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Lago Baikal e Ilha de Olkhon, Sibéria: Entre xamanismo e natureza no interior da Rússia

Como toda história da vida real, este post não tem um tema só. Impressões dos vários tipos costumam nos assaltar em conjunto; o belo ao lado do disfuncional e do interessante. Assim foi comigo aqui na visita ao Lago Baikal, na Sibéria, onde pude contemplar as suas magníficas paisagens, ao mesmo tempo em que experimentava a precariedade de infraestrutura do interior russo e conhecia algo da interessante cultura xamanística dos nativos siberianos. Acompanhem-me.


Certa vez, nos idos dos anos 1980, o finado chanceler alemão Helmut Schmidt famosamente chamou a União Soviética de “Burkina Faso com mísseis“, basicamente dizendo que, afora o seu poderio militar, se tratava de um país pobre e precário de terceiro mundo. (Burkina Faso fica ao lado de Gana e Costa do Marfim, na África Ocidental.)

Claro, o chanceler exagerou. Qualquer pessoa que já tenha ido à África sabe que a realidade lá é outra. Porém, engana-se também quem vem à Rússia achando que vai encontrar um país europeu com infraestrutura desenvolvida no seu interior. Há anos-luz de distância entre os palácios de São Petersburgo e as vilas siberianas. É como comparar o Leblon e algum vilarejo no interior da Amazônia.

Esta vinda ao Lago Baikal, no interior da Sibéria, mesmo numa área urbanizada me levaria a passar alguns dias sem banheiro (só aquele de roça, da caixa de madeira numa casinha fora de casa), nem água encanada (portanto, nada de banho nem pia), nem wi-fi. Eletricidade chegou em 2005.

É quase como ir acampar.

Partindo de Irkutsk, tomamos a estrada rumo ao norte no interior da Rússia, pelas famosas estepes asiáticas da Sibéria.
Choveu. Paramos na estrada para comer algo e ir ao banheiro. Lá atrás você vê as moças formando fila.

Entre os muitos lugares que há para experimentar o imenso Lago Baikal, dispensamos Listvyanka e outros mais próximos de Irkutsk, os quais nos disseram não serem esse balaio todo. Optamos pelas 6h de viagem até o vilarejo de Khuzhir [lê-se rujir], na Ilha de Olkhon [alrron]. Muito mais autêntico. Pode ter tido suas agruras (faz parte da experiência), mas as recompensas em termos de beleza natural foram substanciais.

Localização do Lago Baikal, ali no meio da foto, na Sibéria.

O Lago Baikal é o mais profundo e volumoso do mundo. Ele, sozinho, contém nada menos que 23% de toda a água doce de superfície do planeta; é mais que todos os Grandes Lagos da América do Norte juntos. São 1.6Km de profundidade, numa extensão de 636Km por até 79Km de largura. As distâncias aqui são imensas.

Baikal, a propósito, quer dizer “natureza” na língua dos buryats, os siberianos nativos daqui aparentados dos mongóis. E, de fato, natureza aqui não falta.

Eis abaixo a nossa localização.

São 6h de van de Irkutsk à Ilha de Olkhon. Um breve ferry atravessa os veículos. (As linhas tracejadas brancas são apenas divisas entre províncias russas.)

Chegamos a Khuzhir, na Ilha de Olkhon, ainda sob chuviscos. Os vidros da van ficaram tão imundos de lama que nada se via.

Por sorte, o tempo mudaria no decorrer nos dias, mas por ora estávamos molhados e em ruas enlameadas. Não há calçamento de qualquer tipo na ilha. Também não há casas de câmbio, nem bancos, nem se paga quase nada aqui com cartão. Então venha preparado: você está no interiorzão da Rússia.

Nas ruas de Khuzhir. (Neste sentido, a Sibéria me lembra a periferia de Feira de Santana há umas décadas atrás, antes de ter calçamento.)

Tínhamos reserva numa acomodação familiar, e Artem, um simpático rapaz russo visivelmente mestiço (de branco com nativo), nos recebeu. Como ele havia morado fora, falava fluentemente inglês — um dos raros na ilha.

Ele nos acomodou numa das cabanas de madeira da sua propriedade, onde morava com a mãe, e nos instruiu sobre como usar as pias não-encanadas e as outras funcionalidades básicas do lugar. (O pior era ir ao banheiro de roça, numa casinha de madeira separada, no escuro à noite.)

O lugar é aconchegante, se você souber abraçar essa vida à là século XIX, sem as tecnologias dos últimos 150 anos. Pra quem curte imaginar como seria viver naquela época, o interior da Rússia está esperando por você.

As cabanas que servem de quartos aos hóspedes. São aconchegantes, mas se der vontade de ir ao banheiro durante a noite, você precisa sair caminhando no escuro até ele. Como século XIX.
Como eu sei que muita gente ficou curiosa pra saber como é isso de pia não-encanada, ei-las. Põe-se água naqueles reservatórios de metal. (Quase sempre quando você precisava, tipo à noite, não tinha.)
O bonitinho banheiro ficava do outro lado da propriedade, no fim do terreno. Confesso que (pelo menos) era limpo.
O “século XIX” também tem o seu lado bom. Fomos acolhidos com quitutes caseiros que viriam a ser acompanhados de chá preto, num agradável ambiente de madeira na casa principal.

Estaríamos três dias aqui. Cada um deles teve um tempo diferente, do nublado ao pleno sol. Por sorte, foi melhorando.

Já na chegada, após os biscoitos, saímos eu e a minha amiga canadense para caminhar. Tudo é por ruas de chão ou em descampados abertos entre os bosques esparsos daqui. Vacas e cães de rua — com aquele ar de já familiarizados com os caminhos — passeavam livremente em seus pequenos grupos. Já dentre os humanos, mesmo sendo verão os poucos turistas aqui são quase sempre outros russos, somados de uns poucos grupos de asiáticos e raros ocidentais.

A atração, claro, é o Lago Baikal logo aqui, margeando o vilarejo. Ele tem uma paisagem muito diferente a depender da luz e do céu, e nós fomos sortudos de vê-lo tanto sob chuva quanto sob sol. Há passeios vendidos aqui para outros cantos da ilha (essenciais), mas aqui em Khuzhir o maior ponto de interesse é a Rocha Xamânica, um rochedo de valor espiritual para os nativos à margem do lago. 

Pelos caminhos em Khuzir naquela tarde. (Convenhamos que tem o seu lado idílico.)
Nas ruas de Khuzhir.
O vilarejo à margem do Lago Baikal nesse dia nublado. Há algo de quase esotérico.
Naquele chão molhado, apreciando a paisagem do Lago Baikal, o qual tem algo de verde nos dias de chuva.
Eu diante da rocha xamânica, com o Lago Baikal atrás. Para os nativos siberianos — como os demais animistas mundo afora (os japoneses, os índios das Américas, entre outros) —, certos locais têm uma energia espiritual especial. Ela é dita “xamânica” pelo seu valor reconhecido pelos xamãs, que são os pajés ou médiuns na tradição espiritualista siberiana (esse nome inclusive, popularizado pelo termo shaman em inglês, vem daqui do idioma nativo evenki.) Seja qual for a sua crença, é uma formação geográfica maravilhosa.
À margem do grande lago, ainda sob um céu de nuvens, com uma árvore “enfeitada” por fitas de simbologia espiritual dos nativos.
Essas fitas não são “amarre e faça um pedido”, são puramente em honra aos espíritos daqui. São como uma oferenda, uma reverência. Há também quem deixe moedas ou outros objetos. (A cachorrada, claro, faz o que quer.) Esses postes são marcos, um pouco como os totens na América do Norte.

A atmosfera era tranquila, como acho que as fotos deixam transparecer. Embora fosse verão, bate um friozinho aqui, e venta muito.

A cidade não tem muita coisa, mas há umas lojinhas de souvenirs e vários restaurantes. Tudo fecha ao escurecer, que aqui era por volta das 22h. Depois, são só os cães a ladrar, e os sons da natureza — como na roça.

Ninguém ou quase ninguém fala nada de inglês (você tem a opção de falar russo ou, às vezes, buryat, o idioma nativo, fica a seu critério). Eu, como — sabendo disso — estudei um pouco de russo antes de vir, conseguia me virar e garantir a nossa sobrevivência. Nos restaurantes, de qualquer forma, basta aprender os nomes das comidas. Todos servem praticamente as mesmas coisas, e depois de umas refeições você aprende onde estão os melhores cozinheiros.

Uma das iguarias da região é zaguday, uma entrada de peixe omul (uma das espécies mais típicas aqui do Lago Baikal) cru no óleo de oliva ou girassol com cebola. É saboroso!
Também muito saborosos são os vareniky, comuns também em outras partes da Rússia e cujo recheio varia, mas que aqui são feitos com recheio de peixe.

Comer esses bolinhos quentinhos num anoitecer frio era a glória. (E, por sorte, são pouco condimentados, porque arriscar caganeira com banheiro de roça seria complicado.)

No dia seguinte, demos a louca.

O sol começou a ensaiar abrir, e decidimos que iríamos explorar um pouco os arredores de Khuzhir e ir à praia. As águas do Lago Baikal são notoriamente gélidas em qualquer época do ano, e por isso mesmo dizem que banhar-se nelas é tão saudável que você acrescenta 5 anos à sua expectativa de vida. Quem iria perder a oportunidade?

Logo pela manhã, fomos contemplados com alguns primeiros raios de sol em dias, e também com um café da manhã tradicional russo, com kasha, que é um mingau de arroz (ou outro grão) acompanhado de açúcar e manteiga derretida por cima. (Não sei se eu gostaria de tomar isso todo dia, mas se come.)

Juntos vieram biscoitos e deliciosas geleias caseiras. Já o café propriamente dito, como não é tradicional na Rússia (tradicionalmente eles aqui bebem chá preto), foi instantâneo com aquele sabor azedo no final. A gente aprende a relevar certas coisas e aproveitar as outras.

A nossa mesa de café da manhã na Ilha de Olkhon. Kasha é esse mingau com manteiga derretida por cima. Tem o gosto que parece ter.
Khuzhir pela manhã, após o dispersar das nuvens pesadas.

Preciso dizer que “cuidado pra não se perder na floresta” não é o tipo de recomendação que eu escute todo dia. Artem nos alertou caso fôssemos a fundo, mas a verdade é que os bosques nos arredores de Khuzir já são muito desmatados e esparsos; você acaba atraído mesmo é para o litoral do lago.

Na praia, apenas os cachorros tinham coragem de entrar na água.

Eu confesso que a nossa decisão de entrar na água foi mais espontânea que planejada. Havíamos cogitado no início do dia; depois vimos que ninguém estava dentro, e por uma boa razão (a água estava geladérrima). Depois começamos com aquela coisa de “se você entrar, eu entro”; e por fim eu chutei o balde e tomei a iniciativa. Entrei de cueca mesmo. (Os russos caminhando na areia me olhavam como se eu fosse um lunático.)

No grande Lago Baikal. Não se engane com essa claridade do dia, a água siberiana estava um gelo.

No começo você acha que vai morrer, mas depois acostuma. Mergulhar a cabeça é o mais difícil. A minha amiga, mesmo sendo canadense habituada ao frio, levou ainda uns minutos para criar coragem — mas promessa é dívida. Ela seria zoada ad eternum se fraquejasse ali, então não teve jeito.

Um chinês que ia passando tirando fotos mal pôde crer no que viu. Ficou instigado, e curioso foi quando ele próprio também tirou as roupas para entrar. Depois de algumas dezenas de minutos, alguns outros também criaram coragem.

Dali, foi preciso ir trocar de roupa atrás de uma cabana de madeira, observando se ninguém se aproximava, e de lá retornamos à vila. Hoje teríamos mais encontros necessários com a culinária russa (já que não há alternativas aqui). Via de regra, os russos aqui são bem mais simpáticos que em Moscou ou São Petersburgo, sobretudo as pessoas de olhos puxados, os siberianos nativos.

A minha amiga ria porque, na minha empolgação em conhecer esta cultura indígena siberiana da qual eu nada sabia antes de vir aqui, eu sempre indagava às pessoas de cara asiática se elas eram buryats. Eu usava o meu pouco de russo como podia nessas conversas casuais; bastavam-me 2 minutos de “intimidade” e eu já ia perguntando se a pessoa era buryat.

Foi engraçado certa vez num restaurante onde perguntei isso a uma moça que, com seu namorado na mesa vizinha, puxou conversa conosco perguntando de onde éramos. Quando eu lhe perguntei se ela era buryat, ela fez uma cara estranha, dizendo espantada “eu não!“, ao que aí três tias noutra mesa do outro lado do restaurante sorriram e levantaram a mão dizendo “nós aqui!“. Daí iniciamos uma conversa que envolveu todo mundo no restaurante, meio em russo, meio em inglês. Coisas do interior, mesmo na Rússia.

E como eu disse, estes russos daqui (ou “russos”, se você preferir) são diferentes. 

Homem buryat em trajes cerimoniais às margens do Lago Baikal. (No dia-dia eles vestem roupas “normais”.)

Esses buryats, caso alguém esteja a se perguntar, hoje em dia são quase todos budistas, mas guardando também o lugar do seu xamanismo tradicional. Há aqui um sincretismo, como ocorre no Brasil. Já os russos eslavos tendem a ser cristãos ortodoxos, então há um colorido religioso na Sibéria — como as fitas nas árvores. 

O nosso terceiro dia, o mais ensolarado de todos, seria também o mais esplendoroso. O Lago Baikal até ganhou tons de azul.

Fizemos um tour inesquecível (comprado com uma das agências em Khuzhir) até o cabo na ponta norte aqui da Ilha de Olkhon, passando por muitas paragens cênicas maravilhosas. Deixo com vocês algumas fotos, pois elas falam melhor do que eu.

A costa do Lago Baikal, entre tons de verde e azul.
Vegetação próxima à água.
Borboletas da Sibéria.
Praia.
A paisagem aqui na Ilha de Olkhon é assim. Mas que fique claro que esse lado é o breve estreito entre a ilha e a terra firme. Já do outro lado…
…é assim, esta imensidão azul.
O cabo na ponta norte da ilha, diante do azul eterno.
Você lá naquela altura se sente maravilhado diante do que contempla.
Os olhos não enxergam o fim do Lago Baikal. Parece mágico. (E não é à toa que os primeiros russos que aqui vieram acharam que era um mar.)
É claro que numa das pontas há um marco sagrado para os buryats.

Na volta do passeio, ainda tomei um outro banho no Lago Baikal (hoje ligeiramente menos frio) somando um total de +10 anos de expectativa de vida. Muitas viagens por vir! Foram também os únicos banhos que eu tomei nesta estadia na Ilha de Olkhon, já que não havia exatamente banheiro. Banho normal de novo só no retorno a Irkutsk.

Daqui, iríamos conhecer os vizinhos. Passado o Lago Baikal, retornamos a Irkutsk e dali, após uma noite de repouso, tomamos o caminho rumo à Mongólia.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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