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De Smyrna a Izmir: De volta à Turquia, na primavera

Era uma vez uma antiga cidade grega chamada Smyrna. Estamos na costa do Mar Egeu, mas do lado leste, onde hoje fica a Turquia. A gente às vezes se esquece de que por muitos séculos tudo isso era grego. 

A região do Mar Egeu. Izmir está ali no centro, a leste do mar.

De grego antigo, a grego antigo sob domínio de Roma, a grego medieval cristão ortodoxo (bizantino), até a chegada dos turcos otomanos em 1400. Vindos do centro da Ásia, eles tomaram tudo isto aqui e aqui estão até hoje.

A gente não estuda isso na escola, mas por séculos deixou de haver uma “Grécia”. Os gregos viveram misturados com turcos, búlgaros e outras nacionalidades sob o sultão otomano, até reconquistarem independência com um estado nacional grego em 1821. Ainda assim, grande parte dos gregos ficaram fora dessas fronteiras, dispersos pelo império. Um desses lugares que ficaram de fora foi Smyrna.

Quando falamos na Primeira Guerra Mundial, só pensamos em Alemanha e França (e às vezes um pouquinho também em Rússia e Inglaterra), mas havia muito mais em jogo. Uma das grandes disputas era a ambição grega de finalmente retomar para si o que haviam perdido para os turcos em 1400: toda a península da Anatólia (onde ficava Smyrna) e a cereja do bolo, Istambul, que a essa época ainda era conhecida internacionalmente pelo seu nome grego medieval de Constantinopla. (O nome “Istambul” só ganha uso internacional muito tardiamente, em 1928, quando os turcos abandonam o alfabeto árabe e adotam o alfabeto latino.)

Às vezes a gente fala em “perder a batalha, mas ganhar a guerra”. Aqui foi ao contrário. O império turco otomano perdeu a guerra e se desintegrou em 1918, derrotado junto com sua aliada Alemanha; mas ele venceu a mais crucial batalha, que lhe permitiu manter o domínio sobre Constantinopla e sobre estas terras: Gallipoli (1915-1916), em que franceses e ingleses, aliados dos gregos, lançaram um fracassado ataque rumo à capital e foram derrotados pela resistência turca. Se essa batalha tivesse tido um desfecho diferente, muito provavelmente os turistas que hoje visitam Istambul estariam visitando uma Constantinopla grega moderna.

(Quem assistir ao filme “Destino de uma Nação” [Darkest Hour no original] de 2017, sobre o premiê inglês Winston Churchill no início da Segunda Guerra, verá referências sobre seu embaraço em Gallipoli. Acontecia de ser ele o Lorde do Almirantado que estava à frente dos planos fracassados de invasão à Constantinopla turca em 1915.

Quando acabou a guerra, começou outra — uma outra de que muito pouco ou nada ouvimos falar. Em 1919, após o fim da Primeira Guerra Mundial e a derrota do império otomano, os gregos viram a oportunidade ideal para retomar as terras perdidas para os turcos no passado. Com o auxílio da numerosa população grega ainda vivendo sob domínio turco (para se ter uma ideia, Smyrna nessa época tinha mais gregos que a cidade de Atenas), assim como também dos armênios (que, sendo cristãos como os gregos, sempre foram aliados a estes, contra os islâmicos turcos), tropas gregas desembarcam aqui na costa turca do Mar Egeu.

Essa Guerra Greco-Turca (1919-1922), de que pouco se escuta, começaria e terminaria em Smyrna. Os gregos invadem, conseguem adentrar pela Anatólia e tomar outras cidades, mas são detidos antes que pudessem chegar a Constantinopla. Os turcos reagem, liderados por Mustafá Kemal Ataturk, e revertem os avanços gregos. A guerra termina em Smyrna em 1922, onde — quatro dias depois — um incêndio provavelmente proposital toma conta da cidade e queima sobretudo os bairros tradicionais gregos e armênios.

O resultado foi um escambo de populações. Turcos que viviam no que agora era Grécia foram convidados a se retirar para o que em 1922 se constituiu como República da Turquia, e os gregos que vivam em Smyrna e outros domínios turcos refugiaram-se na Grécia. Se você conversar com gregos ou turcos hoje, pergunte-lhes sobre seus avós, e frequentemente você ouvirá histórias de migração dessa época.

Smyrna passou então a se consolidar como uma cidade turca, que os turcos adaptaram como Izmir, e que eu viria a visitar um século depois. 

Em Izmir, na Turquia.

Estava eu voltando à Turquia depois de alguns anos, para rever alguns lugares e conhecer outros novos.

No avião, os aeromoços vestiam-se como galãs de churrascaria: colete preto com botões dourados, por cima de uma camisa branca desabotoada até mostrar os cabelos do peito. Propagandas de Omo (sim, o sabão em pó, que você crê brasileiro mas que é internacional) decoravam as poltronas da Pegasus, aerolinha turca de baixo custo. 

Eu ia para o aniversário de uma amiga turca em Izmir. Era começo de primavera no hemisfério norte, dias de sol e flores ainda se alternando com os dias cinzentos de restinho de inverno, céu nublado e chuva fria. 

Uma garotada turca adolescente sentava-se perto de mim no avião, inclusive me secando e com breves flertes, batendo na porta quando fui ao banheiro, etc. Se tem uma conclusão a que eu já cheguei na vida, é que adolescente é quase idêntico em qualquer cultura.

Os meus dias em Izmir seriam de nuvens cinza e chuvisco — os dias de flores viriam mais tarde. Logo no dia da chegada, à tarde, eu, minha amiga e seus amigos nos reunimos pra circular pelos mercados da cidade e tomar um belo café turco com doce. 

Confesso: a cidade estava uma melança, quase uma zona. Izmir me parece mais uma cidade normal, pra morar, que um lugar de visitação turística. A infraestrutura me fazia lembrar o Brasil.

Poltronas da Pegasus no meu voo. Pra que ninguém ache que eu estou inventando.
As ruas de Izmir. Algo que lembra a mesma infraestrutura das cidades latino-americanas.
Guardados alguns detalhes, isso poderia facilmente ser em Salvador ou Belo Horizonte ou outra cidade no Brasil.
Mas aí você vê umas coisas diferentes, tipo o nome de Allah na entrada da galeria comercial.
E, é claro, os mercados turcos são diferentes, com muitas ervas, especiarias, e doces bem açucarados.
Cheirando alfazema no mercado.
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.

Esse café turco, com o pó dentro e essa breve espuma por cima, tem um gosto diferente. (Eu já o mostrei sendo preparado neste meu post na Grécia, pois os gregos fazem igual, já que estes povos viveram juntos pela maior parte os últimos 500 anos. E, se você gosta de café, confira também este post sobre cafés no mundo.)

E, como não há assaltos de rua e trombadinhas como no Brasil, aqui você pode sentar-se no lado de fora em sofás agradáveis como aqueles ali atrás, e assistir ao movimento de pessoas.

Mas na Turquia há sempre algo de estranho à espreita. Nessa tarde, quando fomos comer, minha amiga me um negócio de um suco típico, feito de legumes e que mais parecia uma salada batida e engarrafada. Todos os turcos ao redor da mesa me olhavam com aquela cara curiosa de “Você não gostou?”.

Não.
Eis aí, pra quem se interessar em provar.

Mas deixemos a comida para o dia seguinte, quando o aniversário se celebraria. Por ora, fomos dar uma volta pelos pontos principais da cidade — mesmo sob chuvisco.

O coração de Izmir hoje me parece ser a praça da Torre do Relógio, retratada na foto inicial do post. Essa torre data de 1901, e foi um presente do então kaiser (imperador) alemão Guilherme II ao sultão otomano Abdulhamid II em comemoração aos seus 25 anos no trono turco. Como eu disse, alemães e turcos eram amigos e entrariam (e seriam derrotados) juntos na Primeira Guerra.

Com uns amigos na praça, naquele fim de tarde.
A otomana Torre do Relógio em destaque.

E aqui, como estamos à beira-mar — caso você tenha esquecido —, há o chamado Kordon, que é a pequena orla da cidade. (Eles não acham que seja pequena, mas é pequena em comparação às longas orlas das capitais costeiras no Brasil.)

Kordon, a orla com calçadão, cafés e prédios de média altura à margem do Mar Egeu. (Não é um oceano, então não há ondas fortes como no Brasil.)
Vista do alto para a baía de Izmir, na manhã seguinte.
Para descer, um elevador público que leva à cidade baixa. Os turcos o chamam de Asansor, de ascenseur em francês, língua da qual eles tomaram emprestado muitos vocábulos.
Outras vistas em Izmir. Parece familiar?

Às vezes a Turquia me parece o Brasil. Problemas semelhantes e a mesma vitalidade, só que tocada num ritmo diferente.

Devido ao grande incêndio de 1919, quase tudo em Izmir é recente, do século XX.

Mas me deixem fechar este post com a festa de aniversário. Não foi bem uma “festa”, mas um festejo em família, daqueles almoços de tarde de domingo que se encerram com bolo e parabéns.

A casa dos pais da minha amiga era repleta de tapetes — era quase impossível pisar em chão que não estivesse coberto por um. Como de hábito na Europa e na Ásia, tiram-se os sapatos ao se entrar em casa. Mobílias de madeira e estofado lembravam-me o Brasil. A boa mesa também, só que aqui com comida turca.

Belos tapetes.
E bela mesa de meze, que são pratos turcos frios.
Ao contrário do que você talvez imagine, a gastronomia turca usa poucos temperos. A ênfase é no sabor dos próprios legumes e, no caso aqui da costa do Egeu, muito azeite de oliva. É claro, sempre iogurte, que os turcos usam no meio da comida (é o uso original, os europeus é que acharam de botar açúcar e fazer do iogurte algo doce).
Cafezinho.

Como no Brasil, faz-se aquela divisão de mulheres na cozinha e homens na sala conversando, algo de que eu não gosto muito, mas eu não estava aqui para mudar os hábitos dos turcos. Troquei um lero através de mímica com o pai da minha amiga na poltrona, aceitei o gentil cafezinho (e depois também chá naqueles copinhos de vidro) trazidos com um sorriso pela mãe, e afundei-me no sofá — até a chegada do bolo.

Consumimos aquela coisa de Deus, e na manhã seguinte zarparíamos de avião a Konya, no oriente do país. Era curioso notar, como sempre, as miudezas das tardes de domingo no grande esquema das coisas. Um século após a guerra, essa era a Izmir atual.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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