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Ulan Ude: Bem vindos à República da Buryatia, na Sibéria

Estamos de volta à Rússia, na Sibéria, num recanto que a grande maioria dos ocidentais sequer sabe que existe: a Buryatia. Nesta viagem eu aprendi que a Rússia está longe de ser homogênea, e que guarda muitas culturas regionais que nós ocidentais sequer imaginamos.

A primeira vez que ouvi falar da Buryatia foi, curiosamente, numa loja de souvenirs no Canadá. Não, eles não estavam vendendo souvenirs russos por lá. O funcionário da loja (“100% quebequense“, nas palavras dele próprio), no entanto, acontecia de ser uma daquelas pessoas de quem você nunca esquece. Era época de Natal na Cidade de Québec, e ele dizia estar ali fazendo um bico sazonal para complementar a renda: era professor de idiomas. De 7 idiomas, pra ser mais preciso, dos 14 que — segundo ele — falava.

Se você adivinhar em qual idioma é essa música, eu lhe dou a loja inteira“, prometeu ele com a segurança de quem sabia que eu não iria acertar, brincando com o sistema de som da loja sob seu controle. De repente, as músicas comerciais americanas foram substituídas por um ritmo e língua que me foram completamente estranhos. Não sabia, nem tinha como saber.

Buryat“, esclareceu ele. Diante da minha cara de “E que diabos é isso?”, continuou pra dizer que se tratava de uma língua indígena siberiana. Eu à época nem sabia que havia indígenas na Sibéria.

Mal também sabia eu que, dali a uma década, estaria topando pessoalmente com os buryats e escutando sua língua em primeira mão.

PRÓLOGO: No trem de retorno, cruzando a fronteira por terra de volta da Mongólia à Rússia

Naquela noite eu dormi pouco. Demos partida de Ulaanbaatar à tardinha, e era prevista a nossa chegada no amanhecer do dia seguinte. Umas 14h de trem me separavam na capital mongol Ulaanbaatar de Ulan Ude, com a fronteira entre a Mongólia e a Rússia no caminho. Eu já havia feito essa travessia antes, e agora me preparava para fazê-la no sentido oposto, de volta à Rússia.

A semelhança entre os nomes não deixa esconder o parentesco de sangue e linguístico entre os mongóis e os siberianos buryats. Onde Ulaan Baatar em mongol significa “Herói Vermelho”, dos tempos soviéticos, Ulan Ude na língua dos buryats — que é da mesma família — significa “Ude Vermelho”, Ude (ou Uda) sendo o rio que corta a cidade. Ambos os nomes datam dos anos 1920-1930, quando a União Soviética estava consolidando suas posições.

Ali fica a cidade siberiana de Ulan Ude, a leste do Lago Baikal.

Karla, minha amiga canadense que havia me acompanhado nas últimas semanas (e na travessia anterior), havia retornado ao Canadá, e minhas companhias agora eram muito mais exóticas. 

Eu dividia o meu compartimento pra 6 pessoas com 3 outros homens. O primeiro era um coreano que não falava inglês. Se pusesse dentes postiços, seria um perfeito sósia coreano do Batista, aquele personagem bobo da televisão. Ria, com a cara boba, sem entender nada do que os não-coreanos lhe falavam, e nos olhava curioso como quem se divertia sozinho. Volta e meia seus colegas coreanos vinham dos outros compartimentos dar “oi” a ele e nos olhavam também com ar animado. 

O segundo, sentado diante de mim, era Victor, um senhor russo de seus 60 anos, cara inchada de beberrão e breve aroma de nicotina, mas simpático após o início. Era professor de alemão, mas falava um pouco de inglês também.

Por fim, Juan, um chileno hippie de seus 40 anos, coque do cabelo na cabeça, e ar de quem já usou muitas drogas na vida. Aquele olho meio perdido, e não parava de falar. Conseguiu falar comigo por 7h sem se dar conta de quem nem o meu nome soube. Até defender a Coreia do Norte ele defendeu, e falava das mulheres da sua vida e suas aventuras como dono de bar na Patagônia chilena. 

Eu fiquei com esse triunvirato pelas 14h de viagem. Victor, de longe o mais razoável dos três, chegou mesmo a cantar “Minha Jangada vai sair pro mar…“, de Dorival Caymmi. Poucos brasileiros sabem, mas a literatura brasileira — e, em particular, autores baianos como Jorge Amado e Dorival Caymmi — são muito conhecidos e bem quistos entre os russos. Houve inclusive uma adaptação de Capitães de Areia para o cinema que marcou época na Rússia dos anos 1970. (Mais sobre isso aqui, nesta reportagem do Estadão.) Victor contava-me empolgado de suas impressões, às vezes ensaiando uns versos de Caymmi. (Que surreal para uma jornada de trem na Sibéria.)

Aproveitei a deixa para perguntar o que os russos realmente acham de Vladimir Putin. Como praticamente todos os outros russos a quem perguntei, Victor opinou que ele é bom para a Rússia na política externa, mas suas políticas domésticas, não. A Rússia voltou a ser respeitada no mundo depois da hecatombe dos anos 1990, mas se você olhar por dentro, a Rússia não está sensacional.

Victor comentou que no tempo soviético ninguém era rico, mas todo mundo tinha casa, comida e trabalho — às vezes um carro. Já hoje há muita gente riquíssima, e outros na pindaíba. “Você vai em Moscou, ou Irkutsk, tudo bem. Mas vá num vilarejo aqui na Sibéria pra você ver, os homens sem emprego, em casa bebendo vodka“, comentou ele com aquela indignação subjacente que parece tão comum aos russos.

O controle de fronteira demorou as mesmas 4h da vinda, só que desta vez ocorreu no miolo da noite. Ao amanhecer, depois de umas horas de sono quebrado, desembarcava eu de mochila e cuia nas ruas de Ulan Ude para passar um par de semanas aqui.

A estação de trem de Ulan Ude, terceira maior cidade da Sibéria.

Estamos numa cidade de 400 mil habitantes na Sibéria, na capital da República da Buryatia. O que falta a Ulan Ude em fama lhe sobra em personalidade cultural. Ela é francamente uma das cidades mais interessantes onde se deter por uns dias numa jornada através da Rússia. Ela cabe tanto num roteiro trans-siberiano propriamente dito (entre Moscou e Vladivostok, na Rússia de ponta a ponta) quanto num trans-mongólico com Pequim como destino.

Eu já comentei antes sobre como a Rússia é dividida em unidades da federação com diferentes níveis de autonomia. O maior desses níveis é o de “República”, como no caso da República do Tatarstão e aqui da República da Buryatia. Elas são uma herança do tempo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (a União Soviética), e estas que se mantiveram dentro da Rússia são basicamente aquelas que não obtiveram soberania completa (diferentemente do Cazaquistão, da Ucrânia, e de outros 13 países que se tornaram independentes com o fim da União Soviética em 1991).

O que torna Ulan Ude tão interessante, pra mim, é a sua raiz indígena siberiana, diferente das características russas comuns, e sua religiosidade xamanista-budista que se destaca numa Rússia dominantemente cristã ortodoxa.

A vista à paisagem siberiana, no alto de uma das colinas nos arredores de Ulan Ude. Esses muitos laços sagrados para os buryats e demais povos nativos siberianos são devoção aos espíritos, sejam da natureza, sejam de ancestrais. (Cheguei a mostrá-los quando visitei o Lago Baikal aqui na Sibéria.)
Aquele campo com os laços amarrados fica nos arredores deste templo budista, o Datsan Rinpoche. Vale sua visita.
Aqui na Buryatia você se habitua a ver marcos budistas com as coisas escritas em russo. (Esse símbolo aí é a águia Garuda, um dos animais da mitologia hindu-budista.)
Olha o tamanho deste rosário budista.
No interior do templo, um monge fazendo orações. (Pra você compreender direito como eram essas orações, e pra você fazer em casa, veja o vídeo abaixo.)

A vistas aqui do alto são o melhor do Datsan Rinpoche. (Você chega aqui tomando o ônibus n. 97 na frente do Hotel Baikal Plaza, até o fim de linha.)

Aqui em Ulan Ude eu me acostumaria a ver, com os buryats, gente de feição asiática mas roupas e modos russos. (Os buryats, no entanto, em geral são mais simpáticos e gentis que os outros russos.) Era curioso. Há também obviamente muita gente de sangue misturado.

Eis as buryats, com suas feições asiáticas e a elegância que ditam os costumes russos. As outras duas, que você saberá identificar, são turistas ocidentais que estavam no mesmo albergue que eu. Numa dessas tardes em Ulan Ude.

Na manhã de sol da minha chegada, eu me perdi caminhando da estação para o centro. (A saída da estação é para o lado “errado” da cidade, que fica dividida pela ferrovia, então é preciso subir e cruzar uma passarela.) Pedi em russo informação a alguém na rua, descobri a direção correta, e por fim cheguei à emblemática praça central com sua cabeça gigante de Lênin — a maior em todo o mundo — e onde também ficava o meu albergue.

O albergue era manejado por um quarteto de jovens russos, e ele seria a minha casa por um par de semanas. Eu fiquei tanto tempo porque precisava escrever algumas coisas, e Ulan Ude se provou um lugar pacato e adequado a isso. Eu aqui abraçaria um rotina tranquila, de almoçar sempre no mesmo lugar e ver sempre algumas mesmas pessoas, e foi aqui que comecei a ser assaltado por uma sensação de que eu poderia morar na Rússia.

Ulan Ude tem uma artéria principal que, num certo ponto, passa de rua a calçadão florido. É uma caminhada agradável.
Arco comemorativo da fundação de Ulan Ude como cidade em 1891.

O que me cativou em Ulan Ude foi, talvez, a vida sossegada. Enquanto que por toda a América Latina há criminalidade e por todo o Ocidente há tensões sociais palpáveis crescentes entre ricos e pobres, aqui eu senti encontrar um espírito comunitário mais simples, daqueles onde as pessoas ainda vão com as famílias às praças no fim do dia, as crianças compram sorvete no calçadão no domingo à tarde, e você trafega sem receios. Estar aqui me parecia quase como estar num retiro urbano, retirado dos agitos do mundo.

Flores no calçadão de Ulan Ude.
Sossego.
Aqui eu almoçava todos os dias, na cantina russa por detrás do jardim.
Bela igreja ortodoxa no fim do calçadão.
Como estamos na Rússia, há marcos em honra aos mortos na Segunda Guerra Mundial, conhecida aqui como A Grande Guerra Patriótica.
O coração da cidade é a Praça dos Soviéticos (Ploschad Sovetov), com essa enorme cabeça de Lênin.
Uma pedalada no careca! Nos tempos soviéticos isso me levaria preso, mas hoje em dia a cabeça de Lênin em Ulan Ude virou objeto geral de diversão fotográfica.
À noite, o prédio público ali atrás de ilumina com as cores da bandeira russa.
À noite, esta fonte de ilumina e toca música clássica também. Vira ponto de encontro entre jovens e lugar onde as famílias vêm passear. No vídeo abaixo você tem uma palhinha, com a água ao som de Vivaldi. (Vejam que lugar perigoso é a Rússia!)

Após semanas na Mongólia, e meses já sem um corte de cabelo, eu tinha a tarefa de consegui-lo aqui mesmo sem ser fluente em russo (ou buryat). Acabei caindo nas mãos de uma professora de inglês que fazia bico de verão como cabeleireira. Como de hábito com os russos, depois de um tempo aquela casca dura inicial cai, e aí é só amor — eles se revelam os humanos calorosos que são. Minha cabeleireira era de Khabarovsk, e contou-me como veio morar aqui por o marido ter sido transferido. Essa abertura, rara entre norte-americanos e europeus ocidentais, é algo que aproxima os russos de nós latino-americanos. 

No Subway da praça, eu conheceria Dymbryl, um rapaz buryat animadíssimo e que era o único funcionário fluente em inglês. Sempre que eu chegava, era ele quem vinha me atender. E a cada dia que eu ia, ele me fazia uma pergunta diferente sobre a Europa ou o Brasil, já que nunca havia viajado para além dali. Eu, em retorno, a cada vez lhe perguntava coisas diferentes da Buryatia. Ele me olhava sorrindo, aquele sorriso que lhe apertava ainda mais seus olhos asiáticos, com a cara de quem achava curioso o estrangeiro que de repente havia parado ali e parecia estranhamente interessado nas coisas que lhe eram mundanas.

No restaurante Appetite, a cantina onde eu almoçava todos os dias, Alissa era uma funcionária russa que me cumprimentava com entusiasmo. A fala apresentando os itens do buffet era decorada, mas os sorrisos, não. Jamais saiu do seu protocolo, nem eu saí do meu — incapaz que era de ter uma conversa digna em russo. Mas tal qual o protagonista de Amor dos Tempos do Cólera, eu me comprazia só de voltar ali e ter aquele sorriso diário.

No albergue, os componentes do meu quarto mudavam de tempos em tempos, e eu tive a oportunidade de conhecer figuras fascinantes. Lembro-me de que, quando cheguei, uma francesa negra escutava um verdadeiro pou-pourri de músicas dance dos anos 90 enquanto dormia (?) feito um casulo nas cobertas. Já na cama ao lado da minha, Ayana, uma garota mongol de seus 20 e poucos anos e que morava no Japão, assistia animê e ria sozinha. Era daquelas jovens que parecem que têm gasolina no sangue. Quando eu disse que era cientista, ela perguntou “Breaking Bad?“, imaginando — enquanto me olhava, mascando chiclete de boca aberta — se eu fazia metanfetamina igual ao professor de química do seriado.

Conheci um norte-americano gordo que estava dando a volta ao mundo de bicicleta, e o curioso Greg, um tio polonês motoqueiro que conversava feito Billy Mack, de Simplesmente Amor (2003), e estava dando a volta ao mundo numa moto. Por alguma razão, essas voltas ao mundo sempre começavam aqui do fim, de Ulan Ude.

Vocês podem perceber que tive uma estadia simples mas memorável aqui, antes de seguir viagem rumo ao extremo leste da Rússia. Mas para não ficar só nisso, mostro-lhes dois lugares bastante interessantes que visitei aqui — de fato, as duas visitas que julgo as mais interessantes pra quem se detiver aqui um par de dias. Elas são o mosteiro budista Datsan Ivolginsky e o Museu Etnográfico da Buryatia.

No Mosteiro Datsan Ivolginsky, nos arredores de Ulan Ude. Você provavelmente não sabia, mas o budismo chegou aqui às florestas boreais da Sibéria e é hoje a religião dominante entre os buryats. (Pra chegar, tome o ônibus 130, do terminal em frente à catedral, e depois troque na estrada para uma van. Se você disser ao motorista “Datsan Ivolginsky”, ele o orienta. Sai por 45 + 25 rublos.)

O Datsan Ivolginsky, aberto em 1945, é em si quase um milagre: foi o único centro budista em toda a União Soviética, e ainda antes da morte de Stálin (em 1953).

Como na Mongólia, a tradição budista aqui é da linha tibetana, e o mosteiro tem várias cópias históricas de escrituras budistas naquele idioma dos Himalayas. Já a arquitetura dos templos é de influência coreana, coisa que fica clara se você conhecer os templos budistas que há na Coreia do Sul

Um pavilhão no Datsan Ivolginsky. Essas tonalidades e arquitetura são típicas coreanas.
Eu no complexo.

O maior chamariz daqui, contudo, é a história de um monge que morreu e jamais se decompôs — e cujo corpo não-mumificado pode ser visto.

De acordo com a história, o lama budista buryat Dashi-Dorzho Itigilov (1852-1927) faleceu de forma anunciada em plena meditação. Ele avisara aos demais monges que migrassem da União Soviética, pois perseguições teriam início, mas decidiu ele próprio ficar, pois já estava velho. Solicitou aos demais monges que cantassem a ele mantras funerários, e em plena meditação ele parou de respirar. Dizem que o corpo chegou a ser enterrado e exumado, mas segue sem se decompor.

Se tem algum truque, eu não sei. O que sei é que você pode ver o corpo ainda em posição de lótus dentro de uma espécie de caixa de vidro no altar de um dos templos aqui. Obviamente se trata de alguém morto, você percebe, mas de fato sem a decomposição que seria esperada — visto que ele morreu há quase um século. (Você verá budistas fervorosos aqui alegando que ele não morreu, que está só “hibernando”.) Nesse pavilhão não é permitido tirar fotos, mas você pode pagar o ingresso e entrar. Verá muitos fiéis em devoção levando os laços azuis e amarelos para prestar suas honras.

Perto dali, a cachorrada achou de gostar demais do xale da minha acompanhante, a neozelandesa Jessie. (E o xale nem era dela, era emprestado da indiana do albergue.)

O outro lugar muito interessante a se visitar é o Museu Etnográfico, que conta com dezenas de casas originais de vários povos indígenas siberianos e também dos colonos russos que vieram assentar-se aqui a partir dos idos de 1500. (Você chega até lá com o ônibus 37, da frente do Hotel Baikal Plaza, e avisa ao motorista que vai ao “musey”.)

Pra quem curte arquitetura tradicional, antropologia, ou simplesmente imaginar como deveria ser morar na Sibéria nos séculos passados, vale muito a pena. (Há painéis explicativos em inglês.)

Casa tradicional dos siberianos evenks, feita com cascas de árvore e às vezes peles. No Museu Etnográfico de Ulan Ude. É do idioma evenki que se origina a palavra “shaman”.
Escultura evenki em madeira, de uma espécie de guardião na floresta.
O Museu Etnográfico, afora a área indígena, tem várias edificações originais dos séculos XVIII, XIX e XX na região.
Igreja ortodoxa.
Casas dos cossacos, que é como foram chamados os migrantes (brancos, cristãos) oriundos da Ucrânia e da Rússia que vinham assentar-se nestas fronteiras do império na Sibéria e no leste distante.
Interior de uma das casas. Lembram algo as casas do tempo do Brasil Colônia.
O mais impressionante aqui são os desenhos talhados em madeira nas casas.
Olha estas janelas e os detalhes de madeira nas casas.

Claro que, como no oeste dos Estados Unidos, estamos falando de uma história de séculos de conquistas, ocupação, conversão cultural (e, muitas vezes, religiosa) forçada, e subjugação de povos indígenas a um crescente império. Foi o caso na América do Norte e foi o caso aqui na Rússia, embora este caso do “Leste Distante” russo nos seja bem menos conhecido — mas não foi e não é menos real.

O que me parece, contudo, e sem passar a mão na cabeça dos russos por isso, é que aqui parece ter havido e continuar a haver uma miscigenação — tanto biológica quanto cultural — muito maior que na América do Norte. Já morei no Canadá, e ainda estou pra ver províncias inteiras lá terem o perfil indígena que certas províncias aqui da Rússia têm. Ou indivíduos de sangue misturado serem tão comuns quanto são cá na Rússia. Na América do Norte a dizimação humana e cultural dos nativos foi muito maior que aqui.

De volta ao albergue, eu certa vez ouvi Dennis, o buryat dono do estabelecimento, comentar que não há movimento nacionalista independentista na Buryatia. “Eles se asseguram de reduzir discriminação, etc., pra não cultivar sentimentos separatistas como existem na Chechênia“, explicava ele a alguém os cuidados dos dirigentes aqui. Além disso, ele comentou (jocoso) que os buryats são em geral tranquilos, diferentes dos chechenos.

De fato. Como eu disse, achei os buryats muito sossegados e em geral gentis, mais que a média dos russos. Ganharam a minha simpatia. Há mais de dez anos atrás, quando eu ouvi falar pela primeira vez neles no Canadá, não imaginava que viria um dia a conhecê-los. Pois, a vida dá dessas voltas. E eu, de volta cá à Rússia, seguiria agora a terminar meu percurso até o Oceano Pacífico. Rumo a leste, a descobrir o que há para além da Sibéria.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Ulan Ude: Bem vindos à República da Buryatia, na Sibéria

  1. Eu jamais encontraria um relato como esse nos blogs de viagem por aí. Aliás, este não é mesmo um mero blog de viagem – como os belos relatos sobre Alexandria demonstram. Mais uma vez, muito obrigado por essa garimpagem cultural que você faz tão bem, caro Mairon. Grande abraço.

    1. Gostei do termo, garimpagem cultural. E faço com muito gosto, Renê. Um obrigado enorme pelo comentário, pelo encorajamento e por sua gentileza. Bem vindo, e um grande abraço!

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