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Naadam: Festival nacional e “Olimpíadas” da Mongólia

Todo ano, os mongóis se reúnem para celebrar a sua nação em grande estilo. 

Esqueça as paradas militares e essas coisas já batidas. Na Mongólia, a celebração se dá com festejos musicais, comilanças, e competições esportivas tradicionais (arco-e-flecha, corridas a cavalo, luta-livre, e outros jogos seculares dos mongóis).

O Festival Naadam, como os mongóis o chamam, são olimpíadas que ocorrem todos os anos país afora. As datas exatas variam, e cada comunidade organiza o seu, o maior de todos sendo naturalmente o da capital Ulaanbaatar — embora eu depois fosse experimentar também os de pequeninas comunidades do interior, que tem o seu charme próprio.

Eu vim, participei (como espectador!), e recomendo a todos interessados em cultura.

Como sempre, relatarei aqui a minha experiência, e ao final dou as dicas aos interessados em um dia vir.

A cerimônia de abertura do Naadam no estádio de Ulaanbaatar.

No primeiro dia do Naadam, o albergue às 8 da manhã se parecia com um consultório médico: gente ocupando todos os lugares possíveis, sentados, outros de pé parecendo velas, a olhar uns para as caras dos outros esperando algo, sem muito conversar pois quase todos haviam acabado de chegar e não se conheciam ainda. A conversa se limitava, como nos consultórios médicos, àqueles mais conversadores que puxam breve conversa com quem está do lado.

Eu e a minha amiga canadense tivemos camas num dos dormitórios, mas houve muitos que dormiram na sala. A época do Naadam é sempre a mais badalada para turismo na Mongólia.

São 2 dias de festival, e — tal como nas Olimpíadas — o mais cotado de tudo é a cerimônia de abertura. A partir daí, as várias competições começam a acontecer simultaneamente, e a muvuca corre solta nos arredores com vendedores de comida, músicos de improviso, etc. É um carnaval olímpico.

Nós não nos demoramos com bobagens tipo café da manhã, e logo nos agregamos aos muitos (mongóis e turistas) que já estavam à Praça Sukhbaatar, no coração de Ulaanbaatar, para ver o início das celebrações.

À frente do parlamento mongol, marcado por sua escadaria com uma inconfundível estátua do conquistador Chinggis Khan, soldados em trajes festivos a pé e a cavalo alinhavam-se para prestar reverência à nação.

O início tem esse tom formal universal, nada muito do que se vê também em outros países, mas essa parte dura pouco. Nós logo veríamos um singelo coral de mongóis idosos em trajes tradicionais, e dali então partiríamos ao estádio — seguindo a multidão — onde a cerimônia propriamente dita teria lugar.

Praça Sukhbaatar, coração da capital Ulaanbaatar, com os guardas alinhados diante do Parlamento da Mongólia.
A escadaria do parlamento tem aos seus lados duas estátuas de cavaleiros mongóis e, ao fim, como num trono de honra, a figura do grande conquistador do século XIII Gêngis Khan, que aqui na Mongólia é chamado de Chinggis Khan.
Cavaleiros desfilando com estandartes tradicionais mongóis.
O povão na praça. (Nada como uma boa muvuca.)
Encerrada a parte oficialesca da abertura, os cavaleiros seguem em procissão até o estádio, onde a cerimônia de abertura propriamente dita terá lugar. Nós, como não sabíamos o caminho, seguimos o povo.
Senhoras mongóis em trajes tradicionais na Praça Sukhbaatar no dia da abertura.
A “Velha Guarda”, diante do Parlamento.

Se vocês quiserem ter uma palhinha do cantar desse coral de anciãos, é só clicar no pequeno vídeo abaixo que eu fiz.

Seguimos o povo da Praça Sukhbaatar até o estádio de Ulaanbaatar. Fazia um limpo e azul dia de sol, daqueles em que já de manhã o calor começa a mostrar pra que vem. Como a Ásia Central é uma região seca, você pouco transpira, mas isso não quer dizer que não se queima.

Até aqui tudo era público e de acesso livre, mas para adentrar o estádio e assistir à cerimônia de abertura são necessários ingressos.

Os nossos ingressos eu havia reservado através de um albergue — a única forma de comprá-los, pois não são vendidos online, e pessoalmente você só encontra com cambistas que cobram o triplo do preço. Como de costume, erraram o meu nome, e eu de Mairon virei Maria.

A nossa brochura com ingressos para o Naadam, no alfabeto cirílico (tomado do russo e usado também pela língua mongol hoje em dia), agregados de um elegante post it com o valor que pagamos por pessoa e o nome do destinatário. Era eu.

No estádio, logo encontramos o nosso lugar ao sol. Há lugares marcados nos ingressos, mas não há cobertura, então se você ficar numa parte ensolarada — aquele sol gostoso de 11h da manhã — logo se verá circundado de sombrinhas e sombreiros das pessoas em volta, preocupadas em evitar o sol. (Ative o seu modo de batalha caso seja preciso abaixar na marra a sombrinha dos outros que estiverem lhe tomando a visão.)

Ali, sim, assistiríamos à abertura dos eventos com o hino nacional mongol e mais uma panacéia de apresentações artísticas. A cerimônia dura 2h e lembra algo das aberturas das Olímpiadas que estamos acostumados a ver, mas de porte bem mais modesto e sempre com a temática cultural mongol (já que não se muda o país-sede).

Eu mostro a vocês três pequenos vídeos que fiz abaixo. O primeiro é o início da cerimônia, com o hino nacional mongol. O segundo é uma curiosíssima encenação de enfrentamento entre legionários romanos e cavaleiros mongóis ao som de rock n’ roll mongol. (Os mongóis dizem que os hunos, povo nômade das estepes que invadiu o Império Romano na Antiguidade, eram ancestrais seus.) O terceiro vídeo é o fim da festa de abertura, com dancinhas em trajes tradicionais ao som de uma música mongol que lembra algum metal tribal com toques asiáticos. A composição da coisa é sui generis.

(Os mongóis adoram heavy metal, em parte porque o gutural relembra e é combinado com os seus cantos tradicionais. É doidão.

A narração se dá toda em mongol, não dá pra entender os detalhes, mas o que tivemos foi basicamente uma longa apresentação das origens míticas do povo mongol, sua união sob Chinggis Khan, as conquistas, etc. Por mais que você “viaje” um pouco sem poder acompanhar, dá pra pegar algo e não deixa de ser interessante ver uma apresentação cultural tão exótica, de um ponto de vista histórico tão distante do nosso no Ocidente. Achei fascinante.

Já a hora do almoço eu achei menos fascinante. Munido de ingressos você pode entrar e sair do estádio a hora que quiser, e encontrará os arredores repletos de barracas. Estranhamente, todas vendem exatamente a mesma coisa: pastel de carne, comido aqui repleto de óleo e com ketchup.

Acompanhando, vendida às jarras retiradas de tonéis azuis de plástico expostos ao sol (sem qualquer tipo de refrigeração), a bebida nacional mongol: leite de égua fermentado. Isso é conhecido aqui como airag ou kumis, e tem o gosto que você imagina que tem. Eu provei. Imagine aquela coalhada azeda que você esqueceu por uma semana fora da geladeira. Pronto, esse é o gosto.

A folia nos arredores do estádio em Ulaanbaatar.
A barracolândia e os vendedores de kumis.
Vai uma garrafão?
As pessoas aqui bebem isso como se fosse água.
Delícia. Um hábito curioso aqui é de os homens andarem com a barriga de fora. Volta e meia você vê os caras com a a camisa semi-levantada.
Vendedora de chapéus durante o Naadam.
Para acompanhar o leite de égua, pastel de carne. É basicamente o que há de comida. (No segundo dia eu achei uma barraca de pastel vegano em meio às 99 que vendiam pastel de carne.)
Há, é claro, ao lado disso a parte mais artística e de coisas para a criançada. O ambiente é bem família.

E as competições, afinal?

Naadam quer dizer “jogos” na língua mongol. O nome completo é eriin gurvan naadam, que significa “os três jogos masculinos”: luta-livre, arqueirismo, e corrida de cavalos. Na verdade, há dúvidas se tradicionalmente essas eram disputas apenas masculinas mesmo, já que as mulheres gozavam de alto status na época do Império Mongol medieval, mas foi assim que ficou em tempos modernos. Recentemente, os dois últimos (arqueirismo e corrida de cavalos) ganharam versões femininas também.

A luta-livre, eu preciso dizer, é das coisas mais enfadonhas de se assistir (comparável apenas a luta de sumô, que eu vi no Japão). Às vezes parece haver mais preparo que luta em si. Há vários juízes, e ocorrem vários embates ao mesmo tempo. Fica basicamente aquele agarra-agarra até um derrubar o outro. Os primeiros minutos são interessantes, mas logo eu fiquei entediado. Veja abaixo se a sua impressão é diferente. 

A boa notícia é que a cerimônia de abertura e a luta-livre são os únicos eventos do Naadam que requerem ingresso. O mais é todo de livre acesso e ocorre em outros espaços nos arredores do estádio.

Nós, embora tivéssemos adquirido ingressos para assistir a todas as sessões de luta-livre, preferimos circular pelo ambiente e ver as outras competições também.

O arqueirismo, preciso lhes dizer, não é menos confuso que a luta-livre no que se refere a pontuação. O básico é óbvio, mas os detalhes são obscuros. De qualquer forma, o mais interessante pra mim foi mesmo ver aquelas pessoas em trajes típicos mongóis — versões autênticas de figuras culturais que eu só conhecia pela mídia ou na ficção.

Arqueiros alinhados. O que eu achava interessante eram aquelas pessoas lá junto do alvo, sem medo de serem acertadas por engano.
A tabela de pontuação dos arqueiros. Não me dei ao trabalho de tentar descobrir quem era quem.
Eu com um dos arqueiros na arquibancada.
Uma bela arqueira em trajes tradicionais passando enquanto os arqueiros lá adiante competiam.
Olha o churrasquinhooooo
Com um dos lutadores de luta-livre. Eles do lado de fora se vestem assim, com esses roupões e chapéu-panamá. Quem diria.
Enquanto isso, o estádio parecia expofeira agropecuária. O Naadam acaba lembrando essa mistura de festival nacional com Olimpíadas e feirão do gado.

As corridas de cavalo, infelizmente, se dão longe do centro da cidade, onde só se chega de carro, então eu não as vi. Entretanto, vi algo ainda mais peculiar mongol: jogo de tiro ao alvo com petelecos em ossos.

Os mongóis tradicionalmente utilizam ossos de animais (sobretudo os ossos pequenos das articulações de cavalos e outros animais comuns aqui) para toda sorte de função, desde brinquedos infantis, em rituais adivinhação (como os búzios nas religiões brasileiras de matriz africana), e também em competições de gente grande.

No Naadam, os jogadores assistem concentradíssimos aos “tiros” para derrubar outros ossos empilhados numa casinha. Lembra um boliche.

Jogadores reunidos numa competição de petelecos em ossos para derrubar algo lá dentro da casinha.

Como os outros jogos mongóis, a minha opinião franca é que você não se demora muito assistindo — logo dá vontade de ir fazer outra coisa, mas valem a pena espiar por um instante.

À noite, um festão com palco, música e fogos de artifício nos traria de volta à Praça Sukhbaatar. Não é uma festa de magnitude global — afinal, a Mongólia é pouco populosa e não vêm tantos turistas aqui —, mas não deixou de haver animação. O mais engraçado foi quanto reencontramos aqui um casal grego que havíamos conhecido na Rússia, quando visitamos o Lago Baikal, e ao nos verem conversar uns mongóis pediram pra tirar foto conosco. Ficaram surpresos quando nós dissemos que também queríamos uma foto com eles.  

A noite do Naadam em Ulaanbaatar.

No fim das contas, você percebe que os dois dias de festival são mesmo o bastante. Ainda veríamos muitas destas tradições pelo interior, aonde iríamos agora.

Passado o Naadam, era hora de zarpar de Ulaanbaatar por 9 dias num tour pelo interior da Mongólia. Iríamos conhecer o afamado Deserto de Gobi assim como as terras verdes das estepes da Mongólia Central. Vinha coisa por aí.


(Se você tiver interesse em vir à Mongólia, vale a pena procurar saber quais serão as datas do Naadam naquele ano específico. Os ingressos não são compráveis pela internet, e tampouco dá pra deixar pra comprar pessoalmente nas vésperas ou no dia, pois os cambistas compram todos antes de você. O único jeito é acertar com algum hostel ou hotel, os quais aqui todos funcionam também como agências de turismo. Eu comprei os nossos com a Danista Nomad Tours, e o pacote inteiro de ingressos custou 27 dólares por pessoa, como você pôde ver acima no papel fotografado. Qualquer outra dúvida, é só perguntar.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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