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Konya (Turquia), Rumi e os “dervixes rodopiantes” (whirling dervishes): Na capital mundial do Sufismo

Estamos no interior da Turquia, a uma centena de quilômetros da Capadócia, no coração do planalto da Anatólia, essa península que constitui a maior parte do território turco hoje.

Mapa da Turquia com Konya em destaque.

Esta é uma das cidades mais antigas e tradicionais de todo o país. Konya é habitada há mais de 5 mil anos, desde 3.000 a.C., passando por muitos povos antigos de que hoje mal se ouve falar, como os cimérios ou os hititas. Alexandre, o Grande, a conquista dos persas em 333 a.C. e o nome grego de Ikonion ganha notoriedade — que se tornaria a Iconium dos romanos. (O engraçado é que o imperador Cláudio depois a ajustaria para “Claudioiconium”, em óbvia referência a si próprio. E você fique aí achando que essa gabolice é coisa dos políticos de hoje.)

Mas Konya ganha relevância mesmo — e o nome na forma que conhecemos hoje — com os turcos seldjúcidas, que fazem dela sua capital no ano 1097. Os turcos originalmente eram nômades na Ásia Central, e inicialmente vieram empregados pelos persas como mercenários. Acabaram ficando, se islamizando, e migrando para oeste até chegarem às portas de Viena no século XVI. (Sobre a colonização turca no sudeste da Europa, veja este post em Sarajevo.) A Batalha de Manzikert (1071), uma das mais importantes da História, abrira as portas para a gradual “turquificação” da Anatólia, com a derrota dos bizantinos e sua gradual retirada para Constantinopla.

Konya floresceria sob os turcos, e com ela uma das doutrinas mais interessantes do mundo — a vertente mística do Islã, o Sufismo.

Interior de uma mesquita com motivos sufi em Konya.

Depois que Maomé prega as palavras que, segundo ele, lhe foram reveladas por Deus através do Arcanjo Gabriel, o “Islã” (que significa algo como “submissão voluntária a Deus”) se espalha rapidamente com as conquistas árabes da Espanha ao atual Paquistão. Os persas, que já tinham tradições milenares, abraçam a religião nova. Se tornam muçulmanos, mas sem perder o seu idioma (continuam falando persa até hoje, no que atualmente chamamos Irã) nem sua identidade distinta dos árabes, e o mesmo fazem os turcos.

Hoje se vê o Islã no Ocidente como uma religião radical, fundamentalista, mas fundamentalismo religioso é um fenômeno moderno — uma reação à modernidade —que, alguns diriam, é resultado de um mundo cada vez mais individualista, desigual e alienado, onde as pessoas se encontram cada vez mais sem sentido (que não sejam o prazer individual e o consumo) em suas vidas e daí buscam significado maior em algo.

Mas o Islã tem muitas vertentes, dentre elas a curiosa corrente mística dos Sufis. Sua ideia, em poucas palavras, é a de que o contato com Deus é uma vivência e uma compreensão através da experiência; não adianta só seguir regras se seu coração e mente não estiverem abertos. Como os gnósticos do início do Cristianismo (que foram suprimidos pela Igreja), os sufis buscam compreender Deus; e como os poetas, os sufis ressaltam que isso também precisa ser sentido

Típica imagem Sufi, em Konya, com música e êxtase divino.

Os sufis se reuniram em confrarias (ou fraternidades) sob um professor, um pouco como faziam os antigos gregos e também os hindus com seus gurus. Como naqueles outros casos, a ideia era retirar-se da vida mundana para viver centralmente dedicados à reflexão e à contemplação religiosa. Dessas confrarias surgiram alguns dos maiores expoentes da filosofia medieval (como o andaluz Ibn al-Arabi, ver este post em Córdoba, Espanha), e são também onde se difundiu o hábito de beber a infusão das sementes torradas de uma tal planta etíope chamada “café”, viu gente. Dos mosteiros sufis é que ela se espalha pelo mundo islâmico e, depois, para a Europa. 

Provavelmente a manifestação sufi mais famosa são os dervixes rodopiantes (whirling dervishes). “Dervixe” é uma palavra de origem persa que significa “mendigo”, pois os sufis abandonavam suas posses materiais e muitas vezes faziam voto de pobreza, daí o apelido. Os rodopios em transe são uma forma de limpeza e êxtase com Deus, os sufis dizem. Uma meditação. Hoje em dia você pode assistir a essas apresentações em várias partes da Turquia, mas é aqui em Konya que está sua origem.

Se você não os conhece, veja esse vídeo abaixo. O mais notável, talvez, é como eles rodopiam tanto e conseguem, logo em seguida, curvar-se sem se desequilibrar de tontura. (Não tente fazer isso em casa.)

Uma mão está com a palma pra cima, pra receber de Deus, enquanto a outra pra baixo, para doar adiante. (Não fiquemos só nas piruetas.) Já o chapéu alto é uma imitação das pedras postas sobre os túmulos islâmicos — uma lápide, que você usa na cabeça para se lembrar constantemente de que, para a vida mundana, você morreu.

Jalal ad-Din Muhammad Rumi (1207-1273), poeta e filósofo persa que talvez é o sufi mais conhecido no Ocidente.

O mais famoso sufi no Ocidente provavelmente é Rumi, Jalal ad-Din Muhammad Rumi (1207-1273), poeta, filósofo e teólogo persa que viveu aqui em Konya. A alcunha de “Rumi” vem exatamente por ele viver nesta região então recém-tomada do império romano (do oriente), que os persas, árabes e turcos chamavam de Rum.

Rumi exaltou sobretudo o amor, um amor transcendente, junto com a ponderação e a sabedoria. Às vezes soa um romântico; outras vezes, um sábio; normalmente, os dois.  

“Eu vi que você era perfeito, e o amei. Aí eu vi que você não era perfeito, e o amei ainda mais.”

“Deus o move de um sentimento para o outro e lhe ensina por meio dos opostos, de modo que você tem duas asas para voar, não uma.”

“Ter paciência não significa aguentar passivamente. Significa ver adiante o suficiente para confiar no resultado final de um processo. Significa olhar para o espinho e ver a rosa, olhar para a noite e ver a aurora.”

“Porque eu não consigo dormir,
eu faço música à noite.
Perturbado por aquele(a) cuja face tem a cor das flores da primavera,
eu não tenho nem sono nem paciência,
nem boa reputação nem desgraça.
Mil vestes de sabedoria se foram.
Todas as minhas boas maneiras moveram-se para mil milhas daqui.
O coração e a mente deixados nervosos um com o outro.
As estrelas e a lua com inveja uma da outra.
Por causa dessa alienação o universo físico
ficando mais e mais apertado.
A lua diz, “Quanto tempo eu ficarei
em suspensão sem um sol?”
Sem a joia do Amor dentro de mim,
deixe o bazar da minha existência ser destruído pedra por pedra.
Ó Amor, Você que tem sido chamado por mil nomes,
Você que sabe como pôr o vinho,
no cálice do corpo,
Você que dá cultura a mil culturas,
Você que não tem face mas tem mil faces,
Ó Amor, você que forma as faces,
de turcos, europeus e zanzibares,
dê-me um copo da Sua garrafa,
ou um punhado de ser do Seu Ramo.
Remova a rolha uma vez mais.
Então nós veremos mil chefes se prostrarem,
e uma roda de trovadores extáticos vão tocar.
Aí o viciado será liberto da sua ânsia,
e será ressuscitado,
e estará maravilhado no Dia do Julgamento”. 

Não era raro que os versos sufis medievais fossem ambíguos. Numa religião onde beber álcool é proibido, muitas referências a vinho e o tom de um eu lírico quase embriagado. E mesmo com todas as promessas de se retirar da vida mundana, a clareza de um amor vivo e por vezes ardente, que os sufi medievais estavam sempre prontos para dizer que não se refere a outro que não Deus.  

Mas não é uma contradição; é exatamente esse o espírito sufi: a ideia de que Deus é esse sentimento maior, de que o amor é a maior manifestação de Deus, e de que os sentidos físicos são apenas cascas ilusórias, como véus que cobrem aquilo que realmente importa. Sendo assim, a morte a que se refere a lápide na cabeça dos sufi não é uma renúncia à vida, mas um despertar para ela.

Rumi constituiu uma escola em Konya que existe até hoje, e a cidade veio a ser apelidada de “o coração do mundo“. Seus seguidores estabeleceram a Ordem Mevlevi, que criou essa dança ainda no século XIII, e seus escritos seguem sendo das mais importantes obras em língua persa. Já hoje, no século XXI, enquanto muitos buscam no fundamentalismo sua significação, outros tantos vão encontrar inspiração nos seus versos de amor profundo.

O coração de Konya hoje é um complexo com mesquita e um museu dedicado a Rumi e ao sufismo, com o mausoléu do notável poeta. Tudo com uma atmosfera de muita tranquilidade.

No complexo no centro de Konya, naquela primavera turca ainda cinzenta do inverno que acabara.
A Mesquita Aziziye, erigida pelos otomanos em 1874.
O teto decorado, no interior.
Na área externa do complexo, com o lugar (esse quiosque) onde os muçulmanos devem lavar as mãos e os pés antes de orar.
O Museu Mevlana Rumi. (“Mevlana” quer dizer “nosso mestre”.)
No museu, representações da vida dos sufi na confraria.
O ornamentado interior do mausoléu de Rumi, com nomes sagrados nas paredes.
O mausoléu de Rumi, que atrai uma quantidade grande de visitantes. Dentre os sufi, ele é honrado como um santo.
A luz verde, cor-símbolo do Islã, no interior.
Este outro mausoléu, em outra parte da cidade, é de Shams-i-Tabrizi, o mentor de Rumi, que o acolheu aqui e também é bastante reverenciado.
Eu no complexo.
A folia turística.

Certa vez um discípulo perguntou a Rumi: “O que é veneno?

Ele retrucou com uma bela resposta — “Qualquer coisa que seja mais que a nossa necessidade é veneno. Pode ser poder, riqueza, fome, ego, ganância, preguiça, paixão, ambição, ódio ou qualquer coisa.”

—”O que é o medo…?
—”Não-aceitação da incerteza. Se nós aceitamos a incerteza, torna-se aventura.”
—”O que é a inveja?”
—”Não-aceitação do bem nos outros. Se nós aceitamos aquele bem, torna-se inspiração.”
—”O que é a raiva?”
—”Não-aceitação das coisas que estão fora do nosso controle. Se nós aceitamos, torna-se tolerância.”
— “E o que é o ódio?”
— “A não-aceitação da pessoa como ela é. Se nós aceitamos a pessoa incondicionalmente, torna-se amor.”

No post seguinte eu volto com minhas andanças por Konya.  

(Você também lê sobre o sufismo em As flores de Shiraz e o lado poético da Pérsia)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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