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Karakorum, a histórica capital da Mongólia na Idade Média (Tour dias 8 e 9)

À 7ª noite do nosso tour, chegamos a Karakorum, a histórica capital medieval dos mongóis. Já havíamos cruzado por dias as estepes da Mongólia na nossa kombi, as paisagens secas do Deserto de Gobi no sul do país, e mesmo as estepes verdejantes banhadas pelo Rio Orkhon na Mongólia Central.

Agora era hora de um pouco (mais) de História e cultura neste nosso passeio. O nosso tour de 9 dias se completaria em breve, e estávamos já naquele misto de “o que falta ainda pra ver?” e uma vontade escondida de tomar um banho digno, deitar numa cama macia, e comer num restaurante na cidade. (Todos os tours começam e terminam na capital Ulaanbaatar.)

Naquela noite, tivemos a honra de assistir no restaurante do acampamento a um trio já maduro de músicos mongóis tradicionais, com aquele ar de veteranos de circo, daqueles que apreciam sua arte, a fazem bem, mas não adquiriram glamures econômicos nem midiáticos com ela.

No dia seguinte, o 8º dia, visitaríamos o que há a ver em Karakorum.

Cantores e músicos mongóis tradicionais em Karakorum. A cidade, por ser a mais histórica da Mongólia, concentra vários desses artistas. Afora o talento, sua simplicidade (apesar da indumentária) me chamou a atenção. Pusemos umas mesas pra lá e eles começaram a cantar ali mesmo nas cadeiras de restaurante, como fazem os fadistas em Portugal ou aqueles sambistas de raiz no Brasil.

A manhã começaria com uma visita aos impressionantes pavilhões de mosteiros budistas que há aqui e ao Museu de Karakorum (uma visita também interessante).

Um aviso sincero do tipo que as agências de turismo não lhe dão: Resta pouco ou pouquíssimo do que foi a capital medieval dos tempos de Chinggis Khan e seus filhos. Como seria a capital medieval de um povo que é nômade até no século XXI? Eu já mostrei as tendas montáveis e desmontáveis dos mongóis, assim como seu estilo de vida no século XIII (quando o conquistador Chinggis Khan viveu). MUITO de Karakorum eram habitações em tendas que não deixam ruínas ou grandes traços arqueológicos. No entanto, Karakorum tinha, sim, algumas preciosidades únicas.

O frade franciscano flamengo (isto é, de Flandres, na atual Bélgica) Guilherme de Rubruck (1220-1293) visitou Karakorum nos seus tempos áureos, como missionário, e registrou algo do que viu. (Meu ídolo.) Ele cruzou por terra desde Constantinopla (atual Istambul), passando pela região onde hoje está a cidade tatar de Kazan, na Rússia, cruzando a Rota da Seda na Ásia Central até chegar à então capital do Império Mongol em 1254. 

Ele esculhamba a cidade. De fato, em se tratando de um povo nômade, que preza mais a liberdade dos campos que a construção de obras arquitetônicas ou feitos urbanísticos, deve ter sido bem básica a Karakorum da Idade Média. Contudo, ele retrata um lugar cosmopolita ao extremo e marcado por imensa tolerância religiosa — rivalizando até com os dias atuais.

Havia mesquitas islâmicas, templos taoístas, budistas, e até uma igreja cristã nestoriana na Karakorum do século XIII, além de muitos templos “pagãos”. Árabes, chineses, persas e turcos viviam na cidade. Os mongóis daquela época, sendo espiritualistas que reverenciavam a Terra como mãe e o Céu Azul como pai, além dos seus ancestrais e os vários espíritos da natureza, tinham uma cabeça muito aberta para o lado de religião. Curiosamente, sabe-se que Chinggis Khan e os seus sucessores organizavam debates públicos entre sacerdotes de várias religiões — talvez até de forma mais autêntica que hoje em dia — e assistia curioso às argumentações entre monges budistas, frades cristãos, imãs islâmicos e outros.

Abaixo vão dois vídeos curtos de encenações de danças e músicas no que seria a corte do grande Khan, no século XIII. Esse espetáculo estava acontecendo numa tenda cultural pertinho de onde dormimos. Sem dúvidas você vai achar interessante.

Legal, hein?

O detalhe mais notável de Karakorum naquele tempo era uma árvore de prata no centro da cidade, erigida alta diante do palácio (este fixo) construído por Oguedei Khan, terceiro filho e sucessor direto de Chinggis Khan. À época de Oguedei, o império mongol já era enorme, e um ourives parisiense foi chamado a planejar a tal árvore. Dizem que ela tinha frutos também de prata pendentes dos seus galhos, que adentravam pelas janelas do palácio, assim como serpentes de ouro enroladas no tronco.

Naturalmente, a árvore já era. Ninguém achasse que tal quantidade de prata ficaria assim à toa por muito tempo.

Quando morre Oguedei — que era um cachaceiro e morreu de alcoolismo, mas que foi quem realmente organizou Karakorum, pois seu pai Chinggis preferia as campanhas militares e havia apenas designado o lugar —, o império mongol começa a balançar. Era difícil manter tamanha extensão territorial unida por muito tempo.

  • Chinggis Khan havia iniciado o império com a união dos mongóis e outras tribos centro-asiáticas em 1206. Faleceu em 1227.
  • Em 1229, num kuriltai (tradicional assembleia de líderes para eleição de um grande khan), Oguedei é eleito, mas vem a morrer em 1241.
  • Os próximos grandes khans, primeiro o seu filho Guyuk e depois o seu sobrinho Mongke, fariam reinados curtos, até a ascensão do seu outro sobrinho Kubilai Khan.
  • Kubilai Khan reinaria de 1260 a 1294, e foi o khan que completou a conquista da China e que Marco Polo encontrou quando esteve na Ásia.

Após a morte de Khubilai, com menos de um século de existência o maior império territorial que a História humana já viu começaria a se partir.

Expansão e, ao fim, divisão do Império Mongol no século XIII.

E Karakorum?

Karakorum começou a ser já deixada de lado quando Kubilai Khan decidiu fazer sua capital na histórica cidade de Xanadu, hoje na província da Mongólia Interior, na China. Ele depois se mudou para a cidade que ele chamou de Khanbaliq, e que não é outra senão a atual Pequim. Houve lutas fratricidas entre Kubilai e seus parentes que julgavam que ele estava ficando “chinês demais”. Khubilai, de fato, adotou muitos modos chineses e fundaria a que ele veio a chamar de Dinastia Yuan para governar toda China.

Quando Kubilai morre, seus descendentes continuam a governar este leste do império por muitas décadas, mas as outras regiões já se separam, como mostra a animação acima. Na atual Rússia, prospera Batu Khan, outro neto de Chinggis Khan, e no Oriente Médio os khans se convertem ao Islã para governar. Os descendentes de Khubilai na China, por sua vez, tornam-se budistas.

Não vou aqui entrar em detalhes do que ocorre daí em diante nas várias partes do Império Mongol. Já falei algo da Horda Dourada, formada por Batu Khan, quando visitei Kazan e o Tatarstão na atual Rússia. Basta saber que, na China, em 1368 os descendentes de Khubilai Khan são depostos pela ascendente Dinastia Ming, que governaria a China pelos 300 anos seguintes. 

Os chineses saem atrás pra escorraçar os mongóis e “dar o troco”. Em 1369, após retomarem Khanbaliq e a renomearem de Pequim (“Peking” e “Beijing” são latinizações do mesmo nome chinês, que significa literalmente “capital do norte”), eles atravessam o Deserto de Gobi e em 1388 arrasam também Karakorum. A única coisa que sobrou, literalmente, foram tartarugas de granito que deram muito trabalho pra destruir.

Já queimado do sol, com uma das tartarugas de pedra restantes do tempo dos khans, antes de os chineses da Dinastia Ming darem o troco nos mongóis e arrasarem Karakorum.

Mas eu falei de belos pavilhões de mosteiros budistas pra visitar em Karakorum.

De fato, há. O Mosteiro Erdene Zuu, em Karakorum, é o mais antigo da Mongólia, e data de 1585. É nesse período que o budismo tibetano adquire status de religião oficial dos mongóis, que a essa altura já voltavam a ser tribos dispersas e pouco expressivas no cenário mundial. Quando o então khan se encontra com o 3º Dalai Lama [o atual é o 14º, só para constar], cria-se uma conexão que permanece até os dias atuais entre os mongóis e os tibetanos. Todo o budismo na Mongólia, embora mesclado ao xamanismo tradicional “de raiz” daqui, é o da tradição tibetana — diferente do budismo tailandês, do zen-budismo japonês, etc.

As muralhas para o Mosteiro Erdene Zuu, no histórico sítio de Karakorum.
Aspirantes, já no perímetro do mosteiro.
Em meio aos pavilhões budistas.
Pavilhão e estupa. (As estupas, como esta na direita da foto, são edificações bem verticais que simbolizam a elevação na cosmologia hindu-budista.)
Estupas no Mosteiro Erdene Zuu.
São muitos os pavilhões, muitos com pinturas e detalhes históricos da vida dos primeiros Dalai Lama e dos primeiros líderes do budismo na Mongólia.
Alguns pavilhões pequenos e bem bonitinhos também.
No interior desse centro, muitos monges rezavam mantra e estudavam as escrituras budistas. (Não era permitido fotografar dentro.)

Uma curiosidade foi notar como todos os monges estavam acompanhados de um copinho de cerâmica contendo kumis, o tradicional leite de égua fermentado dos mongóis. E perto do abade, um idoso que visivelmente era o mais ancião de todos, havia um verdadeiro vaso pleno de kumis onde uma caberia uma pessoa dentro. Parecia uma pia batismal, só que com leite de égua.

Na saída, eu comentei com o nosso guia. “Os monges budistas aqui da Mongólia podem beber álcool?“. Ele fez uma cara de quem achou a pergunta estranha, ao que eu expliquei o que havia visto. 

Kumis não é ‘álcool’, é a bebida nacional“, esclareceu ele prontamente. (Aaaaah, tá certo…entendi. Tô sabendo. Como também já tive francês tentando me convencer de que “vinho não é álcool, vinho é vinho”, não posso dizer que os mongóis estão sozinhos nesse relativismo.)

Falando em leite de égua, ele reapareceria no almoço. Tivemos logo que tomar a estrada após a visita acima, e paramos para almoçar no caminho.

Os almoços aqui na Mongólia são um suplício, sobretudo no interior (onde não há restaurantes estrangeiros, só comida tradicional mongol mesmo). Os mongóis, numa atitude que talvez lhe pareça estranha, são avessos a tempero. O único tempero que eles admitem na cozinha é sal.

Solicitamos uma leva de pastéis fritos, que são algo tradicional aqui, com recheio de carne ou de batata com legumes. Estes últimos não tinham gosto de nada, só o sabor oleoso de massa frita na boca. Já os primeiros, de carne, quem comeu passou agruras até o dia seguinte (eu escapei, pois comi os insossos pastéis de batata).

Já era o nosso segundo almoço de pastéis neste tour. Pra beber, como os refrigerantes são todos “ao natural” (pois não há eletricidade suficiente para que as geladeiras de fato gelem), ofereceram-me um chá preto. Eu aceitei, pois precisava de algo para lavar um pouco a gordura do óleo na boca. Ao que aí me dou conta de que aquele ralo chá tinha um gosto ligeiramente estranho, de água salobra, e perguntei ao guia se eles aqui por acaso tinham o hábito de pôr sal no chá. “Sim“, respondeu ele confiante, como quem comunica algo de que se orgulhar. (Quase soltei um “P…que pariu”.)

Já Baina, o nosso motorista, apresentou à mesa a garrafa de kumis que trouxe guardada. Era uma garrafa pet, dessas transparentes de dois litros de uma imitação de fanta, repleta do líquido branco fermentado. Baina a abriu, se serviu e logo fechou mal fechado, ao que o leite de égua então não se conteve e subiu feito champanhe sob a atenção dispersa dos outros e o meu solitário olhar catatônico.

Foi um almoço dantesco.

A nossa mesa de almoço com a garrafa de kumis, já depois do acidente.
O nosso almoço de pasteis fritos. Ali diante o nosso guia (de chuca no cabelo) e o motorista (de boné). O ketchup na mesa era realmente a única coisa que tinha gosto.

Nesse 8º dia nós iríamos até o Lago Uguii (Ugii Lake), onde acamparíamos para a noite final do tour.

O lago em si não é fantástico, mas as paisagens são belas, sobretudo ao cair da tarde. Cavalos passeavam pelas margens, às vezes entrando com força como que por diversão. Não sei o nível de limpeza da água, mas entramos mesmo assim, e ninguém teve queixas. Embora não fosse o lago mais limpo do universo, estávamos todos precisando de um banho.

O nosso acampamento para a oitava noite do tour, às margens do Lago Uguii.
As margens do lago onde nos banhamos.
O cair da tarde.
Baina, o nosso motorista, e a kombi onde fizemos o tour, na vastidão da estepe mongol no entardecer.
Dança no céu.
Cair da tarde sobre o Lago Uguii.
Pôr-do-sol do outro lado do lago.
Parecia haver um incêndio por detrás das colinas ao longe.

No 9º dia, despertamos sabendo que aquele seria o dia final do passeio. Ainda tínhamos uma longa rota pela frente, mas àquela altura sabíamos que estávamos perto da conclusão e batia aquela vontade de chegar.

De fato, esse último dia quase foi de pura estrada. Nos detivemos apenas no Parque Nacional Hustai, onde cavalgam alguns dos últimos cavalos selvagens do mundo (do tipo chamado de “cavalo de Przewalski”. Sendo selvagens, no entanto, eles distanciam-se tudo o que podem das pessoas e dos carros, e não foi possível observar nada a olho nu, só usando binóculos uns cavalos muito ao longe. (Confesso que achei uma visita fastidiosa, apesar de todo o meu respeito aos cavalos.)

Paisagens do Parque Nacional Hustai. As vistas são semelhantes às do restante da Mongólia Central, mas aqui não vivem pessoas. As agências fazem um alarde danado desse parque, mas na prática não vimos nada exceto alguns cavalos muito ao longe, com a ajuda de binóculos potentes.
Enfim de volta ao asfalto, na estrada de retorno à capital Ulaanbaatar.

Chegamos ainda com luz do dia. Estar de volta a Ulaanbaatar dava uma sensação familiar e civilizacional após mais de uma semana rodando pelo interior e dormindo cada noite em um lugar diferente. Jagaa, o dono do albergue e da agência que usamos, sorriu vendo como a minha barba havia crescido nesse ínterim.

Despedimos-nos ali de Baina e Barça, respectivamente o motorista e o guia, diante da nossa épica kombi soviética. Eu ainda teria um par de dias na cidade antes de tomar o meu rumo, mas aqui acabava o nosso inesquecível tour de 9 duas pelo interior da Mongólia.

Na chegada a Ulaanbaatar após 9 dias juntos pelo interior da Mongólia.

Eu deixo a vocês de lembrança dois vídeos que fiz dos cantores tradicionais em Karakorum. (No primeiro, reparem como a técnica de canto muda entre o primeiro e o segundo minuto. Já o canto feminino mongol a princípio assusta, mas depois de uns minutos, quando ela termina, parece que você despertou de um transe.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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