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Konya, cidade histórica e coração tradicional da Turquia

Eu tenho amigos liberais de Istambul que não gostam nem da ideia de vir a esses cantos mais interioranos da Turquia. Fazem uma cara e esbugalham os olhos como quem diz “Deus me livre” — ou alguma versão agnóstica da expressão.

Como diz um alemão que eu conheci este ano e que trabalha há muito tempo em Istambul: “Istambul não é a Turquia, é uma cidade internacional“.

Claro que ele está exagerando, mas há um fundo de verdade. Istambul tem estética e sabores turcos — e, inegavelmente, gente turca pra dedéu — mas é um ambiente social bastante distinto: progressista, relativamente liberal, e cosmopolita em grande medida, até pelo histórico e pela magnitude da cidade.

O interior da Turquia são outros quinhentos.

Eu custei a convencer a minha amiga de Izmir, habituada a viver em Istambul, a vir pra cá comigo, mas consegui. (É preciso compreender que para os turcos isso não é simplesmente visitar “o diferente”, como seria entre as várias regiões do Brasil, mas visitar “o oposto”, um lugar onde senhoras de véu lançam olhares de censura sobre as mulheres de cabelo descoberto, e por aí vai.)

Chegamos de avião, pois Konya é longe, e nos instalamos numa agradabilíssima pousada de pedra e madeira. O tradicionalismo do interior turco tem seus sabores. Do ponto de vista do visitante, Konya é um ótimo lugar onde experimentar comida turca, ver lugares históricos, e conhecer essa Turquia “de raiz”.

Embora não haja grandes montanhas aqui, estamos no planalto da Anatólia, essa massa de terra na Ásia Menor que constitui a maioria da Turquia hoje. Há colinas à vista em toda parte, solo pedregoso, vales como na Capadócia, e todo um ambiente de montanha no ar — só que sem a pretensão chique ocidental dos Alpes europeus.

Vista do centro da Konya moderna, com montanhas do interior da Anatólia lá atrás.
O centro mais tradicional, com uma das muitas mesquitas da cidade.
Entrada para os becos do bazar.
Rua no centro de Konya, ainda naquele dia frio de uma primavera que começava devagar.

O coração de Konya é o centro dedicado ao poeta persa Rumi e ao sufismo, que eu mostrei no post anterior. (“Curioso, o poeta é persa mas eles aqui, turcos, o celebram.” Nacionalismo é uma invenção do século XIX. Religião aqui fala muito mais alto.

Se aquele é o coração, a principal artéria é a Avenida Mevlana (que quer dizer “nosso mestre”, e também se refere a Rumi), que leva ao ponto mais histórico da cidade: a Colina de Alaaddin. Nada a ver com o personagem da Disney, e tudo a ver com o significado original do nome: Alaa ad-Din, “nobreza da fé” em árabe, e um nome usado em todo o mundo muçulmano.

O personagem da Disney origina-se de uma das lendas da coletânea clássica árabe das Mil e Uma Noites. Já aqui neste caso foi o nome do sultão turco seldjúcida que, em 1235, estabeleceu uma mesquita e uma cidadela nesta colina de Konya. Hoje é um agradável parque com ruínas e a mesquita (reformada) ainda de pé.

A Mesquita de Alaaddin, no alto da colina que hoje é um pequeno parque no centro da cidade.
Olha que lugar gostoso onde tomar um café.
…ou comer uns ovos mexidos com acompanhamentos turcos. Chegamos com fome. Temos ali perto de mim azeitonas pretas, salada de folhas e tomate, e aqui na parte baixa da foto uma espécie de marmelada de laranja pra comer com o pão.
O histórico Ince Minare, madrassa (escola islâmica) também do século XIII, próxima à Colina de Alaaddin.
Fachada da Mesquita Aziziye, talvez a mais notável da cidade.

Não há falta de mesquitas a ver numa cidade tradicional e histórica como Konya. Ela é há quase mil anos uma cidade turca, desde que os seldjúcidas a conquistaram dos bizantinos em 1071.

Esse seldjúcidas foram dos primeiros povos turcos a migrar da Ásia Central para cá. Depois viriam os otomanos e outros. Como sociedades tradicionais nômades baseadas em clãs e tribos, os povos turcos eram distintos, e só depois sob os otomanos (a partir do século XV) é que todos os desta região se unificam sob um sultão único. Konya foi a capital seldjúcida entre 1077 e 1308, daí conquistada pelos turcos karamânidas e controlada por estes até 1420, quando então os otomanos subjugam todos os outros turcos da região. Hoje é tudo misturado.

(Mas no centro da Ásia, onde hoje são o Turquemenistão, Quirguistão & cia, aqueles outros povos turcos de lá jamais foram integrados sob os otomanos e seguem separados do que veio a se tornar a Turquia. Eles falam uma língua da mesma família do turco da Turquia, mas diferente.)

Homens nas ruas de Konya.

Pelo bazar, uma riqueza de tradicionais guloseimas. Eu não sou a pessoa mais conservadora que você vai encontrar, mas no campo da gastronomia eu adoro as tradições Aqui seus olhos se deparam com algumas coisas até difíceis de crer, mas eu mostro. 

Pelas ruas do centro histórico de Konya.
E numa daquelas vendas eu entrei para lavar a égua com os doces turcos.
Tulumbe, uma espécie de churro tradicional turco, mas melhor caramelizado, e com recheio de uma massa frita de ovos em vez de doce de leite. Gostoso, mas os doces turcos são bastante açucarados. Se você for exagerado aí como eu, é capaz de ter uma overdose de açúcar. (Afiyet Olsun, que você vê no papel, é como se diz “bom apetite” em turco.)
A imensidão do Mercado Central em Konya.
Iogurte no balde, e ali atrás o milhão de tipos de azeitonas que os turcos têm. Se pra você a única diferença era entre verde e preta, aqui há cinquenta tons de verde e outros cinquenta tons de preto. Já aquela massa vermelha lá na esquerda parece ser uma mistura de extrato de tomate com pimentão.
Muitos queijos e iogurtes e cremes junto com as azeitonas mil.
Se você acha que gorgonzola e os outros “queijos azuis” europeus têm muito fungo, que tal esse aqui?
Essas vagens são carob, que hoje em dia você às vezes encontra com chocolates finos, etc. Elas são ligeiramente adocicadas, e os turcos as têm como tira-gosto. (Do nome árabe al-carob surgiu a palavra portuguesa “algaroba”, mas a planta conhecida por esse nome no Brasil, embora da mesma família, é uma espécie diferente, nativa das Américas.) Na direita, aqueles frutos vermelhos lembram siriguelas, mas nada têm a ver. São um fruto estranho meio poeirento dentro e um pouquinho doce.
E esse é um gigante pidê, uma espécie de tradicional “pizza” turca feita ao forno. Isso aí tinha mais de 1m. Vai um pedaço?
E já que estamos num lugar tradicional, aproveitemos para tomar o chá das cinco. A tradição inglesa foi importação minha, mas o chá preto nos típicos copinhos de vidro bons-de-queimar-os-dedos era bem turco.

Não posso sair do reino das comidas sem antes recomendar o lugar onde jantaríamos, Somatçi Fihi ma Fih, um restaurante tematizado com o Século XIII, quando Konya era capital seldjúcida e quando o poeta Rumi viveu. Tudo com com decoração e pratos da época. Eu detectei alguns ingredientes que eu sei que não havia aqui na época (ha ha), mas o restaurante não deixa de ser maravilhoso na simpática vizinhança de casario tradicional.

O restaurante fica nessa simpática vizinhança de arquitetura tradicional. Quando você encontrar nos Bálcãs estas casas de armação de madeira, pintura branca, e andares superiores um pouco mais chegados para a frente, saiba que é arquitetura otomana que os turcos levaram ao sudeste europeu.
O interior do restaurante, com imagens dos dançarinos sufi (os “dervixes rodopiantes”) nas paredes.
No segundo andar, onde ficamos.

A ideia é que não há nem batata, nem tomate, nem nenhum dos ingredientes que não existiam aqui na época. Portanto, também nada de azeite de oliva, que os turcos aprenderiam a usar com os gregos ao longo dos séculos, e sim espessas camadas de manteiga derretida para azeitar a sopa.

Umas pimentas-do-reino com chá de flor, para apimentar a vida. Konya estava no trajeto da Rota da Seda, por onde além de seda vinham também especiarias da Índia.
Sopa de pimentão vermelho com uma espessa camada de manteiga derretida. (Gostosa, mas não dá pra tomar isso todo dia. Vai ver por essas é que Rumi era gordinho.)
Prato com ervilhas, vagens, iogurte e mais um tanto de coisas boas. Ali no vasinho dentro do prato era uma deliciosa geleia de pimenta verde.

Peguei o restaurante no pulo: tanto pimentão quanto as pimentas coloridas são plantas das Américas, que os turcos do século XIII não conheciam. Mas estes são detalhes tão pequenos de nós dois — o restaurante está recomendadíssimo.

Aqui ficamos um total de 3 noites, o que me pareceu razoável. Toda manhã víamos o complexo do Museu Mevlana e sua mesquita das janelas da pousada, e à tarde escutávamos o muezim chamar de onde estivéssemos na cidade. Coisa que em Istambul você também ouve, mas que aqui parece ter uma aura mais serena. A badalação do Bósforo aqui dá lugar à quietude e recolhimento do interior da Anatólia.

Eu acho bonito o chamar do muezim, mas entendo a minha amiga que não curte muito estar em meio a esses outros turcos, os quais querem a Amélia na cozinha, as normas tradicionais islâmicas ditando a vida de todo mundo sem muita liberdade individual, etc. Em suma, pessoas que encarnam aquilo que os turcos liberais de Istambul querem deixar para trás. Eu próprio não me adaptaria fácil vivendo aqui, num lugar assim. Por outro lado, visitar é uma bonança, e em Konya sua língua e seus olhos se esbaldam.

No outro dia, antes de deixarmos a região, ainda visitaríamos Sille, um vilarejo de origem bizantina aqui no interior da Anatólia. No post seguinte.

(Se você quer ler mais sobre conservadorismo versus liberalismo na Turquia de hoje, aqui há uma matéria interessante: Cresce pressão na Turquia por estilo de vida conservador.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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