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O Deserto de Gobi, as Dunas de Khongor e os Penhascos Flamejantes: Tour pela Mongólia, dias 4 e 5

Continuação de Iniciando um tour pela Mongólia (Dias 1, 2 e 3): Entre vales, estepes e camelos

Não, não é o Saara. Não estamos na África nem na Arábia, mas sim na Ásia Central. Se você reparar num mapa da China, verá que o seu oeste é muito pouco habitado, dotado como é de regiões áridas até você chegar às montanhas que lhe servem de fronteiras com o Quirguistão e o Tajiquistão. Por aqui passavam as rotas de mercadores, naquilo que ficou apelidado de Rota da Seda, e que levava até as grandes cidades da Pérsia, Constantinopla/Istambul, o Egito e a Europa.

A Mongólia, mais ao norte, é separada da China pelo Deserto de Gobi — sem grandes cadeias de montanhas. Esta região inóspita sempre separou a agrícola civilização chinesa dos nômades da Ásia Central, dentre os quais se destacam os mongóis. Gobi tem poucas dunas de areia; é mais um deserto de chão seco, com poucas plantas onde pequenos lagartos passeiam. Não há sequer cactos. O calor chega aos seus 35-37ºC, mas dificilmente chega a 40ºC. É quente, mas nada sobre-humano; o que pega é a falta de água. O inverno, por outro lado, bate facilmente nos -30ºC graus, mais um vento forte derrubando a sensação térmica para baixo de -40ºC. Daí Gobi ser por vezes considerado um deserto frio. Boa sorte.

Trata-se de uma região inóspita mas que tem a sua beleza, com os seus camelos de duas corcundas, elevados planaltos secos a 1.500m acima do nível do mar (e gélidos durante o inverno), ventanias, e algumas dunas. Foram os meus 4º e 5º dias do tour que fiz pelo interior da Mongólia.  

Mapa físico e político da Ásia, com atenção para o Deserto de Gobi separando a China da Mongólia ali no centro. Você percebe como todo o oeste da China é muito inóspito, até chegarmos às montanhas que a separam do Quirguistão e do Tajiquistão na Ásia Central.

À manhã do quarto dia, eu já estava praticamente bom outra vez. Não cheguei a mencionar no post anterior, mas poeira e a secura do sul da Mongólia me causaram uma sinusite violenta. A cara me doía como se tivesse sido esmurrada, e a cabeça parecia uma bomba. À noite, sem poder dormir, dentro do ger era abafado; dava vontade de sair e tomar um ar. Do lado de fora, uma ventania interminável e fria incomodava — e carregava embora, rolando pelas estepes, os pedaços de papel higiênico que eu utilizava para assoar o nariz.

Eu me preparei para ficar dias a fio sem banho, mas não imaginei que fosse sentir tanta falta de pia. Sim, uma mera água corrente onde assoar o nariz, limpar as mãos, lavar o rosto. Nada, 4 dias a fio sem pia. Achamos apenas, numa das vezes, um tanque de água com naftalina, da qual enchemos uma garrafa plástica de onde um francês bebeu por acidente.

Confesso que fui salvo pela minha amiga canadense que, como é da cultura norte-americana de usar remédio pra tudo, trouxe 1Kg de comprimidos para dor de cabeça, antitérmicos, anti-isso e anti-aquilo, tudo obviamente Super Powerful, Extra Strong, e outros denominativos de força. (Depois, uma enfermeira amiga minha prontamente observou que “Funcionou bem com você porque você não tem hábito de usar. Quem usa sempre acaba precisando de uma dose cada vez mais forte pra resolver”.)

Pois bem. À manhã do 4º dia, eu já estava revigorado, troquei a já imunda camisa preta por uma camisa branca (ô erro, ficaria toda manchada), e nos preparamos para ir andar de camelo sob o sol de Gobi.

Com Baina, o nosso motorista, carregando a kombi na manhã do quarto dia do tour.
Gobi é assim, muito mais seco e pedregoso que propriamente arenoso.

Antes de chegarmos propriamente ao acampamento onde encontraríamos camelos para montar, paramos à beira da “estrada” onde uma família vendia rochas. Dava pena ver a precariedade. Por maior beleza que pudessem ter algumas delas, você não deixa de se dar conta que são famílias precisando tirar um trocado e que saem catando pedras no chão para vender aos poucos turistas.

Não há uma árvore sequer onde se esconder do sol, e as crianças ficam a depender da sombra do carro.

Bancadas de rochas de vários tipos, vendidas pela mongol ali de azul a tentar evitar o sol. É um “meio do nada” onde às vezes detêm-se alguns turistas em tours.
Crianças mongóis escondidas do sol de Gobi à sombra do veículo, a única que havia. Chupavam doces que uns turistas europeus trouxeram.

Dali seguimos propriamente para onde estavam os camelos. Os camelos daqui, como eu comentei no post anterior, são os únicos do mundo a ter duas corcundas. É o conhecido como camelo bactriano; todos os outros são, na verdade, dromedários. 

O meio do dia é muito quente, então almoçamos a nossa gororoba de cada dia (sopa de macarrão sem tempero, acompanhado de chá preto), e à tardinha nos preparamos para de fato camelar. Pus uma camiseta branca como lenço na cabeça (pois lamentavelmente eu havia deixado no Brasil o meu turbante árabe que usei em Marrocos), e vamos nós.

Como de costume, é necessário alguém que conheça os camelos e saiba lidar com eles. O nosso cameleiro era um senhor mongol idoso com cara de avô animado, vestido com o roupão de lã característico dos mongóis e um chapéu-panamá, recém-adotado por aqui. Ele estava todo na mesma cor bege dos camelos.

No Deserto de Gobi, na Mongólia, já bronzeado pelo sol centro-asiático.
Preparando-nos para montar nos camelos bactrianos, de duas corcundas, à tarde.
O nosso guia local.
Mal pude conter o riso quando ele atendeu o celular. (O governo da Mongólia pôs antenas aqui. O povo adora.)
Nossas sombras sobre o seco planalto de Gobi. (Aqui estamos a 1.500m de altitude em relação ao nível do mar.)
O grande diferencial em relação às outras vezes que andei de camelo é esse aqui: a corcunda na sua frente. É muito mais confortável, pois você pode segurar nela; e seguro, pois não dá aquela sensação de que você vai cair pra frente, como ocorre quando você monta em dromedários.

Andar de camelos foi simples, e bom, mas eu ranquearia a experiência abaixo das que tive na Índia e no Saara. Do último porque aqui na Mongólia não é na areia, mas no chão seco e plano, o que tem menos graça. E inferior à Índia porque lá estávamos soltos (o que é mais arriscado, mas mais legal), enquanto que aqui — como no Saara — você apenas segue um guia que puxa todos os camelos ligados uns aos outros por uma corda. É meio “água com açúcar”, embora tenha sido minha válida única experiência num camelo de duas corcundas. Com certeza valeu a pena, mas ficam as observações a quem procura a experiência de andar de camelo e não sabe onde ir.

Camelando no Deserto de Gobi.

Após andarmos de camelo, aí sim veio aquela que foi para mim a maior experiência do dia: subir nas dunas de areia Khongor (Khongor sand dunes) para ver o pôr-do-sol. Magnífico. (…mas difícil pra cacete de subir as colinas de areia. Prepare o fôlego e as pernas. Num dado momento me vi correndo pra chegar ao topo antes de o sol se pôr.)

Há uma idílica faixa de área verde alimentada algumas poucas fontes naturais de água aqui. Camelos, cavalos e bovinos passeiam à vontade em grupos pra lá e pra cá.

Olhem como é quase mágico.

Faixa de verde, de plantas alimentadas por fontes subterrâneas de água, em meio ao Deserto de Gobi no cair da tarde.
Animais pastando tão próximos às dunas de areia.
Os olhos d’água ficam cercados e recebem as características fitas azuis (e, às vezes, amarelas) tradicionalmente usadas aqui na Ásia Central para honrar os espíritos da natureza.

Agora vamos ao alto.

Subir as colinas com os pés afundando na areia não é moleza. Requer mais esforço e fôlego do que parece, mas é recompensador.
Selfie no deserto ao entardecer. As dunas recebem este nome (“Khongor”) pois ele significa “cantante” na língua mongol; são as dunas cantantes pelos uivos que o vento aqui faz.
O clarão do sol poente por sobre os irretocáveis mantos de areia em Gobi.
A vista lá de cima, com o sol a se pôr.

Na volta, atolamos. No lamaçal arenoso ao entrar da noite nós ficamos.

Como só havia uma rota de saída daquela área verdejante para o acampamento, todos os outros veículos ficaram parados atrás de nós. Por sorte, Baina, o nosso hábil motorista resolve-tudo, puxou as ferramentas, ativou mecanicamente a tração 4 rodas na nossa kombi velha (mas potente), e depois daquele típico fuzuê em que todos os outros saem dos seus veículos para vir ver o que está acontecendo, nós desatolamos. 

À noite, tomei finalmente um banho de glória — o primeiro em quatro dias. Custava o equivalente a 5 dólares o banho, mas meu entusiasmo era tanto que eu fui o primeiro do grupo. Dei sorte, pois logo após a minha vez a água parou de fluir direito e foi um quiprocó de gente agoniada pra tomar banho sem poder, com direito a problemas de tradução entre a minha amiga canadense e a moça francesa e uma flagrando a outra nua.

Não havia acabado (só a água, que voltou na manhã seguinte para quem não terminou de tomar banho, terminar). Nós ainda teríamos uma tempestade de areia e os impressionantes Penhascos Flamejantes (Flamming Cliffs) no dia seguinte, antes de sair de Gobi.

À noite, Barça, o nosso guia, tomou vergonha e preparou um saboroso cortado de legumes com arroz. (Digo isso porque ele, talvez explicável pela sua tenra idade de 19 anos, era meio preguiçoso para cozinhar. Eu via alguns outros grupos com refeições bem mais interessantes enquanto nós tomávamos sopa de macarrão.)

Pela manhã, empacotamos tudo outra vez, como fazíamos todas as manhãs, e nos preparamos para tomar o caminho e sair do deserto. Chegamos a parar em mais vendedores de rochas com crianças, numa fonte de água onde camelos bebiam em grande grupo, e numa das vagabundas mercearias (mas salvadoras da pátria, pois numa delas eu havia há alguns dias comprado um molho de pimenta chinês que se tornou o meu companheiro de todas as refeições, pra dar algum gosto) onde eu compraria desta vez um “maravilhoso” picolé de banana (na Mongólia), antes de finalmente darmos nos Penhascos Flamejantes.

Na encruzilhada. Os mongóis, como os buryats e demais nativos da Sibéria, acumulam pedras e outras oferendas junto das fitas azuis em honra aos espíritos.
Camelos que encontramos perto de fontes de água. Eles são cismados, mas não são agressivos.
Garoto mongol na cisterna.
Rapaz francês oferecendo um bombom a uma criança num outra bancada de vendedores de rochas onde paramos, em Gobi.
As crianças mongóis, curiosas a nos olhar. Você vê que as pessoas aqui não são miseráveis, mas é uma vida muito simples.
Na vendinha do vilarejo próximo onde paramos pra reabastecer, comprei este hediondo picolé de banana. Era das poucas coisas geladas que havia.

A minha amiga canadense é traumatizada com frio, odeia os -40°C que pega em Winnipeg todo inverno, mas neste 5° dia eu finalmente a escutei reclamar do calor. Não estava o fim do mundo, mas 37ºC sem ter uma sombra onde se esconder, nem água onde se banhar, e sem nada gelado (além do picolé de banana) para tomar, é penoso.

Era ainda começo de tarde quando da vila rumamos aos Penhascos Flamejantes, que recebem este nome pela cor vermelha do seu solo. São ainda parte de Gobi, que tem muito mais regiões pedregosas e secas que propriamente de areia. São, realmente, vistas de impressionar.

Parece Marte.
Os penhascos, com a imensidão plana do centro da Ásia.
Penhascos Flamejantes.
Baina, o nosso motorista, com a sua característica boina, a olhar para o horizonte.

Nós tínhamos mais algumas horas de estrada na região de Gobi antes de encerrarmos o 5º dia e começarmos melhor a transição para o ambiente mais úmido da Mongólia Central. Claro que não iríamos embora sem Gobi se despedir de nós com uma módica tempestade de areia.

Há tempestades de areia das várias potências quando o vento sopra por estas terras áridas — e vento soprando aqui é o que não falta com estes descampados imensos. Esta não foi das piores, segundo nos disseram, mas ainda assim era impressionante ver tudo acinzentar-se no horizonte e vir em nossa direção.

O vento que anunciava a tempestade.
Nós rumando à tempestade de areia que havia no caminho, no horizonte.

Passado o pior com as janelas devidamente fechadas, o vento forte ainda ficou por um tempo. O pobre Baina teve que descer do carro para verificar uma peça, e sua boina foi prontamente levada, ao que ele correu atrás, mas — já sendo um senhor de mais de 60 anos — não fez frente ao vento. Correu e acabou perdendo uma sandália que saiu do pé e o vento também achou de tomar. E o vento levava.

Vendo aquilo, disparei o que pude para correr por ele. Não sou uma lesma mas, confesso, tampouco faço frente ao vento mongol. Foi então que, enquanto eu meramente alcançava o pé de sandália, Barça passou feito um raio até alcançar a boina que já ia ao que parecia ser uma légua de distância no horizonte. Quase sumiu de vista, e depois voltou.

Todos salvos. Até mais, Gobi.

Continua…

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “O Deserto de Gobi, as Dunas de Khongor e os Penhascos Flamejantes: Tour pela Mongólia, dias 4 e 5

  1. Uuuuuuuuuufa, nosssa, impressionantes a regiao, as rochas, o solo e sua cobertura, o por de sol, o relevo, a areia, os animais, a natureza, os eventos como a tempestade de areia. Meu jovem, que aventura!… e que experiencias!… uaaaauu. emocionante a postagem. E a corrida contra o vento foi ótima. hahah a gente que lê fica torcendo para que tudo corra bem hahah parece filme de suspense. hahah
    Que tons magnificos dessas rochas. Mas a paisagem divina e que merece um belo poster é aquela onde ha uma linda mancha verde cheia de vida, com uma bela vegetação ja na borda do deserto e das dunas. Espetaacularrr.
    Beliíísssimo por de sol nas dunas, Imagino o esforço para subir colinas com areia hahah.
    Amei os camelos com 2 corcundas.
    O lado triste é sempre o humano com suas dificuldades de sobrevivência, particularmente as crianças. Tão poucos com tanto e tantos com tão pouco. Lamentavel. Pelo menos tem celular hahaha

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