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Para além da Sibéria: Rumo ao Leste Distante da Rússia

O que há para além da Sibéria? Consideramos a Sibéria tal “fim de mundo” que às vezes esquecemos que há ainda mais um tanto de Rússia depois dela, até o Oceano Pacífico. O que haveria ali? Nada?

Eu me lembro que, há alguns anos na Europa, conheci uma sorridente garota russa encantada por conhecer um brasileiro. (O Brasil goza de muito boa fama dentre os russos.) Ela me disse ser do “Leste Distante”, quando lhe perguntei de que parte da Rússia era. “Leste Distante?“, fiquei eu a cogitar, deduzindo o significado mas ouvindo aquele termo pela primeira vez na vida. 

Pois bem, eu hoje me encontraria aqui na Rússia, rumando para o seu Leste Distante, como é chamada a imensa região russa a oriente da Sibéria, a norte da China e das Coreias.

No interior da Rússia onde eu me encontrava. Pobre, mas singelo à sua maneira. Vista do trem.
Numa das paradas após zarpar de Ulan Ude.

A maior parte dos viajantes não chega a conhecer este leste russo — em geral entram pela Mongólia e vão parar na China. É compreensível, mas eu sou curioso para conhecer estas áreas onde os outros pouco vêm.

Além disso, eu havia prometido visitar aquela russa sorridente que eu havia conhecido anos atrás. Isso demandava uma parada em Belogorsk, cidade na região de Amur, a um dia e meio de viagem de trem de Ulan Ude.

Em um dia e meio no trem acontece muita coisa. Neste caso, eu fui de 3ª classe, no vagão aberto platzcart, sem compartimentos fechados, e a muvuca estava instaurada. Havia uma folia de russos no vagão, com crianças, travesseiros, cortinas, comidas, e chá. Não sei qual a situação com bebidas, mas não vi ninguém enchendo a cara, e vi a polícia levando alguém que — segundo me disseram — havia violado a lei de não fumar a bordo. (R$ 100 de multa, 1500 RUB, mesmo entre os vagões. A lei mudou desde que eu havia ido num platzcart na Rússia em 2012 e ficado com os olhos ardendo de tanta fumaça de cigarro no interior do trem.

As pessoas levantam-se pra lá e pra cá, e há um grande clima coletivo, quase família. Sugiro a experiência àqueles que não são muito tímidos nem fissurados demais em privacidade o tempo todo.

Sentado diante de mim por um dia e meio, foi um uzbek de seus 40 anos. Homem simples, do tipo que fala do carro estacionado na rua e da chuva. Ligeiramente taciturno, de Tashkent, a capital do Uzbequistão. Não falava muito, mas volta e meia trocávamos umas palavras em russo. Ele me ensinava algumas no idioma uzbek e sorria com a minha pronúncia.

A coisa ficou bem mais interessante quando começou a aparecer a sua irmã para vir fazer as refeições conosco. Dizia ele que era irmã, e parecia mesmo. A moça apareceu linda, aquela beleza rebelde quase cigana, num belo vestido vermelho e prata, embora simples. Maçãs do rosto pronunciadas formando feições centro-asiáticas de pele morena, e aquele olhar esperto de mulher que fala pouco mas lê até mentes. De repente me vi com vontade de ir conhecer o Uzbequistão.

Eles vinham quase como retirantes numa viagem longa por terra, com a bagagem cheia de comidas para o caminho. O uzbek trazia consigo uma garrafada de pimentas e alho que chegou a gerar gás dentro. Ele abria devagar, deixava o gás sair, pegava uma pimenta, a segurava com uma mão e a mordiscava para dar sabor, enquanto com a outra mão comia uma gororoba de pão lascado e macarrão instantâneo quebrado, irrigado com água fervente do dispensário do trem.

Seus pães eram umas rodas grossas, com cara de pão camponês da ceia de Cristo. Um pão denso, comida de eremita, desses pra viajante não passar fome. Curioso foi quando o último dos pães se revelou embolorado, já repleto de manchas azuis, como se você o tivesse deixado uma semana ao relento. Ele não se deteve. A funcionária russa com o carrinho vendendo quitutes aconteceu de passar na hora e me lançou aquele olhar cúmplice de quem diz “Esse aí é doido”. Ela chegou a comentar algo com ele, ao que o uzbek respondeu dizendo que está ruim pra os russos, mas que ele é uzbek e que pra ele estava bom.

E quer saber o pior? Ele me ofereceu. Em Roma, faça como os romanos. Eu não estava no Uzbequistão, mas fiz como os uzbeks, e partilhamos o pão embolorado.

Eu com um insosso pão comprado no trem, diante do meu companheiro de viagem uzbek e a sua mágica garrafada de pimentas, lascando pão seco na panelinha de esmalte onde comia.

Depois da cidade de Chita a vista do trem fica muito mais interessante, com menos zona rural e mais vegetação, com rios e algumas colinas. Adentramos o Leste Distante, menos habitado que a Sibéria, e onde há também bem menos paradas.

No Leste Distante da Rússia as paisagens campestres da Sibéria vão gradualmente sendo substituídas por vistas com mais rios, florestas e colinas.

No segundo dia, a moça uzbek trocou o vestido vermelho por um púrpura, aquele roxo tipo Paixão de Cristo. Aos meus quase 33 anos, a minha paixão era outra.

Tomávamos chá preto como água — é o que se faz tradicionalmente aqui —, compartilhando as sacolinhas de chá entre os três. Dali a pouco eu chegava a Belogorsk, esta miúda cidade russa perdida no quase-nada, mas que acontece de estar na rota da ferrovia trans-siberiana.

Desembarquei no que era obviamente uma cidade pequena, de 70 mil habitantes. Prédios habitacionais comunistas estavam por toda parte, e uma estátua dourada de Lênin diante da estação. 

Bem vindos a Belogorsk.
Prédios habitacionais dos tempos soviéticos. (É decrépito, mas lembrem que aqui ao menos todo mundo tinha habitação. São condições melhores que a dos milhões que vivem em favelas na América Latina.)

Era um domingo de manhã, e aos poucos algumas pessoas saíam às ruas vazias. Pedi informação a um tio doidinho, daqueles que ficam com a boca aberta, passeando com o cachorro, e me orientei um pouco. Eu tinha uma reserva de uma noite num hotel aqui, para no dia seguinte zarpar a Blagoveshchensk, a cidade da minha amiga russa sorridente a quem me referi anteriormente. (Blagoveshchensk é uma cidade bem maior, mas fora da rota trans-siberiana. Então é preciso trocar de trens ou tomar um ônibus aqui de Belogorsk.)

O meu hotel aconteceu de ser bom e confortável — uma bênção após duas noites dormidas na 3ª classe do trem. À recepção, uma loira elegante e estonteantemente bonita extraiu de mim todo o meu russo, pois ela não dizia uma única palavra em inglês. Cheguei a confundir amanhã (zavtra) com café da manhã (zavtrak), e ela profissionalmente me explicava de novo, sem nada das rudezas que você pode ter experimentado em Moscou ou São Petersburgo. Aqui no interior, os russos são muito mais afáveis.

Perguntava-me o que havia pra fazer aqui, Belogorsk sendo claramente uma dessas cidades pequenas do interior da Rússia que quase não veem turistas. Acho que há mais turistas estrangeiros em Feira de Santana do que aqui em Belogorsk. Às vezes as pessoas me olhavam curiosas; às vezes, no restaurantes, comentavam entre si brevemente e me olhavam, até que uma funcionária perguntou de onde eu era.

— “Brazil! Nossa! Longe!

Eu sorria.

— “A trabalho?“, continuava ela, em russo, sob o olhar curioso das companheiras.

— “Turismo“, respondi eu manejando esta conversa básica em russo.

— “Turismo em Belogorsk?!“, e ela riu, e elas se olharam como se essa tivesse sido a piada do dia, como quem sabia que não tinha absolutamente nada pra ver aqui. Eu ri também, pois estava divertido, e comentei que no dia seguinte iria para Blagoveshchensk. 

De fato, há muito pouco, praticamente nada, mas às vezes é bom assim pra a gente conhecer como é um lugar ainda não modificado pelo turismo. Deixo vocês com umas belas e simples fotos das ruas quietas de Belogorsk, tiradas antes de eu seguir rumo até Blagoveshchensk na manhã seguinte.

Pelas ruas pacatas do centro de Belogorsk.
Praça com muitas flores bem cuidadas.
Senhoras a vender frutas, verduras e cogumelos.
Mercadão no estacionamento, em Belogorsk.
Propagandas.
O que me parece um marco em homenagem à fundação da cidade em 1860.
Estátua de um guarda com o gato resgatado na mão, supõe-se que da árvore. Eles aqui na Rússia são muito tradicionais, ainda mais no interior.
Ruas pacatas do dia em que visitei.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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