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Trens na Rússia: Ferrovia Trans-Siberiana, como comprar online, o que levar, e outras dicas

Viajar de trem é uma delícia, e a Ferrovia Trans-Siberiana é nada menos que a maior do mundo. São mais de 9 mil quilômetros entre Moscou e Vladivostok, na costa do Pacífico, e isso sem falar nos caminhos para a Mongólia e a China. (Fica a dica para quem acha que trem no Brasil não daria certo porque “as distâncias são muito grandes”.)

Já tendo vindo três vezes à Rússia e passado um total de meses cruzando o país, eu resolvi fazer este pacote de dicas e observações para quem pretende viajar aqui de trem. Eu falarei dos trens russos em geral e depois especificamente das jornadas trans-siberianas.

O sistema russo pode parecer estranho (e, por isso, assustador) de primeira, mas logo você percebe que se aprender os seus conceitos básicos e “pegar o jeito”, tudo fica relativamente fácil e você pode economizar bastante.

Vamos lá. O post está estruturado por tema como perguntas e respostas, com fotos para ilustrar. Se você ainda ficar com alguma dúvida, é só perguntar nos comentários.


Como são os trens russos?

Os trens russos em geral são simples mas confortáveis. Apenas o Sapsan (que opera entre Moscou, São Petersburgo, e Nizhny Novgorod) é de alta velocidade (200-300Km/h) e com poltronas; os demais tendem a ser trens de velocidade média (100Km/h) com bancos alcochoados onde se pode deitar.

três classes gerais, embora haja também tipos de trens com níveis diferentes de conforto (falarei disso mais adiante). A “Primeira Classe” tem compartimentos privados para duas pessoas, é bem mais cara, e pode ter diferentes graus de luxo a depender do trem. A segunda classe, geralmente conhecida pelo nome russo de kupê, tem compartimentos trancáveis para até quatro pessoas. É a classe geralmente escolhida pelos turistas. A terceira classe, em geral bem mais barata, é chamada de platzcart, e consiste em áreas abertas com vários “beliches” no vagão, sem compartimentos ou portas. (Ver fotos abaixo.)

Os termos kupê e platzcart são bastante úteis de aprender. Todos os trens russos em geral têm vagões de primeira, segunda, e terceira classe. A diferença é muito mais uma questão de privacidade do que realmente de segurança ou conforto.

Corredor de um vagão kupê (2a Classe), com as portas para os compartimentos de até 4 pessoas.
Um compartimento kupê típico é assim, embora haja trens que no todo são mais modernos (e, portanto, mais confortáveis) que outros. Duas pessoas dormem de cada lado. Na hora de comprar as passagens, é possível escolher se você quer assento em cima ou em baixo. Durante o dia, normalmente todo mundo fica embaixo; só de noite é que você precisa arranjar com seu companheiro de banco a hora de “expulsar” a pessoa do banco de cima para o lugar dela porque o de baixo quer deitar pra dormir. (Sim, se você não comprou todos os 4 lugares, pode ir “gente estranha” no mesmo compartimento que você. Você não paga pelo compartimento inteiro.)
Já um vagão platzcart (3a classe) típico é assim. Não há portas. Como eu disse, a maior diferença é a (falta de) privacidade; o conforto físico é basicamente o mesmo. Na direita da foto vão sempre até 4 pessoas, 2 beliches diante de 2, como nos compartimentos do kupê. Na esquerda da foto, aquelas mesinhas viram camas para a pessoa do assento de baixo. Durante o dia, dá para a pessoa de cima e a pessoa de baixo ficarem sentadas, um diante um do outro separados pela mesa. (Mas se você tiver mais de 1,70m, evite esses dois assentos, ou terá que dormir em posição fetal. Passei por isso.)

Seja qual for a classe, vá com suas passagens impressas e o seu passaporte. Normalmente, quando as portas dos trens se abrem para os passageiros começarem a entrar, haverá um(a) comissário(a) de sentinela à porta verificando a documentação de todos os passageiros. Às vezes eles tiram uma foto do seu passaporte, para tomar registro do número e não ter que lhe pedir de novo depois.

Uma vez que você esteja dentro do trem, no seu assento, provavelmente o(a) comissário(a) passará de novo verificando as passagens. Às vezes, no kupê, o(a) comissário(a) prefere recolher as passagens e passaportes de todo mundo, tomar nota de tudo, e devolvê-los antes da sua estação de destino. Alguns turistas se exasperam (“Ela levou o meu passaporte!“), mas não se preocupe; é de praxe. Comigo eles sempre sabiam a estação onde eu ia descer e, mesmo que demorassem, apareciam 1h antes da chegada para me devolver o passaporte.


Amenidades dentro do trem. Tem wi-fi? Tem banheiro?

Tem sempre banheiro, mas nem sempre tem papel higiênico (vá preparado). O grau de limpeza varia com o nível de modernidade do trem que você escolheu, mas em geral são tranquilos de ir — viajei em muitos trens russos e nenhum deles tinha banheiros repulsivos.

Wi-fi praticamente nunca tem (a única exceção sendo a primeira classe do Sapsan). Esqueça. Sinal de celular, por outro lado, quase sempre há. 

Há sempre um dispensário de água fervente por vagão. (Isso é parte importante da tradição dos russos, que adoram tomar chá preto. É comum que muitas casas e estabelecimentos russos tenham um samovar, que é um elegante dispensário de água fervente. Os trens seguem essa tradição.)

Há um ou dois comissários por vagão, ao seu dispor, e que operam uma pequenina venda de lanches básicos: café instantâneo, chá, miojo, salgadinhos, chocolates, etc. Geralmente só é possível pagar em espécie, usando rublos russos. (Falo mais sobre comida a seguir.)

Eletricidade sempre há, mas nem sempre todo compartimento tem tomada. Viajei em trens modernos onde cada passageiro tinha sua tomada junto ao assento; já em outros, só havia duas tomadas pra o vagão inteiro. (Era um pega-pra-capar no corredor, todo mundo sempre de olho, esperando uma tomada vagar pra poder recarregar o celular.)

Calefação sempre há, mas nem sempre há ar condicionado digno do nome. Se você for no inverno, não passará frio; mas se for no verão, provavelmente passará calor. Vá preparado com roupas frescas. Boa parte dos russos trocam de roupa após entrar no trem e ficam de calção, shortinho, e não se assuste se vir alguns homens russos passearem sem camisa pelo vagão.

É comum que os trens russos façam muitas paradas em estações intermediárias, e durante essas paradas você pode sair do trem pra esticar as pernas ou comprar algo. Nas rotas longas, é habitual que haja um roteiro de paradas no corredor de cada vagão, especificando o horário de chegada e saída (e, portanto, o tempo de permanência) em cada estação. Aqueles horários costumam ser levados à risca. Passeie mas não bobeie. 

Por fim, vale saber que no platzcart, mais povão, roupa de cama não é automático, é preciso acrescentá-la ao preço na hora da compra. (O preço varia, mas é bem barato. Mais sobre custos abaixo.) Se você comprar pessoalmente na estação, o vendedor lhe perguntará; se você comprar online, é preciso selecionar a opção dizendo que você quer com o kit na compra (inclui: lençol fino, coberta fina, fronha de travesseiro, e uma toalhinha de rosto. Edredom fica já perto do assento, como o travesseiro.). Se você se esquecer, em geral pode pagar ao comissário na hora H e ele lhe dá um kit. Antes da hora de dormir, nas viagens de longa distância, os comissários costumam passar oferecendo.

Um vagão platzcart fica assim com as camas feitas.

Tem vagão-restaurante? Como são as comidas? 

Tem, quase todo trem russo (particularmente os de longas distâncias) tem vagão-restaurante. Não quer dizer que as comidas sejam boas. Eu tive uma experiência muito boa e outra péssima, então você pode ver que a coisa varia. 

Em geral, comer no vagão-restaurante é caro — isso em si não é grande novidade. Mas às vezes há uma seleção minúscula de opções, e a comida é ruim e pouca. Outras vezes a comida é melhorzinha, mas raramente são pratos fartos.

Como é difícil prever, o que os russos em geral fazem é trazer comida consigo. Sim, os trens russos são uma farofagem de respeito. Como há o dispensário de água fervente que nunca se exaure, é normal ver muita gente comendo mingaus, miojo e toda sorte de comidas instantâneas, além de sanduíches, quitutes, biscoitos, etc. Lembre-se de trazer também água potável, ou ficará dependendo de pegar água fervente e esperar ela esfriar.

Não há vendedores ambulantes entrando nos trens, mas às vezes a comissária passa com um carrinho vendendo lanches básicos (pão, sanduíches, muffin, chocolate, salgadinho, etc.). E no mais, como eu disse antes, a comissária está sempre disponível para vender essas coisas no compartimento dela no vagão.

A dica é comprar um chá ou café instantâneo pra ganhar a xícara e a colher, daí você passa a usar o seu próprio chá ou café e só devolve o “equipamento” na hora de ir embora. (Não se preocupe, não é nenhuma malandragem, todo mundo aqui faz isso e eles sabem.)

Por fim, algumas passagens na classe kupê, nos trens mais modernos, incluem uma ou mais refeições. Tive essa fortuna uma vez e gostei da refeição, embora básica. Atente na hora da compra.

(Beber álcool e fumar não eram, mas hoje em dia são proibidos no interior dos trens.)

Um café da manhã incluso no preço da passagem entre Moscou e Kazan. Mingau de aveia, pão, manteiga, torradas e uma bebida quente. O jantar é um prato salgado, mas em geral dessas proporções.

Não sei nada de russo. Tem problema?

Não, não tem problema, você (provavelmente) chegará ao seu destino do mesmo jeito. Mas aprender algumas palavras-chave de russo, ou a ler as letras no alfabeto cirílico (o que você memoriza numa tarde), pode facilitar bastante a sua vida.

Aprender a ler o alfabeto cirílico permite que você identifique as muitas palavras em russo que são semelhantes ao português. Você saca, por exemplo, que PECTOPAH em russo se lê “Restoran”, e daí já deduz o significado.

Esqueça qualquer possibilidade de puxar papo, tirar dúvidas, ou ser atendido em inglês por qualquer um(a) dos(as) comissários(as) nos trens. Isso só é possível em russo. Em todas as viagens que eu fiz, nenhum deles jamais abriu a boca para dizer sequer um “yes” ou “no” em inglês. (Suspeito que seja inclusive política da companhia ferroviária russa que os seus funcionários se comuniquem exclusivamente em russo.) Use palavras soltas que souber em russo, faça gestos ou o que for, mas não espere uma conversa em inglês. Os anúncios e informações são também todos em russo.

Inclusive, como em alguns outros países onde línguas estrangeiras são pouco aprendidas, é comum aqui que as pessoas continuem a falar com você em russo, e a explicar-lhe coisas, mesmo que você não esteja entendendo bulhufas. 

O que você pode conseguir na melhor das hipóteses é que haja algum russo no seu compartimento (ou no seu vagão platzcart) que fale alguma língua estrangeira e se prontifique a servir de intérprete entre você e o comissário. Os russos em geral são prestativos, e isso não é raro de acontecer. (Vale lembrar: se e somente se você der a sorte de ir ao lado de um russo que fale uma língua estrangeira. Não é tão raro — me ocorreu várias vezes — mas também não é garantido.)

Por fim, vale dizer que o humor dos condutores varia muito. Há alguns mais prestativos e simpáticos que outros. É meio que uma loteria. Na minha experiência, quase sempre foram mulheres — algumas eram pura simpatia, sorriam e até desenhavam para eu entender, já outras faziam o estilo tiazona soviética e dava até medo de dar bom dia.


Qual o nível de segurança?

Alto. Mais alto que em qualquer ônibus brasileiro e, possivelmente, que em muito trem europeu também. Não há nos trens russos as ameaças terroristas que às vezes ocorrem na Europa, e roubo do tipo latino-americano aqui é bem raro. Claro, não deixe o seu anel de diamantes dando bobeira, mas também não precisa ficar paranóico.

As bagagens vão todas junto de você, debaixo do seu assento ou em espaços dedicados a elas bem no alto, acima dos lugares de dormir. Basta ficar atento à sua bagagem de mão e você estará “de boa”.


Quais os tipos de trens, afinal? Como sei quais são os melhores? 

Vamos lá; esta é uma questão importante.

Não existe “O” trem Trans-Siberiano, e via de regra há sempre muitos trens diferentes fazendo as mesmas rotas. (A única exceção é o trem de alta velocidade Sapsan, que faz as rotas São Petersburgo – Moscou – Nizhny Novgorod, mas esse é um serviço diferenciado, mais elegante e mais caro. É ótimo, mas limita-se a essa rota. Ele faz o trecho Moscou – São Petersburgo em menos de 4h de viagem.)

No mais, é preciso escolher entre os muitos trens numerados. Os mais modernos são chamados de Firmeny (abreviado normalmente assim em russo: ФИРМ), mas mesmo entre eles há diferenças. Cada linha possui um número com três algarismos e, via de regra, quanto menor o número, melhor. Os melhores trens de todos, inclusive, possuem nomes. O 002 é o Rossiya, o 006 é o Ocean, e por aí vai. (Pense em 007 e James Bond, da Rússia com amor.) 

As rotas se sobrepõem até certo ponto. Por exemplo, o 002 (Rossiya) tem esse nome porque percorre toda a Rússia: essa linha faz todo o percurso de 9.200Km entre Moscou e Vladivostok, parando sempre no caminho. Já o 004 é um trem chinês que faz o percurso entre Moscou e Pequim, passando pela Mongólia (rota conhecida como Trans-Mongolian). Isso significa que ambos fazem igualmente o caminho entre Moscou e Irkutsk, na Sibéria, mas com dias e horários de partida e chegada diferentes. Nem todos os trens tem partidas todos os dias.

(Eu experimentei ambos e, francamente, preferi o 002. Há uma lenda de que a comida no trem chinês é melhor, mas a minha experiência foi simplesmente a de que os comissários chineses são ainda mais difíceis de abordar, não havia chá e café disponível em cada vagão, nem papel higiênico nos banheiros — só uma mangueira pra se lavar, que é o que chinês tradicionalmente usa.)

Afora esses trens melhores, da categoria “00”, há uma infinidade de outros mais baratos, com números maiores.

Em suma, há uma relação inversamente proporcional entre preço e conforto. Às vezes o platzcart do 002 sai mais caro que um kupê num trem menos moderno, com menos amenidades, de número maior. Você terá que fazer escolhas. Se você comprar online, em geral está dito que amenidades cada um oferece. 


Quanto custa?

Varia muito de acordo com a qualidade dos trens que você for escolher, e com a classe em que for viajar. Além disso, a Companhia Ferroviária Russa utiliza um sistema de “preços dinâmicos” que flutuam a depender da procura e de quantas vagas restam. Por fim, os assentos de baixo costumam ser mais caros que os de cima. Então varia, mas em geral sai bem mais em conta que andar de trem na Europa.

Para dar uma referência, uma viagem de trem de quase 12h de duração entre Moscou e Kazan, numa data aleatória, sai pelos seguintes preços:

No trem 002 (Rossiya), 2a classe (kupê), num assento de baixo: 5500 rublos (apr. 80 euros).

No trem 016, 3a classe (platzcart), em qualquer assento: 2060 rublos (apr. 30 euros).

Ou seja, no cômputo total da sua viagem inteira, tanto pode sair uma pechincha quanto um valor mais substancial, a depender do quanto de conforto você desejar.


Como faço para ver os preços e comprar passagens?

Há três formas: (1) pessoalmente em qualquer estação de trem da Rússia; (2) no site oficial da Companhia Ferroviária Russa; ou (3) com alguma agência ocidental que as venda, online ou pessoalmente. Eu recomendo a opção n.2, mas vamos detalhar.

Há uma infinidade de empresas ocidentais que oferecem a você a comodidade de comprar online suas passagens de trem na Rússia em websites bonitos, em inglês (ou até em português), e sem quebrar muito a cabeça. Se seu orçamento for grande e você não quiser ter trabalho, essa é uma forma conveniente. Contudo, isso vai lhe sair muito mais caro. Não só eles cobram “taxas administrativas”, como também os preços das passagens já aparecem com valores mais altos, e as taxas de câmbio que eles utilizam (para converter dos rublos russos em euros, libras esterlinas ou dólares) são horrivelmente péssimas. Você de repente se vê pagando até 50% a mais no preço da passagem. Então, vale a pena se esforçar um pouquinho e comprar diretamente do site oficial russo.

O site oficial da companhia ferroviária russa (também conhecida por seu acrônimo RZD) é eng.rzd.ru, para acessar direto a versão em inglês da página. A tradução tem gradualmente melhorado bastante, embora não seja perfeita. (Se você precisar de tradução adicional, pode tentar pelo navegador Google Chrome.)

Ao acessar, você logo verá à esquerda o banner “Buy tickets online“. Clique e será levado à página de pesquisa de rotas e horários. Como será necessário se você decidir comprar, o melhor aqui é logo fazer um cadastro clicando em “Registration” no canto superior direito da página. Você faz um cadastro gratuito no site com o seu e-mail e pronto, ganha acesso a uma página de perfil com seus dados onde poderá visualizar todas as compras que fizer. Via de regra, o site aceita cartões de crédito estrangeiros sem problema.

Daí então é só pesquisar por cidades. Ao preencher os campos de busca, é preciso aguardar aparecerem as opções existentes e selecionar uma — você não pode sair buscando o nome que quiser. Atenção pois as cidades estão com seus nomes escritos do jeito que soam em russo: Moscou é Moskva; São Petersburgo é Sankt Peterburg; Khabarovsk é Habarovsk, e por aí vai. 

É possível comprar passagens com até 60 dias de antecipação. Se você pretender viajar no verão, ou em algum período de festas (ex. Ano Novo), compre com o máximo possível de antecedência para garantir mais opções e os melhores preços. Sobretudo as passagens nos trens melhores costumam se esgotar.

Atenção: a Rússia tem 11 fusos horários, mas TODOS os horários dados pela Companhia Ferroviária Russa estão no horário de Moscou (formalmente, UTC+3, por estar 3h à frente de Greenwich em Londres) Não só no site, mas também nas estações você encontrará relógios mostrando a hora de Moscou — mesmo que você esteja em Vladivostok, 7h à frente. Isso é importante caso você esteja comprando passagens para a Sibéria, por exemplo. Cheguei a encontrar turista que foi para a estação na hora errada porque não se ligou.

Após selecionar os assentos que você quer, será preciso pôr os dados de cada um dos passageiros, inclusos número de passaporte, nome, data de nascimento e nacionalidade. 

Dê preferência aos “e-ticketable” tickets, ou seja, aqueles que emitem a passagem eletrônica pra você, que você imprime em casa e leva. Todos os trens de categoria “00” são assim, mas nem todos os outros. Isso está bem claramente avisado em letras vermelhas na hora que aparecem suas opções de trens. Só atente que o sistema não lhe envia as passagens por e-mail; é preciso salvá-las em PDF como se fosse imprimi-las no final da compra. De qualquer modo, você tem acesso a elas a qualquer hora acessando a sua página de perfil no site.

Se o seu não for um e-ticket, você precisará ir à estação pegar fila (e tratar com um funcionário que não fala nada além de russo) para trocar seu voucher de reserva por um ticket de verdade. Como sei se o que recebi no site é um ticket de verdade ou só um voucher? Fique tranquilo, se for um apenas voucher, ele vem com uma grande marca vermelha dizendo em letras garrafais que aquilo não é um ticket. Mesmo que você não entenda russo, vai perceber.

Uma exceção: NÃO é possível comprar passagens internacionais online, exceto em alguns poucos casos, em geral de rotas entre Rússia e Europa (ex. Finlândia). Para os demais, como os trens para a China ou para a Mongólia, infelizmente você terá que usar um dos outros métodos: ou comprar pessoalmente numa estação russa qualquer ou utilizar os serviços de uma das agências de viagem. Eu utilizei a RealRussia.co.uk para comprar passagens de Irkutsk para a Mongólia e não me arrependi, embora seja notavelmente mais caro. A sua escolha provavelmente dependerá do tempo de que você dispõe na Rússia e do seu grau de flexibilidade. 

Por fim, vale observar que não é possível trocar passagens. Se os seus planos mudarem, o que se faz é simplesmente cancelar, pedir o reembolso, e comprar um novo. Você pode fazer isso pessoalmente — munido do seu passaporte e da passagem a ser cancelada impressa — em qualquer estação de trem da Rússia, não necessariamente aquela de onde você iria partir. O reembolso chega direitinho, embora no caso brasileiro o IOF que você paga pelo uso do cartão de crédito no exterior não seja reembolsado.

No geral, se você for se aventurar em algum guichê de estação ferroviária russa, lembre mais uma vez que os funcionários só falam russo. Vale a pena levar, por exemplo, datas numeradas escritas num pedaço de papel. As estações de trem, em geral, aceitam cartões de crédito emitidos no Brasil sem problemas.


OK, entendido. E o que você recomenda levar, ou como preparativo, para uma viagem Trans-Siberiana de vários dias?

Primeiro, eu recomendo que você pare várias vezes no meio do caminho para conhecer as cidades do interior da Rússia. Cada uma tem o seu charme. Kazan, no Tatarstão, é particularmente charmosa; Ekaterimburgo também é bastante interessante; e Irkutsk é de lei, de onde recomendo que você tire alguns dias para ir conhecer de perto o Lago Baikal e a sua Ilha de Olkhon. Muita gente acha que a emoção é ficar enfurnado 4 a 7 dias a fio dentro de um trem — o desafio pode ser interessante, mas você perderia de ver muita coisa. O mais interessante da Ferrovia Trans-Siberiana não é simplesmente percorrê-la, mas também conhecer o que há no caminho.

Agora vamos à parte prática. Vale levar:

  • Muitas coisas para comer e beber, e os recipientes e talheres de que você for precisar — exceto xícaras e colher pra mexer, que você obtém pedindo um chá ou café à comissária. Trens russos todos têm dispensário de água fervente. Seja farofeiro mesmo (os russos são). Eu levei: café instantâneo, leite em pó, açúcar, miojo, cereal matinal, sanduíches, água, chocolate e outros doces. Uma tigela foi super útil, e você pode lavá-la com a água fervente do dispensário e depois na pia do banheiro. Lembre que não há geladeira, então cuidado com queijo, iogurte e essas coisas.
  • Papel higiênico, pois às vezes o do trem acaba e o condutor leva horas para repor.
  • Artigos de limpeza para compensar a falta de banho, como toalhas umedecidas, álcool gel para as mãos (hand sanitizer), etc.. Vale saber que, ao contrário do que diz o imaginário popular, a Sibéria não é fria o ano inteiro. Pelo contrário, ela é bastante quente durante o verão (junho-setembro). Prepare roupas leves se viajar nessa época, pois às vezes o ar condicionado do trem para de funcionar (ex. quando o trem para em alguma estação, o que pode durar uma hora), e você vira bolo. Você verá facilmente os homens russos tomando a liberdade de circular sem camisa pelo trem.
  • Distrações, como livros e seriados no computador. Mas não exagere: minha amiga canadense veio com jogos de tabuleiro, baralho, o diabo a quatro, e no fim das contas não usamos nada. O tempo passou com a gente de papo e assistindo a Game of Thrones no computador. (Lembre que não tem wi-fi.)
  • Carregador portátil. Se o trem for dos Firmeny, há tomadas individuais. Se não, você vai ter que disputar pelas duas ou três tomadas do vagão no corredor. Nessa hora, será útil se você tiver consigo um carregador portátil, sobretudo se estiver planejando passar horas (ou dias!) assistindo a séries.
  • Earphone splitters, a melhor coisa que há se você estiver viajando acompanhado e quiser assistir a seriados ou filmes juntos. Não sei como traduziram isso em português, mas é um plug que permite conectar dois pares de fones de ouvidos ao computador. Muito melhor que aquela velha coisa de “eu fico com a orelha direita e você com a esquerda”.
  • Leve todas as passagens impressas, e tenha sempre o passaporte consigo, especialmente se for descer do trem durante as paradas. Os comissários poderão levar embora sua passagem ou ficar com o seu passaporte por um tempo, é normal, mas nesses casos eu sempre me certifico de que ele viu a minha cara ao descer, pra se lembrar de que eu estou naquele trem.

No mais, como eu já disse antes mas não custa reforçar, você se fará um favor imenso se tirar duas horas num dos dias antes da viagem para aprender a ler o alfabeto cirílico, e de preferência aprender também algumas palavras básicas de russo.

Por fim, se você gosta de Paulo Coelho, leia o seu livro Aleph, de 2011, em que o autor conta a jornada trans-siberiana que ele realmente fez em 2006. Modéstia à parte, os meus relatos são muito mais ricos, mas fica a dica para quem buscar algo mais esotérico. (Só tenha em mente que “o mago” viajou não simplesmente em primeira classe, mas em vagões privados, enquanto que euzinho aqui fui nos vagões da vida real, no meio do povo.)

Qualquer dúvida que você tenha, ou pergunta que tenha ficado, é só pôr aí abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Trens na Rússia: Ferrovia Trans-Siberiana, como comprar online, o que levar, e outras dicas

  1. Muito interessantes as experiencias e dicas de viagem. Muito importante isso de aprender um pouco da língua para identificar as informações e melhorar a dificil comunicação com língua desconhecida. Valeu

  2. adorei o relato estarei nesta aventura como muchuleiro em maio
    saido de moscou , vou ao final da tras. sib. em vladisvostok voo para tókio e faço macau , hong kong, pequim, alan bator na mangólia, cruzo tras.sib. em alan ude via minsk bielorrussia polonia ,r tcheca, alemanha e portugal e muita saudade de casa
    de só e com75 anos estoou fendo curso de russo . Meu irmão o brigado mesmo pelas dicas
    Um abraço
    edivan reis

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