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No parque cultural “13th Century”: Visitando a Mongólia do século XIII, dos tempos de Gengis Khan

Foi perto da capital Ulaanbaatar que eu faria uma das visitas mais interessantes durante esta minha estadia na Mongólia. Um “parque” onde você conhece os detalhes de como viviam os mongóis nos tempos medievais do grande conquistador Gengis Khan — ou melhor, como eles o chamam aqui, Chinggis Khan —, no século XIII.

13th Century, contudo, não é meramente um museu ou parque temático ocidental, nem aqueles lugares onde atores fingem-se de personagens da Idade Média. A coisa aqui é muito mais autêntica.

Numa grande área a cerca de 100Km da capital, pavilhões autênticos mostram diferentes aspectos da vida tradicional dos mongóis. As pessoas não representam; elas são elas mesmas, só que em trajes tradicionais que não costumam usar no dia-dia, e lhe mostram coisas que ainda são parte da vida diária dos milhares de mongóis que continuam vivendo no nomadismo pelo interior do país.

O xamã (pajé) é um xamã de verdade, e a religião de que ele lhe fala ainda é a praticada desde os tempos antigos aos atuais. As comidas que você é chamado a experimentar são as tradicionais do século XIII, mas que continuam ainda hoje sendo o comum. Ou seja, é muito diferente de você ver um ator sueco moderno vestido de viking mostrar coisas que nada mais têm a ver com a sua realidade. Aqui na Mongólia, o que eles lhe mostram é a vida tradicional deles — no século XIII e hoje. Daí ser tão interessante.

Eu breve iria ao interior do país e reveria muitas destas coisas que aqui me foram apresentadas. Se você é interessado em História ou cultura (ou simplesmente em “gente”) e não terá a chance de ir ao interior da Mongólia, eu diria que esta visita aqui é obrigatória.

Acompanhem-me nesta jornada.

Criança mongol com algumas comidas típicas que experimentaríamos neste atapetado interior de um ger, tenda redonda tradicional usada como casa tanto nos tempos de Chinggis Khan quanto atualmente aqui na Mongólia.

O meu filho é nacionalista demais“, disse-nos balançando a cabeça a mãe de Tamir, e dona do estabelecimento onde nos hospedamos no Gorkhi-Terelj National Park, quando lhe dissemos que o seu filho havia-nos proposto invadir a China. Com um ar de “esse aí eu já desisti de tentar consertar”, ela recebeu o nosso pagamento e, naquela manhã calorosa e fresca com o ar seco da Mongólia, nós fizemos o check-out.

Tamir, com o seu ar voante, a mesma camisa preta do dia anterior, e o corpo franzino de oriental de 25 anos cujo esporte favorito são jogos online (“e-sports”, como se rotulam atualmente), nos guiaria até o 13th Century. Por sorte, Tamir entendia de História, e ter alguém como intérprete veio muito a calhar, já que os mongóis no parque só falam mongol. De lá, ao fim do dia, eles nos entregaria à nossa futura acomodação na capital Ulaanbaatar.

A nossa primeira parada, no caminho, foi o lugar turístico mais visitado de toda a Mongólia: a imensa estátua de 40m do grande conquistador Chinggis Khan. (Os turistas a visitam porque fica perto da capital, mas não é o mais interessante. Ela seria só o nosso aperitivo.)

Você avalia o tamanho da estátua ao compará-la com o tamanho do ônibus no estacionamento.

De acordo com a lenda, foi aqui que Chinggis Khan encontrou o chicote dourado que viria a usar nas suas campanhas militares do século XIII. Simbolicamente, a estátua — que é toda em aço inoxidável — está voltada para o oriente, ao seu local de nascimento no leste da atual Mongólia.

Naquela direção está também uma estátua da mãe de Chinggis Khan, Hoelun, que o acompanhou nas campanhas até já idosa num notável camelo branco. (As mulheres na sociedade mongol, no século XIII como hoje, gozam de muito mais autonomia e igualdade que em qualquer outra cultura asiática.)

Na área externa, em meio a estátuas de cavaleiros mongóis da Idade Média.
Com um cavaleiro falcoeiro. A semi-domesticação de falcões e outras aves de rapina, tanto para caça quanto como status ou como companhia, são uma tradição antiga na Mongólia e por toda a Ásia Central.

No interior do prédio abaixo da estátua há um centro de visitação, com um pequeno museu com objetos originais da Idade Média, uma cafeteria, um restaurante, uma loja de souvenirs e tudo o mais. A entrada é paga (normalmente já inclusa no preço que você negociou para o tour), e você pode subir até o topo da estátua.

Aqui você também encontra edições ilustradas (em vários idiomas) do famoso livro “A História Secreta dos Mongóis”, uma obra medieval de autoria desconhecida que conta detalhes da vida de Chinggis Khan e do povo mongol nessa época. Embora ela por vezes tenha aspectos míticos, é a principal obra de referência a todos os historiadores.

Embora a visita seja simples e não haja nada do outro mundo nesse centro de visitação, a vista do alto da estátua vai longe, e não deixou de ser uma introdução na nossa familiarização com a História e a cultura deste país.

A maior bota do mundo, em estilo tradicional mongol, no interior do centro de visitação, abaixo da estátua.
O hall principal do centro de visitação. Aqueles escritos que você vê não são em chinês, mas na escrita tradicional mongol. Até 1200 os mongóis não tinham escrita, até que com Chinggis Khan eles adotaram o alfabeto do povo túrquico Uighur, que ainda habita o que é hoje o oeste da China. Trata-se de uma escrita de cima para baixo, ainda usada pelos mongóis que permaneceram na “Mongólia Interior” na China. Aqui, na Mongólia independente, em 1946 eles adotaram o alfabeto cirílico do russo devido à proximidade com a União Soviética, e a escrita tradicional só é usada como floreio artístico.
Lá no alto, de frente para a estátua. Com as longínquas estepes atrás.

Os mongóis sempre foram nômades e pastores, como todos os demais povos aqui das estepes da Ásia Central — da Mongólia e oeste da China até o Mar Cáspio, onde é hoje o Turquemenistão (ver mapa abaixo).

Desde o primeiro milênio depois de Cristo, há registros históricos de poderosas confederações de tribos nômades na Ásia Central. Os povos túrquicos, que têm a sua origem aqui, já tinham “khanatos” poderosos que por épocas rivalizaram com os persas a sul e com os chineses a leste desde os idos do ano 500. Daqui da Ásia Central sairiam as várias tribos túrquicas que migraram para oeste, como os seljúcidas que combateram os cruzados europeus na Terra Santa, e mais tarde os otomanos, que ocuparam o que chamamos hoje de Turquia e que derrotaram o Império Bizantino com a conquista de Constantinopla em 1453.

Os mongóis, no grande mundo das estepes centro-asiáticas, eram os “primos pobres” menos afortunados mais a leste, com suas típicas feições de olhos puxados e maçãs protuberantes no rosto. “Os mongóis sempre fedem e usam roupas imundas. Eles vivem longe; que eles fiquem lá“, teria dito há quase mil anos a rainha da tribo Naiman, povo da Ásia Central então recém-convertido ao cristianismo. Foi daqueles “imundos”, contudo, que viria o maior conquistador de todos os nômades.

Mapa da Ásia, com as estepes no centro. São planícies que se estendem por milhares de quilômetros, da atual Mongólia até a Ucrânia.

Temujin era um rapaz mongol nascido em 1162. Como não era raro para a época, aos 9 anos sua família lhe arranjou um casamento. Na tradição mongol, o pretendente precisava ir viver uns anos na casa dos sogros pra ver se aguentava, e estes determinavam se o rapaz era digno.

Meses depois, o pai de Temujin, um chefe tribal dentre muitos que havia na época, morreu envenenado por anfitriões de uma tribo rival que o convidaram para comer. A família de Temujin, sem o chefe, viveria por anos na miséria, com sua mãe sendo assistida por ele e os irmãos como possível.

Em 1179, aos 16 anos Temujin finalmente se casa com Borte, um ano mais velha. Mas como tampouco era raro na época, Borte foi sequestrada pouco após o casamento por uma outra tribo rival, e o seu sequestrador a tomou como esposa dele próprio e a engravidou. (E você fica aí achando que a sua vida é difícil…).  

Temujin, na que é considerada a primeira grande encruzilhada da sua vida, decide ir resgatá-la, angariando apoio de alguns amigos e aliados. Borte daí a uns meses daria a luz a Jochi, o seu filho mais velho, que foi abraçado como filho mais velho também de Temujin embora bem provavelmente fosse filho do sequestrador.

Se destacando como guerreiro destemido, Temujin seria promovido em 1189 a líder (khan) dos mongóis — que nesta época nada mais eram que um amalgamado de clãs dispersos, em geral vassalos de outras tribos maiores da região. Temujin e seus homens passariam décadas como “capangas” de uma dessas tribos maiores, os Keraítas, cujo líder (Ong Khan) havia sido “irmão de sangue” (desses de juramento) do seu pai e o tomou como capataz.

Não quero confundir vocês com os nomes das dezenas de tribos distintas que aqui havia, tanto de asiáticos de olhos puxados quanto de povos túrquicos. Alianças eram feitas e desfeitas com frequência. Quando algum líder forte emergia, os outros sentindo-se ameaçados se uniam contra ele — às vezes ajudados pelos chineses, que não queriam ninguém dominante entre estes perigosos vizinhos nômades nas fronteiras do seu império.

Como se imagina Temujin.

A “hora da verdade” chegou em 1203, quando Temujin — já aqui aos 40 anos, com quatro filhos (incluso aí o possível bastardo) e cinco filhas de Borte — após anos de serventia foi enxotado com seus mongóis pelos Keraítas. Os filhos do já idoso Ong Khan, seu líder, tinham ciúmes e receios que Temujin viesse a querer tomar o poder quando o velho morresse.

Temujin e as famílias que o seguiam tiveram que fugir para longe, e penaram, rechaçados pelas tribos vizinhas que haviam combatido para os Keraítas e agora também por aqueles que haviam servido. Diz a lenda que os mongóis chegaram a ter que comer os próprios cavalos para sobreviver, e que foram salvos da morte por um mercador que os encontrou à beira de um lago quando chegou para dar de beber aos seus camelos. Esse mercador, Hassan, vinha da tribo túrquica Onggud, de além do Deserto de Gobi que hoje forma o sul da Mongólia. Eles se tornariam dos primeiros aliados dos mongóis.

Revigorados, Temujin e seus seguidores retornam e aliam-se ao irmão do velho Ong Khan, que queria ajuda para tomar a liderança Keraíta para si. Temujin começou então a soldar alianças casando os seus filhos, filhas, e a si próprio outras vezes em parcerias estratégicas. (Aqui, como em outras partes da Ásia — e, em dados períodos, também na Europa —, eram comuns os chamados “casamentos morganáticos”, onde há uma esposa principal mas também outras secundárias, além de concubinas, que podem estar casadas mas não ganham direitos nobiliárquicos nem produzem herdeiros legítimos.)

Os mongóis daí gradualmente derrotariam os Keraítas e todas as demais tribos rivais, inclusa a dos que haviam sequestrado a sua esposa anos antes (Merkitas), os Tatars (cujo nome foi o que os europeus pegaram e generalizaram a todos, associando-os ao Tártaro, o inferno da mitologia clássica greco-romana) e, por fim, os Naiman (da rainha que disse que os mongóis fediam). Em 1206, um kuriltai — uma tradicional assembleia de líderes — aclama Temujin então como líder maior, Chinggis Khan, significando o khan “oceânico”, ou seja, de tudo.

Ao longo de todo o século XIII, os mongóis gradualmente se expandiriam até conquistar a China, o restante das estepes centro-asiáticas, e todo o Oriente Médio. Efetivamente, viriam a formar o maior império terrestre que a História humana já viu. 

E como viviam esses mongóis? Em muitos aspectos, parecidos aos mongóis de hoje. Foi o que eu vim pessoalmente conhecer.

Eis o terreno da Mongólia, com alguns gers (as tendas redondas típicas dos mongóis) e, à esquerda, o símbolo de Chinggis Khan: um falcão branco sob o céu azul. No parque 13th Century.
Representação de um pequeno acampamento militar. Eles ficavam espalhados a distâncias fixas pelo império, sempre com cavalos prontos para seguir no envio de mensagens. Eram os correios da época.

Há 6 acampamentos temáticos ao todo no parque. Você na entrada compra um ingresso com seis partes que são destacadas conforme você visita cada um dos acampamentos. Eles ficam a quilômetros uns dos outros, então só mesmo de carro. A ordem é livre.

Eles são: (1) Um posto de patrulha (esse da foto acima); (2) as tendas dos xamãs; (3) o Palácio do Khan; (4) a vida dos pastores; (5) o acampamento dos artesãos; e (6) o acampamento educacional. Quem acha que os mongóis eram uns selvagens brutos, se enganou; eles tinham uma administração formidável para dar conta de um império tão grande.

Começarei pelos mais simples.

Os homens vestiam botas e esse grande roupão, pois o inverno aqui nas estepes podem chegar a 40 graus negativos, com um vento interminável. No entanto, os mongóis jamais usavam luvas, pois preferiam sentir as rédeas das montarias com as mãos nuas. Seus arqueiros montados foram os mais famosos do mundo.
No interior do ger, de frente para a entrada, sentava-se o capitão do posto. O fogo no centro queimava com esterco seco. Uma das grandes inovações de Chinggis Khan, cujo falcão-símbolo você vê ali, foi selecionar lideranças com base na lealdade e competência, em vez de apenas ligações familiares como era tradicionalmente feito.

Todos os viajantes europeus que vieram ao império mongol no século XIII, entre eles Marco Polo, comentam sobre seu imenso sistema de comunicação com base nesses postos. Um mensageiro era capaz de viajar mais de 200Km num dia a cavalo, e passar a mensagem ou documentos a outro, e outro… Os mensageiros, bem treinados, eram acolhidos com abrigo e alimento em qualquer dessas estações.

Hoje, naturalmente, não existe mais esse sistema, mas as roupas de lã dos mongóis no interior continuam as mesmas.

São também as mesmas as comidas, que você experimenta no acampamento que mostra a vida dos pastores (isto é, de quase todas as famílias mongóis).

Chegando naquele acampamento, fomos servidos iogurte, manteiga e queijo seco — tudo artesanal, do jeito que é feito há séculos. A grande maioria dos mongóis não tem ou tem muito pouco acesso a eletricidade, então esqueça refrigeração. Os alimentos se conservam ao ar livre, em parte ajudados pelo clima seco que dificulta o apodrecimento. Tudo, como eu falei, é de origem animal.

Nesse panelão de bronze, iogurte caseiro à vontade. Ao lado, uma espécie de manteiga caseira, acompanhada de um queijo seco levemente azedo (e duro feito o cão) em cubinhos.
Eu com uma tigela de iogurte mongol. É bom, natural… azedo e sem açúcar. Certamente bem mais integral do que aquele que você compra no supermercado.
Com a senhora que nos serviu.
Aproveitando pra dar uma volta de cavalo, o que não é o meu forte, mas na Mongólia faça como os mongóis.

No acampamento dos artesãos vimos como muitos daqueles produtos usados por todos são feitos.

Fiandeira, para com lã fazerem aqueles tapetes, usados por todos no chão de seus gers.
E sabem o que é essa bolsa? Aqui se coalha o leite para fazer queijo. É estômago de cavalo (de verdade).
Aqui a senhora artesã nos demonstrando um moedor tradicional feito de pedra, que gira e mói grãos ou o que for.
Bule de chá, chifres decorados, e ali são brinquedos para as crianças: ossos dos pés de bichos. (Pode parecer macabro, mas pense na precariedade da coisa e, sobretudo, que eles usam tudo o que podem do animal.)

No interior, os produtos e a confecção das coisas continuam muito parecidos ao século XIII, e as comidas continuam iguais (eu próprio seria testemunha ocular disso dentro em breve). E quanto aos ossos de camelos e outros bichos, saibam que um jogo tradicionalíssimo na Mongólia — e presente nas olimpíadas anuais do país, a que eu assistiria dentro de uns dias — é o jogo de peteleco em ossos para acertar alvos numa mesa, algo remotamente similar a um jogo de gudes. (Vocês verão.)

No acampamento educacional, aprendemos sobre a escrita mongol, feita no alfabeto adotado do povo túrquico Uighur (que vive hoje no oeste da China) no século XII, e tivemos nossos nomes escritos nele.

Diversas caligrafias com a escrita mongol, que se dá de cima para baixo. O formato mais comum é o segundo da esquerda pra a direita. O último à direita são “runas” tradicionais mais antigas ainda, o chamado “alfabeto túrquico antigo”, do século VIII, de quando esta região ainda não era dominada pelos mongóis.

Faltam dois, o acampamento dos xamãs e o palácio do khan.

Quando fomos ao acampamento dos xamãs, um xamã de verdade estava lá para nos receber. Ao contrário do que você pode imaginar — e como costuma ser para a surpresa de quem não está familiarizado com a coisa —, ele vestia roupas “normais”, e você não o distinguiria de um mongol qualquer. Seu filho, um rapazinho de uns 12 anos, foi quem nos acompanhou para mostrar as tendas típicas dos diferentes tipos regionais que há na Mongólia.

A minha amiga canadense, no ceticismo habitual dos não-habituados a este espiritualismo, perguntou ao xamã se poderia ali fazer uma consulta com ele, pra ver se ele saberia dizer coisas pra ela.

A resposta do xamã foi que, se ela quisesse, sim, e não havia custo, mas não era parte da visita ao parque. Ela teria que marcar uma hora de forma independente, também porque o espírito que o assistia também não estava ali assim “à là volonté” o tempo todo. Ela deixou pra lá.

O acampamento mostrando o xamanismo tradicional. Aquele centro é uma área especial de rituais.
Estacas e postes com as fitas sagradas do xamanismo centro-asiático circundam o lugar, com uma árvore no meio.
O filho do xamã.
Estilos diferentes de tendas de xamãs na seca e pedregosa Mongólia.
As roupas tradicionais lembram muito a pajelança indígena das Américas. (Como eu comentei antes, o maior povoamento das Américas se deu exatamente por povos aqui da Ásia Central que há milhares de anos cruzaram o Estreito de Bering e chegaram ao Alaska.)
Há um total de 8 tendas xamânicas, cada qual mostrando uma variação regional. Em muitas há um sincretismo entre o xamanismo tradicional e o budismo, que chegou depois. Em todas há referências simbólicas à natureza, como é característico.

Os mongóis de hoje, como eu cheguei a comentar no meu post inicial aqui na Mongólia, continuam praticantes do xamanismo desde sempre. É bastante comum que sejam budistas, mas mantenham suas práticas xamânicas. Ou ainda mesmo que sejam agnósticos, ou não tenham vida religiosa, mas façam as suas consultas ocasionais com um xamã.

E pra terminar, o Palácio do Khan.

O Palácio do Khan, como você há se dar conta, não é um palácio de pedra, mas um ger maior e mais pomposo. Afinal, todos eram nômades, inclusive o chefe.

Representação de como era o acampamento do Khan, do líder.
A vista da entrada é assim, para as infinitas estepes do centro da Ásia.
O interior.
O trono do khan. O lugar de honra para os mongóis é sempre diametralmente oposto à entrada do ger.
Essa família paramentada de turistas mongóis vindos da capital estavam aí quando nós visitamos. A mulher vestia um traje azul, que no caso da realeza sempre incluía isso alto na cabeça. Já o pai da família está ali em trajes de guerreiro no centro. A criançada só se diverte.
Fomos servidos comidas típicas, que para a minha infelicidade aqui na Mongólia se restringiam a pastéis de carne moída e tigelas de chá com leite. (A salada ali é gaiatice para turistas, pois não se comiam legumes nem folhas frescas na Mongólia. Como você viu pela paisagem, não há agricultura aqui. Ainda hoje, essas coisas em geral são importadas.)
Como convidados no Palácio do Khan, tivemos direito a uma bela performance musical com essa cantora e esse instrumentista, ambos em trajes tradicionais do centro da Ásia. (Esses trajes, atenção, não são exatamente chineses: por toda a Ásia Central, ainda hoje, há um parentesco de vestimentas entre a China, a Mongólia e os “stão”. É uma cultura de toda esta grande parte da Ásia, não só a China.)

Termino o post com um vídeo da performance musical. Como você pode ver, mais uma vez, se trata de uma “antiguidade” do século XIII que continua presente dentre os mongóis atuais.

O canto da mulher pode chocar a princípio (pela diferença em relação ao que estamos habituados no Ocidente), mas acho que após os segundos iniciais você passará a reconhecer a sua exótica beleza.

Após um dia inteiro aqui no 13th Century (e eu recomendo que você passe pelo menos 3/4 do dia aqui), era hora de seguirmos para a capital.

(Se você ficou interessado, saiba que não há realmente um site oficial. A entrada, com tudo incluído — inclusas as comidas — é coisa equivalente a 35 dólares, mas é essencial vir de carro e, de preferência, com um guia que entenda mongol. O passeio de Ulaanbaatar até aqui varia entre 50-70 dólares por pessoa.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “No parque cultural “13th Century”: Visitando a Mongólia do século XIII, dos tempos de Gengis Khan

  1. Nossa!….. que interessante parque, histórico, rico em cultura e em detalhes de épocas outras. Que caldo cultural diferente do nosso e que história épica. Que povo instigante e valente!… Mesmo com os limites estruturais e econômicos consegue sobreviver bem com o que tem, mantendo, como pode sua cultura. Nada sabia sobre a Mongólia e sua história; Sobre Gengis Khan ja, pois é bem conhecido aqui no Ocidente, mas de forma superficial. Amei conhecer essa Mongólia que ainda conserva suas raízes. Linda cultura. Gostei de ver a complexidade da administração medieval. Bem montada. Fez-me lembrar Dario, no Império persa. Ha muita congruência entre eles.
    Ótima postagem. Minha solidariedade pela abstinência alimentar do senhor, ô coitado hahaha, Pelo menos o yogurt foi. Valeu viajante. Que venham mais historias e belezas,

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