”), como em toda cidade histórica russa, casario antigo (pré-Revolução de 1917), igrejas ortodoxas fantásticas e uma mesquita magnífica. Além, é claro, de muita História e comida.

A estação de trens (vokzal em russo) de Kazan.
Ruas do centro de Kazan após uma breve chuva. Como a Rússia exige caros vistos para norte-americanos e europeus, você pouco os vê aqui — ainda mais no interior do país. Quase todos os visitantes em Kazan são russos de outras partes do país.
Gente alegre na rua. (Parece até que ganharam cada um 10 reais para sorrir pra alguma campanha publicitária, mas não.)
Avenida em Kazan, com seu casario pré-soviético.
Igrejas nas ruas de Kazan.
A Rua Bauman, o principal calçadão de Kazan. (O nome é em homenagem ao revolucionário russo de origem alemã Nikolay Bauman.)
Um quiosque vendendo souvenirs de Kazan na Rua Bauman. Percebam os adereços de inspiração tatar, como o chapeuzinho centro-asiático ali acima. “Radio Tatar” e outras referências reais entre as propagandas.
Posando com um guerreiro de época na cidade.
Senhora tatar em meio aos pombos, em Kazan.
O Palácio da Agricultura, onde funciona o “Departamento de Agricultura e Alimentação” da República do Tatarstão, aqui em Kazan. Sem dúvida o mais belo prédio de Ministério da Agricultura que já vi.
Na Rua Bauman mais adiante, com a imponente torre da Catedral da Epifania.
A Catedral da Epifania em Kazan. Ela data do século XVI. Com a conquista da cidade pelos russos, o cristianismo começou a florescer na cidade. A torre, de 74m, é no entanto do século XIX.

Uma das igrejas mais belas que eu já vi na vida fica aqui: a Catedral dos Apóstolos Pedro e Paulo. (Como eu já coloquei anteriormente, no cristianismo ortodoxo é possível haver várias catedrais numa mesma cidade.)

Ela data de 1722, e é no inconfundível estilo barroco russo. 

A Catedral dos Apóstolos Pedro e Paulo, de 1722 em estilo barroco russo, em Kazan.
Lá no alto, com vista para a torre. (Que a torre tenha andares escalonados como num pagode asiático não é mera coincidência: a Rússia sofreu muitas influências culturais dos asiáticos que um dia dominaram esta região.)
No interior a iconostasis, esse painel de ícones religiosos típico das igrejas ortodoxas.
O teto decorado parece um art nouveau religioso, mais de um século antes do movimento artístico francês que buscaria uma estética com formas e imagens inspirados na natureza.

Mas o atrativo maior de Kazan é mesmo o seu kremlin, a sua histórica fortaleza onde os russos edificaram seu controle da cidade após conquistá-la dos tatars no século XVI. Ele é hoje Patrimônio Mundial reconhecido pela UNESCO.

Após bordejarmos pela Rua Bauman e nos determos estrategicamente nessa catedral acima para esperar passar uma chuva, eu e minha amiga canadense rumamos ao kremlin, mas não sem antes parar para almoçar.

Pela influência histórica tatar somada à imigração facilitada de milhares de pessoas das ex-repúblicas soviéticas no centro da Ásia (Cazaquistão, Uzbequistão, entre outros) buscando melhores condições econômicas na Rússia, há uma forte presença de gastronomia centro-asiática aqui. (Apresentarei ela a vocês gradualmente ao longo desta viagem.)

Nós encontramos um lugar pra lá de simpático no caminho para o kremlin, com funcionários visivelmente não-russos e “mesas” em plataformas elevadas onde você retira os sapatos e se senta com as pernas cruzadas sobre um tapete, como tradicionalmente no Irã, na Turquia, e em outros países desta parte do mundo.

Almoçando um salmão em Kazan. O prato é influência russa, das cozinhas do norte da Europa vidradas em peixe, e carregado de endro como eles aqui sempre fazem. Não dá pra ver, mas minhas pernas estão cruzadas na altura do assento.
Karla, minha amiga canadense, optou por algo mais tradicional da região e pediu uma sopa leitosa com pedaços de carne (e muito endro, claro, pois estamos na Rússia). Os centro-asiáticos, de origem cultural nômade, são tradicionalmente pastores e amam carne e leite.

De estômago cheio, seguimos enfim para o kremlin que hoje é um misto eclético de islã e cristianismo, de presenças russa e tatar.

A entrada para o kremlin de Kazan, com suas torres e muralhas brancas.
No interior do espaço kremlin de Kazan. À direita a Catedral da Anunciação, de 1562 (construída imediatamente após a conquista pelos russos). À esquerda, a Torre Soyembika, que tem uma história interessante.
Ilustração de Soyembika, a última regente tatar de Kazan, no século XVI.

Pelo nome você é capaz de suspeitar que a torre não é de origem russa. Soyembika (1516 – ?) foi a última regente tatar de Kazan, antes de esta cair em mãos russas. Seu filho, menor de idade, era o herdeiro quando as tropas de Ivan IV, o Terrível, sitiaram a cidade em 1552.

Diz a lenda que Ivan ficou terrivelmente apaixonado por Soyembika, e a pediu em casamento. Como condição, ela requereu que ele lhe construísse uma torre de sete andares, um para cada dia da semana. Ivan teria prontamente aquiescido e ordenado que em uma semana a torre ficasse pronta. Assim foi, mas quando ela finalmente subiu ao sétimo andar e pôde contemplar a sua Kazan e o seu povo sendo subjugados pelos russos, ela se jogou de lá de cima.

Na vida real, ela foi levada para Moscou com o seu filho e casada com um nobre tatar aliado dos moscovitas. Mas, como em tantos outros casos, a versão fantástica é mais famosa que a histórica.

No interior das muralhas do kremlin há uma pequenina exposição que mostra um pouco do que era Kazan no tempo do domínio tatar, com vestimentas da época aqui (séc XVI).
Estátua dos “arquitetos do Kremlin”, os russos que — ainda visivelmente em trajes de influência cultural tatar — planejaram esta fortaleza. Atrás, a Catedral da Anunciação com seus domos estrelados.

É curioso notar como a História tantas vezes se dá em ondas. Os centro-asiáticos islâmicos daqui foram subjugados, reprimidos, e muitas vezes “cristianizados” com batismos forçados nos séculos anteriores. Agora no século XXI, o jogo volta a virar.

Em 2005, os tatares construíram uma das mais magníficas mesquitas do mundo aqui em pleno kremlin de Kazan, no sítio onde — dizem — ficava a mesquita da cidade quando esta foi conquistada por Ivan o Terrível em 1552. 

Seu nome atual, Qolsharif (ou Kul Sharif), é em homenagem ao professor, estadista e poeta tatar morto defendendo Kazan das tropas de Ivan o Terrível em 1552. Eu a achei encantadoramente bonita.

A Mesquita Qolsharif, inaugurada em 2005, em Kazan.
Mais de perto.
BEM de perto.
A Mesquita Qolsharif pode abrigar até 6 mil fiéis, e possui uma plataforma separada para visitação de não-muçulmanos. É aonde eu fui.
O interior da mesquita.
O teto decorado.
O Pensador, versão islâmica, diante de um dos muitos arcos de mármore ornamentados com flores no interior da mesquita.
No kremlin de Kazan, com os minaretes da Qolsharif ao fundo. Não sei como, mas arquitetura tradicional na Rússia sempre consegue ter, pra mim, um certo ar de conto de fadas.

EPÍLOGO

No caminho de volta do kremlin, passaríamos ainda pela estátua de Musa Jalil — um poeta tatar e herói soviético que foi aprisionado e morto pelos alemães durante a Segunda Guerra. No albergue, reencontramos-nos com Indira, uma garota russa magra e alta, de óculos, cabelo curto e sorriso fácil que havia nos recepcionado anteriormente. Ela nos apresentaria o infame tchak-tchak.

Tchak-tchak, aparentemente tradicionalíssimo aqui no Tatarstão, não passa de um doce vagabundo de mercearia, pedacinhos de massa caramelizados com mel, mas goza de uma reputação popular incrível aqui.

Tchak-tchak com chá tatar é a coisa mais típica que há aqui no Tatarstão“, disse-nos Indira com uma segurança simpática naquela noite.

Que esparro. O negócio duraria não dias, mas semanas na minha bagagem, pois nem nós dávamos conta de terminar nem eu quis atirar comida no lixo. (Karla e eu debatemos várias vezes até que ponto tchak-tchak se qualifica como “comida”.) Vindo ao Tatarstão, experimente, mas compre um pacote menor do que o que nós compramos.

A estátua de Musa Jalil, que eu não poderia deixar de mostrar. Ele, um poeta tatar, foi aprisionado e morto pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. Sua estátua está hoje no centro de Kazan.
Tchak-tchak com “chá tatar” (que se revelou nada além de chá preto, ultra-bebido aqui por toda a Rússia). O tchak-tchak é dulcíssimo como o mel, e tem gosto de mel. Isso aí é todo duro, caramelizado, e leva um tempo enorme pra acabar.

No dia seguinte, já teríamos o nosso próximo trem seguindo a Ferrovia Trans-Siberiana, agora com destino a Ekaterimburgo, ainda mais a leste. Tínhamos ainda a manhã. Havia sido apenas uma noite em Kazan — deu tempo de ver o principal, mas uma noite a mais teria sido bem-vinda.

Tomamos um farto café da manhã no restaurante ao lado do albergue, demos mais umas voltas no centro da cidade, e acabamos por almoçar por aqui também antes de seguir à estação.

Ainda com cara de sono no café da manhã em Kazan.
Os russos aqui servem mingau com uma colher de manteiga derretida por cima.

Demoramos-nos o bastante no café para assistir ao fabuloso preparo do almoço.

O tio de um dos “stão” fazia um plôv com esmero no jardim. Virou inteira uma garrafa plástica de óleo de girassol (da Rússia?) na grande cumbuca de metal sobre o fogo, aonde tacou a garrafa plástica vazia a queimar (adicionando grande aroma e elementos químicos salutares à fumaça que nos chegava). Adicionou cenoura em kilos, cebola, quantidades imensas de arroz, e carne. O resultado acabou sendo delicioso, apesar dos aparentes exageros da feitura.

O tio cozinheiro com os seus tachos de plôv.
Pratos de plov. Esse arroz temperado, às vezes chamado de pilaf (ou ainda de pulao) em outras línguas, é comum por todo o meio da Ásia: da atual Turquia ao norte da Índia. Na Rússia ele é uma introdução centro-asiática bastante comum por toda parte.
Conhecido o Tatarstão, era hora de seguir viagem.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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