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Florença, Itália: David de Michelangelo, Santa Maria del Fiore (Il Duomo), e outros tesouros artísticos do Renascimento italiano

Capital da famosa região da Toscana, Florença é das mais visitadas cidades italianas.

Não é sem razão. Berço do Renascimento e às vezes chamada de a “Atenas da Idade Média”, a cidade tem uma enorme riqueza artística e histórica. Eu acho surreal estar aqui circundado por tantas obras de alto calibre a tão pouca distância: o David de Michelangelo ali, a catedral de Florença com seu domo projetado por Brunelleschi algumas quadras pra lá, majestosas fontes seculares ao lado de esculturas de personagens da mitologia clássica greco-romana decorando as ruas… Você se sente num parque temático do Renascimento, só que sem simulações, onde tudo é de verdade.

Surreais são também as filas, todavia. Tempos de espera de duas, três, quatro horas ou mais em pé para entrar nos museus e galerias são comuns aqui. Sobretudo nos meses mais agradáveis do ano — não apenas no verão, mas de abril a outubro — a cidade fica lotada de turistas. O centro de Florença vira um rebuliço.

Portanto, venha se inspirar, mas venha preparado(a) para lidar com a realidade aqui.

As estreitas (e belas) longas ruas de Florença numa primavera ainda nublada de abril, antes da alta estação.
Você nem me vê ali, de camisa azul perto do meio da foto. Detrás, a magnífica catedral renascentista de Florença.

Como as fotos não me deixam mentir, passei 3 dias aqui e não vi o sol em Florença. Evitar o pico da alta estação pode ter desses custos. 

Eu cheguei vindo de Roma, numa jornada de poucas horas num confortável trem da Trenitalia. Instalei-me no próprio centro histórico, de onde era fácil ver — quase — tudo a pé, numa das muitas ruas estreitas e, nesta época do ano, escuras e ainda frias. Hoje em dia, lojas de conveniências, botecos e restaurantes chineses se fazem tão presentes quanto os tradicionais cafés no centro de Florença.

Eram poucos minutos de caminhada até o miolo da folia.

Centro de Florença.

O centro do centro de Florença é a Cattedrale di Santa Maria del Fiore (Santa Maria da Flor), uma magnífica igreja gótica começada em 1296 — época em que começam a surgir as grandes catedrais no cenário da Europa Ocidental — e completada com a construção do domo de Brunelleschi em 1436. Ao lado, o Campanário de Giotto, a alta torre dos sinos  de quase 85m de altura. Imagine o efeito que isso deve ter criado quando a obra foi completada em 1359.

A frente da Catedral de Santa Maria del Fiore, com o Campanário de Giotto ao seu lado, em Florença
Detalhe de uma das portas exteriores. Toda essa decoração foi feita com mármores verde, branco e vermelho trazidos e diferentes partes da Itália. (Porém, não é nenhuma homenagem precoce à bandeira do país, que nem existia na época.)
Esta é a riqueza de detalhes.
Moças tocando violino diante de uma das grandes portas da catedral, no centro de Florença.
Vista de outro ângulo, com destaque para o domo octogonal, o maior do mundo na época.

Vamos entrar.

O melhor horário para encarar as filas talvez seja o fim da tarde, antes de fechar. (Os horários exatos variam de acordo com o dia da semana e a época do ano.) Digo “as filas”, no plural, pois há diferentes para a igreja propriamente dita e as atrações à parte, como subir na torre do campanário. Fica a seu critério. A catedral tem entrada franca, mas as demais atrações requerem ingresso pago. Se você quiser adquirir entradas online antecipadamente (o que pode diminuir o seu tempo de fila, embora não os vá eliminar por completo), é só visitar o site oficial.

O interior gótico da catedral surpreende pela simplicidade. Nada das extravagâncias marmorescas do exterior. Este é um interior soturno, escuro, típico mesmo das grandes igrejas góticas da Europa.

A nave central.
O altar.
O relógio medieval de um só ponteiro marcando 24h, decorado com afrescos do pintor italiao Paolo Uccello em 1443. Ainda funciona.
E o esplendor mesmo do interior da catedral é a decoração interna do duomo de Filippo Brunelleschi.
Detalhes das ilustrações no interior do domo.

Perto dali, a lendária Accademia — ou melhor dizendo, a Galleria dell’Accademia di Firenze —, onde estão o David de Michelangelo e tantas outras obras de artistas renascentistas florentinos.

Sugiro que você considere a possibilidade de reservar o seu ingresso online, o que reduzirá seu tempo de fila. (Ainda assim, faça uma boa refeição antes de ir.)

Eu fui cedo após o café da manhã e ainda passei uma boa hora aguardando para entrar, mas não queria sair de Florença sem ver a Accademia.

No interior da Accademia, a multidão de turistas a fotografar a escultura do homem nu, o David de Michelangelo.

O David de Michelangelo, completado em 1504 pelo artista italiano, é uma obra-prima que dá um ar apolíneo ao personagem bíblico. (Sim, esse “David” é o da Bíblia, aquele que derrota o gigante Golias e depois se torna rei.) Nas mãos do renascentista a figura judaico-cristã ganha os contornos de herói da Grécia Clássica, com seus músculos bem esculpidos no mármore e sem tapar nada do corpo. 

A escultura hoje quingentenária (500 anos) ficava na rua, onde hoje está sua réplica, com o olhar desafiador voltado para Roma — um símbolo da disposição de Florença de guardar seu status de cidade-estado independente à época.  

O David mais de perto. Com a mão direita ele segura uma rocha, e com a esquerda a funda de pano por sobre o ombro, usada para girar a rocha e atirá-la.

Caso alguém esteja a se perguntar como o Renascimento de repente aconteceu, primeiro vale saber que não foi “de repente”, e segundo que as causas são tema de eterno debate. 

A versão popular e dominante é a de que a partir do século XIV, após séculos de “Idade das Trevas”, quando a Europa caiu no atraso e no obscurantismo da Idade Média, a civilização europeia redescobriu suas raízes greco-romanas antigas e fez florescer as artes, as ciências, e abriu caminho para seu pensamento iluminista que surgiria a seguir. 

Como de hábito, vale a pena questionar a versão dominante. O termo “Renascimento” só veio a ser usado para caracterizar esse período em pela primeira vez no século XIX — ou seja, meio milênio depois dos eventos a que se refere.

Na prática, a coisa provavelmente foi muito mais gradual do que parece, e certamente houve a ajuda de intermediários nem sempre creditados.

  • É verdade que muitos dos saberes e das obras clássicas da Grécia e Roma antigas desapareceram da Europa e só seriam redescobertas pelos europeus um milênio depois. Porém, são os árabes medievais que as resgatam — para estudar astronomia, matemática, filosofia —, e com eles foi que os europeus cristãos redescobriram as obras da Antiguidade Clássica. Isso se dá sobretudo através da Ibéria islâmica, já em torno do ano 1000. São Tomás de Aquino, de grande influência na escolástica no século XIII, adapta Aristóteles ao cristianismo inspirado pelo que havia feito um século antes com o islamismo o andaluz Ibn al-Arabi, a quem São Tomás chamou de “o comentador“. (Esse crédito à civilização vizinha os europeus quase nunca dão.
  • A mais antiga universidade europeia é a Universidade de Bolonha, aqui na Itália, fundada em 1088. A Universidade de Paris existe desde 1150, e Oxford na Inglaterra é reconhecida desde 1167. Os temas estudados iam desde filosofia a geometria e astronomia. Embora criadas todas pela Igreja, sua grande marca era a relativa autonomia. Talvez seja hora de aceitar que a coisa provavelmente se constituiu gradualmente, em vez do habitual discurso de que houve uma ruptura, um giro de 180 graus com o passado medieval.
  • Nós no Ocidente quase sempre ignoramos a milenar existência de um Império Romano do Oriente (hoje conhecido como Império Bizantino), centrado em Constantinopla, falante de grego e cristão ortodoxo, de 476 a 1453. Quando os turcos otomanos conquistam esse império a partir dos idos de 1200 até tomar a capital em 1453 (o marco que finda a Idade Média), não foram poucos os pensadores gregos medievais — cuja fama nunca nos alcançou — a emigrar para a Itália.

Três breves exemplos para dar nuance à história dominante de como o Renascimento teria se dado. Eu, pessoalmente, acho que as coisas fazem muito mais sentido dentro de seu contexto histórico.

Que a arte floresceu ainda mais em Florença, não resta dúvida. Abaixo mais algumas obras da Accademia.

Quando de Giovanni Fattori, mostrando João Batista na corte do Rei Herodes.
Iluminura medieval da crucificação. Há toda uma seção da Accademia dedicada a essas obras dos séculos XII, XIII e XIV.
Abraão prestes a sacrificar seu filho Isaac, mas detido na última hora por um mensageiro de Deus. A história em Gênesis 22.
Sala com esculturas e pinturas na Accademia, este museu que existe desde o século XIX para promover a arte florentina.

Florença foi pioneira no Renascimento porque era uma cidade rica, talvez na época certa no lugar certo. Embora exista desde os tempos dos romanos antigos, é a partir do século XII que Florença começa a prosperar como cidade comercial — portanto no bojo do surgimento das primeiras universidades e da (re)descoberta das obras gregas antigas e medievais árabes. As mercantis Veneza e Gênova estavam próximas, e Roma como centro da cristandade ocidental também, com Florença entre as três.

Seu principal negócio era a lã, mas a coisa ganhou corpo mesmo foi com o negócio financeiro e o banco dos Médici a partir do século XV. A poderosa família Médici inovou em alguns métodos de contabilidade e ficou rica emprestando e cobrando dinheiro. Eles eram nada menos que os banqueiros do papa. 

Sabe aquelas cidades do interior do Brasil onde o prefeito é primo do juiz, sobrinho do padre e parente do delegado? Pois esta região naquela época era assim. Os Médici passaram não apenas a mandar em Florença, como chegaram a produzir três papas. (Os nomes papais escondem o sobrenome, mas os papas Leão X, Clemente VII, e Leão XI eram Médici.) 

Essa época de disputas e rivalidades entre famílias poderosas foi sangrenta, mas para a nossa sorte hoje os Médici (assim como outras famílias) patrocinaram copiosamente os artistas italianos como Donatello, Leonardo da Vinci, Botticelli, Michelangelo e outros.

Vista para o centro de Florença a partir da Piazzale Michelangelo, uma praceta do outro lado do Rio Arno.
Destaque para o duomo em meio ao casario amarelo de Florença.
Eu na Piazzale Michelangelo, com Florença ao fundo. (Um ônibus urbano comum o traz até aqui. Você compra as passagens nas bancas de jornal. Certifique-se de validá-lo no ônibus, pois os fiscais adoram pegar turistas sem bilhete válido.)

E olha o que eu achei também aqui na Piazzale Michelangelo nesse dia. Um outro tipo de arte.

Um outro tipo de arte italiana.
A Itália sempre brindando o mundo com coisas que agregam valor em nossas vidas.
Fora do miolo de Florença o movimento de turistas é muito menor, mas o charme continua.

Quando voltei ao centro da cidade, tive esperanças de entrar — ainda que fosse dali a duas horas — na Galeria degli Uffizi, a maior de Florença, mas eu subestimei o tamanho das filas.

Quando me aproximei, um italiano irado vociferava da fila contra o funcionário, dizendo que já estava ali há cinco horas e não havia ainda entrado. “Che può fare, signore?“, cheguei a ouvir o jovem funcionário retrucar, com ar de impotência. As pessoas estavam a ponto de fervura. Cheguei a trocar algumas palavras com uns e outros, muito dispostos a ventilar sua frustração por estar ali de molho há tanto tempo.

Sendo assim, não deixe de fazer sua reserva online antecipadamente. Eu deixei para minha próxima visita (quem sabe num novembro bem chuvoso, quando dizem que a cidade readquire algo da sua autenticidade pré-turística). Fui ter com Perseu e outros personagens da idade antiga espalhados em obras pelas ruas da cidade.

Na rua, uma estátua de Perseu, o herói da mitologia grega que cortou a cabeça da medusa, o monstro de serpentes na cabeça e que transformava em pedra quem olhasse para ela.
Ruelas do centro de Florença.
A estátua de Perseu à noite, na Piazza della Signoria. A obra é Benvenuto Cellini, de 1545.
Quando eu disse que o centro histórico de Florença era um museu renascentista a céu aberto, não estava exagerando.
Escultura de mármore de Menelau segurando o corpo de Pátroclus, personagens da Guerra de Tróia. Essa é uma cópia romana da escultura original grega do século III a.C. Esta romana se encontrava com os Médici no século XVI, e está aqui na praça desde 1741.
Este é o Palazzo Vecchio, a prefeitura de Florença.
Um dos pátios no seu interior.
A Fonte de Netuno, o deus dos mares. De Bartolomeo Ammannati, de 1575.
E não muito longe dali… A “Via do Inferno”, não sei se uma homenagem ao escritor florentino Dante Alighieri, que publicou A Divina Comédia em 1320.

Uma das grandes audácias do florentino Dante foi escrever não em latim, como era habitual para época, mas no vernáculo vulgar, na língua do povo. Esse foi o dialeto de Florença, que — em parte pela sua estabelecida obra — acabou sendo assumindo como língua nacional (o que nós hoje chamamos de italiano) quando ocorre a unificação da Itália num só país no meado do século XIX. Ainda hoje há dezenas de outros dialetos italianos, mas o de Florença é que se tornou o oficial.

A cidade portanto já deixou a sua marca gravada na História do seu país, da Europa e do mundo. Visita obrigatoriíssima.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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