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Ekaterimburgo: Divisa entre Europa e Ásia na Rússia, e onde os Romanov foram executados

Ekaterimburgo [às vezes grafada Yekaterimburgo, por causa da forma como os russos pronunciam seu nome] é uma metrópole de mais de 1 milhão de habitantes, e a cidade mais a leste dentre as sedes da Copa de 2018. Estamos duas horas a mais que em Moscou — a Rússia tem nada menos que 11 fusos horários, e aqui minha viagem trans-siberiana finalmente me forçava a mudar o relógio.

Estamos no miolo da Rússia, onde Europa e Ásia se encontram. Isto é, onde por convenção histórica se definiu distinguir Europa e Ásia na grande massa de terra que é a Eurásia. Os nomes “Europa” e “Ásia” são designações genéricas antigas, do tempo dos gregos. Sempre foi uma divisão um tanto arbitrária, muito mais cultural e histórica que geográfica. No século XIX, convencionou-se firmar a “fronteira” no Estreito do Bósforo em Istambul, no Mar Cáspio, e nos Montes Urais que cortam aqui a Rússia de norte a sul. Bem aqui pertinho de Ekaterimburgo, onde estou.

Localização de Ekaterimburgo na Rússia, com suas várias unidades da federação. Ali passando de norte a sul estão os Montes Urais, entre os “S”s de “Russian” no mapa.

A viagem de trem desde Kazan até aqui durou cerca de 15 horas. Saímos no meio da tarde, e chegamos aqui no raiar do manhã seguinte. 

O trem, infelizmente, já não foi o glamour do trecho anterior, de Moscou a Kazan, que mostrei no post passado. Mas a comissária russa era pra lá de simpática, o que aqui, onde as pessoas que trabalham com serviços são frequentemente sisudas, você valoriza ainda mais.

No trem de Kazan para Ekaterimburgo, lendo alguma coisa.
Com um chocolate canadense que ganhei.
Comendo, à noite, o interminável tchak-tchak, acompanhado de chá preto que os russos no trem servem nesse elegante porta-copo metálico.
Paisagens por onde íamos passando, na manhã da chegada.
Zona rural bastante pobre. Essas casas simples do interior da Rússia costumam sequer ter banheiro.

Enfim chegamos. O ar da manhã era fresco como a primavera, e a tranquilidade era perceptível. Quando você adentra este interior da Rússia, logo é tomado pela sensação de que todos os seus problemas ficaram para trás. Você tem a sensação de que as tribulações do mundo estão acontecendo em outro lugar, não aqui.

Isso apesar de Ekaterimburgo ser uma cidade grande e deveras cinzenta. Sua origem é de comércio e viagens em 1723, nomeada em homenagem a Ekaterina, esposa de Pedro, o Grande. Era para ser “o portal da Ásia”, da mesma forma que São Petersburgo acabara de ser construída para ser “o portal da Europa”.

O desenvolvimento daqui, contudo, é especialmente industrial, de quando os alemães invadiram a União Soviética em 1941 e Stálin ordenou que as grandes fábricas fossem desmontadas e trazidas cá para mais longe. Os soviéticos haviam mudado o nome (considerado burguês) da cidade para Sverdlovsk, nome que a província carrega até hoje, mas a cidade voltou ao “Ekaterimburgo” original após o fim da União Soviética em 1991.

A cidade hoje é uma mescla de (muitos) prédios e monumentos do tempo comunista, algumas belas e reluzentes igrejas ortodoxas erigidas após o fim do regime soviético, e alguns monumentos curiosos — como um ao teclado QWERTY (que é o que você usa, que tem as letras nessa sequência).

A maior fama de Ekaterimburgo, contudo, é — além de ter sido a cidade-natal do ex-presidente russo Boris Yeltsin — ter sido o lugar onde os últimos Romanov, família imperial russa, foram executados pelos revolucionários comunistas em 1918. Hoje há uma igreja no local da execução.

Na praça da estação, o que me parece um monumento a um soldado de chão e um aviador. É dedicado à divisão uralina do exército soviético. Os russos são orgulhosíssimos de terem vencido os alemães nazistas na Segunda Guerra Mundial, conhecida aqui como “A Grande Guerra Patriótica”, já que — ao contrário de ingleses e americanos — eles tiveram que defender o próprio chão.
Selfie ainda de mochila na manhã da chegada a Ekaterimburgo.
Diga-se o que disser, uma coisa boa do urbanismo comunista são estas largas calçadas, boas de andar.
Espaços tranquilos no centro de Ekaterimburgo. (Se você estiver a se perguntar sobre essa água, aqui na cidade passa o Rio Iset, um dentre muitos rios caudalosos, ainda que pouco famosos, que cortam o miolo da Rússia.)
Russos no parque que há no centro da cidade. As cidades russas têm um quê industrial, sim, mas árvores e espaços verdes também são um elemento essencial no espírito dos russos. Aqui o cinza e o verde frequentemente estão lado a lado.
Família russa com os pombos no parque em Ekaterimburgo.
“Livro” de grama no centro de Ekaterimburgo, em homenagem à fundação da cidade em 1723.
Como, acredito, em toda cidade russa, há uma estátua também de Lênin.

Foi ali perto da estátua de Lênin, bem no centro, que ficamos hospedados. Eu viajo muito, mas acho que jamais havia tido tamanha dificuldade para entrar na acomodação reservada.

O “albergue” na verdade se tratava de um apartamento privado que Ilya, o dono, converteu em alojamento. Não havia qualquer sinalização, nem indicação de como entrar no condomínio fechado (sem portaria), ou como abrir a porta trancada do prédio. Tudo o que tínhamos era o seu número de telefone caso estivéssemos dispostos a pagar deslocamento internacional, mas tampouco teria sido útil, pois como nós descobrimos depois, Ilya não falava inglês. Foi preciso dar uma de 007 na Rússia.

Aguardamos algum morador sair com o carro para passar pelo portão eletrônico antes de este fechar; esperamos um morador chegar ao prédio para nos abrir a porta de ferro no térreo; e enfim demos no apartamento, este destrancado, onde atendeu-nos Ilya com a cara mais descansada do mundo. 

Ilya era um chapa sossegado; parecia um urso. Era um russo dos seus quase 40 anos, pesado e ficando calvo, desses que passam o dia dentro de casa de chinelo e camisão assistindo a coisas na TV e no computador. Falava devagar, em russo, com um olhar atento de quem esperava que nós entendêssemos, e tinha o hábito contagioso de responder a perguntas com um melódico hum-hummm.

Ele nos disse que, como estaria mais logo indo para a academia (oi?), nos levaria a um lugar bom onde almoçar.

No restaurante, de um excelente avarandado com mesas sob as copas das árvores, russas elegantes e prestativas nos serviram uma comida primorosa.

O Restaurante Podkova, hiper recomendado em Ekaterimburgo, com suas mesas do lado de fora. É um pouco caro para padrões russos, mas vale a pena (espere pagar uns 20 euros por pessoa numa mesa farta, com café e sobremesa)
Prestes a atacar a minha sopa de peixe com um quitute. Vinha mais coisa depois.
Ô vida difícil…

Dali, fomos circular para conhecer a cidade.

Nos meses quentes do ano, o sol se alterna com breves chuvas de verão aqui na Rússia, e a nossa visão do dia variava entre um imaculado céu azul ou nuvens cinzentas que passavam às pressas. Às vezes era preciso esconder-se de repente n’alguma das muitas galerias de lojas que há aqui.

No centro de Ekaterimburgo a elegante Casa Sevastyanov, do século XIX, do mercador Nikolay Sevastyanov que ficou rico com a mineração nesta região da Rússia. Tão bonita é a casa, em seu estilo neo-barroco, que nem os soviéticos a destruíram: ela virou sede do sindicato de trabalhadores. Hoje é administrada pelo governo regional.
Uma das simpáticas igrejas ortodoxas com seus domos dourados no centro de Ekaterimburgo. Esta é a Tserkov Maksimiliana Efesskogo.
No interior, não há bancos, e é de praxe que as mulheres cubram a cabeça. (Às vezes há lenços disponíveis pra quem não trouxer um consigo.)
Russos jogando xadrez na rua. Aqui ele é considerado um jogo e ao mesmo tempo um esporte intelectual.
Parece até imagem de outras eras, mas é atual.
E falando em esporte, como Ekaterimburgo é uma das sedes da copa, há este marco no centro da cidade, com a meninada (e os turistas) a tirar fotos.
No “monumento” ao teclado QWERTY a que me referi. Não me perguntem porque raios o homenagearam aqui — eu não achei quem me explicasse —, mas é curioso. As primeiras máquinas de datilografar tinham as teclas em ordem alfabética, até que alguém, no fim do século XIX nos EUA, as organizou assim de modo a facilitar a datilografia. As letras foram distribuídas de modo que lhe pareceu mais eficiente para compor as palavras em inglês. Apesar das diferenças linguísticas, o mundo quase todo seguiu. (Os franceses, claro, usam teclados AZERT, o que é um inferno se você não está habituado, pois você tem que sair procurando as letras onde estão.)
Você verá que as ruas na Rússia, sobretudo neste interior, são repletas de barraquinhas vendendo kvass, uma bebida típica feita de centeio fermentado. Não chega a ter um percentual relevante de álcool. É doce e, se você usar a imaginação, lembra um guaraná. Vende feito água (às vezes, mais barato) nas ruas russas. (Olha a cara da tia vendedora… E, sim, a chuva estava a caminho.)
Kvass é ótimo, estranho mesmo é isso aqui: água de coco com café latte, que encontrei numa das lojas onde entramos. Sério que alguém bebe essa mistura?
O centro de Ekaterimburgo após a chuva.
Com direito a arco-íris diante da prefeitura.

Como você pode notar, há um quê de cidade pequena (talvez, a tranquilidade) apesar do ar de cidade grande.

No dia seguinte, iríamos direto ao lugar mais famoso de Ekaterimburgo: o sítio da execução da família Romanov, do último czar da Rússia. Em 2003, finalizou-se ali a construção da bela Igreja de Todos os Santos (cujo nome inteiro é Igreja no Sangue em Honra de Todos os Santos Resplandecentes na Terra Russa, e você fique aí achando que essa verbosidade cristã é exclusiva dos ibéricos).

A igreja foi construída onde havia uma casa na qual o czar e sua família foram aprisionados durante a guerra civil russa entre 1917-1922. (Só em 1922 é que, com a vitória dos bolcheviques, estabelece-se a União Soviética.)

Embora esse seja um tema que divida a opinião russa, já que nem o czar nem os bolcheviques foram mocinhos, há uma homenagem aqui ao czar. Se por um lado a execução de uma família sempre choca, por outro as regalias em que a realeza e a nobreza russas viviam enquanto milhões de russos anônimos passavam fome também não eram algo inocente.

A Igreja de Todos os Santos, erigida em 2003 no sítio da execução dos Romanov.
De outro ângulo. Veja, no monumento da cruz, as figuras do czar com os seus familiares.
Imagens do czar Nicolau II, o último da Rússia, e seus familiares. Junto com ele foram executados a sua esposa, suas três filhas, e o seu filho — este o caçula, então com 13 anos.
O interior da igreja. É escuro assim mesmo. Ela tem um ambiente bastante sóbrio.
O recinto onde dizem ter ocorrido a execução, na noite de 16 para 17 de julho de 1918. Aqui havia uma casa, onde os Romanov estavam há meses aprisionados pelos bolcheviques.
No monumento.

Os restos mortais do último czar e de sua esposa foram depositados em 1998 na Catedral de São Pedro e São Paulo em São Petersburgo. Eu não fiz questão de ir ver, mas a quem quiser visitar, há um vilarejo a 15Km daqui onde há as valas aonde os corpos dos Romanov foram jogados após a execução. Chama-se Ganina Yama. Fica a seu critério.

Eu, antes de deixar Ekaterimburgo para seguir na minha viagem trans-siberiana, o que bem queria era ver os Montes Urais. Confesso que achei que fosse vê-los da cidade, só que não. Não há paisagem montanhosa qualquer aqui. Os montes não são tão elevados assim, e na verdade ficam a algumas dezenas de quilômetros de Ekaterimburgo.

Eu e minha amiga chegamos a cogitar fazer uma breve trilha noutras colinas aqui perto, mas ao abordar o plano com Ilya, ele esbugalhou os olhos. Falou-me alguma coisa em russo cuja única palavra que eu compreendi foi encephalitis. Oi?

Ele foi até o computador pôr algo no Google tradutor e me mostrou uma palavra em inglês que eu desconhecia. Até que, finalmente, mostrou-me fotos de carrapatos. Ah, entendi.

Ao que parece, durante os meses quentes, as trilhas aqui ficam infestadas de carrapatos que podem transmitir encefalite. Cheguei a crer que pudesse ser paranoia de Ilya, mas falei com o guia que havíamos contatado e ele admitiu que é o caso — revelando também que não havia nos dito nada a esse respeito. “Ah é, mas se você for de camisas de mangas compridas e calças por dentro das botas não tem problema.” E tu não ia me avisar não é, FDP?

Mandei o guia ir pastar e tomamos o nosso rumo. Viria muita natureza russa a caminho: nada menos que a Sibéria, o nosso próximo destino. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Ekaterimburgo: Divisa entre Europa e Ásia na Rússia, e onde os Romanov foram executados

  1. Nossa, Que horror essa história, Aqui sabemos pelo alto. Vista de perto deve ser dureza.. Gosto pouco dessas violências mas é a História. Trágica. Lembrei da sala do julgamento de Nuremberg. E que kilométrico o nome da igreja.
    Belos monumentos. Lindas igrejas.Essas cúpulas douradas são belissimas. Adorei, Gostei tambem das largas calçadas, boas de andar. e esses espelhos dágua tao bonitos enfeitam as cidades. Adorei o gosto pelo verde e os parques. Gente simpática.
    Que horror essa historia dos carrapatos. Notre Dame. Ainda bem que ao foram.
    Essa prefeitura é um primor. Linda assim como a casa do dono de minas ai. Belíssimos exemplos de um arquitetura única. Destaque para a belissima mesquita. Linda com seus belos tons e o seu singular interior. Um deslumbre e claro, para o livro de grama!…… Uaaauuuu. Menino, que originalidade e beleza,linndo,,, Amei.
    Interessante essa homenagem ao teclado hahah. Que onda hahah
    Chamou-me a atenção ai mais para o Oriente, o gosto das pessoas pelo xadrez.Muito interessante mesmo.
    E que comidas e bebidas diferentes , Nossa. Acho que nao tomaria a água de coco com café com leite e gelada hahah eita lê lê, Brabo.
    A viagem de trem parece que foi boa, hahah
    Linda essa foto saudando a Copa da Russia. estamos nela no momento e torcendo pelo Senegal. Gosto do futebol africano e latinoamericano. Na Europa gosto da Azzurra com seu belo jogo, seu goleiro fantástico e seus belos jogadores. hahah
    Muito bem. Vamos que vamos, que venham mais belezas.

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