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No trem da Sibéria (Rússia) à Mongólia: Paisagens e imigração

Viajar de trem pela Rússia é a experiência de uma vida. Suas longas estepes, estas planícies casadas com aquelas da Mongólia e do Cazaquistão, são chão por onde migraram um sem-fim de povos, passaram incontáveis mercadores, viajantes históricos como Marco Polo, e por onde as civilizações trocaram milênios de mercadorias e influências culturais através da Rota da Seda, que ia até a China.

Hoje já não se usam mais caravanas, mas para cruzar essas distâncias estão aí os trens. 

Embora os trens russos (e mongóis) não sejam de altíssima velocidade (e é até melhor que não sejam, pois fica mais idílico e pitoresco para apreciar a paisagem), eles são bons, confortáveis, e vão rápido o suficiente. Uma viagem de Irkutsk, na Sibéria, até a capital mongol de Ulaanbaatar dura cerca de 21h no trem. Você vai “de boa”, sem pressa. Sai num dia, dorme no trem, e chega no dia seguinte.

Nesse trecho específico, há apenas uma “pedra” no meio do caminho: a imigração. Eu nunca na vida levei tanto tempo para cruzar uma fronteira quanto aqui entre a Rússia e a Mongólia. Foram 4h de trâmite (é, isso mesmo), do qual falarei a seguir.

Primeiro, a saída de Irkutsk num dia de manhã, com direito a vistas que teríamos do trem para o Lago Baikal.

Paisagens da zona rural siberiana vista do trem após sairmos de Irkutsk.
Passando por entre as matas siberianas.
Vistas do trem para o Lago Baikal, já após as primeiras horas depois de Irkutsk. Como é preciso contorná-lo, você ainda o vê bastante.
Vista por sobre um vilarejo costeiro.
Você literalmente leva horas margeando o Lago Baikal na Sibéria.

O nosso compartimento no trem era simples, mas confortável. Compartíamos-no com dois divertidos holandeses de seus 70 anos, um senhor (Theo) e uma senhora (Helma), de grande espírito jovial e que não eram um casal, mas amigos de longa data. Divertidíssimos, e cheios de experiências de viagem.

Theo, que lembrava um pouco o finado apresentador Bolinha, já tinha ido ao Brasil e era fã incondicional de Fortaleza. Ele também já havia vindo à Mongólia, e nos alertava que não havia estradas no país, apenas trilhas por onde os carros seguiam pela estepe. 

Leva algumas horas, mas você percebe as matas e roçados ondulados da Sibéria começarem gradualmente a dar lugar a uma paisagem mais plana. As estepes são a espinha dorsal da Eurásia: vão do leste europeu até perto das Coreias. Suas planícies de gramíneas até onde a vista alcança e animais pastando seriam a paisagem mais comum nos meus dias seguintes.

A paisagem vista do trem ainda na Sibéria, gradualmente ficando mais plana, e sua vegetação, mais amarelada.
O trem não é glamuroso, mas é confortável.
O nosso humilde compartimento.
Vista com vilarejos rurais sob o céu da tarde.
A paisagem ficando mais plana e dominada por gramíneas.
Até que chegamos à fronteira.

Quando chegamos à fronteira entre a Rússia e a Mongólia, foi preciso aguardar uns minutos até que os oficiais de imigração russos se mobilizassem. Como de costume, você faz dois controles imigratórios distintos: primeiro no país de onde está saindo, depois no país onde está entrando.

Neste caso, cada um deles dura cerca de 2h. Prepare um livro e vá antes ao banheiro, pois estes ficam trancados durante os processos imigratórios (há uma breve janela de oportunidade de cerca de 20 min entre um controle e outro, mas pode haver filas se todo mundo tiver a mesma ideia).

Primeiro, vêm os oficiais de imigração russos analisar o seu passaporte e carimbá-lo. Estes chegam cheios de equipamentos eletrônicos, monóculo que vê os dispositivos de segurança invisíveis no seu passaporte, etc. A seguir, vem o controle de aduana russo, ou seja, os fiscais interessados em ver se você está contrabandeando algo. Pode ser que peçam para você abrir alguma bagagem, mas não é muito comum. Em geral, eles apenas vistoriam os compartimentos, checando se há pacotes suspeitos embaixo dos assentos, etc.

Não prestou que Helma tivesse bebido vodka pouco antes da fronteira. Ela, holandesa bronzeada dos cabelos bem amarelos e do tipo conversadeira, com aquela voz raspada de senhora fumante de longa data, soltava-se ainda mais após uma branquinha. (Não é permitido fumar nem beber álcool dentro dos trens russos, mas ela bebeu mesmo assim, tirando aquela garrafinha estratégica de bolso pra misturar ao chá preto.)

Helma começou a insinuar em voz alta que a oficial de imigração russa — que, de fato, era uma beldade fardada — estava de olho em mim por eu ser brasileiro, e que havia me tratado melhor que outros, etc. Eu bem que gostaria, mas não fala alto, pô. As autoridades na Rússia são notoriamente autoritárias. Foi sorte que a russa ou não ouviu, ou não entendeu, ou não ligou.

Após essas primeiras duas horas, há uma pausa. O trem prossegue por mais uns 20 a 30 minutos, até que para novamente, desta vez para o controle mongol.

Em nenhum momento nenhum dos oficiais aqui lhe pergunta nada, nem puxa conversa, nem exige explicações de você sobre o que você vai fazer no país nem nada disso. Os russos simplesmente pegam de volta o canhoto do cartão de imigração que você recebeu ao entrar no país e que precisa conservar consigo até a saída, e para os mongóis você precisa preencher um novo formulário parecido. Em ambos os casos os formulários estão também em inglês.

Quando chegam os oficiais mongóis, de fardamento verde escuro, há muito menos tecnologia e minúcia. Mas eles às vezes levam o seu passaporte embora, para trazer daí a pouco todos de uma vez já carimbados. (Brasileiros não precisam de visto para a Mongólia.)

Foi aí que Helma deu a louca e começou a dizer — com aquela cara vermelha e fala cuspida de quem tomou umas — à oficial mongol que não era permitido levar embora o passaporte, que estava sendo desrespeitada, etc. 

A oficial (graças a Deus) ignorou plenamente o protesto da senhora e levou embora todos os passaportes com seus respectivos formulários. O meu olhar crítico não deixou de perceber a condição privilegiada em que a senhora do país rico se encontrava; eu queria ver uma senhora daqui da Mongólia chegando à Holanda e criticando o oficial holandês pra ver o que aconteceria. No mínimo, seria taxada de incivilizada. Coisas da desigualdade do mundo.

Daí a uns 20 minutos os passaportes voltaram, ao que também entra uma bela soldado mongol fazer a fiscalização de aduana e procurar contrabandos. Entrou estóica no nosso compartimento, com suas calças verdes camufladas, botas militares, e cabelo liso de asiática preso atrás da cabeça.  Não achou nada, foi embora.

Já passava da meia-noite quando as quatro horas de procedimentos terminaram. (Eu soube que, quando há problemas com alguém no trem, pode levar até 6-7h, mas nada que tranquilidade e paciência não resolvam.)

Era noite de lua cheia quando finalmente adentramos a Mongólia. Um sereno com vento friozinho que soprava pelas janelas abertas do corredor do trem,  os turistas aglomerados a olhar pra o lado de fora a tentar ver algo. O que eu veria na Mongólia eu conto a seguir.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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